30.9.08

Um pouco de saudade

Hoje bateu uma saudade de um monte de coisas. Talvez por causa de alguns debates sobre eleições.
Confesso que essa temporada de caça ao voto me deixa nostálgico dos bons tempos de construção do PT como alternativa popular, dos bons combates travados e da militância em tempo integral.
Alguns dos velhos companheiros mantêm-se apenas pragmáticos e ainda escolhem o 13, partindo do pressuposto do “menos pior”; outros debandaram para o PSOL, outros para o PC do B e, finalmente, outros como eu, tornaram-se pessimistas com relação às opções políticas vigentes, mas sem ânimo de buscar construir outra opção.
Após o jantar sentei-me no sofá e fui remexer nos CDs. Encontrei um do Taiguara, na verdade uma coletânea que fazia tempo que eu não ouvia.
O cara era muito bom mesmo!
Arranjos sensacionais e letras ousadas, no tocante à sensualidade e também à política, não podemos esquecer que sua produção destaca-se em plena ditadura.
Bateu uma saudade danada!
Para os jovens que me lêem e ignoram esse grande músico sugiro uma breve leitura sobre ele clicando aqui. Clique aqui para saber tudo sobre Taiguara (site sensacional!).
Gostaria de ouvir um pouco de boa música?
Siga as pistas do YouTube:
Universo do teu corpo
Que as crianças cantem livre (com um bom papo sobre a censura)
O cavaleiro da esperança (homenagem para Luis Carlos Prestes)
Viagem
Hoje
Chorei!

29.9.08

Karl Marx desperta novos interesses em tempos bicudos para o neoliberalismo

A Agência Carta Maior nos brinda com uma ótima entrevista. Abaixo segue a chamada da mesma. A leitura é oportuna e provocante.
A lucidez de Eric Hobsbawm é assustadora, sua análise brilhante como sempre.

Agência Carta Maior

A crise do capitalismo e a importância atual de Marx

Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birbeck College (London University) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”: “A Era da Revolução: Europa 1789-1848” (1962); “A Era do Capital: 1848-1874” (1975); “A Era do Império: 1875-1914 (1987) e o livro “A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994), todos traduzidos em vários idiomas.
Entrevistamos o historiador por ocasião da publicação do livro “Karl Marx’s Grundrisse. Foundations of the Critique of Political Economy 150 Years Later” (Os Manuscritos de Karl Marx. Elementos fundamentais para a Crítica da Economia Política, 150 anos depois).


Clique aqui para ler a matéria na íntegra.


Fonte: Agência Carta Maior -29/9/09.

27.9.08

O Brasil melhora, mas a passos lentos

Por estes dias o IBGE divulgou a nova edição do PNDA – Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar. Clique aqui para ter acesso a ela na íntegra ou aqui, para vê-la num caderno especial do jornal O Estado de S. Paulo.
Os indicadores apresentam, sem exceção, melhorias.
O problema é o ritmo destas melhorias.
Para não receber pauladas dos meus amigos petistas/lulistas, é importante ressaltar que estes mandatos do Lula foram significativos para os mais pobres. Muitos foram incluídos na situação de consumidores, tiveram acesso a uma maior quantidade de bens de consumo, bem como saneamento básico, saúde e educação.
Até mesmo o combate à corrupção teve relativo sucesso no primeiro mandato, embora o ímpeto tenha refreado neste segundo mandato.
Os acertos continuam sendo feitos pelos “de cima”, como tudo desde Caminha até nossos dias, por isso a sociedade se vê excluída do processo.
Se é verdade que mais crianças estão na escola e que muitos jovens pobres tiveram acesso ao ensino universitário por meio do ProUni, é verdade também que a qualidade da educação é sofrível, com avanços tímidos, sem envolvimento da sociedade.
Algumas instituições que fazem parte do ProUni parecem escolas de suplência, isso graças a proliferação de cursos universitários nos dois desgovernos do FHC, enquanto o ensino básico continua patinando, tanto nos indicadores nacionais quanto internacionais.
A questão da educação passa por uma forte política de Estado, com algo em próximo de 10% do PIB reservado a ela, como investimentos e não gastos, além de uma forte mobilização popular, com uso de rádio, TV e agressivo marquetingue.
Escolarização obrigatória e ensino de período integral! Professores com dedicação exclusiva às suas escolas! Salários e condições de trabalho dignos! Participação intensa de todas as instâncias da sociedade, da família, essencial, ao STF.
Lula e os partidos da base aliada (partidos? Quaquaqua!) não tocaram neste trauma nacional como deveriam, embora reconheça no ministro Fernando Haddad um ótimo técnico/político da área, pena que sempre subordinado aos ditames da política econômica.
A distribuição de renda melhora a olhos vistos. Desde 1993 experimentamos sucessivas reduções no Índice de Gini (clique aqui se você não sabe o que é isso), indicador da desigualdade de renda.
Esbarramos, contudo, num impedimento que a diminuição da desigualdade se acelere: a Reforma Agrária.
Sem profundas mudanças no sistema de acesso à terra e produção agrícola continuaremos patinando eternamente na distribuição da renda.
No primeiro mandato os sinais de que ela – a Reforma Agrária – ocorreria eram inequívocos, a começar pela equipe que coordenava o processo, comandada por Plínio de Arruda Sampaio.
O apoio do MST e capacidade de interlocução do governo com as organizações que lutam pela reforma agrária era sinal de que desta vez seria diferente.
Bastou o tempo para desmentir nossas esperanças.
É claro que melhorou o tratamento da Agricultura Familiar, por outro lado não se construiu uma política agrícola para o país, por isso o presidente da República tornou-se refém da “bancada ruralista” em diversas negociações no Congresso Nacional.
Já na reeleição o MST sinalizava que a coisa não andava lá essas coisas nas relações com Lula e a tal base aliada, mas ainda assim manifestou seu apoio. No presente instante o desencanto é geral. O latifúndio conseguiu tirar do governo pessoas da índole de Marina Silva, derrotada pelo estrategista de Daniel Dantas, o senhor Mangabeira Unger – conhecido como Ministro do “Futuro” –, gestor dos projetos de intervenção na Amazônia
Esses dois pilares são fundamentais para a construção de um país de verdade, sem eles, erguidos e bem fundamentados, não iremos a lugar algum, estaremos condenados aos soluços de crescimento econômico com espasmos de desenvolvimento.
Finalmente tinha a esperança de que a eleição do Lula, faria com que o capitalismo brasileiro se voltasse para o sistema produtivo em detrimento do capital financeiro.
Não é o que vemos.
O país é um paraíso para os especuladores, que aqui desembarcam para navegar nos mares tranqüilos do ganho fácil e garantido.

Boas leituras para o final de semana

Neste final de semana considero algumas leituras imperdíveis, basta clicar no título:
Antes e depois – ótimo texto do Roy, no blog “A escolha do próximo porteiro do império”. Dá para acompanhar a marcha, além das contramarchas, da eleição estadunidense pela pena de quem vive lá.
Folha de Cima – um pouco de poesia com o Rogério Santos. Se tiver um tempinho compensa uma visita no myspace para ouvir as músicas.
Chico Science encontra Josué de Castro – No Le Monde Diplomatique Brasil, Moisés Neto tece ótimo ensaio sobre Josué de Castro e Chico Science.
A visão dos bancos – No blog do Luis Nassif, aba de economia, excelentes artigos sobre a crise atual.
1 Da Sul – no caso trata-se da indicação de uma loja virtual, bem diferente daquelas que conhecemos, pelo menos no tocante ao conteúdo. Compensa um belo passeio pelo site.
Estes são os destaques, mas fica o convite para um passeio completo nos links aí do lado.

26.9.08

Voto obrigatório: uma anomalia!

Estamos às vésperas da eleição municipal e muitos me perguntam em quem vou votar. Respondo: não vou votar! Não voto enquanto o voto for obrigatório.
Sem meias palavras ou justificativas toscas. A obrigatoriedade do voto é uma anomalia que precisa ser corrigida imediatamente, deveria ser item prioritário da Reforma Política, aquela prometida faz tempo e que nunca acontece.
Obrigar o indivíduo, sob coação, a fazer algo não pode ser encarado como exercício de um direito.
Tal obrigatoriedade fragiliza um dos principais elos do exercício político: o partido!
O partido político além de disputar o poder, o que é legítimo, deveria também preocupar-se em educar o cidadão para a política e a representação, esforçando-se por ser um canal de participação, ao mesmo tempo em que renovaria suas próprias lideranças.
Considero que dentre os vários problemas políticos existentes em nossa legislação o voto obrigatório é o mais escandaloso, seguido de perto do instituto da reeleição.
A reeleição permite a criação de “donos de cargos representativos”. Isso à direita e à esquerda, afinal já tem ex-guerrilheiro com 24 anos como deputado federal “profissional”. Isso inibe o surgimento de novas lideranças e a oxigenação da representação parlamentar.
O voto facultativo obrigaria os partidos políticos a fazerem-se presentes no cotidiano das pessoas, na fábrica, escola, banco etc., pois seria mais importante convencê-la a participar, para depois pedir-lhe o voto.
Com a obrigatoriedade vemos os partidos jogando suas fichas no “marquetingue” político em detrimento de idéias e propostas. Programa de governo então é coisa que só é produzida depois que ocorre a eleição e olhe lá!
As legendas de aluguel, que pontificam no horário político obrigatório, tenderiam ao desaparecimento, pois o teatro político seria transferido para a vida real, longe das telinhas e das jogadas asquerosas.
Vejamos o caso de São Paulo nestas eleições municipais, quem conhece algum programa de governo de algum candidato? Ninguém, simplesmente por que eles não existem, são obras de ficção.
Uma candidata diz que vai conectar a cidade à rede mundial de computadores, sem fio e de graça! Outro vai construir uma “freeway”, outro promete trabalhar por São Paulo, bom, também só faltava um candidato aparecer prometendo “se for eleito, prometo não fazer nada, serei o maior vagabundo que está cidade já teve!”.
Quando vamos verificar os candidatos a vereança então o desespero é geral.
Por essas e outras não irei votar, pelo menos no primeiro turno, agora, se no segundo turno o picolé de chuchu estiver presente, bom, aí a prosa muda de rumo.

25.9.08

A crise dos EUA na visão de Joseph Stiglitz

Segue abaixo a entrevista que Joseph Stiglitz concedeu a Nathan Gardels, do El País, numa tradução do Marco Aurélio Weissheimer, publicada hoje na Agência Carta Maior.
Escolhi esse texto por ser o moço quem ele é. Afinal, qualquer outro que dissesse isso poderia ser tomado por neocomunista, ou, como disse um dia o FHC – Farol de Alexandria segundo Paulo Henrique Amorim – neobobo.
Clique aqui para ler o seu breve currículo e aqui para a versão completa.


A crise de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim

Para o prêmio Nobel de Economia de 2001, a crise financeira que atingiu Wall Street e os mercados financeiros de todo o mundo equivale, para o fundamentalismo de mercado, ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. "Ela diz ao mundo que esse modelo não funciona. Esse momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas", diz Stiglitz.

Nathan Gardels – El País
Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, sustenta que a crise de Wall Street evidencia que o modelo de fundamentalismo de mercado não funciona. Para ele, a crise que sacudiu Wall Street é para esse modelo o equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. Stiglitz critica a complexidade dos produtos financeiros que provocaram a crise e os incentivos ao risco dos sistemas de recompensa dos executivos.
Barack Obama afirma que o naufrágio de Wall Street é a maior crise financeira desde a Grande Depressão. John McCain diz que a economia está ameaçada, mas é basicamente forte. Qual deles tem razão?
Stiglitz – Obama está muito mais próximo da verdade. Sim, os Estados Unidos tem talentos, grandes universidades e um bom setor de alta tecnologia. Mas os mercados financeiros desempenham um papel muito importante, sendo responsáveis nos últimos anos por cerca de 30% dos lucros empresariais. Os executivos dos mercados financeiros obtiveram esses lucros com o argumento de que estavam ajudando a gerir o risco e a garantir maior eficácia ao capital. Por isso, diziam, mereciam rendimentos tão altos. Ficou demonstrado que isso não é certo. A gestão que eles executaram foi muito mal. Agora, o tiro saiu pela culatra e o resto da economia pagará porque as trocas comerciais cairão devido à redução do crédito. Nenhuma economia moderna pode funcionar bem sem um setor financeiro vibrante.
Assim, o diagnóstico de Obama, quando diz que nosso setor financeiro está em estado deplorável, é correto. E se está em um estado deplorável, isso significa que nossa economia está em um estado deplorável. Ainda que não levássemos em conta a comoção financeira, mas só a dívida doméstica, nacional e federal, isso já bastaria para ver a seriedade do problema. Estamos nos afogando. Se observarmos a desigualdade, que é a maior desde a Grande Depressão, o problema é sério. Se observarmos o estancamento dos salários, o problema é sério. A maior parte do crescimento econômico dos últimos cinco anos baseava-se em uma bolha do setor imobiliário, que agora estourou. E os frutos desse crescimento não foram repartidos amplamente. Em resumo, os fundamentos não são bons.
Qual deveria ser, em sua opinião, a resposta política ao afundamento de Wall Street?
Stiglitz – Está claro que necessitamos não só voltar a regular, mas também redesenhar o sistema regulador. Durante seu reinado como chefe do Federal Reserve, no qual surgiu essa bolha hipotecária e financeira, Alan Greenspan tinha muitos instrumentos ao seu alcance para freá-la, mas não conseguiu fazer isso.
Afinal de contas, Ronald Reagan escolheu-o por sua atitude contrária à regulação. Ele substituiu a Paul Volcker no Federal Reserve, conhecido por manter a inflação sob controle. O governo Reagan não acreditava que ele fosse um “liberalizador” adequado. Por conseguinte, nosso país sofreu os efeitos de escolher como regulador supremo da economia a alguém que não acreditava na regulação. De modo que, para corrigir o problema, a primeira coisa que precisamos é de líderes políticos e responsáveis que acreditem no papel da regulação. Além disso, precisamos estabelecer um sistema novo, capaz de suportar a expansão das finanças e dos instrumentos financeiros de um modo melhor que os bancos tradicionais.
Precisamos, por exemplo, regulamentar os incentivos. Eles têm que ser pagos baseando-se nos resultados de vários anos, e não no de apenas um, porque este último modelo fomenta as apostas. As opções de compra de ações fomentam a adulteração da contabilidade e é preciso frear essa prática. Em resumo, oferecemos incentivos para que se alimentasse um mau comportamento no sistema.
Além de freios, precisamos de faixas de controle. Historicamente, todas as crises têm estado associadas a uma expansão muito rápida de determinados tipos de ativos. Se conseguimos frear esse processo, podemos impedir que as bolhas cresçam de modo descontrolado. O mundo não desapareceria se as hipotecas crescessem 10% e não 25% anualmente. Conhecemos tão bem o patrão que deveríamos fazer algo para dominá-lo. Precisamos ainda de uma comissão de segurança para os produtos financeiros, assim como temos no caso dos produtos de consumo. O setor financeiro estava inventando produtos que não geriam o risco, mas sim o produziam.
Certamente, acredito na necessidade de uma maior transparência. No entanto, desde o ponto de vista dos critérios reguladores, esses produtos eram transparentes em um sentido técnico. Mas eram tão complexos que ninguém os entendia. Mesmo que fossem tornadas públicas todas as cláusulas destes contratos, elas não trariam a nenhum mortal alguma informação útil sobre seu risco. Muita informação equivale a nenhuma informação. Neste sentido, aqueles que pedem mais revelações como solução para o problema não entendem a informação. Se alguém compra um produto, necessita de uma informação simples e básica: qual é o risco. Essa é a questão.
Os ativos hipotecários que provocaram o caos estão em mãos de bancos ou fundos soberanos da China, Japão, Europa e países do Golfo. Como essa crise os afetará?
Stiglitz – É certo. As perdas das instituições financeiras européias com as hipotecas subprime foram maiores do que as verificadas nos Estados Unidos. O fato de os EUA terem diversificado esses ativos hipotecários por todo o mundo, graças à globalização dos mercados, suavizou o impacto interno. Se não tivéssemos disseminado o risco por todo o mundo, a crise seria muito pior. Uma coisa que agora se entende, a conseqüência dessa crise, é a informação assimétrica da globalização. Na Europa, por exemplo, não se sabia muito bem que as hipotecas norte-americanas são hipotecas sem lastro: se o valor da casa baixa mais que o da hipoteca, pode-se devolver a chave ao banco e ir embora. Na Europa, a casa serve de garantia, mas o tomador do empréstimo segue endividado, aconteça o que aconteça. Este é um dos perigos da globalização: o conhecimento é local, sabe-se muito mais sobre sua própria sociedade do que sobre as outras.
Qual é então, em última análise, o impacto do naufrágio de Wall Street na globalização regida pelo mercado?
Stiglitz - O programa da globalização esteve estreitamente ligado aos fundamentalistas do mercado: a ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira. Nesta crise, observamos que as instituições mais baseadas no mercado da economia mais baseada no mercado vieram abaixo e correram a pedir a ajuda do Estado. Todo mundo dirá agora que este é o final do fundamentalismo de mercado. Neste sentido, a crise de Wall Street é para o fundamentalismo de mercado o que a queda do Muro de Berlim foi para o comunismo: ela diz ao mundo que este modo de organização econômica é insustentável. Em resumo, dizem todos, esse modelo não funciona. Este momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas.
A hipocrisia entre o modo pelo qual o Tesouro dos EUA, o FMI e o Banco Mundial manejaram a crise asiática de 1997 e o modo como procedem agora acentuou essa reação intelectual. Agora os asiáticos dizem: “Um momento, para nós, vocês disseram que deveríamos imitar o modelo dos Estados Unidos. Se tivéssemos seguido vosso exemplo, agora estaríamos nesta mesma desordem. Vocês, talvez, possam se permitir isso. Nós, não”.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Fonte: Agência Carta Maior – 25/9/08.

Veja: a imagem invertida da realidade!

A capa de Veja me surpreendeu!
Não é que ela conseguiu transformar os bandidos em mocinhos, mais uma vez!
Vejam vocês a capa da dita cuja:

Quer dizer que os caras que enterraram os EUA numa das maiores crises de sua história, arrastando parte do mundo com eles, nos salvaram?
Dá para explicar?
O cidadão médio estadunidense que tem comprado essa história de que o “mercado” tudo vê, tudo resolve e tudo vê, deve estar se coçando dentro das calças nesse momento.
O socialismo dos EUA obedece a uma lógica peculiar: a distribuição da renda é feita para os “de cima”. Bancos falidos, mal geridos, recebem grana dos contribuintes, aqueles mesmos que acreditavam na falsa expectativa de riqueza fácil criada pelo sistema.
Isso se deve a mais completa ausência do Estado.
Então a galera que saudou entusiasticamente o neoliberalismo pode enfiar a viola no saco e procurar outras razões para comemorar a derrocada da URSS.

Estou de volta!

Olá a todos! Depois de uma bem sucedida cirurgia de catarata no olho direito, cá estou novamente a atormentá-los com meus pequenos textos.
Motivo para escrever não falta. São inúmeras inquietações pessoais, campanha eleitoral para prefeito e vereador, crise nos EUA, nossa servil imprensa grande etc. e tal.
Vamos por partes.

20.9.08

Novas indicações de leitura

No menu aí do lado aparecem novos blogs e sites, não deixem de prestigiá-los:
Agência Brasil
Agência noticiosa do governo federal, excelente qualidade, diversidade de temas e respeito às regiões do país.

Alcinéa Cavalcante
Informação de verdade, lá do Amapá.

Blog da Glória
Ela fala sobre crianças e adolescentes, justiça, direitos humanos, imprensa etc. e tal, de uma maneira corajosa e muito franca.

Bahia de Fato
Boa cobertura política lá da Bahia.
Blog do Renato Rovai, editor da Revista Fórum. Notícias de política, economia e sociedade de um ângulo diferente da mídia grande.

Etiqueta (Bolívia)
Este blog, editado por um jesuíta, discute a ética, desde a Bolívia, convulsionada e em luta.

Ladislau Dowbor
O site deste grande economista apresenta interessantes discussões sobre novas tecnologias, educação, gestão e meio ambiente, dentre outros temas.

Observatório da Imprensa
A mídia em permanente discussão, com espaço para a pluralidade e também expressão dos leitores.

Página 12 (Argentina)
Ótimo site do jornal diário argentino que leva o mesmo nome.

Palestina do Espetáculo Triunfante
A autora fala sobre cinema, música, poesia, ambiente, dentre outras coisas, sempre com muita sensibilidade e senso crítico.

Karl Marx manda lembranças

Didático texto do César Benjamin na Folha de S.Paulo de hoje, sábado.
Karl Marx manda lembranças

O que vemos não é erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas
AS ECONOMIAS modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam "comportamento racional". Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação. Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as "necessidades do estômago" são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria. Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D" essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade. Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo. O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D". Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.
CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de "Bom Combate" (Contraponto, 2006). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.
Fonte: Folha de S.Paulo - 20/9/08.

19.9.08

Tapa na Pantera

Um dos vídeos mais hilários que vi no Youtube até hoje.
Agora está no Portacurtas e ganhou status de cult.
Divirtam-se!


Tapa na Pantera
Gênero Ficção, Conteúdo Adulto
Diretor Esmir Filho, Mariana Bastos, Rafael Gomes
Elenco Maria Alice Vergueiro
Ano 2006
Duração 3 min
Cor Colorido
Bitola Vídeo
País Brasil
Aplicabilidades
Disciplinas/Temas transversais: Biologia. Faixa Etária: a partir de 14 anos. Nível de Ensino: Ensino Fundamental II, Ensino Médio.

Clique no link abaixo para assistir:

Tapa na Pantera

18.9.08

Imagens da Bolívia

Lições para alimentar o ódio.
Assim se porta a elite racista boliviana.
São imagens que chocam pela sua crueza e pela expressão fascista e cruel.

O Massacre
http://www.youtube.com/watch?v=eFvRGemlv3k&eurl

Depois do massacre
http://www.youtube.com/watch?v=cH8Y_FQAkuY&feature=related

Aqui uma explicação sobre a Autonomia
http://www.youtube.com/watch?v=LF-FeJRaB6Y&feature=related

16.9.08

A educação no Brasil vai mal, de quem é a culpa afinal?

Os livros didáticos, independentes de sua correção, são um grande equívoco.
O correto seria o professor possuir dedicação exclusiva a escola, com 40 horas de trabalho semanal, mas no máximo 20 em sala de aula. O restante deveria ser dedicado à preparação de material, correção de trabalhos e provas, além do atendimento aos alunos.
Os livros didáticos atendem, portanto a uma disfunção do sistema escolar. Um professor dando aulas em três escolas, das 7 horas da manhã até 22 horas pode confeccionar seu próprio material didático? Claro que não!
Podemos pensar o livro didático como um “mal necessário”. Isso não pode impedir que apontemos os seus problemas.
O MEC, por meio de uma equipe de consultores, todos ligados as Universidades, cuida, sem pressa, de avaliar os livros colocados à disposição das escolas públicas. Ao fazer isso o MEC tenta oferecer opções de boa qualidade para os professores.
Óbvio que não podemos imaginar um livro didático que atenda a enorme diversidade regional do nosso país! Essa limitação já seria um grande obstáculo para o uso desse tipo de material.
Por outro lado, imputar exclusivamente ao professor, ao material didático ou ao gestor escolar o problema da educação no Brasil é, no mínimo, simplificação grosseira.
A meu ver o principal problema reside na falta de investimento adequado do Estado.
Passa pela formação de professores? Claro que sim!
Vejam o exemplo da Universidade de São Paulo, tida como uma das melhores do país.
Os cursos, com raras exceções como o do Instituto de Matemática, não são voltados para a licenciatura, mas sim para o bacharelado; o magistério surge como complemento, que se obtém cursando 6 disciplinas na Faculdade de Educação e cumprindo apenas 300 horas de estágio.
A ausência de formação específica para o professor é um crime. Falta-nos preparo pedagógico, que só com a experiência e a duras penas conquistamos.
O salário da escola pública é estimulante? Claro que não! Assim como não são estimulantes as condições de trabalho.
E o estímulo da família ao estudante? Quanto se investe em TV e outras quinquilharias eletrônicas e quanto se investe em livros?
Para quem gosta do exemplo finlandês, li outro dia que o governo dá de presente um livro para cada recém-nascido, é assim que se começa a construção do bom leitor.
Por falar em TV, o espaço que ela, uma concessão pública, dedica a educação é praticamente nulo, restrito as ações de “responsabilidade social” de uma ou outra instituição.
Discutir educação é, portanto, discutir a própria sociedade, em todos os seus aspectos.
Pensar qual é o projeto de país que atende à maioria da população e como ele deverá ser executado.
Pensar ainda se queremos produzir tecnologia de ponta ou continuar inseridos no processo de mundialização econômica num papel subalterno.
Infelizmente ainda não será neste governo que veremos este horizonte preenchido de forma clara, quem sabe mais um pouco de esperança!

14.9.08

A educação pelo olhar da Revista Veja

Em razão do espaço reduzido terei que fazer aqui a mesma coisa que a revista do grupo Abril fez na sua edição de 20/8/08, quando tratou da educação no Brasil: retirar frases do contexto.
Portanto, considerem esse fato ao lerem o que segue.
Depois de examinar 130 livros de História, Geografia e Português (com quais critérios?) a dita cuja concluiu que o nó da educação brasileira reside em duas pontas: a qualidade dos livros didáticos e a ideologia dos professores, que, segundo a mesma, são todos esquerdistas (quase infantis).
A maior lacuna da reportagem reside aí. Faltou analisar livros e professores de Matemática, Física, Biologia, Química e Inglês, isso para tratarmos do chamado núcleo comum, sem contar Artes, Atualidades, Tecnologias e Mídias, Sociologia, Filosofia, ou ainda Teatro, Música etc., a depender do currículo da escola e da região.
É óbvio que os manuais didáticos contêm erros, sejam conceituais ou factuais, pois são obras de simples seres humanos, portanto sujeitos a todas as falhas inerentes à espécie.
Também não podemos nos esquecer dos gigantescos interesses das editoras de livros didáticos, a Abril inclusive – com as “grifes” Ática e Scipione – principalmente no tocante às vendas para os governos. Sabemos que a produção em massa e, às vezes, a toque de caixa para atender encomendas podem comprometer o “produto”.
Professores panfletários também existem, conheci alguns e vez por outra me acusam disso também, principalmente quando analisam o curso de Geografia do Ensino Médio de três anos a partir de uma aula de 45 minutos.
Feitas estas observações, vamos ao trabalho.
Os livros didáticos escolhidos para o escárnio pela matéria pertencem às seguintes editoras:
Anglo (1 citação)
COC (4)
Objetivo (3)
Pitágoras (2)
Ática (6)
Atual (3)
Harbra (1)
Moderna (9)
Nova Geração (2)
Quinteto Editorial (2)
Saraiva (2)
Scipione (2)
As quatro primeiras empresas são sistemas de ensino, as outras são editoras. Destaque para os 8 problemas apontados em obras da própria Abril.
Os livros apontados estão assim distribuídos:
Geografia (16)
História (19)
Português (2)
Primeiro estranhamento: a maior editora do ramo de sistema de ensino, também fabricante de softwares e computadores, a Positivo, não foi citada uma única vez. Encontramos na publicação Nova Escola – da Fundação Victor Civita – grandes anúncios deste grupo, mais exatamente duas páginas duplas na edição de agosto. Embora encontremos outros anunciantes na mesma revista, alguns criticados na reportagem da Veja, como a Saraiva/Atual (1 página), Objetivo Sistema de Ensino (1 página), Rede Pitágoras (1 página), além de outros que não foram “premiados”: Sistema Maxi de Ensino (1 página). Sistema de Ensino Dom Bosco (1 página) e Expoente Sistema de Ensino (1 página), a ausência das obras do sistema Positivo chama a atenção.
Segundo Estranhamento: a Veja corretamente identifica as editoras Ática e Scipione como pertencentes ao grupo Abril, mas não cita o Sistema de Ensino Ser, também pertencente ao Grupo Abril. Será este o único sistema de ensino neutro e portador da verdade universal? Verifiquem vocês mesmos: http://www.ser.com.br/.
Primeira conclusão: se Veja analisou 130 livros e encontrou 37 problemas, podemos pensar que outros 93 estão em perfeita ordem, de acordo com o INDEX preparado pela Abril? Quais são eles? A quais editoras ou sistemas de ensino pertencem?
Segunda conclusão: os professores de História e Geografia são formados de acordo com as premissas dos senhores Marx e Lênin, pois não? Eles possuem o poder sobre a frágil mente de crianças indefesas há décadas, por isso a conspiração comunista, patrocinada pelos charutos de Havana, grassa em nossa pátria! Façam-me o favor!
Veja mais uma vez usa de má fé ao falar de educação como é de seu costume e, a bem da verdade, essa má fé está presente ao tratar de todo e qualquer assunto.
Ao comentar um equívoco do autor de “Das cavernas ao terceiro milênio 3”, que informa ter sido o presidente Allende assassinado, a revista responde assim: “ O presidente Salvador Allende foi mesmo deposto por generais golpistas com a ajuda material e estratégica da CIA, mas desgastou-se pela própria incompetência e não foi assassinado. Suicidou-se.”
Ora, não está aí um juízo de valor? Incompetência cara-pálida? Não! Foi traído por homens que compunham o aparato de Estado, Pinochet à frente e o apoio não apenas da CIA, mas de todo o aparato de governo dos EUA.
Resvala ainda no preciosismo imbecil, como na crítica a uma apostila de História do Objetivo. Nela o autor afirma: “O mapa que mostra a rota da Coluna Prestes (1925-1927) inclui o estado do Tocantins.” Comentário da revista: “O estado de Tocantins só foi criado em 1988.” Claro que o autor, ou o revisor, poderia ter oferecido uma melhor construção para a frase, mas a gravidade de tal equívoco merece tamanho destaque?
A profundidade das análises de Veja, raramente ultrapassam a de um pires.

12.9.08

Sobre outro 11 de setembro

Este texto não tem a intenção de tripudiar sobre a dor de ninguém, muito menos dos familiares daqueles que morreram vítimas dos atentados terroristas contra as Torres Gêmeas em Nova Iorque, no dia 11/9/2001.
Mas não quero escrever sobre isso. A grande mídia dá conta com sobra, de forma acrítica e apelando para o emocionalismo barato.
Outro 11 de Setembro dói muito na minha consciência latino-americana. É aquele que ceifou a experiência do governo da Unidade Popular, liderada por Salvador Allende, no Chile em 1973.
Governo legitimamente eleito, dentro do jogo democrático, mas apeado à força, por uma associação de bandidos fardados com diplomatas bandidos.
Esse 11/09 não entrou no calendário de dor mundial. Os milhares de desaparecidos e mortos pela ditadura de Pinochet não são lembrados como heróis da “democracia”.
Os EUA completavam assim um longo circuito de golpes militares, implantando ditaduras em quase todos os países da sofrida América Latina, contra a vontade popular, apoiados por intromissões políticas e uma invasão cultural sem precedentes na história humana.
Canalhas! Democratas ou Republicanos! Sem diferença entre eles, pelo menos para nós, que ficamos ao sul da linha do Equador.
Abaixo o último discurso de Salvador Allende, reproduzido no site da Agência Carta Maior:

Bombardeio ao Palácio de La Moneda
"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.
Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.
Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.
Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.
Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.
Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A história os julgará.
Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.
Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

11.9.08

Quando o terrorismo interessa, nossa mídia se cala

Homem queimando pneus - Foto do Clarín de hoje
Nossa mídia beira o ridículo quando briga com a notícia.
Quando lhes interessa noticia, julga e condena. Assim age quando o tema é o governo de Hugo Chávez, por exemplo.
Quando não, briga com a própria notícia. Vejam a chamada no portal do Estadão:
BRASÍLIA - O ministro das Finanças da Bolívia, Luiz Alberto Arce, e o embaixador boliviano no Brasil, Maurício Dofler, disseram nesta quinta-feira, 11, que as Forças Armadas vigiarão os dutos de petróleo e gás em território boliviano após opositores ao governo de Evo Morales explodirem um gasoduto que abastece o Brasil. Durante entrevista coletiva em Brasília, Arce evitou falar que o país está em guerra civil, mas afirmou que vê as ações da oposição como terrorismo e uma tentativa de golpe de Estado.

No G1 (Globo.com), nenhuma notícia na capa das 10H30.
Já o UOL noticiou com grande destaque, com uma chamada interessante: Crise na Bolívia.

Vejam um exemplo de notícia do UOL:
Confrontos entre grupos civis de apoio ao governo de Evo Morales e de apoio ao autonomista Conalde (Conselho Nacional Democrático) deixaram ao menos 70 feridos na cidade de Tarija, nesta quarta-feira, informou a imprensa local.
Leia a íntegra da matéria clicando aqui.

O Terra também oferece destaque à crise, mas menor do que o do UOL. É o único a abrir notícia dando voz ao governo boliviano, pois reproduz noticiário da BBC Brasil:
A primeira explosão num gasoduto que abastece o mercado brasileiro foi provocada, nesta quarta-feira, por um incêndio intencional, segundo comunicado do Ministério boliviano de Hidrocarbonetos. Para ler o restante do texto, basta clicar aqui. Para conferir a matéria na BBC Brasil é só clicar aqui.

A Veja segue a sua lógica: os culpados de tudo são os camponeses, os cocaleiros e o próprio Evo Morales, às favas eleições, democracia etc. Vejam o primor do descaramento:
Líderes pró-governo cercam Santa Cruz
11 de Setembro de 2008
A crise na Bolívia se agravou nesta quarta-feira após sindicatos agrários que apóiam o governo do presidente Evo Morales cercarem o departamento oposicionista de Santa Cruz. O objetivo do bloqueio é provocar o desabastecimento de alimentos e combustíveis na região. De outro lado, os protestos contra Morales também se intensificaram em diversas regiões do país, com ataques contra as estruturas energéticas e prédios públicos, além de confrontos entre manifestantes e a polícia.
Leia mais.

Já o Clarín, da Argentina, parece que soube de outra coisa, bem diferente da Veja:
Opositores a Morales tomaron y saquearon ministerios, organismos y aeropuertos en Santa Cruz, Tarija, Beni y Pando. El presidente ordenó abandonar de inmediato el país a Philip Goldberg, al que acusa de incentivar las protestas regionales.
Quer conferir o original? Clique aqui.

E a mídia boliviana? Julguem vocês mesmos:



La Razón (clique no título para ler)
Día violento en Tarija. Casi 50 personas resultaron heridas tras una jornada de violencia de 10 horas.
Fiebre verbal. Cívicos y oficialistas sueltan frases para dar la sensación de que el país va a la guerra civil.
Caos y toma en Santa Cruz. Unionistas ocupan más instituciones. Vándalos cometen más saqueos.
Y la autoridad. Autonomistas no devolverán las oficinas tomadas. Las FFAA controlan los campos de gas.
El conflicto político entre el Gobierno y el opositor Conalde dio otro giro, esta vez en la ciudad de Tarija, donde grupos de civiles, unos seguidores del presidente Evo Morales, y otros del movimiento autonomista, se enfrentaron con palos y petardos

No site Bolivia.com:
Municipios demandan pacificación y diálogo a prefecturas y gobierno
(Enlared Municipal) Pese a las diferencias regionales que pudieran tener, alcaldes y directivos de asociaciones municipales departamentales demandan la urgencia de pacificar al país e inmediatamente establecer un proceso de diálogo frente a la actual escalada de violencia. En medio del enfrentamiento entre las prefecturas opositoras y el gobierno, las autoridades municipales consultadas por Enlared-Onda Local, señalan que en esta hora los municipios pueden ser mediadores en el conflicto.

10.9.08

Josué de Castro hoje

Francisco Menezes*

Neste mês de setembro, a celebração do centenário de Josué de Castro tem dois sentidos principais. O primeiro deles é o necessário resgate da memória desse grande brasileiro. O Brasil, e em particular sua juventude, precisa conhecer a história de vida e as idéias do ilustre médico pernambucano. O segundo sentido refere-se à fome, que Josué re-significou em sua obra, e que continua sendo um tema de discussão necessária no país.
Josué de Castro partiu da realidade que via e sentia – no sertão pernambucano, nas plantações de cana-de-açúcar da Zona da Mata, nos manguezais do Recife. Em sua atuação profissional como professor, médico, sociólogo e escritor, converteu seu profundo conhecimento daquela realidade em contribuição incomparável para a compreensão dos problemas da miséria e da fome.
A partir de sua obra e de sua militância política, tornou-se nome reconhecido internacionalmente, tendo na FAO liderado a primeira campanha internacional contra a fome.
“E foi assim que, pela história dos homens e pelo roteiro do rio, fiquei sabendo que a fome não era um produto exclusivo dos mangues. Que os mangues apenas atraíram os homens famintos do Nordeste: os da zona da seca e os da zona da cana. (...). E quando cresci e saí pelo mundo afora, vendo outras paisagens, me apercebi com nova surpresa que o que eu pensava ser um fenômeno local, era um drama universal. (...). Que aquela lama humana do Recife, que eu conhecera na infância, continua sujando até hoje a paisagem do nosso planeta como negros borrões de miséria: as negras manchas demográficas da geografia da fome”.
Josué de Castro foi um homem à frente de seu tempo. Baseando-se na realidade imediata do pós-guerra, não se conformou com diagnósticos simplistas sobre as carências do acesso à alimentação em todo o mundo, ousando pensá-las em sua complexidade e nas múltiplas faces com que se apresentam. Afirmou ser a fome a expressão biológica de males sociológicos, produzidos por iniqüidades estabelecidas pelos próprios homens.
Desmitificou a fome como resultado inexorável de determinações naturais. Demonstrou que a fome não se reduz a um problema de produção insuficiente de alimentos: caso a população não disponha de poder de compra para adquirir os alimentos, haverá fome. Denunciou o imperialismo e o comércio internacional de reduzirem o tema da alimentação ao âmbito de interesses econômicos específicos, desprezando os interesses da própria saúde pública1.
Nunca se satisfez, em suas análises, com abordagens meramente setoriais dos problemas: “Um dos grandes obstáculos ao planejamento de soluções adequadas ao problema da alimentação dos povos reside exatamente no pouco conhecimento que se tem do problema em conjunto, com um complexo de manifestações simultaneamente biológicas, econômicas e sociais”2. Inspirou a todos nós, que hoje trabalhamos o tema da soberania e segurança alimentar e nutricional no Brasil, com a perspectiva intersetorial por ele iniciada.
Mas Josué de Castro incomodou. Isto lhe custou o exílio durante o regime militar e o impedimento de retornar ao país. Esse cidadão do mundo morreu de tristeza há 35 anos, por não poder regressar ao seu país, ao seu Recife, que traduzia para ele o significado das mazelas de todo o planeta, mas que também traduzia as possibilidades de superação, contidas em nosso próprio povo.
Josué nos ensina, profundamente, sobre os tempos atuais. Tempos de crise do sistema alimentar mundial. Usando os conhecimentos que ele nos legou, não pensemos que será apenas com a elevação da produção de alimentos que o mundo conseguirá enfrentar a presente elevação de seus preços.
Novamente precisamos saber articular os diferentes campos das políticas públicas a serviço dos interesses de todos e todas. Precisamos entender que o alimento, muito mais do que uma simples mercadoria é um direito fundamental e primeiro de todo ser humano. Não é nos mercados especulativos, nas bolsas de commodities, cujo objetivo único está na realização de grandes lucros para alguns, o lugar adequado para a definição de seu destino.
O Brasil tem alcançado nos últimos anos progressos que antes não eram imagináveis no enfrentamento da calamidade da fome, da miséria e da desigualdade. Isto nos faz referência para todo o mundo. É a primeira vez que o país alia crescimento econômico com redução da desigualdade. Pesquisas nacionais, com metodologias rigorosas, comprovam esses avanços, como é o caso da redução da desnutrição infantil. Porém, tais fatos não nos autorizam à conclusão de que o problema da fome está resolvido no país. Para certos porta-vozes das elites, que não querem abrir mão dos privilégios dos mais abastados, essa é a interpretação fácil que aponta como desperdício os investimentos atualmente realizados junto à população mais desprovida.
Como nos mostrou Josué de Castro, a fome não pode ser apenas avaliada por sua manifestação biológica, ou por medidas de peso e altura. A fome, na sua versão contemporânea, se esconde atrás de estratégias de busca do provimento de energia, mas absolutamente carente de outros componentes nutricionais indispensáveis para uma vida saudável. É a fome oculta que nos ensinou Josué. De fato, a fome em seu strictu sensu pode ser até aplacada pelo alimento colhido no lixo ou adquirido por ganho proveniente de trabalho degradante, mas na sua essência ela não estará vencida.
A fome será vencida pelo reconhecimento, efetivo, do direito humano à alimentação, acima de qualquer outra prioridade. Isto se faz e garante por meio de políticas públicas sob a responsabilidade de toda a sociedade, mas em particular do Estado.
Chico Science, poeta do mangue, que foi um dos ícones da atuais gerações, falou em uma de suas músicas: "... tem que saber p'ra onde corre o rio, tem que saber seguir o leito, tem que estar informado, tem que saber quem é Josué de Castro,...rapaz!". Josué de Castro, patrono do Consea, tem muito o que nos dizer nesse caminho.

*Diretor do Ibase

Publicado em 5/9/2008.

1 Prefácio da última edição de Geografia da Fome, Rio de Janeiro, 2003
2 Geografia da Fome, Rio de Janeiro, 2003

Fonte:
Ibase – 5/9/08.

7.9.08

Isso não é propriamente um texto, é uma obra-prima!

Todos que me lêem sabem da admiração que tenho pelos textos de Luis Nassif, além do Bob Fernandes, Mino Carta, Luis Carlos Azenha e alguns poucos outros jornalistas nativos.
Hoje Nassif apresentou uma verdadeira obra-prima no seu blog. Por isso vou reproduzir o texto na íntegra - tim-tim por tim-tim - e também enviá-lo para minhas listas de e-mail, na esperança de que muitas outras pessoas o leiam.
Deleitem-se:
O parto de uma Nação

É extraordinário o que estamos testemunhando nesses tempos de Satiagraha: é o parto de uma Nação.
Haverá ainda muita frustração pela frente, muita sensação de impotência, muito ceticismo se o país conseguirá ser alçado à condição de Nação civilizada. Mas a marcha da história é inevitável.
Está-se em plena batalha da legalidade contra o crime organizado. Os jovens juízes, procuradores, policiais que ousaram arrostar décadas de promiscuidade estão no jogo. Se eventualmente forem calados agora, a decepção geral será o combustível para a reação de amanhã.
O país está submetido a duas forças que caminharam em paralelo mas, agora, começam a colidir.
Uma delas, a consolidação de valores republicanos – não necessariamente de práticas – como a impessoalidade no trato da coisa pública, a transparência cada vez maior, movimento acelerado pelo advento de novas tecnologias de informação, a reação contra a impunidade.
Ao mesmo tempo, tem-se um país institucionalmente refém de desequilíbrios enormes. A falta de transparência do ciclo que se esgota abriu espaço para amplos abusos em todos os poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário e mídia, grande capital.
Criou-se uma enorme Nação de rabo preso em um momento em que a disseminação de valores e de tecnologia definia novos níveis para a transparência.
Ao mesmo tempo, o mundo (e o Brasil) ingressou em um ciclo de financeirização que permitiu a expansão ampla do crime organizado. Descrevo em detalhes esse processo no meu livro “Os Cabeças de Planilha”. Já tinha descrito esse modelo no meu “O Jornalismo dos anos 90”, no capítulo referente à CPI dos Precatórios.
A falta de regulação e controle nos mercados, a existência de paraísos fiscais, a complacência das autoridades reguladoras (e da mídia) criaram uma imensa zona cinzenta onde se misturou a contravenção fiscal com a corrupção política, a simbiose de “figuras notáveis” com o crime organizado. A falta de um regramento adequado e de instituições que combatessem os abusos, permitiu essa promiscuidade ampla.
Esse é o nó.
Agora, as instituições estão aí. Mas há um pesado passivo que não interessa a muitos que venha à tona. O resultado dessa batalha de transição é que definirá os rumos do país: se submetido aos limites da lei; ou do crime organizado.

Os novos atores
Aí entram dois atores. O primeiro, a mídia.
Já escrevi várias vezes sobre o tema, e volto a ele. Nesse ambiente promíscuo, parte da mídia passou a se valer da denúncia não como um instrumento de melhoria dos hábitos econômicos e políticos, mas como instrumento seletivo de poder. O esgarçamento dos critérios jornalísticos abriu espaço para os abusos que, agora, chegam a um ponto de alto risco para imagem da mídia.
Nesse movimento, papel essencial foi desempenhado pela diretoria de redação da Veja. Graças ao seu amadorismo, conduzindo uma operação de alto risco – os pactos com Daniel Dantas – escancarou um modelo que, em mãos mais hábeis, levaria mais tempo para ser percebido.
O segundo ator são os órgãos de repressão ao crime organizado, que surgem no início dos anos 90 e se consolidam a partir da gestão Márcio Thomaz Bastos no Ministério da Justiça.
A maior parte do dinheiro do crime organizado transita pelo mercado financeiro, através de operações esquenta-esfria, de doleiros, de esquemas em paraísos fiscais, um universo intrincado que passa ao largo da compreensão do cidadão comum.
Tenho muito orgulho em ter contribuído de alguma maneira para preparar esse terreno para o combate ao crime organizado.
No início dos anos 90 passei análises sobre o mercado financeiro para o juiz Walter Maierovitch, o primeiro brasileiro a estudar seriamente o fenômeno do crime organizado.
No início de 2003, a convite de Márcio Thomaz Bastos dei uma das duas palestras de abertura do Seminário que ocorreu em Pirinópolis, juntando Ministério Público Federal, Polícia Federal, COAF, Banco Central, Secretaria da Receita Federal. Juntei as informações e análises que tinha coletado na cobertura da CPI dos Precatórios e dos esquemas de doleiros – que serviram de base para meu livro.
Surpreendi-me ao me dar conta da extensão do trabalho que se propunha, essa integração necessária entre os diversos órgãos, a busca de ferramentas de análise, de equipamentos de monitoração, o entusiasmo dos jovens funcionários públicos e as figuras mais velhas, respeitáveis, de Cláudio Fontelles, Paulo Lacerda e Márcio Thomaz Bastos.
Montou-se a organização, preparam-se os funcionários públicos e lhes foi conferida uma missão. E eles passaram a seguir o manual. Institucionalizava-se o combate ao crime organizado. E, institucionalizado, passava a se tornar, também, impessoal. Assim como em nações civilizadas, não havia mais intocáveis a serem preservados.
Nesse momento, deu-se o choque com o Brasil velho.
O choque do antigo
No início havia convivência estreita entre os dois poderes: a nova estrutura de repressão ao crime organizado e a mídia.
Houve muitos abusos, sim, invasão de escritórios de advocacia, vazamento de peças do inquérito. É possível que abusos continuem a ser cometidos. Mas tudo era suportado, defendido pela mídia, na condição de aliada preferencial, tendo acesso aos “furos” e blindagem contra abusos.
A convivência prosseguiu enquanto órgãos de mídia entendiam que a aliança lhes garantia salvo-conduto. Explodiu quando se revelou a extensão da Operação Satiagraha.
Aparentemente, a Operação Satiagraha flagrou quatro grupos envolvidos com o crime organizado: advogados, juízes, políticos e jornalistas/empresas jornalísticas. O que se pretende, agora? Julga-se ser possível varrer o processo para baixo do tapete? Em plena era da Internet, dos blogs, dos sites, do e-mail, julga-se ser possível passar em branco essa monumental manipulação das informações que se vê agora?
O jogo está no fim. Daqui para diante será esperneio. Continuarão assassinando reputações, promovendo factóides, manipulando ênfases. É possível que destruam Paulo Lacerda, Protógenes, De Sanctis e todos os que ousarem enfrentar esse tsunami. Mas não conseguirão parar a história.
Desse lamaçal, vai emergir uma nova mídia, uma reavaliação na qual os jornais sérios entenderão, em algum momento, que não dá mais para se envolver até o pescoço por uma solidariedade corporativista com os que transigiram.
E não adianta tentar transformar essa guerra em um Fla x Flu, Lula x oposição, PSDB x PT. Não cola. É uma briga da lei contra o crime organizado. Há que se definir limites para evitar abusos. Mas o que está em jogo é a tentativa de desmonte dessa estrutura.
Apostar que serão bem sucedidos, será apostar no atraso, na falta de leis, na manutenção dos abusos da mídia e dos grampos ilegais, no império do crime organizado, na promiscuidade entre poderes.
É esse o país que vamos entregar para nossos filhos? É evidente que não.

Fonte:
Luis Nassif Online – 07/09/08.

6.9.08

A segunda Guerra Fria

O Cáucaso e as apostas geopolíticas das grandes potências

Johan Galtung* - IPS

ALFAZ, Espanha - Em junho de 1997 fui convidado pelos embaixadores da Geórgia, Armênia e do Azerbaijão em Washington para visitar seus respectivos países e explorar possíveis soluções para os conflitos no sul do Cáucaso, de novo hoje em plena ebulição. Minha recomendação na época foi a de formar uma comunidade caucasiana com Geórgia, Armênia, Azerbaijão e as 28 nacionalidades da área, bem como criar uma zona comum onde os três países pudessem se reunir em uma administração conjunta, com um aeroporto internacional ligado por trem com as três capitais.
A geografia colocou o Cáucaso circundado por Rússia ao norte, Turquia a oeste e Irã ao sul, mas agora tem também os Estados Unidos por todos os lados na região. Os norte-americanos finalmente chegaram, após uma impaciente espera, à Geórgia e Azerbaijão, enquanto os russos chegaram à Abjasia e Armênia.
O Cáucaso é atualmente o principal teatro da nascente Guerra Fria II, que implica o estabelecimento de um cerco ao redor de Rússia-Índia-China (que representam 40% da humanidade) a fim de controlar a Eurásia (uma “ilha Mundo”, segundo a geopolítica de MacKinder de um século atrás) através da expansão para o Leste da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da expansão para Oeste do sistema de segurança norte-americano-japonês AMPO (com Coréia do Sul e Taiwan como membros de fato).
Além disso, os Estados Unidos pressionam para que Geórgia e Ucrânia sejam incluídas como membros da OTAN para aproximarem-se cada vez mais do coração da Rússia. Esta idéia foi rejeitada na última reunião da OTAN em um impulso de senso comum, e não por questão de princípios, por outros membros da organização. Aconteceu que, simplesmente, a situação ainda não estava madura para ceder à pressão norte-americana.
A mudança de regime na China é o número 7 dos 10 objetivos geopolíticos contidos no “Projeto para um novo século norte-americano”, que continua sendo um elemento-chave subjacente na política externa dos Estados Unidos. Washington, além de Ucrânia e Geórgia, também implementou funções militares no Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Tajiquistão, em conexão, segundo se afirma oficialmente, com a situação o Afeganistão e, genericamente, com a “guerra contra o terrorismo”. estes objetivos de curto prazo foram aceitos por dirigentes medíocres com o risco de transformar a região em uma zona de guerra na luta pelo poder na Ásia central.
Em síntese, o Cáucaso pode se converter em uma importante zona de guerra se a Guerra Fria II se intensificar, não com um confronto direto entre Washington e Moscou, mas com várias guerras locais “pelo poder”, como ocorreu durante a Guerra Fria I. Para mobilizar as duas partes, o conflito territorial de Nagorno-Karabaj (NK) deve ser mantido vivo como um caso não resolvido. Uma possibilidade para isso é que o Azerbaijão invada NK quando o petróleo o tiver deixado suficientemente rico para poder fazer caso omisso do resultado da última guerra nesse mesmo território. Desse modo se alimentará uma interminável cadeia de vinganças e represálias.
A Geórgia, agora em plena erupção, é um caso pontual. O Exército Vermelho funcionou antes com a tampa da caldeira que era a União Soviética. Quando essa tampa foi retirada, a caldeira vazou. Agora ocorre o mesmo na Geórgia. Ao serem retiradas as tampas das caldeiras de Abjasia e Ossétia do Sul (e da muçulmana Ajar) impuseram-se ali os movimentos de secessão e a rejeição à invasão cultural e econômica por parte da Geórgia, bem com a dependência política do governo georgiano. Por outro lado, as duas regiões estão muito próximas de Moscou, o que não significa necessariamente que querem se converter em parte da Rússia.
Quais são as soluções possíveis? A Geórgia como Estado unitário não tem possibilidades, exceto na propaganda nacionalista georgiana. Como federação as perspectivas seriam melhores, mas a opção mais viável poderia ser a criação de uma comunidade caucasiana integrada pelas quatro entidades. Algo semelhante pode ser aplicado ao ainda mais difícil conflito NK: qualquer tipo de paz deve respeitar os direitos armênios à autodeterminação e a igualdade das partes.
Trocar os direitos humanos dos armênios da NK pelo fluxo de petróleo pode parecer uma solução inteligente para os dois Estados, mas a paz a esse custo seria uma bomba de tempo pronta para explodir a qualquer momento. Além disso, preservar o status quo é injusto para os correspondentes povos e dividir NK deixaria as duas partes inviáveis e insustentáveis.

As ações viáveis poderiam incluir o seguinte:
- NK como um Estado independente obrigado a proteger suas minorias
- NK governado conjuntamente por Azerbaijão e Armênia
- Uma confederação, ou mesmo uma federação, Azerbaijão-NK-Armênia
- O Cáucaso em sua totalidade como uma confederação ou mesmo uma federação e NK como uma parte dela
- A integração de todas as partes da União Européia como uma federação de fato
A paz no Cáucaso implica o afastamento da esfera de influência das grandes potências e o compromisso com políticas caucasianas integradoras. As políticas atuais não conduzem à paz. Um governo georgiano que procura ganhar apoio popular ao reclamar “territórios perdidos”, esperando, ao mesmo tempo, obter o apoio dos Estados Unidos, não fez mais do que agravar a situação e possivelmente pode levar a um confronto maior ainda. São imprescindíveis, por outro lado, comportamentos dignos de estadistas.

* Johan Galtung, professor de Estudos sobre a Paz e fundador da Transcend, organização dedicada à pacificação e ao desenvolvimento (
http://www.transcend.org/tup).


Fonte:
Agência Carta Maior – 5/9/08.

5.9.08

Josué, um brasileiro

PATRUS ANANIAS


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Foi Josué de Castro quem primeiro disse o que milhares de brasileiros sabiam pelo árduo sacrifício diário: no Brasil, há fome
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HÁ PESSOAS que se destacam por sua história de envolvimento com seu povo, por um profundo amor que nutre por sua gente e por fazer da busca de soluções para os problemas coletivos dessa gente a sua razão de vida. Essas pessoas se vão, mas permanecem presentes, com seu legado, enraizadas na cultura do país, verdadeiras representantes de uma nacionalidade que se projeta para o mundo. Josué de Castro é uma dessas pessoas. Certa feita, outro notável brasileiro, o professor Milton Santos, ao se referir a ele, disse que um dos traços fundamentais de Josué era a clarividência. Uma clarividência, alertava, que se adquire não só pela intuição, "mas sobretudo pelo estudo". Destacava sua capacidade de ver "a parte do presente que se projeta no futuro". Josué de Castro era médico. Foi embaixador do Brasil na FAO até que a ditadura cassou seus direitos políticos. Mas foi principalmente um grande estudioso e conhecedor da geografia humana brasileira. Podemos dizer que foi ele quem primeiro disse o que milhares de brasileiros sabiam pelo árduo sacrifício diário: no Brasil, há fome. Para os que já sabiam, a denúncia de Josué significava que, pela primeira vez, o problema deles entrava para a pauta do Brasil que não passa fome, porque, até então, o tema era tabu, não só aqui, mas no mundo. E isso também Josué denunciou. Em trabalho publicado no final dos anos 1960 na revista "Civillitá delle Machine", Josué de Castro alertava que a fome não era um problema gerado pela explosão demográfica do pós-guerra e que existia bem antes disso. A carência alimentar, segundo pontuou, está ligada à concentração de bens, às dificuldades de acesso aos alimentos. Na sua observação perspicaz, o mundo só se voltava para o tema da fome a partir do pós-guerra por uma razão: "Não se falava do assunto que era vergonhoso: a fome era tabu". A fome, tratada por ele como "a expressão biológica de males sociológicos", havia sido estudada e denunciada por ele no seu livro "Geografia da Fome", publicado em 1946, marco dos estudos da área e até hoje uma referência aos estudiosos do tema, ficando como testemunho da clarividência percebida por Milton Santos. No ano em que celebramos o centenário de nascimento desse brasileiro Josué, lançamos, no Ministério do Desenvolvimento Social, o Prêmio Boas Práticas Josué de Castro, para incentivar políticas e iniciativas na área de segurança alimentar e nutricional de governos municipais e estaduais que se destacam no combate à fome e à desnutrição. Não por acaso, o prêmio é lançado durante a plenária do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar) no Recife, terra natal do nordestino Josué de Castro. A obra de Josué tem importância científica e social e provocou no país um movimento importante a partir da sociedade civil e, hoje, pelo compromisso assumido pelo presidente Lula com esse histórico de luta, o direito à alimentação é objeto de política pública. Foi ele quem pautou o assunto na nossa agenda nacional e abriu caminhos para que a alimentação entrasse no campo dos direitos, como estamos fazendo atualmente. A decisão do governo de articular políticas de várias áreas em torno da estratégia, intitulada Fome Zero, de facilitar e garantir o acesso à alimentação, sobretudo para a população mais pobre, integra o esforço de implementar uma política nacional de segurança alimentar e nutricional -um trabalho com desdobramentos e aperfeiçoamentos constantes. Em 2006, o presidente sancionou a Losan (Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional). Sensível ao tema, o Congresso foi ágil na apreciação e aprovação do projeto, elaborado pelo Executivo com valiosas contribuições do Consea. A lei é um avanço importante, pois prevê a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, reforçando a organização das políticas sociais em sistemas, com interlocução entre si, fortalecendo as políticas públicas. Nosso desejo é que as políticas que estão sendo criadas a partir dessa orientação governamental ou em torno de uma política nacional de segurança alimentar e nutricional ampliem as propostas de mudança em nossa sociedade preconizadas não só por Josué, mas por tantos brasileiros, como Herbert de Souza -Betinho-, dom Hélder Câmara, entre outros, anônimos ou não. Os cientistas costumam afirmar: "Se vi mais longe, foi porque estava sobre ombros de gigantes". Josué de Castro foi um desses gigantes que ora nos permitem enxergar mais alto e mais longe. E isso nos confere também o desafio e a responsabilidade de transformar em realidade o sonho de um país sem fome e mais justo. Estamos conseguindo.
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PATRUS ANANIAS, 56, advogado, é o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foi prefeito de Belo Horizonte (1993-1996).

Fonte: Folha de São Paulo – 05/09/08.

1.9.08

Quem pauta quem?

Lembro-me de que certa vez o nada saudoso Collor de Mello esbravejou, como era de seu costume, contra a imprensa que tentava pautá-lo, ou seja, direcionar suas ações e reações a partir do que publicava.
Pois bem, é isso que vemos no país hoje.
A Veja publica uma denúncia no final de semana, o Jornal Nacional repercute e na segunda-feira algum senador do PSDB ou do DEM pede uma CPI.
Nesta semana a coisa ficou pior, pois ao associar-se ao ministro do Habeas Corpus Miojo (mas só para o pessoal que tem conta no exterior) conseguiu pautar o presidente Lula.
Cautelosamente e cautelarmente, como gostam os nobres causídicos, o presidente afastou a cúpula da ABIN, inclusive o seu diretor, o ex-delegado da PF Paulo Lacerda, que, a meu ver, prestou excelentes serviços à nação no primeiro mandato do presidente Lula.
Estou apostando que se trata de mais uma mentira de Veja, assim como aquela denúncia das contas no exterior - Lula, Márcio Tomaz Bastos e o próprio Paulo Lacerda, dentre outros -, a grana das FARCs para a campanha do PT, os dólares de Cuba dentro de caixas de uísque e outras aleivosias da ditosa revista.
Sobre a guerra particular contra Paulo Lacerda compensa ler o último trabalho do Luis Nassif sobre o Caso Veja, é só clicar aqui.