Mostrando postagens com marcador Le Monde Diplomatique. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Le Monde Diplomatique. Mostrar todas as postagens

14.1.13

Corrupção não é só política

Excelente o texto do Le Monde.

Mais além da corrupção

por Silvio Caccia Bava

Vamos começar pelo começo: a corrupção é inaceitável e deve ser combatida em todas as suas formas; seus atores – passivos e ativos – precisam ser punidos. A sociedade como um todo vê seus impostos serem desviados, dilapidados, mal geridos. É preciso mais democracia e mais controle público e social para coibir essas práticas, que são tradicionais na história brasileira.
A corrupção assume as mais diversas formas e é como o cupim, penetra em todas as instituições e as corrói por dentro, minando sua legitimidade, sua capacidade de cumprir objetivos sociais e econômicos. Talvez possamos identificar que essas práticas se generalizam no período autoritário, quando a coisa pública era vista como propriedade dos governantes, mas seguramente ela é mais antiga − remonta aos coronéis e às oligarquias descritas, por exemplo, por Jorge Amado. É preciso reconhecer que ela está presente em todos os níveis de governo: municipal, estadual e federal; no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Ameaça constantemente a democracia, o bem-estar e a qualidade de vida da população.
Isso é verdade tanto para os banqueiros que sonegam impostos e as empresas que trabalham com caixa dois ou dão propinas para ganhar uma licitação como para o funcionário público que vende facilidades, o policial que extorque o narcotráfico e lhe dá proteção, o juiz que vende uma sentença ou a ONG que desvia recursos. A rigor, todos deveriam ser processados e, caso se verifique o crime, cumprir a pena.
Por que então há casos de corrupção que se destacam mais que outros? Por que o mensalão ocupou tão intensamente os jornais durante o período da recente campanha eleitoral, e as denúncias contidas no livro Privataria tucana, de Amaury Ribeiro, não prosperaram? Por que a CPI do Cachoeira termina agora sem indiciar ninguém apesar da fartura de provas? Por que ONGs e movimentos sociais são criminalizados, como se fossem meros aparelhos criados para o desvio de recursos? A essas perguntas, para não sermos ingênuos, temos de acrescentar outra: quem são os atores dessas denúncias?
As acusações de corrupção estão sendo usadas para atacar um campo político. O MST já foi vítima desses ataques, as ONGs também, ainda que a própria CPI das ONGs declare que a grande maioria das entidades sem fins lucrativos sejam honestas e realizem importantes trabalhos sociais. No campo dos partidos políticos, o PT está sob fogo cerrado. E quem são os acusadores? A linha de frente desses ataques, se podemos dizer assim, é composta dos grandes jornais, sendo suas “informações” depois repassadas, de forma mais simplificada, pelos telejornais. De forma menos evidente, vemos o PSDB e outros partidos conservadores atuarem nesse mesmo sentido e tomarem iniciativas (todas elas sempre legítimas) como a constituição da CPI das ONGs, criada para apurar denúncias.
Vale lembrar que o Greenpeace, quando subiu os rios da Amazônia com seu barco e denunciou a ação das madeireiras clandestinas no desmatamento da região, mereceu uma campanha orquestrada pelos empresários afetados, com direito a outdoors e passeatas de seus funcionários em Belém, na qual defendiam a Amazônia para os brasileiros e a expulsão da ingerência internacional na região, expressa naquele momento por essa ONG.
Mais do que o combate à corrupção, o grande objetivo desses setores conservadores parece ser desqualificar e criminalizar seus opositores, criando uma imagem pública do conjunto de entidades e movimentos sociais, assim como do PT, e mesmo da pessoa de Lula, a partir de situações que poderiam muito bem ser identificadas nos líderes mais destacados da oposição.
A corrupção é um instrumento das elites que utiliza de seus recursos privados para influenciar as políticas públicas em seu favor, permitindo também a apropriação privada dos recursos públicos e a reafirmação e o aprofundamento das desigualdades. Ela é constitutiva mesmo do nosso modelo precário de democracia. Sem corrupção não há privilégio.
E fica a pergunta: mas se no governo Lula nunca os banqueiros ganharam tanto; no governo Dilma nunca as grandes empresas tiveram tamanho apoio, seja por meio dos financiamentos do BNDES ou de políticas de isenção tributária; se nos últimos anos os grandes meios de comunicação tiveram o maior volume de verbas de propaganda do governo federal, então por que os principais meios de comunicação e os principais partidos conservadores estão movendo essas campanhas?
Em uma análise do governo Lula, André Singer aponta a inclusão social e a entrada em cena de novos atores políticos como a razão desses conflitos. Essas são mudanças estruturais que desequilibram a balança do poder. Tomemos como exemplo a população empobrecida do Nordeste, antes fiel aos coronéis da região, numa relação de dependência que perpetuava o ciclo da desigualdade e da pobreza. Ela passou a engrossar o apoio a Lula e às políticas de resgate da cidadania, o que esse cientista político identifica como lulismo, um deslocamento que tende a se consolidar nos próximos anos. Isso as elites não podem tolerar.
Enfrentar a corrupção é também enfrentar o domínio da máquina pública pelas elites em todos os níveis de governo, é combater o privilégio, é lutar pela transparência e ter o controle social da máquina pública. Para fazer tudo isso é preciso desmontar os atuais mecanismos que asseguram o poder para essas elites. Entra na agenda a reforma política, a luta contra o monopólio dos meios de comunicação. Mas uma reforma política com tal envergadura não passaria no nosso Congresso...

Silvio Caccia Bava

Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil

24.3.08

O preconceito da mída contra a periferia

Não gosto de reproduzir textos longos, mas este é didático e representativo do atual estágio de segregação social que vivemos em São Paulo, assim como nas cidades grandes e médias do país.
Com o título “Funk do tráfico invade a escola” (clique aqui para ler), o Jornal da Tarde colocou a periferia em destaque, negativo como sempre.
Sobra preconceito. São duas lentes, uma para as festas da periferia e outra para as festas da classe média paulistana. Não se trata de defender uma ou outra, mas de combater o preconceito e enxergar a periferia como algo mais do que um caso de polícia.
O 4º poder quer tirar dos jovens pobres – e quase todos pretos – o que lhes restou de espaço de lazer: a rua.
Se é certo que a coletividade deve ser respeitada, também é certo que lazer é um direito de todos, sejam pretos pobres ou não.
Fiquem com o artigo:



CULTURA PERIFÉRICA
As festas deles e as nossas

Num texto preconceituoso, jornal de São Paulo "denuncia" agito na periferia e revela: para parte da elite, papel dos pobres é trabalhar pesado. Duas festas são, no feriado, opção para quem quer celebrar direito de todos ao ócio, à cultura, à criação e aos prazeres da mente e do corpo
Eleilson Leite

Na sexta-feira passada, dia 14 de março, o Jornal da Tarde, de São Paulo, estampou, em manchete de primeira página: “Funk do tráfico invade escola”. A matéria abordava a realização de uma festa de rua no Parque Primavera, periferia da Zona Sul de São Paulo. Na foto, jovens, quase todos negros, divertiam-se ao som do funk estilo carioca, conhecido como pancadão. Na página interna, o título da matéria dava mais detalhes: “Garotada dança, bebe, usa drogas e transa na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental)”. De acordo com o relato da jornalista Marici Capitelli, que freqüentou o baile de rua por duas sextas-feiras, passando-se por funkeira, a escola — EMEF Isabel Vieira Ferreira — está instalada na esquina onde se realiza a balada. Seu portão fica aberto e a galera entra no local para, na penumbra da quadra, usar drogas e cutir “namoros apimentados”. Tudo isso patrocinado, segundo a matéria, pelos grupos de traficantes organizados das favelas das imediações. A notícia repercutiu. O diretor da escola foi pressionado, autoridades se mexeram e providências foram tomadas. O próprio prefeito encarregou- se de botar cadeado no portão da EMEF e a PM prometeu acabar com a festa, mantendo um policiamento ostensivo na região, sobretudo no dia e horário da balada.
Fiquei muito perplexo com o tratamento dado ao fato pelo jornal. Passei os últimos dias refletindo sobre o tema, buscando entender por que esse tipo de abordagem. Sim, estamos cansados de saber que os veículos da grande imprensa são a voz das elites endinheiradas e constituem-se como o 4º Poder. Mas nem tudo é absoluto, e a imprensa tem exercido, também, um importante papel para a manutenção da democracia. Às vezes, coloca-se ao lado da maioria, principalmente quando há um esforço dos jornalistas para exercer sua profissão com dignidade e buscar a verdade dos fatos.
Certamente, a repórter foi ao Jardim Primavera com a melhor das intenções e fez uma matéria que pretende tera virtude da denúncia (o tráfico, os jovens envolvidos com bebidas e drogas, uma escola mal-cuidada etc). Mas o enfoque sensacionalista e a conseqüente reação das autoridades só acabaram por piorar as coisas. Os três mil jovens, que tinham na festa às sextas-feiras sua única oportunidade de diversão, perderam a balada. A escola que, aberta à comunidade, cumpria muitas outras funções além de servir de refúgio para a rapaziada na madrugada, acabou sendo fechada. O funk carioca, que vem ganhando espaço na periferia de São Paulo, novamente foi tratado com preconceito e desprezo. E o crime organizado local ficará sob tensão constante com o policiamento, acendendo um pavio que pode causar uma grande explosão. Resultado: revolta, ódio, violência e frustração.
Se a própria rua, que serve de pista para seus embalos de sexta-feira à noite, lhes é retirada, o que vão fazer? E se esses jovens viessem “invadir” a balada do Mackenzie?
A questão, caro leitor, é que festa de pobre na periferia é tratada como caso de polícia. Quando o público é de classe média e de bairros centrais, o tratamento é outro. Vou contar um caso que evidencia isso. Tem uma balada que rola toda sexta-feira à noite (às vezes de dia também) nas imediações da Universidade Mackenzie, no centro da cidade. Reúne centenas de estudantes. O pessoal ocupa duas esquinas, obstrui ruas e incomoda os vizinhos. A trilha sonora é variada: rock, MPB, samba, axé e, até mesmo, o Pancadão, dependo do estado de embriaguez. Os jovens universitários consomem muita bebida alcoólica e usam drogas à vontade. Na hora de fazer sexo, o chamego rola dentro de seus carros de vidros escuros, estacionados no local. A polícia quando vai lá, segundo testemunhas, é para retirar do recinto sujeitos maltrapilhos, pouco condizentes com o perfil social dos freqüentadores. E na Periferia? Ah, polícia na quebrada não tem meio termo. Chega para acabar com a alegria da rapaziada que se diverte na rua.
Os jovens universitários do Mackenzie estão se divertindo. E têm mais é que curtir o fim de uma semana de estudo e, para muitos deles, de trabalho. Esse direito nunca lhes foi negado e devem continuar exercendo-o, sem desrespeitar a coletividade. Mas estou do lado dos que foram historicamente desfavorecidos, e que se amontoaram nas bordas da cidade. Por que essas pessoas também não podem se divertir na rua? No Parque Primavera não existem equipamentos públicos de lazer, nem praças, como relata a própria reportagem do JT. Será que não resta outro destino ao povo preto e pobre da periferia, senão a condenação irremediável ao desencanto? Se a própria rua, que serve de pista para seus embalos de sexta-feira à noite, lhes é retirada, o que vão fazer? E se esses jovens viessem “invadir” a balada do Mackenzie? A rua é deles tanto quanto dos universitários. Será que a PM viria retirá-los, estando eles aos montes?
O dramaturgo e poeta alemão, Bertold Brecht, falava o seguinte: “Dizem violentas, as águas do rio, mas não dizem violentas, as margens que o comprimem”. Essa analogia do rio de margens comprimidas é perfeita para pensar o processo de amontoamento das pessoas nos fundões da periferia. Nesses mais de 500 anos de história do Brasil, a violência contra os pobres foi, muitas vezes, justificada pelo incômodo que a própria existência dessa gente causa aos ricos que sempre estiveram no poder. O Racionais MC’s em seu belíssimo DVD 1000 trutas, 1000 tretas, traz um documentário que mostra como os negros foram expurgados do centro e empurrados para a periferia, em São Paulo. No vídeo, Mano Brown lê um texto retirado de relatório assinado por Whashington Luiz, em 1919. O então secretário de Segurança, depois governador de São Paulo e presidente da República falava o seguinte, referindo-se aos negros e miscigenados que ficavam na Várzea do Carmo, atual Parque Dom Pedro:
A Festa Umoja vai agitar a Zona Sul, no sábado: exposições, dança, culinária, teatro, poesia e muita música. No domingo, rola o Samba na Ponte, no Socorro. É uma grande festa das rodas de samba de Sampa
“É aí que, protegida pelas depressões do terreno, pelas voltas do Tamanduateí, pelas arcadas das pontes, pela vegetação das moitas, pela ausência de iluminação, se reúne e dorme e se encachoa, à noite, à vasa da Cidade, numa promiscuidade composta de negros edemaciados pela embriaguez habitual, de uma mestiçagem viciosa, de restos inomináveis e vencidos de todas as nacionalidades, todos perigosos. É aí que se cometem atentados que a decência manda calar, é para aí que se atraem jovens estouvados e velhos concupiscentes para matar e roubar como nos dão notícia os canais judiciários, com grave dano à moral e para a segurança individual, não obstante a solicitude e a vigilância de nossa polícia. Era aí que quando a polícia fazia o expurgo da cidade, encontrava a mais farta colheita”.
Leiam as matérias no JT sobre o baile funk do Parque Primavera e comparem com o texto acima. Verão que as coisas não mudaram muito. A criminalização da pobreza está enraizada na sociedade brasileira. Senhores e senhoras jornalistas, editores, donos de jornal, autoridades policiais, judiciárias e administrativas, dêem a devida atenção à periferia. Percebam a complexidade da dinâmica social do subúrbio. Não atribuam ao tráfico tudo que rola nas quebradas para, com este argumento, justificar atos de repressão. Não façam da indevida utilização de uma escola motivo para fechá-la à comunidade. Deixem os jovens da periferia se divertir como podem os universitários do Mackenzie. Não tirem dos pobres o pouco que têm. Não desprezem o funk. Boa parte da elite já entendeu o rap. Tá na hora de sacar o pancadão. É música feita e apreciada pelo pessoal da favela. Só por isso, merece consideração. Não precisa gostar. Mas, por favor, vamos respeitar. Deixem a galera curtir sua balada no Parque Primavera e por toda a periferia.
E festa nas quebradas é o que não falta. Temos duas excelentes opções noticiadas na Agenda Cultural da Periferia para o final de semana prolongado da Páscoa. A Festa Umoja vai agitar a Zona Sul no sábado. O evento reúne exposições, dança, culinária, teatro, poesia e muita música. Além do grupo Umoja, vão se apresentar o DJ Maurício Alves, Band’ Doido e Fabiana Cozza, entre outras atrações. No domingo, rola o Samba na Ponte, lá na Ponte do Socorro, também na Zona Sul. É uma grande festa das rodas de samba de São Paulo. Terá o ritual de batismo no samba e contará com a presença de bambas de todas as partes. É animação e lazer garantidos. Paz, amor e liberdade. É isso que se quer na periferia. Parodiando o Moraes Moreira: “ Nas trincheiras da periferia, o que explodia era o amor…”

Serviço:
Festa Umoja
Sacolão das Artes – Av. Cândido José Xavier, 577 – Parque Santo Antonio
Dia 22 de março, sábado, a partir das 18h, Grátis
Contato: 5891 2564 / www.institutoumoja.blogspot.com

Samba da Ponte
Rua Eloi Chaves s/n, Socorro (ao lado da ponte do Socorro, sentido Santo Amaro)
Dia 23 de março, domingo a partir das 14h – Grátis
Contato: 8636-2209 e 7724-2159

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique
Fonte: Le Monde Diplomatique

24.1.08

A produção cultural da periferia de São Paulo

Texto vibrante e inteligente, publicado no Le Monde diplomatique, merece ser lido e também pensado.
Cultura não é só aquela embalada pelas grifes do mundo das artes e espetáculos, ou que tenham a chancela dos grandes produtores.
Não dá para pensar a população apenas como consumidora de cultura e entretenimento, ele também produz e alimenta suas experiências e vivências.
Caso queira ler o texto direto na fonte é só clicar aqui.


CULTURA PERIFÉRICA
São Paulo, 454: a periferia toma conta

Eleilson Leite

Nesta sexta-feira, dia 25 de janeiro, a cidade de São Paulo completará seus 454 anos. Por conta disso, nos últimos dias, a mídia tem se ocupado com as inúmeras comemorações, enaltecendo sempre as mesmas coisas. Ou é o sanduíche de mortadela do Mercadão, ou os pratos grã-finos dos restaurantes dos Jardins. A suntuosidade do Teatro Municipal ou a arquitetura moderna do MASP. A Catedral da Sé, a Mesquita da Rua Avanhandava ou a Sinagoga de Higienópolis. O comércio do Bom Retiro e da Rua 25 de Março. O dinheiro que corre (ou flutua?) na Avenida Paulista e na Avenida Luiz Carlos Berrini. As baladas nas Vilas: Madalena, Olímpia e Mariana. Os japoneses da Liberdade, os italianos do Bixiga, os espanhóis da Moóca, e por aí vai. Vez ou outra, a pauta busca algo inusitado e as reportagens chegam à periferia. Mas quando se fala das bordas da cidade, é freqüentemente para mostrar que São Paulo tem vida rural. Como no distrito de Engenheiro Marcilac, no extremo da Zona Sul, de onde é possível avistar o mar. Sim, São Paulo faz divisa com Itanhaém, litoral sul. Dos 1.509 km² da capital, um terço não é urbanizado. Na maior metrópole do país, convivemos com agricultura, pecuária, suinocultura entre outras atividades econômicas típicas do meio rural.
Quero aqui falar de outra São Paulo. Vou falar da Periferia, pois é essa a minha missão. Mas não pretendo me queixar das misérias que tomam conta dos bairros afastados do centro. Sabe o porquê? Porque a Periferia é a maior parte da capital. Ocupa cerca de dois terços do território e possui dois terços da população. Um povo que vive amontoado em moradias precárias, favelas, conjuntos habitacionais, cingapuras e prédios da COHAB. Mas tem muita gente morando bem e dignamente na Periferia. Já disse aqui e repito: na Periferia a vida é bela apesar da mazela. E acima de tudo, a Periferia é grande, é maioria. Os símbolos tão abordados na grande imprensa para retratar São Paulo são ícones importantes, sem dúvida, mas habitam o imaginário de uma parcela cada vez menor da população. É preciso olhar a Periferia e retratar seus símbolos e encantos.
Mas afinal, qual o tamanho da periferia paulistana? Fiz as contas. Segundo o IBGE, no ano 2000 São Paulo tinha uma população de 10.434.252 habitantes (em 2008, chegaremos a 11 milhões). Esse povo se distribui em 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam cerca de 6.838.641 habitantes — ou seja, 63% da população. É bom que se diga que não estou considerando periferia distritos como Tremembé e Vila Medeiros, na Zona Norte, que têm bairros muito pobres. Não incluo também alguns da Zona Leste como Penha, Vila Matilde e Vila Formosa, assim como não considerei a Freguesia do Ó, cantada por Gilberto Gil como periferia no início da década de 80. Naquele tempo poderia até ser. Hoje, os distritos da Brasilândia e da Cachoeirinha dão o contorno periférico daquela região. A Freguesia nem é mais periferia e também não tem mais punks por lá. Mas se juntarmos os bairros desses distritos não considerados em minhas contas, chegaremos seguramente a 70% dos paulistanos.

Não haverá um levante independentista, São Paulo é Nossa! Será um motim cultural. A chapa está esquentando, poeta

Não dá mais para falar de São Paulo sem a sua periferia. Nela vivem descendentes de europeus, árabes e orientais. Mas nos arrebaldes predominam os nordestinos com traços indígenas ou pele negra. A Periferia de São Paulo tem a cara do Brasil. Uma nação esquecida. Será que teremos de fazer como sugeriu o poeta Sergio Vaz em sua mais recente crônica: fundar uma república independente? Se este novo país surgisse, a ele agregaria a população de cidades vizinhas que cresceram no processo de periferização de São Paulo. Refiro-me a municípios como Ferraz de Vasconcelos, Poá, Itaquaquecetuba, Araujá e Mauá, na fronteira com a Zona Leste; Franco da Rocha e Francisco Morato, no lado norte; Itapevi e Carapicuíba, na divisa oeste e Itapecerica da Serra e Taboão, além de Diadema na região Sul. Some-se a esses parte de Guarulhos e Osasco. Certamente teremos uma população superior a 10 milhões — ou seja, três vezes maior que a do Uruguai, e bem maior que muito país europeu. Se o delírio do poeta virasse realidade, São Paulo voltaria, em termos de território, ao que era até o fim do século 19. Mas não haverá um levante independentista, São Paulo é Nossa! Será um motim cultural. Ferréz, Racionais, Cooperifa já estão aí na fita. Tem muita gente chegando. A chapa está esquentando, poeta. Na Periferia, o povo aprendeu a fazer e não espera mais acontecer.
Se todo artista tem que ir onde o povo está, a grande imprensa poderia fazer movimento semelhante. O foco da mídia mudaria, se o critério populacional prevalecesse na pauta das reportagens. É comum as TVs e jornais abordarem, no aniversário de São Paulo, bairros como Bom Retiro, Brás, Barra Funda, Cambuci, Lapa, Liberdade, Pari, Bela Vista e o Centrão — com os distritos da Sé e República. Pois bem, a soma da população desses bairros é de 361.344 habitantes, apenas 30 mil pessoas a mais do que a população do Grajaú, na Zona Sul. Esse lidera o ranking dos distritos mais populosos da capital. São 11 regiões com população acima de 200 mil habitantes. Todos na periferia. Vale a pena escalar o time: Sapopemba, São Miguel, Jardim São Luiz, Jardim Ângela, Jabaquara, Itaquera, Itaim Paulista, Grajaú, Cidade Ademar, Capão Redondo e Brasilândia. População total: 2.688.757. Tem mais gente aí do que em quase todos os 39 distritos não periféricos de São Paulo juntos. Seria bom, portanto, olhar como vivem essas pessoas. Um povo pobre, trabalhador, que luta e busca ser feliz apesar de tudo. “Um povo lindo, um povo inteligente” como dizem os poetas da Cooperifa. Um povo que merece ser visto pelas lentes da TV mostrando aquilo que tem de mais bonito.
Num dia de comemoração não precisa denunciar o sofrimento. Continuem exibindo o Samba da Vela, o Sarau da Cooperifa, os mais conhecidos. Mas mostrem também o Samba de São Matheus, que rola no Buteco do Timaia. Façam uma reportagem sobre a biblioteca comunitária Suburbano Convicto, organizada e mantida pelo escritor Alessandro Buzo, no Itaim Paulista. Tem também o Espaço Maloca, no Jardim São Savério, coordenado pela escritora Dinha. A Fundação Gol de Letra, na Vila Albertina (Zona Norte), daria uma excelente reportagem. A Associação Monte Azul, na Favela Monte Azul, Zona Sul, faz um trabalho simplesmente lindo. A luta da UNAS, em Heliópolis, mantém a maior favela do Brasil animada e de cabeça erguida. O Centro Cultural da Juventude, na Cachoeirinha, é um exemplo de política pública para jovens em áreas de baixa renda. O CDC Tide Setúbal, em São Miguel, é uma demonstração de como uma fundação mantida com recursos de empresa pode ter uma atuação em sintonia com a comunidade e programação de excelente qualidade.

Torresminho no Saboeiro. Escondidinho no Zé Batidão. Pastel do Bar do Binho. Sopa do Samba da Vela. Panelafro. Prazeres que a mídia não vê

E para encerrar, tem a culinária. No bar Saboeiro, Jardim Tremembé (na Zona Norte), tem o melhor torresminho da Capital. Eu garanto. O escondidinho do Bar do Zé Batidão, na Zona Sul, não fica devendo nada ao do Canto Madalena, badalado (e muito bom) restaurante da Vila Madalena. O pastel do Bar do Binho, no Campo Limpo, é delicioso. A sopa servida no fim do Samba da Vela é inigualável. No Panelafro, o rango é afro e feito com muito esmero. A feijoada do Samba da Laje, na Vila Santa Catarina, preparada com requinte pela Dona Nerosa, é incontestavelmente a melhor entre as rodas de samba.
A Periferia tem seus cantos e encantos. Ela merece estar na mídia. Não como invariavelmente aparece, expondo suas tragédias, mas por sua beleza, pela força do seu povo, por sua riqueza cultural e sua vontade de transformar. O povo não quer sair da Periferia. O povo quer uma Periferia cada vez melhor. Parabéns São Paulo!

2.1.08

Biblioteca do Le Monde Diplomatique

Boa dica de leitura é a seleção de textos da Biblioteca do Le Monde diplomatique Brasil, eles tratam de problemas do nosso país e também do mundo.
É só clicar aqui para ter acesso.