31.8.06

31 de março de 1964, ou seria 1º de abril?

Ou seria 1 de abril? Não importa, mas não devemos apagar essa data da nossa história. As novas gerações têm o direito de saber o que significou a Ditadura Militar no nosso país.
Políticos, professores, juízes, padres, estudantes... Cassados, alguns, aqueles que ousaram combater com as mesmas armas, que optaram pela luta armada, também foram caçados.
Não podemos aceitar calados as manifestações do comandante do exército, como aquelas que foram publicadas no último 31 de março*.
Precisamos fazer como nossos vizinhos argentinos e criar uma “Comissão de Verdade”*.
Não se trata de revanchismo ou vingança, esses sentimentos não podem ser alimentados por uma nação, mas sim de sabermos o que aconteceu.
Que as famílias possam chorar os seus mortos, que os torturados possam se livrar de todos os medos e que os torturadores paguem por seus crimes.
Tenho lembranças de tempos tristes e de medo. Medo pelos nossos parentes que, de alguma forma, estavam na oposição, fosse no movimento estudantil, sindical ou político.
Tristes pela censura, pelas amarradas colocadas na sociedade civil.
O pior é sabermos que entidades como OAB, amplos setores da Igreja Católica, jornais como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, dentre muitos outros se colocaram ao lado dos golpistas.
Vejam que eu falo em golpistas e não revolucionários! Mesmo contando com o apoio da classe média inculta e da Igreja emprenhada de sentimentos medievais, precisaram das armas para calar setores significativos da sociedade.
Foi uma longa noite na nossa história. Tudo ficou pior com AI-5*.
Despertamos com o movimento estudantil em 77* e depois o sindicalismo comandado pelos metalúrgicos do ABC*.
Veio o movimento pela anistia* (1979), Diretas Já* (1984) e Assembléia Constituinte* (1986).
Sempre ponteados por tristezas imensas: Rio Centro*, atentados contra ABI, OAB*, CEBRAP*, assassinato de Wladimir Herzog* e do operário Manoel Fiel Filho*, dentre vários outros crimes, verdadeiras ações terroristas (de estado) que não podem e não devem ser esquecidas.

* Links para matérias que aprofundam os temas citados.
Clique aqui para ter acesso a versão dos militares.

30.8.06

Os sinais de uma aparente contradição

Por Muniz Sodré em 29/8/2006

"O eventual segundo governo de Lula, segundo as pesquisas de hoje, nasceria marcado por uma contradição aguda: teria fortíssimo apoio popular, forte rejeição da opinião pública, escassa base parlamentar e estaria cercado, como hoje, por uma oposição combativa e inconformada" (O Globo, 27/8)

A especulação acima, de Tereza Cruvinel em sua coluna diária, suscita grande interesse para a análise de mídia, não necessariamente pelo acerto ou desacerto da previsão, e sim pela "contradição", que transcende o caso de um candidato presidencial específico. De fato, contar com "fortíssimo apoio popular" e, ao mesmo tempo, ter "forte rejeição da opinião pública" levanta a questão importante de se conhecer a natureza do "público" que adjetiva essa opinião.
Na verdade, essa questão vem sendo levantada há algum tempo por autores diversos, que convergem para o diagnóstico de que tal "opinião" não passa de um novo tipo de controle social, atinente a um novo regime de visibilidade pública. Por exemplo, o sociólogo francês Patrick Champagne:
"O que existe não é a ‘opinião pública’ ou mesmo ‘a opinião avaliada pelas sondagens de opinião’, mas, de fato, um novo espaço social dominado por um certo número de agentes – profissionais das sondagens, cientistas políticos, conselheiros em comunicação e marketing político, jornalistas, etc. – que utilizam tecnologias modernas como a pesquisa por sondagem, computadores, rádio, televisão, etc.; é através destas que dão existência política autônoma a uma ‘opinião pública’ fabricada por eles próprios, limitando-se a analisá-la e manipulá-la e, em conseqüência, transformando profundamente a atividade política tal como é apresentada na televisão e pode ser vivida pelos próprios políticos".
Mas não existe aí nenhuma grande novidade. Há mais de 70 anos, Walter Lippman, um dos mais importantes jornalistas norte-americanos, dizia em livro que a idéia de uma opinião pública informada e capaz de decidir questões e ações seria, em grande parte, uma fantasia desejável, já que a tarefa de dirigir o país é realizada pelas elites. Evidentemente, essa fantasia é alimentada pelas crenças na participação democrática, garantida pelo conceito de representação, isto é, do regime parlamentar em sua atual concretização histórica. A representação popular seria constituída pela soma democrática das opiniões racionalmente traduzidas em votos.
No entanto, dissemina-se hoje o diagnóstico de que seria impossível construir formas de participação democrática a partir do conceito de representação. Continua-se a votar, sim, mas sem qualquer "ponta de verdade", por mera ilusão, como sugeria um editorial do jornal alemão Berliner Zeitung às vésperas de uma eleição nacional:
"Votar não é um ato ditado pela razão; é a expressão de um sentimento ou de uma ilusão, talvez de uma esperança" (l5/9/2005).

Debate escasso
Com argumentações diferentes, alguns analistas franceses terminam convergindo para essa mesma sentença negativa quanto à política. É o caso de Jean Baudrillard, ao longo de suas críticas aos dispositivos da modernidade ocidental. Não lhe escapa sequer o supostamente inatacável valor democrático:
"No momento atual, a democracia é uma forma social mais ou menos tão ancestral quanto a troca simbólica das sociedades primitivas. E nós sonhamos com ela da mesma forma. O político em geral continua a ser o sonho acordado das sociedades ocidentais – das sociedades exotéricas, onde tudo se manifesta pela técnica. O fenômeno é de tal amplitude que a militância da boa causa democrática, voltada para a reabilitação do se poderia chamar de "essência" do político, termina alimentando formas corruptas do social. A esfera econômica deixa cada vez mais claro que as grandes finalidades escapam à lógica do que se vem chamando de política."
Nesse quadro generalizado, não há como estranhar que a classe política se desligue não apenas das massas, mas também da própria sociedade civil, entendida com a organização da vida social em torno do trabalho. O que antes era debate público converte-se no espetáculo da pacificada imagem pública dos candidatos, ansiosos por compatibilizar-se com a cultura centrista do mercado e da mídia. Na televisão, dificilmente um candidato se arrisca à discussão de problemas candentes, e de difícil solução, a exemplo da corrupção dos políticos ou da criminalidade ascendente.
Em resumo, no espaço global da mídia, pode haver muita informação, mas escasso debate público, isto que, em suas formas vigorosas, foi sempre um requisito da transferência democrática das posições de poder.

Mestre-escola
Olhando-se bem de perto para esse conjunto de fenômenos, não parece tão aguda assim a contradição entre "fortíssimo apoio popular" e a rejeição da "opinião pública" a um candidato presidencial. Na orfandade da representação parlamentar, as massas sempre "souberam" (não por mera racionalidade cognitiva, mas por sentimento) com quem era oportuno estabelecer alianças. Já a "opinião pública" de agora parece não ser muito mais do que um curto-circuito parcial entre mídia e frações de classe média sensíveis (e com justa causa) ao desmoronamento da ética pública.
Talvez pela instintiva percepção disto o candidato à frente nas pesquisas (foi assim com FHC, é assim com Lula) recuse o "debate" televisivo. É a recusa de um nada: o fato de que a classe política tenha perdido o seu locus histórico de mediação das grandes questões coletivas não implica automaticamente que a televisão se torne o grande árbitro da discussão pública.
Tão desalentadora quanto a inaptidão dos candidatos para um debate verdadeiro é a postura de mestre-escola-de-centro-político dos apresentadores das redes de grande audiência, que apenas ratificam a subserviência dos políticos e lhes retiram, aos olhos dos eleitores, quaisquer perspectivas de dignidade decisória.

Publicado no Observatório da Imprensa em 29/8/06.

29.8.06

O fascismo de Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor sempre babou, mas está exagerando.
No seu comentário* de sexta-feira, 05/05/2006, na rádio CBN, Arnaldo Jabor chamou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de “leão de chácara de sauna gay”.
Disse que macho era Fidel, que pegou em armas, os outros são populistas de “bostas”.
Já o presidente da Bolívia foi chamado de “indiozinho Morales” e “índio cocaleiro”.
É desta maneira que Arnaldo Jabor se refere a dois presidentes de nações vizinhas, legitimamente eleitos, dentro das regras democráticas.
Como pode uma pessoa lançar tantos preconceitos, destilar tanto ódio xenófobo em apenas 3 minutos?
Ninguém processa esse cara pelos desatinos cometidos?
Será que logo vamos ouvir da sua boca de aluguel adjetivos como “negrinha Benedita”, ou “judeusinho Sobel”?
Concordar ou discordar, pela esquerda, pela direita ou pelo centro, é direito de cada um. Expressar-se livremente é uma garantia constitucional, agora falar as sandices que esse “cineasta” (que faliu junto com a Embrafilme, coincidentemente) anda proclamando por aí, faça-me o favor!

*clique aqui para entrar na coluna do Jabor e procure por "Lula está caindo no conto do vigário de Hugo Chávez".

Tv digital brasileira - do sonho ao ralo

Mauro Oliveira*

“Se foi pra desfazer por que é que fez?”
Vinícius de Morais

O que levaria um governo, nariz empinado, esperança de um novo tempo, a ter a ousadia de convocar a inteligência nacional para definir um modelo de TV digital que atendesse aos interesses sociais e econômicos do país para depois jogar todo o esforço pelo ralo sem mais (nem menos) justificativas?
O Brasil estaria muito próximo de definir-se por um padrão, a ser adotado de forma integral, desprezando o esforço acadêmico e a competência científica nacionais. Fala-se que, em 10 de março, o presidente Lula anunciará a escolha integral de um dos padrões internacionais para a TV digital brasileira, em detrimento de um modelo híbrido, o único que contemplaria os interesses da nação.
Os tucanos deixaram aos petistas a decisão sobre o futuro da TV digital brasileira. No lugar da simples escolha de um dos padrões existentes (americano, europeu e japonês), o atual governo teve a visão de instituir o SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital), um consórcio de pesquisa comissionado para o estudo e desenvolvimento de um modelo que atendesse aos interesses sociais, tecnológicos, culturais e econômicos da nação.
O interesse social estaria contemplado por um modelo que privilegiasse a interatividade, permitindo o uso de serviços digitais, possivelmente a Internet, promovendo ação efetiva de inclusão digital sem precedentes. O econômico vai desde a independência de um padrão e seus royalties associados à possibilidade de um modelo exportável de TV digital interativa, capaz de interessar grandes mercados emergentes com condições geográfico-sociais semelhantes às do Brasil. O tecnológico estaria na valorização da competência nacional, dando-lhe chance de se consolidar, por exemplo, no campo do software (midlleware e aplicativos). E o cultural no estímulo à produção de conteúdo pela criação de um mercado próprio.
Como dizem os professores Luiz Fernando Gomes Soares, da PUC-Rio, e Guido Lemos, da UFPB, em carta endereçada aos ministros responsáveis pela definição: “enganam-se aqueles que pensam que a adoção de um padrão estrangeiro não afetará a produção de conteúdos”.
Ao conduzirmos o SBTVD, durante quinze meses, adotamos a estratégia de manter aberto um amplo leque de alternativas, mesmo a de que o modelo brasileiro de TV digital viesse a convergir para uma das tecnologias já consolidadas, se tal atendesse aos nossos interesses. O que jamais contemplamos foi a possibilidade de adotar de forma dependente e subalterna a integralidade de qualquer desses padrões. Preservar um espaço para a contribuição tecnológica nacional e para, quando menos, a adaptação da tecnologia aos nossos interesses e necessidades, sempre foi tido como um parti pris lógico irrevogável.
O SBTVD, ao contrário do Sivam, decidido à revelia da inteligência nacional, é um sucesso de planejamento e implementação que seduziu a academia de Norte a Sul do país de Monteiro Lobato. Foram envolvidos mais de 1.500 pesquisadores e 80 instituições de pesquisa e desenvolvimento que laboraram por uma solução para a TV digital brasileira, sem xenofobia, mas com competência, orgulho e soberania.
Tal solução poderia envolver os sub-padrões internacionais estabelecidos, o que é próprio da tecnologia globalizada, a exemplo do que ocorre com os aviões da Embraer que se valem de turbinas, parafusos e o que mais seja preciso, fabricados alhures, sem que percam sua decisiva nacionalização. No mundo contemporâneo, o mercado das comunicações é tão ou mais importante do que o da aviação, assim como é o da tecnologia da informação e da comunicação.
O advento da TV digital é o que se chama de uma janela de oportunidade. Na lógica da sociedade do conhecimento, tão ou mais importante que o produto é a competência tecnológica que se adquire ao desenvolvê-lo. Podemos aqui repetir histórias de sucesso como as da Embraer, Petrobras e Embrapa, ou repetir erros crassos do passado, como quando sob altas pressões, baixos golpes e pesados lobbies internacionais adquirimos o Sivam que nossos técnicos e cientistas poderiam ter desenvolvido.
Que pressões e lobbies, todavia mais surdos, agora nos acometem? Que interesses impedem o governo de promover um amplo debate na sociedade, em assunto que diz tão de perto à vida de tantos? Que pressa o açoda, quando nenhum fato novo nos pressiona?
O seu Zé do açougue, a dona Maria da bodega e o seu Raimundo vigia podem não entender muito de tecnologia, política etc. Mas que ninguém duvide! Seu Zé, dona Maria e seu Raimundo, da mesma origem humilde de nosso presidente, que entendem muito bem a importância de uma Petrobrás, de uma Embraer, de uma Embrapa, entenderão o ralo ao qual poderá ser jogada uma oportunidade histórica, caso o governo Lula decida pela adoção integral de um dos padrões internacionais de TV Digital.
Já que os políticos ou não têm conhecimento de causa ou por ela não demonstraram o interesse devido, espera-se da academia, esta que apesar de prestigiada no SBTVD manteve-se calada até agora, exceto em raros momentos, soltar logo os “cachorros” para que não nos exponhamos, em 10 de março próximo ou em qualquer outra data, à advertência do poeta: “se foi pra desfazer por que é que fez?”
*Doutor em informática, ex-secretário nacional de Telecomunicações (até setembro/2005).

publicado em Nova-e e Ibase, dentre outras publicações, em março de 2006.

O caixa tucano foi condenado, você sabia?

Por Fábio Jammal Makhoul [14/3/2006]

(Revista Fórum - edição 36)
Enquanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fazia pose de estadista e chamava a ética do PT de corrupta na capa da revista IstoÉ, uma pequena nota no pé da quinta e última página da seção “A Semana” passava facilmente despercebida até mesmo para os leitores mais atentos. Embaixo de três notas necrológicas, o pequeno texto informava: “Condenados a 11 anos de prisão pela 12ª Vara Federal do Distrito Federal o ex-presidente do Banco do Brasil Paulo César Ximenes e seis ex-diretores dessa instituição. Eles foram acusados de gestão temerária devido a irregularidades em empréstimos feitos à construtora Encol entre 1994 e 1995. Na quarta-feira 1”.
Assim como IstoÉ, a grande imprensa não deu muita bola para o caso. Veja, por exemplo, considerou a condenação de toda uma diretoria do maior banco público do país nada importante e não dedicou uma linha a respeito do assunto. Os sete condenados formavam a diretoria colegiada do Banco do Brasil entre 1995 e 1998, com Ximenes no comando da instituição. Período que coincide com o primeiro mandato de FHC. Eles foram condenados em primeira instância por nove atos que caracterizam crimes de gestão temerária e de desvio de crédito ao emprestar dinheiro para a construtora Encol, que faliu em seguida e prejudicou milhares de mutuários. Os acusados foram considerados responsáveis, entre outros crimes, por aceitar certificados de dívida emitidos ilegalmente pela construtora e por prorrogar sistematicamente operações vencidas e não pagas.
(...)
O homem-bomba
A condenação de toda a diretoria colegiada do Banco do Brasil no primeiro mandato de FHC é a menor das preocupações do PSDB. O mais atemorizante é que, entre os condenados, um personagem se destaca. Trata-se do já conhecido Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do banco.
O economista ganhou notoriedade durante as privatizações promovidas por Fernando Henrique, especialmente nos casos da Companhia Vale do Rio Doce e do sistema Telebrás, dois dos maiores negócios do mundo. Em 1998, no episódio conhecido como “Grampo do BNDES”, Ricardo Sérgio foi destaque ao ser flagrado confessando como agiam ao costurar negócios para o leilão das teles: “no limite da irresponsabilidade”.
Caixa das campanhas de José Serra (1990 a 1996) e de Fernando Henrique (1994 e 1998), Ricardo Sérgio está envolvido em denúncias que vão desde pequenos problemas com a Receita Federal até a suposta cobrança de uma propina de R$ 15 milhões do empresário Benjamin Steinbruch, para favorecê-lo no leilão da Vale e prejudicar os fundos de pensão dos funcionários de estatais. O empresário teria dito, à época, que estava convencido de que Ricardo Sérgio falava em nome do PSDB e decidiu pagar a propina.
(Leia a íntegra da matéria na edição 36 da revista Fórum - já nas bancas)

27.8.06

As lendas da Internet

Preparando-me para encerrar o domingão e recebo quatro e-mails dando conta da demissão do jornalista Alexandre Garcia da Rede Globo. Isso por conta de um pronunciamento indignado que ele teria feito (clique aqui e veja o tal pronunciamento).
Eivado de preconceitos e de ataques imbecis à constituição coloca, por exemplo, a Lei de Execução Penal como sendo cláusula pétrea, o pronunciamento é uma amostra do péssimo jornalismo praticado pelo moço global.
Corri para o Google e lá encontrei o desmentido, vejam a nota no blog do Ricardo Anderaos.
Já que estamos falando do Alexandre Garcia não custa nada dar uma olhada na matéria Os recados da comunicação, assim a gente entende melhor quem é o dito cujo.
O jornalista serviu ao último ditador, o general João Figueiredo, aquele que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo.
Ele nem se envergonha disso, clique aqui e leia uma entrevista do referido tratando do tema.
Sugiro aos amigos e as amigas que quando receberem essas coisas pela Internet visitem o site www.quatrocantos.com antes de passar adiante.

Política e religião

Este é o título de uma das matérias da Istoé desta semana (clique aqui para ler a matéria).
Na capa uma matéria sobre o corpo da mulher, interessante, não fossem outros os assuntos a incomodar na última semana.
Parece que o noticiário político está sofrendo um eclipse permanente. Seria a falta de um bom escândalo?
Outra matéria interessante é a que trata do livro do jornalista Fernando Rodrigues, Políticos do Brasil (clique no título para acessar a matéria).


E não é que a Época tem capa semelhante? Aliás, esta discussão é recorrente: padrão de beleza, aonde essa ditadura vai nos levar?
Também apresenta matéria sobre o livro Políticos do Brasil (só para assinantes).
Imperdível está a matéria Hilário eleitoral gratuito (clique no título e veja a matéria), embora a crítica beire a irresponsabilidade não dá para não rir.

A Veja apresenta uma matéria sobre os perigos do açúcar na capa. Ótimo, como diabético, adorei! Parece que os tucanos do império dos Civita entregaram os pontos. Nada de revelações bombásticas sobre Lula ou políticos da base aliada. Tudo num grande marasmo, água com adoçante (para combinar com a capa da revista).

A CartaCapital apresenta a internet como destaque, com capa para os Quinze sites que mudaram o mundo. Claro que os textos de Mino Carta estão imperdíveis, só para variar, principalmente o “E agora, três em um”. Na Crônica tem um papo muito legal com a atriz Maria Alice Vergueiro, protagonista do curta “Tapa na Pantera”.
Fosse eu o Mino Carta teria mandado para a capa a matéria que trata de eleições e tem por título “A polícia Federal é trunfo de Lula e irrita oposição” (edição impressa).

25.8.06

Higienismo paulistano

A Revista Veja em sua edição 1938 de 11/1/06 traz uma verdadeira ode ao fascismo sob o título: A solução é derrubar. Na chamada da matéria explica: A prefeitura de São Paulo vai demolir a parte mais degradada do centro da cidade e oferecer os terrenos à iniciativa privada.
Como fecho de ouro para a matéria a repórter Camila Antunes desfere um ataque covarde a um dos sacerdotes mais dignos desta cidade: Padre Júlio Lancelotti, incansável batalhador ao lado do “povo da rua”.
Diversas personalidades têm manifestado seu repúdio a essa reportagem de encomenda de Veja.
Sim, de encomenda, uma vez que oferece total respaldo a atual gestão tucana, que se propõe limpar o centro. Limpar? Isso mesmo, eles consideram sujeira os pobres e miseráveis que por lá transitam e desvalorizam os imóveis do centro da cidade.
Como excelente contraponto convém uma leitura da matéria assinada por Natália Viana em Caros Amigos nº. 105 (dezembro/05): A “revitalização que degrada”. Trata do mesmo tema, mas preocupa-se em ouvir os principais interessados: os moradores de rua.
Interessante que não se ouve falar em operação para “revitalizar” o Jardim Ângela ou o Itaim Paulista.
Ainda com relação à matéria difamatória o Instituto Pólis publicou a seguinte nota:

“Repúdio à reportagem "A solução é derrubar", da revista Veja
O Instituto Pólis recorreu às associadas da Abong, no Estado de São Paulo, com a intenção de formar uma rede de repúdio à revista Veja. O motivo são os conteúdos anti-jornalísticos publicados nessa revista, como os trazidos pelo texto "A solução é derrubar", de Camila Antunes.
Julgamos o texto preconceituoso e violador dos Direitos Humanos, quando trata a população pobre como um "lixo a ser eliminado para o progresso do centro". Também concordamos que essa espécie de texto não pode ser considerado jornalístico, por fazer um ataque gratuito (pelo menos, sem fins jornalísticos) ao Padre Júlio Lancelotti e à população pobre do centro da cidade, além de violar uma série de itens do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.
Enumeramos algumas das violações ao Código, como exemplo:
1)Desrespeito ao direito à vida dos moradores de rua do centro – por incitar a retirada dessas pessoas do local, sem dar importância ao destino que terão;
2)Deixar de tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações divulgadas, chegando a generalizar os pobres do centro como “prostitutas, traficantes e contrabandistas”;
3)Neste texto, também fica evidente a sobreposição de valores humanos e sociais pelos interesses econômicos - a pobreza é colocada como a causa do “atraso” da região central e sua expulsão como a solução para o desenvolvimento da região.
O Instituto Pólis propõe que os cidadãos preocupados com o respeito aos Direitos Humanos e com a qualidade do jornalismo praticado em nosso país encaminhem à revista Veja uma carta de repúdio ao desserviço prestado por esse veículo à sociedade brasileira. Para isso basta escrever um e-mail para veja@abril.com.br com referência à matéria “A solução é derrubar”.”

Passem adiante, divulguem, importunem os “donos” da opinião pública, ou seria melhor chamar de “opinião publicada”?

Texto publicado em 21/1/2006.

A "grande" imprensa não vale o que escreve

Li no editorial da Folha de São Paulo do dia 3/12/05, sobre a crise Venezuelana, uma frase que reproduzo a seguir: “Sob a justa alegação de que o sistema de votação favorece o governo, três partidos de oposição desistiram de participar das eleições parlamentares na Venezuela, marcadas para amanhã.”
Fiquei muito intrigado. Tentei encontrar no texto informação que justificasse a opinião da Folha. Não encontrei. Até aí tudo bem, afinal o editorial não é lugar de informação, mas sim de opinião.
Resolvi então pesquisar nas edições anteriores um motivo que permitisse compreender o posicionamento da Folha.
Nem uma linha sequer de esclarecimentos, reportagens ou mesmo reprodução de matérias das agências noticiosas. Até que, no dia 30/11, no caderno Mundo, encontrei a seguinte manchete: “Oposicionistas têm vitória em órgão eleitoral”. Na curta matéria, assinada como “Da Redação” com colaboração das agências internacionais, informa-se que a oposição teve atendida por parte do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), sua principal reivindicação, que era a suspensão das máquinas de identificação digital.
Reproduzo a seguir parte do texto da reportagem:
“"Hoje foi uma vitória, o segredo do voto está garantido", disse o deputado oposicionista Gerardo Blyde, após sair de reunião no CNE. Ele também anunciou que o seu partido, o Primeiro Justiça, continua na disputa.”
Então voltemos ao início. Será que a Folha poderia responder aos seus leitores porque a tal alegação da oposição é justa?
O próprio editorial está eivado de posicionamentos ideológicos do jornal, o que considero legítimo, pois editorial serve pra isso mesmo. O que não posso aceitar é a sonegação da informação. Caso o leitor não queira compactuar da opinião da Folha, terá que, obrigatoriamente, buscar informação em outro lugar.
Assim, não dá pra continuar a ler o Folhão!

texto publicado em 24/12/2005.

24.8.06

Educação política

Vivemos uma crise na nossa sociedade.
Penso que essa crise tenha começado aí por volta de 1500. Agora ela está totalmente exposta, seja na política de alta rapinagem seja no cotidiano. Do deputado safado ao flanelinha que pratica extorsão, passando pelo árbitro de futebol que arruma os resultados dos jogos em benefício de alguns apostadores.
Não é, portanto uma crise política apenas.
Às vezes tenho a impressão que as pessoas que reclamam, a maioria pelo menos, o fazem por não se beneficiar das maracutaias.
Por outro lado percebo uma dificuldade muito grande em imputar as responsabilidades pertinentes, mesmo por parte daquelas pessoas razoavelmente informadas e com bom nível de educação formal.
A educação política acontece, prioritariamente, dentro dos sindicatos, partidos políticos, ONGs, associações comunitárias, centros acadêmicos, etc. e com o próprio amadurecimento do indivíduo. É fácil perceber, no entanto que o individualismo presente no nosso modo de vida afasta as pessoas dessas instituições participativas.
Entendo que a ação política, o exercício da cidadania, independe da escolarização, mas, por outro lado, sinto que a escola poderia contribuir decisivamente com a formação política dos nossos jovens.
Não no aspecto partidário, mas no conhecimento da Constituição, por exemplo, assim como dos demais aspectos legais da defesa do cidadão, do conjunto de deveres e direitos pertinentes ao exercício da cidadania, além da história dos partidos políticos, do sindicalismo, do movimento estudantil, enfim das inúmeras oportunidades que, ao longo da história, fizeram do povo protagonista do seu próprio destino, sem depender dos heróis, fabricados ou verdadeiros.
Talvez uma disciplina escolar, calcada nas relações interdisciplinares, que retome o que havia de bom numa matéria imposta pela ditadura militar, OSPB (Organização Social e Política Brasileira), que foi brilhantemente reformulada numa coleção didática escrita por Frei Betto.
Teríamos então um grande encontro da História e da Geografia, mediado pelo Português, com o apoio das outras disciplinas escolares para, num esforço conjunto, oferecer ao aluno possibilidades de leitura do mundo que o capacite ao pleno exercício de sua cidadania, entregando-lhe um arsenal adequado para a leitura da grande mídia sem cair na armadilha do sensacionalismo barato das notícias frugais.
Temas como crise política, reforma política, América Latina, ambiente, mídias, saúde (física, mental, sexual), enfim um amontoado de temas que, repito, em conjunto com as outras disciplinas escolares, poderia ser abordado de acordo com os anseios da comunidade escolar e do contexto que lhe diz respeito.
Claro que tal proposta não pode se distanciar de uma melhoria no sistema educacional, com melhores salários e capacitação para os profissionais envolvidos na sua execução.

23.8.06

Recordando algumas histórias do reinado tucano

Recebi, por e-mail, do amigo David Cechetti:

Como historiador estou mandando um resumo um pouco antigo. Não serve de forma alguma como justificativa, mas ajuda a nos lembrar que coisas piores foram praticadas por aqueles que hoje posam de éticos e atiram pedras.
Veja só:
Um estudioso de São Paulo, Altamiro Borges, recuperou brevemente a nossa memória política da década recente e a colocou na rede. O sociólogo Rogério Chaves enxugou o texto, que envio a vocês na esperança de que possa contribuir com o debate - e para que não esqueçamos dos anos tucanos-pefelistas (ainda tão recentes e precocemente esquecidos) e de que a campanha presidencial já começou.

- Sivam: Logo no início da gestão de FHC, denúncias de corrupção e tráfico de influências no contrato de US$ 1,4 bilhão para a criação do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) derrubaram um ministro e dois assessores presidenciais. Mas a CPI instalada no Congresso, após intensa pressão, foi esvaziada pelos aliados do governo e resultou apenas num relatório com informações requentadas ao Ministério Público.
- Pasta Rosa: Pouco depois, em agosto de 1995, eclodiu a crise dos bancos Econômico (BA), Mercantil (PE) e Comercial (SP). Através do Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro (Proer), FHC beneficiou com R$ 9,6 bilhões o Banco Econômico numa jogada política para favorecer o seu aliado ACM. A CPI instalada não durou cinco meses, justificou o "socorro" aos bancos quebrados e nem sequer averiguou o conteúdo de uma pasta rosa, que trazia o nome de 25 deputados subornados pelo Econômico.
- Precatórios: Em novembro de 1996 veio à tona a falcatrua no pagamento de títulos no Departamento de Estradas de Rodagem (Dner). Os beneficiados pela fraude pagavam 25% do valor destes precatórios para a quadrilha que comandava o esquema, resultando num prejuízo à União de quase R$ 3 bilhões. A sujeira resultou na extinção do órgão, mas os aliados de FHC impediram a criação da CPI para investigar o caso.
- Compra de votos: Em 1997, gravações telefônicas colocaram sob forte suspeita a aprovação da emenda constitucional que permitiria a reeleição de FHC. Os deputados Ronivon Santiago e João Maia, ambos do PFL do Acre, teriam recebido R$ 200 mil para votar a favor do projeto do governo. Eles renunciaram ao mandato e foram expulsos do partido, mas o pedido de uma CPI foi bombardeado pelos governistas.
- Desvalorização do real: Num nítido estelionato eleitoral, o governo promoveu a desvalorização do real no início de 1999. Para piorar, socorreu com R$ 1,6 bilhão os bancos Marka e FonteCidam - ambos com vínculos com tucanos de alta plumagem. A proposta de criação de uma CPI tramitou durante dois anos na Câmara Federal e foi arquivada por pressão da bancada governista.
- Privataria: Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas entre Luis Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações, e André Lara Resende, dirigente do banco. Eles articulavam o apoio a Previ, caixa de previdência do Banco do Brasil, para beneficiar o consórcio do banco Opportunity, que tinha como um dos donos o tucano Pérsio Árida. A negociata teve valor estimado de R$ 24 bilhões. Apesar do escândalo, FHC conseguiu evitar a instalação da CPI.
- CPI da Corrupção: Em 2001, chafurdando na lama, o governo ainda bloqueou a abertura de uma CPI para apurar todas as denúncias contra a sua triste gestão. Foram arrolados 28 casos de corrupção na esfera federal, que depois se concentraram nas falcatruas da Sudam, da privatização do sistema Telebrás e no envolvimento do ex-ministro Eduardo Jorge. A imundice no ninho tucano novamente ficou impune.
- Eduardo Jorge: Secretário-geral do presidente, Eduardo Jorge foi alvo de várias denúncias no reinado tucano: esquema de liberação de verbas no valor de R$ 169 milhões para o TRT-SP; montagem do caixa-dois para a reeleição de FHC; lobby para favorecer empresas de informática com contratos no valor de R$ 21,1 milhões só para a Montreal; e uso de recursos dos fundos de pensão no processo das privatizações. Nada foi apurado e hoje o sinistro aparece na mídia para criticar a "falta de ética" do governo Lula.

E apesar disto, FHC impediu qualquer apuração e sabotou todas as CPIs. Ele contou ainda com a ajuda do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que por isso foi batizado de "engavetador-geral". Dos 626 inquéritos instalados até maio de 2001, 242 foram engavetados e outros 217 foram arquivados. Estes envolviam 194 deputados, 33 senadores, 11 ministros e ex-ministros e em quatro o próprio FHC. Nada foi apurado, a mídia evitou o alarde e os tucanos ficaram intactos. Lula inclusive revelou há pouco que evitou reabrir tais investigações - deve estar arrependido dessa bondade!
Diferente do reinado tucano, o que é uma importante marca distintiva do atual governo, hoje existe maior seriedade na apuração das denúncias de corrupção. Tanto que o ministério da Justiça e sua Polícia Federal surgem nas pesquisas de opinião com alta credibilidade. Nesse curto período foram presas 1.234 pessoas, sendo 819 políticos, empresários, juízes, policiais e servidores acusados de vários esquemas de fraude - desde o superfaturamento na compra de derivados de sangue até a adulteração de leite em pó para escolas e creches. Ações de desvio do dinheiro público foram atacadas em 45 operações especiais da PF.
Já a Controladoria Geral da União, encabeçada pelo ministro Waldir Pires, fiscalizou até agora 681 áreas municipais e promoveu 6 mil auditorias em órgãos federais, que resultaram em 2.461 pedidos de apuração ao Tribunal de Contas da União. Apesar das bravatas de FHC, a Controladoria só passou a funcionar de fato no atual governo, que inclusive já efetivou 450 concursados para o trabalho de investigação. "A ação do governo do presidente Lula na luta decidida contra a corrupção marca uma nova fase na história da administração pública no país, porque ela é uma luta aberta contra a impunidade", garante Waldir Pires.
Diante de fatos irretocáveis, fica patente que a atual investida do PSDB-PFL não tem nada de ética. FHC, que orquestrou a recente eleição de Severino Cavalcanti para presidente da Câmara, tem interesses menos nobres nesse embate. Através da CPI dos Correios, o tucanato visa imobilizar o governo Lula e desgastar sua imagem, preparando o clima para a sucessão presidencial. De quebra, pode ainda ter como subproduto a privatização dos Correios, acelerando a tramitação do projeto de lei 1.491/99, interrompida pelo atual governo, que acaba com o monopólio estatal dos serviços postais.

Publicado em 11/9/05.

História de assombração

Morava em Varginha, antes da chegada do ET, e uma de nossas diversões prediletas eram as pescarias no Rio Verde.
Sempre havia um rancho (normalmente uma casa bem simples e com muitos improvisos) disponível, e íamos em grupo, normalmente para o fim de semana.
Além da linha, anzol, iscas, o sortimento era completado com cachaça, cerveja e baralho.
Numa destas pescarias, já tarde da noite e com o estoque de cachaça amplamente prejudicado, começamos a ouvir um barulho mais ou menos assim: toc-toc-toc...tsssiiiiii.
Apuramos os ouvidos, um por um da turma, e o barulho persistiu. Tomados pela coragem que só os bêbados possuem saímos em busca do som.
Reviramos a casa, o forno que ficava ao lado, os arbustos, o local onde estavam estacionados os carros e nada.
E lá estava o barulho, em algum lugar: toc-toc-toc...tsssiiiiii...um breve intervalo e de novo: toc-toc-toc...tsssiiiiii...
Aí veio o pânico, até que um dos integrantes, pouca coisa mais lúcido do que o os outros, sugeriu: - pode vir do rio, vamos todos juntos olhar! Tomou um lampião e saiu a frente do grupo, diga-se de passagem, o grupo todo, com exceção deste corajoso, já estava bastante reticente na busca.
Ao chegarmos à margem do rio, vimos um tronco caído, parte dentro e outra fora d'água. Em cima dele um pica-pau, mas a madeira era tão dura que quando o pica-pau fazia a sua arte, toc-toc-toc, o bico esquentava muito, então ele o colocava dentro d'água fazendo aquele barulho: tsssiiiiii...
Não era assombração e também não é mentira!

Texto publicado em 4/2/05.

Reeleição: pecado capital da democracia

Já comentei em outro texto a necessidade de uma reforma política profunda nesse nosso amado Brasil.
Hoje ouvi uma música do Zé Ramalho - O meu país - que mais parece um manifesto, ideal para este momento de desencanto e desilusão.
Pensando na música e no texto abaixo comecei a imaginar grandes manifestações populares, semelhantes àquelas ocorridas recentemente na Bolívia, pressionando o Congresso e o Poder Executivo para que seja realizada uma profunda e séria reforma política no país.
Entre os itens dessa reforma um seria essencial: o fim do coronelismo!
Tanto faz ser o coronelismo tradicional, dos grotões, como o coronelismo yuppie do PSDB ou o de "esquerda" do PT, todos devem receber um tiro de misericórdia definitivo.
Talvez uma das formas mais eficazes de por fim a essa chaga política seria a proibição da reeleição.
Todo político só poderia ocupar o mesmo cargo eletivo uma única vez, fosse do executivo ou legislativo.
Aí vem aquela pergunta: e se o vereador cumpriu um ótimo mandato?
Perfeito, ele será um excelente candidato a deputado federal!
E se o prefeito fez uma ótima administração em 4 anos?
Ótimo, temos um bom nome para governador, deputado federal ou senador!
E o presidente da república, com um ótimo desempenho nos seus 4 anos de mandato!
Esse viraria uma instituição nacional, respeitado e honrado, ocupando um cargo vitalício numa espécie de "Conselho Supremo da República", órgão consultivo do poder executivo, que atuaria para aconselhar os próximos presidentes, fazendo jus ao salário de "presidente aposentado".
Isso exigiria dos partidos políticos uma permanente renovação dos seus quadros e uma preparação política adequada destes.

22.8.06

A mãe de todas as crises

Crise! Esse é o termo mais utilizado na imprensa, nas mesas de bares, nas esquinas, enfim todos nós sabemos das crises. Podemos enumerá-las aos montes. Algum espertalhão da memória, desses que adoram programas de esporte e são capazes de recitar a escalação do São Bento de Sorocaba de 1959, mesmo que ainda não estivessem vivos, fará um game com o tema, ou um "Guia dos Curiosos" sobre as crises que nos atormentaram e atormentam desde o Império.
A da vez é a dos Correios. A revista Veja pegou um moço do terceiro escalão, dizendo que agia em nome de Roberto Jefferson (o comandante da tropa de choque do Collor) e fez o estardalhaço, remetendo a bomba para o colo do presidente Lula.
Não vou aqui defender o governo e menos ainda o PTB, conhecido pela defesa intransigente de Fernando Collor de Mello à época do impeachment.
Vamos aos fatos: a direita efeagaceana, com Veja e Folha de S.Paulo à frente, está louca para fabricar a "mãe de todas as crises", que levaria o príncipe dos sociólogos de novo ao poder.
Na verdade podemos procurar o endereço do nascedouro desta, assim como de outras crises no nosso sistema político.
Por isso a reforma política é tão urgente e necessária. Temos que dar um basta aos coronéis, antigos e novos. Não é possível assistirmos a tamanha transformação do PT, que abandonou os movimentos sociais em detrimento do jogo parlamentar. Vejam, até mesmo o PC do B, com seus ministérios e seus jogos legislativos tem se distanciado dos movimentos vivos.
A reforma política, para mudar nossa cultura, tem que enfrentar alguns problemas centrais:

- voto livre: exerce o direito quem quer, assim os partidos teriam que se preocupar com seus eleitores 24 horas por dia, 365 dias por ano! Essa medida poria a educação política à frente dos marqueteiros;
- financiamento de campanhas: não podemos mais ter financiadores privados, esse financiamento tem que ser público;
- listas partidárias: os votos deverão ser carreados para os partidos, ou seja, para um conjunto de idéias e propostas e não para o fulano ou sicrano;
- fidelidade partidária: se o eleito não comunga mais das idéias do partido que o elegeu tem todo o direito de ir embora, mas o mandato tem que ficar com o partido.

Esses mecanismos, a meu ver, poderiam transformar a cultura política do nosso país positivamente.
Resta saber se os políticos atuais toparão cometer haraquiri!

Texto publicado em 29/5/05.

Reencontros virtuais

Dentre as invenções da Internet uma me deixou bastante feliz: orkut!
Tenho reencontrado, virtualmente ainda, pessoas que não via há mais de 10 anos. Muitos ex-alunos, ex-colegas de profissão, além de algumas discussões muito boas em comunidades com algum teor acadêmico.
Sinto a ausência das pessoas com mais de 40 que não estejam, de alguma forma, vinculadas às novas tecnologias, isso faz com que os velhos amigos não apareçam nessa brincadeira tão interessante e que rapidamente envolveu muitos brasileiros que freqüentam a rede mundial.
Nesta semana uma ex-aluna, muito querida, e que me deu muito trabalho na quinta e sexta séries, me achou.
Ela não fazia tarefas, brincava o tempo todo, conversava que era uma beleza... Várias vezes tive que chamá-la à coordenação para uma conversa mais séria. Nesses momentos eu a ameaçava dizendo que ia convocar a mãe dela.
Quando eu mencionava essa hipótese a menina se descontrolava. Chorava, berrava, tremia toda, pedia que eu não fizesse isso, que se acontecesse ela seria muito castigada, etc. e tal.
Sinceramente eu temia pela saúde da menina se fizesse tal coisa. Ela era muito convincente. Cheguei a comentar com a coordenação se não seria o caso de acionarmos o Conselho Tutelar, evocarmos o Estatuto da Criança e do Adolescente, afinal a coisa deveria ser muito grave.
Um belo dia essa menina passou da conta. Morrendo de medo pedi à coordenação que convocasse a mãe até a escola.
Quando a menina soube disso foi um “show”! Chorou, esperneou, tremeu, me fez mil acusações. Já perdendo a paciência colocamos a mocinha na parede, afinal qual seria o castigo tão pavoroso?
Quando ela me disse o castigo, quase que eu lhe dou uns tapas. O castigo era tomar suco de beterraba todos os dias!
Professor tem que agüentar cada uma...

Texto publicado em 12/2/05.

20.8.06


Caros Amigos


Para quem ainda não conhece compensa dar uma passeada no saite: Caros Amigos.
A edição deste mês está supimpa, como diria vovó! Matérias sobre os ataques israelenses ao Líbano, entrevista com Nagashi Furukawa (ex-secretário do governo Alckmin) e a grande matéria da jornalista Marina Amaral, tratando dos bastidores da OPUS DEI: Os códigos da obra (clique no título para ler uma amostra da matéria).

19.8.06

Um dia inesquecível

Sempre guardamos alguns acontecimentos de maneira especial. A minha maior emoção foi o nascimento do meu filho. Indescritível!
Agora tem uma outra data que ficará na memória para sempre: 22/03/1980. Neste dia alguns amigos organizaram uma festa surpresa para comemorar os meus 18 anos, daquelas de não se esquecer para o resto da vida.
Morava em Varginha (pré-ET) e tinha um enorme grupo de amigos de escola, trabalho, teatro e tantas andanças por aquela cidade. Passei o meu aniversário em São Paulo, com meus pais e meus avós e logo depois retornei a Varginha.
Estranhei, pois ninguém me cumprimentou ou fez festa ao me ver.
Parecia que todos tinham esquecido da data. Isso era imperdoável para alguém como eu, sempre tão zeloso em distribuir alegria e tão presente na vida dos amigos. Fiquei muito triste, decepcionado mesmo! Era uma carência só.
Paulo, meu grande amigo, convidou-me então para o aniversário de sua irmã, como se o meu não tivesse existido! Que afronta. Tive vontade de dizer não, mas a possibilidade de encher a cara e posar de coitado me convenceu a ir.
Ele armou toda uma encenação, dizendo que algumas amigas de colégio também foram convidadas, e que nós iríamos buscá-las, etc. e tal.
Muito a contragosto fui com ele à casa de Delba, uma amiga muito querida.
Quando chegamos a casa, ela já estava à porta, pronta para sair. Veio com uma desculpa esfarrapada, que não poderia ir conosco, pois tinha o aniversário de um amigo muito importante e querido.
Vejam minha situação: relegado às traças, indo até a casa dela para encontrá-la e aí me vem com essa justificativa tola! Tive um chilique!
Ela então nos convidou para entrar, tomar uma água ou uma cerveja.
Quando entrei na casa da Delba e ela acendeu a luz, lá estavam todos, um montão de amigos, festejando-me.
Fui às lágrimas como de hábito.
O melhor ainda estava por vir.
Como só acontece em festas de colegiais, alguns amigos armaram toda uma situação para que eu vencesse a timidez e conseguisse me aproximar do meu primeiro amor.
Já havia me apaixonado antes, mas nunca como daquela vez.
Era uma mulher altiva, forte, de muita coragem, que sempre admirei, uma amiga de todas as horas.
Não era a menina mais bonita, mas quando ela sorria eu perdia completamente os sentidos.
Terminamos aquela noite um nos braços do outro, contando estrelas e roubando beijos, marcando o início de uma das melhores fases de minha vida, que mais tarde, como acontece com quase todos os seres do sexo masculino, atirei pela janela, mas aí já é outra história.
Abraços

Beijo

Gostaria de escrever hoje sobre o beijo.
Não o beijo apaixonado, anúncio e preâmbulo da paixão.
Trata-se do beijo entre homens.
A partir da minha adolescência comecei a freqüentar a casa dos meus avós maternos em Bauru, interior de São Paulo, e a tomar contato com uma quantidade de primos, primas, tios e tias.
Tornou-se comum reunirmos boa parte de nossa enorme família nos aniversários do meu avô, em junho. Assim fizemos até ele completar 90. Alguns meses depois ele faleceu.
Também era comum fazermos uma festa na passagem do ano, na casa do tio Juvenal (já citado por aqui em outro texto).
Era o momento de reunirmos os primos, amigos e demais parentes. A festa atravessava a madrugada e, por vezes, tinha seqüência num alentado almoço no primeiro dia do ano, sempre com muita cerveja e alegria.
Seu "Juva" sentia um imenso prazer em ver aquela reunião, por mais trabalho que aquilo proporcionasse.
Várias vezes, quando me despedia dele, sentia vontade de aplicar-lhe um sonoro beijo nas bochechas, mas a distância respeitosa, as reticências que possuímos com relação a determinadas manifestações (isso não é coisa pra macho!), sempre tolheram essa vontade.
Faz alguns anos ele caiu doente. Cada vez que nos encontrávamos ele estava mais debilitado, mas muito alegre por estar vivo. O carinho que sentia por ele só aumentava.
A maneira altiva como enfrentou a doença foi admirável.
Ano passado, por esta época, recebemos a notícia que ele piorara bastante.
Eu e minha irmã caçula, Sonia, resolvemos fazer uma rápida viagem até Bauru.
Nos preparamos para não demonstrar fraqueza perante os primos e fomos, esperando pelo pior.
Quando chegamos ao hospital ele estava surpreendentemente melhor. Consciente, embora com muitas dores. A doença já lhe colocava uma série de limitações.
Conversamos um pouco para não cansá-lo e prometemos vê-lo no outro dia, um sábado, na casa de uma de suas filhas, para onde ele iria ao sair do hospital.
Assim fizemos. Ao nos despedirmos, ele me fez um pedido:
- Antonio Carlos, posso lhe dar um beijo?
Como foi difícil não chorar.
Ele me beijou um muito carinho, eu retribuí com outro beijo e um abraço caloroso.
Alguns dias depois, em 23/1, ele nos deixou, descansou para sempre.
Hoje penso porquê não o abracei mais, o beijei mais, para que ele pudesse perceber todo o carinho que eu tinha por ele.
Estive em Bauru neste final de semana. Fui recebido pela minha tia e pelos meus primos com muito carinho, com muita alegria e também tristeza.
Ao despedir-me beijei cada um dos meus primos.
Assim farei de agora em diante com as pessoas que amo: não vou mais economizar beijos e abraços.

Texto publicado em 18/01/2005.

Bola fora na sala de aula

Essa vida no magistério nos faz colecionar muitas histórias. Por vezes não conseguimos separar claramente verdade da ficção, mas assim mesmo as histórias se multiplicam e ficam, a cada dia, mais engraçadas.
Tenho um amigo, professor de química, que é recordista em bola fora na sala de aula. Não vou citar o nome do camarada para evitar comprometimentos futuros.
Uma história ótima ocorreu no início de sua carreira. Assumiu as aulas num grande colégio aqui de São Paulo, no bairro da Aclimação e ao terminar o primeiro período de aulas, resolveu fazer graça. Entrou na sala dos professores, jogou os diários de classe em cima da mesa e perguntou:
- Quem será o infeliz que teve a coragem de colocar o nome na filha de Bruna Cacilda?
Imediatamente a diretora responde:
- É minha filha, aconteceu alguma coisa?
Ele de pronto:
- Nossa que nome forte, combina com ela que é uma beleza!
De outra vez, numa sala do colegial num colégio do Morumbi, ele pede:
- Gente fecha as janelas e liga o ar-condicionado, porque essa louca da outra escola já começou a chamar os alunos pelo alto-falante.
Imediatamente uma menina na primeira fila:
- Professor, não fala assim da minha mãe!
Nesse mesmo colégio, na sala dos professores durante o lanche:
- Quem foi o filho da puta que tirou o queijo e o presunto do sanduíche?
O dono da escola, que estava nos visitando responde:
- Eu!
O meu amigo mais do que depressa:
- Nossa, eu adoro pão sem nada, estou precisando de um regiminho mesmo!
Um outro colega, que leciona história, também é campeão.
Uma vez ele invocou com um garoto que não parava de rir durante a aula. Até que lá pela terceira ou quarta aula mandou:
- E você aí, por que esse sorriso idiota no canto da boca?
O aluno responde:
- É porquê eu tive um derrame professor.
Assim nos divertimos muito, além é claro das lendas que se criam, como uma que diz que eu acabava com os salgadinhos no lanche do COC - Morumbi.

Texto publicado em 19/01/2005.

CartaCapital imperdível!


CartaCapital está imperdível!
As reportagens disponíveis no portal estão em quantidade generosa.
As colunas on-line também, especialmente A Semana. As opiniões, sensatas e corajosas de Mino Carta enchem de brios aqueles que ainda teimam em amar este país. Nem sempre concordo com elas, mas isso não vem ao caso.
Imperdível a coluna Linha de Frente, semana após semana a vitalidade e a qualidade das análises de Walter Fanganiello Maierovitch surpreendem e despejam luz sobre a escuridão do crime organizado.
Nesta edição uma entrevista com o escritor Ferréz, na seção Protagonista, audição obrigatória!


A VEJA gasta boa parte da matéria principal destacando o botox do Lula (clique aqui para ler a matéria). Como sempre o panfleto neoliberal prima pela aparência em detrimento da essência. Tantas coisas para serem criticadas nesse governo e ela preocupada com a aparência do Lula, com direito às fotos do Lula metalúrgico, Lula 1989, Lula 2001 e Lula 2006.
No mais aquele velho ódio contra Cuba e uma boa chamada (matéria só para assinantes): O Corruptor, algo estranho na nossa mídia, ela sempre aponta só os corrompidos, na ansiedade de mostras as mazelas do Estado.
Compensa uma visita ao destaque “Conheça o país – Israel” , principalmente no “Arquivo Veja”, ali tem uma matéria de janeiro de 1969, ótima!


Época apresenta na capa “as 100 melhores empresas para trabalhar”, clique aqui para ler o trecho da reportagem disponível no portal da revista.
Uma matéria excelente, que me chamou a atenção no portal, foi A última falante viva de xipaia, tratando da extinção de uma língua indígena.


A Ist apresenta uma capa instigante: Por que eles querem a cadeira de presidente, mas a matéria deixa a desejar. Assunto para páginas e páginas, ou até mesmo uma edição especial, com comparações e análises, esgota-se em parcas linhas, com idéias gerais de cada um dos candidatos, de forma superficial, sobre temas propostos pela reportagem, com as respostas apresentadas numa “janela” separada, com aproximadamente um parágrafo para cada candidato.

"Mas isso é um disparate!"

Pessoal,
faz alguns dias recebi o link para um vídeo mostrando uma entrevista da Sky News com um deputado britânico. O centro da entrevista era o enfrentamento entre Israel e o Hezbolá.
Se você quer assistir o tal vídeo clique aqui.
Logo em seguida recebi a transcrição da entrevista (ou seria debate?), enviada pelo amigo Marco Antônio, que reproduzo abaixo.
Boa leitura!
Georges Galloway, entrevistado pela Sky News (Jerusalém)

Jornalista: O homem que temos hoje conosco não tem por hábito guardar as suas opiniões para si próprio. Opôs-se com determinação à invasão do Iraque e atualmente defende que o ataque do Hezbollah contra Israel se justifica; o deputado do Respect (um partido político) de Bethnal Green (Londres) está conosco no nosso estúdio no centro de Londres. Boa noite… ou, aliás, bom dia Sr. Galloway. Como é que o senhor justifica o seu apoio ao Hezbollah e ao seu líder, Cheikh Hassan Nasrallah?
Deputado Galloway: Que disparate! Que absurdo! Que maneira tão estúpida de expor o assunto e que pergunta tão falsa e idiota! Há 24 anos, no dia do nascimento da minha filha, corria eu para a maternidade para vê-la nascer, por entre uma enorme manifestação em Londres contra a invasão e a ocupação israelense do Líbano. Israel invadiu e ocupou o Líbano durante toda a vida da minha filha, 24 anos. O Hezbollah faz parte da resistência nacional do Líbano e tenta expulsar Israel do resto das suas terras e resgatar milhares de prisioneiros libaneses que foram seqüestrados por Israel nos termos da sua ocupação ilegal do Líbano. É Israel que ocupa o Líbano, é Israel que ataca o Líbano, não é o Líbano que ataca Israel. Vocês acabam de passar uma reportagem em que 10 soldados se apressaram em invadir o Líbano e pedem-nos para chorar o resultado da operação, como se tratasse de um crime de guerra (Nota do Tradutor: os soldados israelenses foram mortos). Israel está invadindo o Líbano e matou 30 vezes mais civis libaneses…
Jornalista: (tentando interrompê-lo) Você acaba de identificar…
Deputado Galloway: (tomando de novo a palavra com vigor)… que não foram mortos em Israel. Parece-me que você deveria justificar o preconceito evidente que está escrito em todas as linhas do seu rosto e inscrito em todas as nuances da sua voz e que contamina todas as perguntas que faz.
Jornalista: Você tocou na questão essencial, não é assim? Quando diz que o Hezbollah foi criado nos anos 80 para se livrar dos soldados israelenses que estavam presentes no solo libanês, e como disse agora isso foi feito, também, já em 2000…
Deputado Galloway: Não, isso não foi feito…
Jornalista: (interrompendo)… Então, isso foi um fracasso…
Deputado Galloway: Não, isso não foi feito, e esse é um aspecto essencial que vocês escondem aos seus telespectadores. Israel foi obrigado a deixar uma grande parte do Sul do Líbano em 2000, mas continua a ocupar parte do Líbano desde 2000…
Jornalista: (interrompendo)… O objeto de uma recente resolução da ONU são terras de cultivo…
Deputado Galloway: (continuando)… Milhares de prisioneiros foram seqüestrados por Israel, e o Hezbollah, bem como o Governo libanês querem que eles sejam libertados…
Jornalista: (interrompendo)… Falei há instantes com o porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros israelense e ele disse que três libaneses foram “capturados”, talvez você prefira este termo, e que serão levados perante um juiz num tribunal.
Deputado Galloway: Por favor! Tente fazer a sua memória recuar além de 4 semanas! Eu estou lhe falando de milhares de prisioneiros seqüestrados durante os 18 anos de ocupação ilegal do Sul do Líbano por Israel. São esses prisioneiros que devem ser libertados em troca dos soldados israelenses que foram capturados no início desta nova etapa da crise.
Jornalista: Posso questioná-lo sobre uma reportagem que saiu no Sunday Telegraph em que se afirma que o Irã deu ao Hezbollah mísseis de longo alcance capazes de atingir qualquer parte de Israel? O Irã, que segundo esse deputado iraniano, ajudou a fundar o Hezbollah… esse deputado disse ainda que o Irã desse autorização à organização para atingir Tel-Aviv… Acha que pode culpar Israel por querer destruir esses mísseis?
Deputado Galloway: Mas é incrível! Isso é completamente absurdo! Os Estados Unidos deram a Israel mísseis que podem atingir, não apenas qualquer cidade do Líbano, mas sim qualquer cidade em todo o mundo árabe incluindo o Irã. Por que razão os Estados Unidos têm direito de dar mísseis de longo alcance, incluindo centenas de cabeças nucleares, a Israel, e o Irã não pode ser autorizado a fornecer mísseis? …
Jornalista: (interrompendo)… Porque os estão dando a uma organização terrorista!
Deputado Galloway: Mas ela não é uma organização terrorista, a não ser na visão da SKY News, do The Times, do The Sun…
Jornalista: Não, não, isso não é assim… Desculpe, mas vou ter de interrompê-lo Sr. Galloway…
Deputado Galloway: (ele continua)… do The News of the World de Rupert Murdoch. O Hezbollah não é uma organização terrorista, é Israel que é um Estado terrorista!
Jornalista: É uma organização terrorista, sim. Mas aqueles que são terroristas para uns, são combatentes da liberdade para outros… isso já se sabe! Aos olhos da maior parte das pessoas, eles são considerados terroristas…
Deputado Galloway: Não. Eles não são!
Jornalista: Eles tinham escolha, não é assim? Diga-se a verdade, eles tinham opção, tal como o IRA, de fazer política…
Deputado Galloway: Não, não, não, isso não tem nada a ver com o IRA! Escute Ana, você tem razão, você tem razão…
Jornalista: (interrompendo-o) O que eu estou dizendo é que eles tinham uma opção: fazer política, eles já têm dois ministros no Governo…
Deputado Galloway: Não vamos mais discutir este assunto! Ana, você tem razão, aquele que é um terrorista para uns, é um combatente da paz para outros… No entanto, não tem razão quando diz que aos olhos da maior parte das pessoas, o Hezbollah é terrorista. Aos olhos da maior parte das pessoas, Israel é um Estado terrorista, e é isso que você não consegue compreender… e que está na origem do seu preconceito urdido em todas as suas reportagens e em todas as perguntas que me fez nesta entrevista.
Jornalista: … Posso lhe fazer uma pergunta? … Eu fazia alusão ao IRA e ao Sinn Fein que decidiram abraçar a política; o Hezbollah tinha a oportunidade de abraçar a política, eles já têm dois ministros no Governo, muito bem vistos no Sul…
Deputado Galloway: (ele interrompe-a) Mas o que é que está dizendo? Eles já fazem parte da política! São pessoas do Sul do Líbano…
Jornalista: Era o que dizia… Escute-me! Eu dizia que eles já têm dois ministros no Governo. Por que razão é que eles capturaram e mataram dois soldados israelenses na fronteira? Certamente isso representa um fracasso na ambição que eles têm de se tornarem uma força política no interior do Líbano democrático…
Deputado Galloway: Porque Israel ocupa o país deles e detém milhares dos seus compatriotas, como reféns seqüestrados, nos seus calabouços. É muito simples de compreender, a não ser que se pense através de um relógio que remonta a apenas quatro semanas… Se você soubesse, e você já é suficientemente crescida para estar mais bem informada, que as origens destes conflitos não remontam a quatro semanas, nem a quatro anos, nem a catorze anos, mas a vários decênios. Vocês querem que as pessoas acreditem que a crise se iniciou quando o relógio começou a trabalhar na SKY News…
Jornalista: Não, não é assim…
Deputado Galloway:… Felizmente, os libaneses estão mais bem informados.
Jornalista: Queria fazer-lhe uma última pergunta. Acha que as quatro semanas, como se referiu os 26 dias do conflito, retardaram as ambições do Hezbollah…
Deputado Galloway: (Galloway sorri) O Hezbollah está prestes a ganhar a guerra!
Jornalista:… Deixe-me terminar, deixe-me terminar, deixa-me terminar, ou não? Há um grande número de soldados israelenses na fronteira, e eles (o Hezbollah) pretendem ser uma boa organização política para construir um governo libanês democrático com uma (…) que deixou igualmente um estado independente, isso também perpetrou as agressões…
Deputado Galloway: Que pergunta idiota! Como você é tola! O Hezbollah está prestes a ganhar a guerra! Pode ver isso na segunda metade da tela que vocês estão exibindo!
Jornalista: Essa não é a minha pergunta!
Deputado Galloway: O Hezbollah é hoje mais popular no Líbano entre os cristãos, os sunitas, os xiitas, entre todos os árabes, entre todos os muçulmanos, como nunca foi antes! Foi Israel que perdeu a guerra, e com ele, Bush e Blair, por terem organizado esta guerra politicamente. Eles perderam do ponto de vista político. Esta é uma derrota para Bush, para Blair e para Israel, só você é que não vê isso!
Jornalista: Deixe-me retomar a minha pergunta de há pouco… não acha que é um fracasso, dado que o Hezbollah foi criado para retirar os soldados israelenses do território libanês, que agora ele tenha mais soldados israelenses no território libanês do que há vinte dias atrás?
Deputado Galloway: Em todo o caso, parece-me que eles estão recebendo uma boa surra sagrada na outra parte da tela que estou vendo. Talvez você não consiga ver, mas eu estou vendo que eles estão sendo bem fustigados nesta guerra… Se isso é uma vitória, não sei o que se pareceria com uma derrota… A verdade é que este conflito se vai perpetuar. As resoluções das Nações Unidas não regulamentam nada. Não dão nada ao Líbano, não dão nada aos prisioneiros das masmorras israelenses, e como um dos meus pares já chamou a atenção, Israel acaba de capturar ainda mais personalidades políticas palestinas: ministros, deputados e milhares de outros continuam retidos nos calabouços israelenses, e esta guerra vai continuar até que se chegue a um acordo, e esse acordo significa: a retirada de Israel de todos os territórios usurpados que ocupa atualmente desde a guerra de 1967, a libertação de todos os prisioneiros políticos, bem como um Estado palestino tendo por capital Jerusalém Leste. Não há justiça, não há paz! Não ficará sem trabalho tão de pressa nenhum jornalista em Jerusalém, acredite!
Jornalista: Como de costume, o Sr. Galloway provocou uma enorme reação via e-mail, tanto a favor como contra si. Vamos acabar por aqui, mas devo dizer-lhe que muitas pessoas acharam as suas declarações chocantes, pois se encontram ainda enterrando os seus mortos e ouviram-no dizer que isto era uma boa fustigação sagrada…
Deputado Galloway: Vocês querem lá saber disso! Vocês não sabem nada das famílias palestinas. Vocês nem sequer sabem que elas existem! Dê-me um único nome de um único membro daquela família de sete pessoas que foram massacradas na praia de Gaza por um navio de guerra israelense! Vocês nem os nomes delas sabem, mas sabem perfeitamente todos os nomes de cada soldado israelense que foi feito prisioneiro durante este conflito, porque acreditam, consciente ou inconscientemente, que o sangue israelense é mais importante do que o sangue dos libaneses ou dos palestinos. É essa a verdade, mas o discernimento dos seus telespectadores já o sabe.

16.8.06

As revistas semanais

A Istoé destaca as doenças da vaidade, tema muito pertinente em razão da epidemia de top models e dos sonhos de beleza corporal da geração atual.
No campo da política apresenta matéria o secretário de (in) segurança pública de São Paulo, mais parecida com um mini-palanque, pois não vai ao fundo da questão. Não discute os 6 anos de gestão desastrosa da segurança pública em São Paulo, não pergunta sobre as sucessivas mentiras que ele conta (só sobre o fim do PCC já deve ter sido umas três), enfim, o tal jornalismo declatório, que nada soma para a informação e formação leitor.



A Veja têm no destaque o eleitorado do Nordeste (clique aqui para ler a matéria). Apresenta dados elaborados pelo DataFolha, aparentemente consistentes, mas no texto escorrega. Não consegue esconder sua predileção, embora sem assumir por inteiro seu candidato.
Leia o trecho retirado do texto principal:
“Os estudiosos de pesquisas são unânimes em dizer que o tucano deve crescer no eleitorado nordestino já a partir desta semana, quando estréia o horário eleitoral gratuito. Afinal, cerca de 50% dos eleitores da região mal ouviram falar no tucano. Com os programas na TV, esse índice tende a cair, e é razoável supor que parte dos que venham a conhecer o candidato escolha votar nele.”
Eu só queria saber por quê. Quer dizer que quem não vota no picolé de chuchu não o faz por não conhecê-lo? Faça-me o favor!

A Época coloca Heloísa Helena na capa. No trecho on-line (clique aqui para ler) a revista é muito generosa, com a vantagem de colocar link para a entrevista que ela concedeu ao Jornal Nacional. Esse negócio de fotos com gatinhos e cachorrinhos não me soam bem. Será mais uma página da produção HH?






Já a revista CartaCapital oferece sua capa à pesquisa eleitoral, mostrando a diferença entre Lula, Alckmin e HH. Clique aqui para ler um trecho da matéria.
Faz uma análise diferente daquela de Veja sobre esse voto de origem pobre dado a Lula.
Imperdível a coluna de Walter Fanganiello Maierovitch, tratando do PCC e das bravatas do secretário de segurança pública do Estado de São Paulo. Ótimo contraponto para a matéria da Istoé.