31.1.08

Os cartões corporativos

A nova coqueluche da mídia é o uso dos cartões corporativos, particularmente dos ministros Matilde Ribeiro (Igualdade Racial), Orlando Silva (Esportes) e Altemir Gregolin (Pesca).
Clique aqui e leia o que publicou hoje a Folha Online sobre o tema. Aqui o publicado pela Revista Época. A Revista Veja aborda o tema aqui. Já a Agência Brasil (oficial – Radiobrás) aqui, não esqueça de ler os links laterais.
Questões de fundo, que os repórteres não perguntaram aos ministros Paulo Bernardo e Jorge Hage, que deram coletiva sobre o tema hoje (embora eles tenham respondido algumas assim mesmo):
1) Quem inventou essa história de cartão corporativo e para que serve?
2) Quais as regras para usá-lo e quais as situações de impedimento?
3) Facilita ou dificulta o controle sobre as despesas públicas?
4) Todas as informações podem ser consultadas livremente por qualquer cidadão?
E algumas outras ainda caberiam.
Assisti esta entrevista pela Record News e na lembrança ficaram as seguintes informações:
- O cartão corporativo melhorou o controle de despesas do governo.
- Comparando as despesas semelhantes do ano de 2001, quando os cartões começaram a ser implantados, com as de hoje, percebe-se uma boa redução das mesmas.
- Os controles são tão transparentes que permitiu à imprensa levantar o que ela aponta como excessos de alguns servidores, funcionários de carreira ou ministros.
- A CGU investiga o sistematicamente o uso de cartões e quando encontra movimentos inexplicáveis remete relatório para o TCU.
Isso foi o que ficou de mais importante, além da percepção da burrice latente de muitos jornalistas, incapazes de entender o que falava o ministro Paulo Bernardes, claro e simples na comunicação – ou desejosos de aparecer em rede nacional.
Pelo que li na imprensa é claro que temos abusos, pontuais, dado o número de cartões em uso. Que se investigue!

30.1.08

Luis Nassif desvenda o fenômeno Veja

Todos os leitores deste humilde blog conhecem a admiração e o respeito que tenho por Luis Nassif. Ele nos brinda agora com uma série de análise decifrando para nós, leigos e não iniciados na arte da manipulação, como a revista Veja chegou ao atual estágio de degradação jornalística. Ela só consegue manter-se entre as maiores publicações do país em razão da baixa qualificação intelectual da nossa classe média, suspeito eu que é a mesma turma que garante audiência para os tais BBB.
Leiam o texto que reproduzo abaixo e não deixem de clicar no link final, com paciência para fazer a leitura completa.


O fenômeno Veja
http://www.projetobr.com.br/blog/5.html

Recentemente, estimulei uma competição com um blogueiro da revista – contratado especificamente para atacar os adversários de Veja. Havia duas razões relevantes para tanto.
Primeiro, para demonstrar que, com a Internet, cessou o predomínio das grandes publicações. É possível, mesmo sem ter um grande órgão da imprensa tradicional por trás, mobilizar pessoas para esse trabalho cooperativo, de disseminar informações. É o verdadeiro trabalho em rede, no qual – graças à Internet – cada pessoa dá sua colaboração, pegando as informações e levando para seus círculos de conhecidos.
Segundo, para que essa rede, formada nesse período, ajude a dar visibilidade a essas reportagens que passo a publicar.
Não será um desafio fácil. Estaremos enfrentando o esquema mais barra-pesada que apareceu na imprensa brasileira nas últimas décadas. E montado em cima de um tanque de guerra: uma publicação com mais de um milhão de exemplares.
Tenho convicção de que a força do jornalismo e do trabalho em rede permitirão decifrar o enigma Veja. Para tanto, conto com a mobilização de todos vocês. Não se trata mais de um mero exercício esportivo de aquecer uma eleição de Blog. Trata-se, agora, de uma questão nacional que, tenho certeza, ajudará a reabilitar o exercício do jornalismo, mesmo na grande imprensa.

O macartismo e o jornalismo de negócios
O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico.
Para entender o que se passou com a revista nesse período, é necessário juntar um conjunto de peças.
O primeiro, são as mudanças estruturais que a mídia vem atravessando em todo mundo.
O segundo, a maneira como esses processos se refletiram na crise política brasileira e nas grandes disputas empresariais, a partir do advento dos banqueiros de negócio que sobem à cena política e econômica na última década.
O terceiro, as características específicas da revista Veja, e as mudanças pelas quais passou nos últimos anos.
A partir de agora, e nos próximos dias, publicarei, em capítulos, a história que tenta explicar esse fenômeno de anti-jornalismo.
No capítulo 1 – "Os Momentos de Catarse e a Mídia" – analisam-se as pré-condições que abriram espaço para o estilo que tomou conta da revista nos últimos anos.
No capítulo 2 – "A Mudança de Comando", o que significou a ascensão de Eurípides Alcântara e Mário Sabino ao comando da revista de maior circulação do país. Clique aqui.
O endereço para acessar as matérias é
http://luis.nassif.googlepages.com/home. Ou clicando
aqui.
A partir dessa página se terá acesso aos capítulos que serão publicados.

28.1.08

Igual, só que bem diferente

Sempre que as aulas começam me dá um tremendo frio na barriga, um tremor, como nos velhos tempos, quando ainda pensava em ser ator e a cortina estava prestes a se abrir.
Será assim na quarta-feira, quando as aulas começarem, precedidas de uma noite sem dormir.
Este será o primeiro dia de aula no Pueri Domus, unidade Verbo Divino.
Hoje foi o primeiro dia, não de aula, mas de encontro com alunos, pais, mães, colegas e diretores de uma outra unidade do Pueri Domus, a Crescer Sempre.
Essa escola é diferente!
Trata-se de um projeto da Associação Crescer Sempre (clique aqui para conhecê-la), instituição presente em Paraisópolis desde 1998, lidando com educação infantil e outros segmentos.
A Crescer Sempre é mantida pela Porto Seguros Seguradora e resolveu apostar no ensino médio. Para isso escolheu o Pueri Domus, dentre diversas outras escolas avaliadas, para implantar um curso de Ensino Médio voltado para a comunidade.
Depois do processo de seleção e entrevistas escolhemos 35 alunos que, ao cabo de três anos, esperamos possibilitar-lhes uma ótima formação, propiciando a estes meninos e meninas uma melhor condição para que façam suas escolhas e trilhem um bom caminho.
Nosso desejo é vê-los entrar nas Universidades, nas melhores, e depois que devolvam um pouco das suas conquistas para a melhoria da própria comunidade.
Foi esta a missão que recebemos da Crescer Sempre, imaginem as emoções reservadas para essa estréia!
Sinto-me orgulhoso de pertencer ao grupo de professores que tocará esse projeto e muito ansioso pelos resultados e pelo sucesso desses moços e moças que teremos como alunos!

27.1.08

Os colegas historiadores têm a palavra

A revista Istoé apresenta uma entrevista no mínimo polêmica, com o historiador João Fragoso da UFRJ.
Abaixo um trecho dela:


''O problema não é só a elite''
Professor da UFRJ diz que escravos também foram responsáveis pela escravidão e que o marxismo prejudicou o estudo dos ricos

Por FRANCISCO ALVES FILHO


Apesar da personalidade tímida e do jeito afável, o historiador carioca João Fragoso, 49 anos, não tem medo de enfrentar grandes polêmicas. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele tem causado controvérsia por classificar como superadas muitas das idéias de ninguém menos do que Karl Marx. Mesmo formado no marxismo, corrente majoritária no ensino de história na década de 70, ele entende que vários postulados do intelectual alemão se esgotaram. “Não há mais cabimento considerar que somos apenas robôs inseridos em grandes estruturas, como o capitalismo ou o feudalismo”, critica Fragoso. “Por trás dessa alegoria há pessoas com alma e vontade própria.” Sua posição lhe rende vários ataques, vindos principalmente de seus colegas da Universidade de São Paulo (USP), onde o marxismo é tido como parâmetro fundamental para entender a sociedade.
Outro vespeiro é seu tema preferencial de estudos: a elite brasileira no período colonial. “Descobri que havia muitas pesquisas sobre escravos e operários, mas quase nada sobre as elites”, explica. O historiador carioca escreveu sete livros e seu artigo Fidalgos e parentes de pretos está incluído no livro Conquistadores & negociantes, recém-lançado pela editora Civilização Brasileira. Sua linha de pesquisa leva a conclusões que dão combustível para discussões acaloradas. Ele contesta, por exemplo, que as elites brasileiras sejam o grande vilão das mazelas sociais do Brasil. “Nós e a elite somos cúmplices de nossa história”, corrige. Nessa linha de raciocínio, é capaz de afirmações explosivas, como uma das que soltou na entrevista à ISTOÉ: “O escravo também foi responsável pela escravidão.” Ele não liga para uma possível reação de acadêmicos. “O debate é saudável e a academia é o melhor lugar para isso.”


Para leitura de toda a entrevista é só clicar aqui.

26.1.08

Entraves na Reforma Agrária

A edição 480 da revista CartaCapital nos brinda com um texto magistral tratando da Reforma Agrária.
O título da matéria é repetido pelos meus alunos ano após ano. Sempre que trata da questão agrária começo com um documentário maravilhoso: Terra para Rose (clique aqui para saber mais sobre ele). Num dado momento os parlamentares são ouvidos, isso na época da Constituinte. Parlamentares de esquerda, centro e direita. Todos, de forma unânime, são favoráveis à Reforma Agrária. Neste trecho dos documentários a pergunta é sempre a mesma: se todos concordam, por que ela não acontece?
A matéria parte desse pressuposto e indica algumas suspeitas pelos entraves.
Para nossa felicidade ela está online na íntegra.

Por que não anda?
por Phydia de Athayde e Rodrigo Martins

Entraves como a postura do Judiciário e a defasagem dos índices de produtividade agrícola dificultam a reforma agrária

O sol castiga o oeste paulista. É forte, intenso, pouco atenuado pelo vento. Dos dois lados da rodovia Marechal Rondon, entre Araçatuba e Andradina, no lugar dos bois que antes davam o tom da paisagem, há extensos canaviais. Tudo parece uma massa uniforme. Num ziguezague entre estradas vicinais, ora de asfalto, ora de terra batida, vez por outra uma placa indica: “Movimento Sem Terra a 500 metros”. Uma delas em Castilho (SP), quase divisa com o Mato Grosso do Sul, onde 170 famílias vivem às margens da estrada. Reivindicam a desapropriação da fazenda Pendengo, 4.343 hectares de pastagem alta e malcuidada, com uma pequena boiada.
Há quatro anos, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) considerou a terra improdutiva. O proprietário não concordou com a avaliação e entrou com recurso na Justiça. “Ele contratou uma auditoria para contestar o Incra, e até mesmo o perito particular mostrou que a fazenda não atinge os coeficientes mínimos de produtividade”, afirma Irineu Xavier de Toledo, da direção regional do MST. Há dois anos, proprietário e sem-terra aguardam um novo laudo.
A região do oeste paulista é simbólica por potencializar alguns entraves à reforma agrária no País. No caso, o conservadorismo do Judiciário somado ao excesso de recursos ajuizados pelos proprietários. Valdez Farias, procurador-geral do Incra, diz que o estado de São Paulo é especialmente problemático nesse ponto porque, diferentemente de outras áreas, todos os recursos possíveis são aplicados. Advogados do MST acompanham desapropriações em todo o território nacional e identificaram uma concentração de casos obstruídos no local. René Parren, diretor estadual do MST, diz que há 12 processos de desapropriação de grandes propriedades praticamente parados. Essas terras somam mais de 10 mil hectares (área da capital capixaba, Vitória) e poderiam abrigar 980 famílias.
A juíza Claudia Hilst Menezes Port, da 2ª Vara Federal de Araçatuba, região visitada pela reportagem, diz não haver conivência com os proprietários. “Tudo depende do caso concreto, mas o rito sumário é a regra”, afirma. A magistrada reconhece que há excesso de recursos na lei processual, mas não atribui má-fé aos que fazem uso deles. Sobre reforma agrária, pondera: “É uma questão tormentosa, com raízes históricas, e merece atenção”.
Outro artifício comum é o proprietário ajuizar uma “ação declaratória de produtividade”, que questiona o laudo do Incra mas, em tese, não deveria impedir a conclusão do processo. “Se o autor da ação tiver mais de 60 anos, haverá prioridade legal. Caso contrário, em razão de ser, algumas vezes, prejudicial em relação à desapropriação, é dado um tratamento mais célere no processamento”, diz a juíza.
As histórias do oeste paulista exemplificam as dificuldades do governo ao tentar desapropriar terras para a reforma agrária. Em 2007, o total desapropriado foi pífio: apenas 107 mil hectares, sem contar outros 166 mil hectares referentes a processos concluídos em dezembro. Ainda assim, muito aquém dos 555 mil de 2006, ou dos 977 mil de 2005.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, diz que o baixo número de desapropriações não reflete os esforços do governo. “Reforma agrária não é só assentamento. Não adianta assentar sem fornecer a infra-estrutura básica para que possam começar a produzir.” Cassel destaca as aquisições de terras para a reforma agrária. “Nunca gastamos tanto na compra de áreas para assentamentos (1,3 bilhão de reais). A meta é assentar 100 mil famílias por ano, com qualidade. Não existe milagre”, pontua.
De acordo com o ministro, uma das razões para tão poucas desapropriações é a defasagem dos índices de produtividade (usados pelo Incra para determinar áreas improdutivas), baseados em dados de 1975. Cassel diz ser meta para 2008 reajustá-los: “É uma obrigação do governo”.
Além de incumbência descrita na Constituição e na lei agrária (8.629/93), a atualização é promessa antiga de Lula. Compromisso reafirmado mais de uma vez (como no fim da Marcha pela Reforma Agrária, em 2005), e nunca cumprido.
Um levantamento do Incra mostra que 445 imóveis em processo de desapropriação estavam sob óbice judicial no fim de 2007. Concentram-se nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste e somam 903 mil hectares, suficiente para assentar mais de 30 mil famílias. De acordo com Farias, do Incra, salvo raras exceções, os juízes não aplicam o rito sumário da desapropriação (como exige a lei). Em vez disso, dão todas as chances para o proprietário provar que a terra é produtiva. “O Judiciário atravanca a reforma agrária”, diz, e complementa: “Há um entendimento que sobrepõe o direito de propriedade a outros direitos constitucionais, como o de acesso à terra e à dignidade humana. Quem está sob a lona tem direitos constitucionais sonegados”.
Ainda no campo jurídico, há a dificuldade na retomada de terras públicas. Estima-se que existam 170 milhões de hectares de área pública grilada no País, problema mais severo na Região Norte, mas também presente em estados como Mato Grosso. Um exemplo é a Usina Pantanal de Açúcar e Álcool, que ocupa 8,2 mil hectares da União. O empresário Mounir Naoum, dono de um grupo hoteleiro, reivindica a propriedade. Desde 2003, o Incra tenta retomar a área. Em dezembro, o Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília cassou a liminar que dava posse à União. Próximo à área, 220 famílias esperam assentamento.
Em Itapura (SP), perto da divisa com Mato Grosso do Sul, cem famílias aguardam a desapropriação da fazenda Lagoão, 1.776 hectares de pastagens declaradas improdutivas pelo Incra. O governo liberou a verba para a indenização (8,6 milhões de reais), mas o dono ajuizou seis recursos e uma ação declaratória de produtividade. O processo se arrasta. Enquanto não há desfecho, os ocupantes se viram como podem. Dermival Birolli, de 62 anos, montou uma horta. “O sonho de ter minha terrinha persiste, mas não dá para aguardar a Justiça a vida toda.”
No entender de Elmano de Freitas, advogado do MST, o Judiciário não deveria acatar as “ações declaratórias de produtividade”. “O artigo 18 da Lei Complementar nº 76, de 1993, não deixa dúvidas de que a ação de desapropriação deve ter preferência ante qualquer outra. Não é absurdo o fazendeiro tentar alegar produtividade, absurdo é o Judiciário acatar.”
Todas as batalhas judiciais que questionam produtividade de terras em processo de desapropriação utilizam os índices de produtividade vigentes como argumento. Ou seja, aqueles determinados com base em dados de 1975. Se, assim, os processos travam, é fácil imaginar o rebuliço que uma atualização causaria nos tribunais.
Paulo Caralo, diretor de Política Agrária da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), dá uma dimensão de como os problemas estão ligados. “Mais de 30% dos processos de desapropriação param por causa de recursos que levam em conta o índice de produtividade. São mais de 120 grandes fazendas improdutivas, que poderiam abrigar metade das mais de 200 mil famílias que esperam assentamento”, afirma. “Se ainda utilizamos um índice de 30 anos atrás, é porque nenhum gestor fez as atualizações que a lei obriga.”
Ninguém discorda que a produção agropecuária de hoje é superior àquela observada em 1975. Daí a se chegar num acordo para rever os números há um abismo. No histórico de tentativas fracassadas, a mais representativa aconteceu em 2005. O então ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, propôs novos números e dependia do aval do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Não houve acordo. Entra ministro, sai ministro, tudo fica como está. E a realidade do campo não pára de mudar.
“Nos últimos 20 anos, a produtividade agrícola brasileira cresceu em média 3,5% ao ano”, anuncia o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, e arremata: “O Brasil tem a melhor tecnologia do mundo para a agricultura tropical”. Ele também elogia as melhoras genéticas na pecuária, embora diga que, em 20 anos, a relação boi/hectare não mudou muito. “Exceção para o estado de São Paulo, que tinha 1 boi por hectare há dez anos e, hoje, tem 1,5 boi por hectare. Este é, inclusive, o modelo que queremos para o Brasil”, diz.
Com tanta pujança, por que o temor à atualização dos índices? “Tecnicamente, isso pode e deve ser discutido. A dificuldade está no campo político. Os produtores, por exemplo, propõem que o novo índice seja a metade daquele observado nos assentamentos. É uma discussão muito política”, tateia Stephanes, e pede que se evite polêmica. “A discussão deve ser técnica. Hoje, o pequeno, o médio e o grande produtor têm de ser eficientes. Não existe mais aquela poesia de 40 anos atrás”, diz.
CartaCapital teve acesso a alguns números da mais atual proposta de revisão dos índices de produtividade, que permanece engavetada. No que se refere à cana-de-açúcar, a mudança causaria alterações expressivas apenas em Alagoas (ao passar o índice de 50 toneladas por hectare para 60). No caso da soja, a alteração aconteceria em Mato Grosso e, no caso do milho, em Goiás (mapas abaixo). Os números propostos são um meio-termo entre os de 1975 e os observados no mercado. É uma tentativa de atender a movimentos sociais e, ao mesmo tempo, minimizar a chiadeira dos produtores.
Mesmo assim, não será nada fácil. “Não existe mais terra improdutiva próxima aos grandes centros consumidores ou à infra-estrutura de distribuição”, diz Leôncio Brito, presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ele credita o aumento da eficiência dos produtores a investimentos em fertilizantes, biotecnologia, transporte e armazenagem, e diz que a atualização dos índices não leva em conta os impactos para o agronegócio. “Os defensores dessa medida querem é relativizar o direito de propriedade. Em nenhum outro setor da economia há metas mínimas. Ninguém diz isso a um industrial”, esbraveja.
O engenheiro agrônomo André Pessoa, diretor da Agroconsult, diz que os índices propostos pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) estão “fora da realidade”. O consultor destaca que, ao estabelecer as médias de produtividade por estado, ou mesmo microrregiões, o governo corre o risco de punir injustamente os fazendeiros. “Uma grande empresa agrícola, com capital aberto, costuma ocupar as melhores faixas de terra e pode elevar a média de produtividade de toda uma região. Os vizinhos não têm a mesma capacidade de investimento, mas nem por isso são improdutivos”, diz, e sugere: “O governo poderia aprimorar o seu cadastro de informações com dados da Receita Federal, do sistema financeiro e de censos, para avaliar melhor quem realmente não está produzindo”.
Dados preliminares do Censo de 2006 (do IBGE) indicam que há 76,7 milhões de hectares de áreas de lavouras e 172 milhões de hectares de pastagens no Brasil. Especialistas dizem que a maior parte das terras improdutivas é de pastagens.
Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor de geografia agrária da USP, denuncia a existência de uma “caixa-preta” com informações sobre a verdadeira produção agropecuária do País: “O Incra sabe exatamente quais as propriedades improdutivas. Essa informação está no sistema do cadastro do órgão, que é feito a partir da declaração dos proprietários, mas isso ninguém divulga”. O estudioso atribui a omissão desses dados à suposta corrupção: “É triste falar, mas é a verdade”.
Oliveira é um dos participantes da elaboração do II Plano Nacional de Reforma Agrária, em 2003, a pedido do então candidato Lula. E tem uma explicação para o fracasso: “O governo não faz reforma agrária porque não quer. Mas parece que Lula acendeu uma vela para Deus e outra para o diabo, por isso não faz nada”.
O geógrafo também contesta dados da reforma agrária apresentados pelo governo. “O Incra divulga como assentados a relação de beneficiários da reforma agrária, que inclui os reassentados, os de área indígena ou de quilombos e os que passaram por regularização fundiária. Esse total não reflete a realidade. De fato, como reforma agrária, até 2006 o governo Lula assentou apenas 150 mil famílias”, diz.
João Pedro Stedile, principal liderança do MST, também critica os números oficiais. “Quem está no governo sempre tem estatísticas e argumentos para se justificar. Mas infelizmente a realidade do campo é bem diferente”, afirma. “Temos mais de 150 mil famílias acampadas debaixo de lonas. Das assentadas, apenas 10% tiveram acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Temos mais de 40 projetos no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) esperando recursos. E a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que tinha o melhor programa de compra antecipada, teve as atividades praticamente paralisadas em 2007”, enumera Stedile.
O líder do MST tenta chamar a atenção para o que acredita ser o debate mais importante, e negligenciado, sobre o campo: “Está prevalecendo a proposta do agronegócio, que enriquece alguns e traz pobreza e desigualdade para a maioria. Nós defendemos um modelo baseado na pequena e média unidade produtiva, que use mão-de-obra intensiva, métodos agroecológicos e priorize alimentos para o mercado interno”.
Enquanto isso, os acampados em volta da fazenda São Bento, em Andradina (SP), aguardam. “Antes, os jagunços tocavam a gente daqui. Agora, os fazendeiros estão vencendo na Justiça. São quase cinco anos de espera”, desabafa Paulo Gonzaga Marcelino, de 40 anos. Ele trabalha na roça a 25 reais por dia, mas a oferta de emprego, temporário e sem carteira assinada, está escassa. “Quando sabem que sou sem-terra, o pessoal desconfia.”
Marcelino foi um dos primeiros a acampar na beira da estrada José Rodrigues Celestino, uma das vicinais esburacadas da Marechal Rondon. Bem ao lado da fazenda, considerada improdutiva em 2002. O governo levantou recursos para indenização (5,4 milhões de reais), mas o proprietário quer provar que as terras são produtivas. Em 2007, arrendou 770 hectares a uma usina de álcool, que plantou cana-de-açúcar. O processo parou.
A sem-terra Andréia Ferreira da Silva, de 25 anos, olha com descrença para o canavial. “Se estava difícil conseguir um pedacinho de terra, imagina agora que plantaram cana a perder de vista”, resmunga, com o pequeno Igor, de 2 anos, no colo. Ela vive com o marido e quatro filhos sob a lona.
Se o governo não tem feito sequer o básico em prol da reforma agrária, é difícil imaginar que um dia vá questionar o modelo agrícola adotado no País. Enquanto isso, debaixo das lonas, faz calor. Muito calor.

Fonte: CartaCapital

25.1.08

Desmatamento na Amazônia

Era bom demais para ser verdade! Três anos sucessivos de reduções e, num único semestre, todo o esforço vai por água (ou motoserra?) abaixo!
O diagnóstico é simples: aumento da atividade econômica nas áreas destacadas – Mato Grosso, Pará e Rondônia – e ineficácia do Estado no controle deste crime ambiental.
Só para recordar: faz 2 anos que foi anunciado concurso para o Ibama e até agora nada!
Lembremos que MT e PA são territórios gigantescos e somente a integração das forças estaduais e federais (Ibama, PF, Exército, PM, Ministério Público etc.) obterão, eventualmente, sucesso nessa empreitada.
Interessante percebermos a ação dos neoliberais – do governo e da oposição – pois ao mesmo tempo em que querem enxugar o Estado, cortando-lhe na carne, exigem que o Estado “tome providências”.
Voltamos então ao velho problema: nossas leis são ótimas, difícil mesmo é executá-las!
No caso não dá para jogar a culpa somente nos agentes estaduais, uma vez que a governadora do Pará é do mesmo partido do presidente Lula.
Abaixo reproduzo um ótimo artigo da Agência Carta Maior:

Aumento recorde no fim de 2007 deixa governo em alerta
Maurício Thuswohl - Carta Maior

RIO DE JANEIRO – Não era novidade para ninguém que o desmatamento da Amazônia voltara a crescer de maneira preocupante no segundo semestre de 2007. Prova disso foi o pacote, anunciado pelo governo antes do Natal, de medidas para tentar reverter esse avanço nas áreas consideradas mais problemáticas. No entanto, a confirmação, feita nesta quarta-feira (23) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de que o ataque à floresta atingiu níveis recordes em novembro e dezembro caiu sobre os ombros do governo como uma tora de Jacarandá.
O Ministério do Meio Ambiente (MMA) já contava com um aumento de 10% do desmatamento no último quadrimestre de 2007, mas os números apresentados pelo Inpe sugerem algo mais grave. Segundo o sistema de monitoramento por satélite Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), entre agosto e dezembro do ano passado foram derrubados 3.235 quilômetros quadrados de floresta. Apenas em novembro e dezembro, foram desmatados 1.922 quilômetros quadrados, o que configura um recorde desde que esse sistema começou a ser usado há quatro anos.
Para complicar, os números parciais levantados pelo Deter _ que é um sistema de monitoramento rápido, mas incapaz de detectar o desmatamento seletivo ou em pequenas faixas _ costumam ser majorados quando o governo anuncia os dados consolidados por um outro sistema, o Prodes (Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia), que é muito mais preciso. Por isso, os mais alarmistas já admitem a possibilidade de que mais de seis mil quilômetros quadrados de floresta tenham sido desmatados no segundo semestre de 2007.
Para efeito de medição do desmatamento, o governo utiliza, a partir de critérios climáticos, um calendário que se inicia em agosto de um ano e vai até julho do ano seguinte. Por isso, todo o aumento registrado a partir do segundo semestre do ano passado somente incidirá no próximo relatório anual consolidado, elaborado com dados do Prodes, que ainda será divulgado no meio do ano. Tudo indica, portanto, que a boa fase proporcionada pelos três anos consecutivos de redução do desmatamento (59%) poderá sofrer um duro revés em 2008.
Preocupado com a situação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou uma reunião ministerial de emergência para quinta-feira (24) e exigiu resposta imediata do governo. Na reunião, entretanto, ficou claro que, apesar dos discursos aparentemente afinados, alguns setores do governo continuam não falando a mesma língua quando o assunto é o desmatamento da Amazônia.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, apontou o aumento dos preços da soja e da carne bovina no mercado internacional (e o conseqüente avanço dessas culturas sobre a floresta amazônica) como o principal fator de contribuição para o recrudescimento da devastação. Por sua vez, o ministro da Agricultura e Pecuária, Reinhold Stephanes, insistiu na tese de que agricultores e pecuaristas podem continuar a expandir suas atividades na região sem derrubar mais árvores.

Marina x Stephanes
“Confundem a Amazônia Legal com o bioma amazônico. Não há necessidade de se derrubar nenhuma árvore na Amazônia para aumentar a produção de soja ou carne no país. Temos terra disponível fora do bioma amazônico”, disse Stephanes. Durante a entrevista coletiva que se seguiu à reunião, ao lado de Marina, o ministro garantiu que “o ministério [da Agricultura] está completamente integrado aos esforços do governo contra o desmatamento”.
Para Marina, no entanto, o fato de o maior aumento na derrubada de árvores ter acontecido nos estados do Mato Grosso (54% do total), Pará (18%) e Rondônia (16%), é sintomático: “Gado e soja são atividades típicas desses estados e foi lá que registramos os maiores aumentos. Eu não acredito em coincidências”, disse. A ministra, segundo a Agência Brasil, ressaltou que 165 mil quilômetros quadrados de floresta já foram convertidos em áreas de produção e que “o uso dessas áreas permitiria triplicar a produção agrícola brasileira sem derrubar mais nenhuma árvore na Amazônia”.
Habituado a administrar conflitos em sua equipe, Lula alertou aos ministros que “não é hora de ninguém acusar ninguém” e exigiu “providências imediatas” e “ações nos locais onde estão derrubando árvores”. O presidente sabe que um aumento acentuado do desmatamento vai prejudicar a posição de liderança que o Brasil vem consolidando no âmbito das discussões multilaterais sobre o aquecimento global, além de enfraquecer a cruzada pró-etanol do governo no mercado internacional: “Não é necessário derrubar um única árvore na Amazônia para plantar um pé de soja. Quem estiver fazendo isso está cometendo uma ilegalidade e, sobretudo, um crime contra a economia brasileira”, disse.

Pacote
Coube ao ministro da Justiça, Tarso Genro, repetir à imprensa o pacote de medidas contra o desmatamento que o governo já havia anunciado em dezembro, além de trazer algumas novidades, como a criação de 13 novos postos de fiscalização _ onze fixos, um fluvial e um aéreo _ na Amazônia. Outra novidade anunciada pelo ministro é o deslocamento de 780 agentes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Força Nacional de Segurança, do Ibama, do Incra e da Funai para as regiões mais afetadas pela ação dos criminosos ambientais.
O governo divulgou na quinta-feira (24) a lista com os nomes dos municípios onde está concentrado mais de 50% do desmatamento na Amazônia Legal nos últimos anos. São 36 cidades, sendo 19 em Mato Grosso, 12 no Pará, quatro em Rondônia e uma no Amazonas. O desejo do governo é intensificar as punições contra quem está desmatando. Para isso, conta com medidas anteriormente anunciadas, como a realização de um recadastramento fundiário pelo Incra nos 36 municípios listados e a suspensão dos títulos das propriedades irregulares ou identificadas como oriundas da grilagem de terras públicas.

Financiamento e eleições
Outra promessa do governo é o cancelamento do Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR) dos proprietários que estiverem derrubando a floresta. Essa pode ser uma medida chave no pacote, pois sem esse documento o proprietário não tem acesso a créditos e programas de financiamento público. Por trás dessa discussão, no entanto, se esconde uma questão maior e mais delicada para o governo, que é a contradição de instituições como o Banco do Brasil ou o BNDES, que continuam financiando generosamente o agronegócio que impulsiona a soja e o gado em direção à Amazônia.
Outro fator que favorece o desmatamento é o fato de 2008 ser um ano de eleições municipais. Em anos assim, segundo dados fornecidos pelo próprio Inpe, a derrubada de árvores nas cidades localizadas dentro da Amazônia Legal chega a triplicar, fruto da complacência de prefeitos e administradores públicos mais preocupados com votos do que com a floresta. Por essas e outras, a área ambiental do governo sabe que terá um ano dificílimo pela frente e já se considera em estado de alerta vermelho: “O governo não quer pagar para ver. Não vamos esperar a sorte, mas sim trabalhar para fazer frente a esse processo”, afirma Marina Silva.

Para ler o artigo na fonte original é só clicar aqui.

24.1.08

Miguel Nicolelis

A estréia desse grande brasileiro nas páginas de CartaCapital não poderia ser melhor e mais geográfica:

“Essa visão fatalista ignora que o sertão nordestino há séculos serve de palco para o desenrolar de um grande épico de sobrevivência, construído dia a dia pela ingenuidade natural e obstinação de todas as formas de vida que lá habitam. Formada por uma vegetação altamente adaptada à falta crônica de água, ornada por uma flora típica e própria, a Caatinga há muito deixou de ser considerada, ao menos em termos botânicos, como uma simples degeneração da Mata Atlântica. Na realidade, trata-se de um dos biomas mais especializados do mundo, parte integral e única do extraordinário patrimônio natural brasileiro.”

Clique aqui para o texto na íntegra.
Clique aqui para saber um pouquinho mais sobre esse cientista brasileiro e aqui para saber um pouco do que ele pensa.

A produção cultural da periferia de São Paulo

Texto vibrante e inteligente, publicado no Le Monde diplomatique, merece ser lido e também pensado.
Cultura não é só aquela embalada pelas grifes do mundo das artes e espetáculos, ou que tenham a chancela dos grandes produtores.
Não dá para pensar a população apenas como consumidora de cultura e entretenimento, ele também produz e alimenta suas experiências e vivências.
Caso queira ler o texto direto na fonte é só clicar aqui.


CULTURA PERIFÉRICA
São Paulo, 454: a periferia toma conta

Eleilson Leite

Nesta sexta-feira, dia 25 de janeiro, a cidade de São Paulo completará seus 454 anos. Por conta disso, nos últimos dias, a mídia tem se ocupado com as inúmeras comemorações, enaltecendo sempre as mesmas coisas. Ou é o sanduíche de mortadela do Mercadão, ou os pratos grã-finos dos restaurantes dos Jardins. A suntuosidade do Teatro Municipal ou a arquitetura moderna do MASP. A Catedral da Sé, a Mesquita da Rua Avanhandava ou a Sinagoga de Higienópolis. O comércio do Bom Retiro e da Rua 25 de Março. O dinheiro que corre (ou flutua?) na Avenida Paulista e na Avenida Luiz Carlos Berrini. As baladas nas Vilas: Madalena, Olímpia e Mariana. Os japoneses da Liberdade, os italianos do Bixiga, os espanhóis da Moóca, e por aí vai. Vez ou outra, a pauta busca algo inusitado e as reportagens chegam à periferia. Mas quando se fala das bordas da cidade, é freqüentemente para mostrar que São Paulo tem vida rural. Como no distrito de Engenheiro Marcilac, no extremo da Zona Sul, de onde é possível avistar o mar. Sim, São Paulo faz divisa com Itanhaém, litoral sul. Dos 1.509 km² da capital, um terço não é urbanizado. Na maior metrópole do país, convivemos com agricultura, pecuária, suinocultura entre outras atividades econômicas típicas do meio rural.
Quero aqui falar de outra São Paulo. Vou falar da Periferia, pois é essa a minha missão. Mas não pretendo me queixar das misérias que tomam conta dos bairros afastados do centro. Sabe o porquê? Porque a Periferia é a maior parte da capital. Ocupa cerca de dois terços do território e possui dois terços da população. Um povo que vive amontoado em moradias precárias, favelas, conjuntos habitacionais, cingapuras e prédios da COHAB. Mas tem muita gente morando bem e dignamente na Periferia. Já disse aqui e repito: na Periferia a vida é bela apesar da mazela. E acima de tudo, a Periferia é grande, é maioria. Os símbolos tão abordados na grande imprensa para retratar São Paulo são ícones importantes, sem dúvida, mas habitam o imaginário de uma parcela cada vez menor da população. É preciso olhar a Periferia e retratar seus símbolos e encantos.
Mas afinal, qual o tamanho da periferia paulistana? Fiz as contas. Segundo o IBGE, no ano 2000 São Paulo tinha uma população de 10.434.252 habitantes (em 2008, chegaremos a 11 milhões). Esse povo se distribui em 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam cerca de 6.838.641 habitantes — ou seja, 63% da população. É bom que se diga que não estou considerando periferia distritos como Tremembé e Vila Medeiros, na Zona Norte, que têm bairros muito pobres. Não incluo também alguns da Zona Leste como Penha, Vila Matilde e Vila Formosa, assim como não considerei a Freguesia do Ó, cantada por Gilberto Gil como periferia no início da década de 80. Naquele tempo poderia até ser. Hoje, os distritos da Brasilândia e da Cachoeirinha dão o contorno periférico daquela região. A Freguesia nem é mais periferia e também não tem mais punks por lá. Mas se juntarmos os bairros desses distritos não considerados em minhas contas, chegaremos seguramente a 70% dos paulistanos.

Não haverá um levante independentista, São Paulo é Nossa! Será um motim cultural. A chapa está esquentando, poeta

Não dá mais para falar de São Paulo sem a sua periferia. Nela vivem descendentes de europeus, árabes e orientais. Mas nos arrebaldes predominam os nordestinos com traços indígenas ou pele negra. A Periferia de São Paulo tem a cara do Brasil. Uma nação esquecida. Será que teremos de fazer como sugeriu o poeta Sergio Vaz em sua mais recente crônica: fundar uma república independente? Se este novo país surgisse, a ele agregaria a população de cidades vizinhas que cresceram no processo de periferização de São Paulo. Refiro-me a municípios como Ferraz de Vasconcelos, Poá, Itaquaquecetuba, Araujá e Mauá, na fronteira com a Zona Leste; Franco da Rocha e Francisco Morato, no lado norte; Itapevi e Carapicuíba, na divisa oeste e Itapecerica da Serra e Taboão, além de Diadema na região Sul. Some-se a esses parte de Guarulhos e Osasco. Certamente teremos uma população superior a 10 milhões — ou seja, três vezes maior que a do Uruguai, e bem maior que muito país europeu. Se o delírio do poeta virasse realidade, São Paulo voltaria, em termos de território, ao que era até o fim do século 19. Mas não haverá um levante independentista, São Paulo é Nossa! Será um motim cultural. Ferréz, Racionais, Cooperifa já estão aí na fita. Tem muita gente chegando. A chapa está esquentando, poeta. Na Periferia, o povo aprendeu a fazer e não espera mais acontecer.
Se todo artista tem que ir onde o povo está, a grande imprensa poderia fazer movimento semelhante. O foco da mídia mudaria, se o critério populacional prevalecesse na pauta das reportagens. É comum as TVs e jornais abordarem, no aniversário de São Paulo, bairros como Bom Retiro, Brás, Barra Funda, Cambuci, Lapa, Liberdade, Pari, Bela Vista e o Centrão — com os distritos da Sé e República. Pois bem, a soma da população desses bairros é de 361.344 habitantes, apenas 30 mil pessoas a mais do que a população do Grajaú, na Zona Sul. Esse lidera o ranking dos distritos mais populosos da capital. São 11 regiões com população acima de 200 mil habitantes. Todos na periferia. Vale a pena escalar o time: Sapopemba, São Miguel, Jardim São Luiz, Jardim Ângela, Jabaquara, Itaquera, Itaim Paulista, Grajaú, Cidade Ademar, Capão Redondo e Brasilândia. População total: 2.688.757. Tem mais gente aí do que em quase todos os 39 distritos não periféricos de São Paulo juntos. Seria bom, portanto, olhar como vivem essas pessoas. Um povo pobre, trabalhador, que luta e busca ser feliz apesar de tudo. “Um povo lindo, um povo inteligente” como dizem os poetas da Cooperifa. Um povo que merece ser visto pelas lentes da TV mostrando aquilo que tem de mais bonito.
Num dia de comemoração não precisa denunciar o sofrimento. Continuem exibindo o Samba da Vela, o Sarau da Cooperifa, os mais conhecidos. Mas mostrem também o Samba de São Matheus, que rola no Buteco do Timaia. Façam uma reportagem sobre a biblioteca comunitária Suburbano Convicto, organizada e mantida pelo escritor Alessandro Buzo, no Itaim Paulista. Tem também o Espaço Maloca, no Jardim São Savério, coordenado pela escritora Dinha. A Fundação Gol de Letra, na Vila Albertina (Zona Norte), daria uma excelente reportagem. A Associação Monte Azul, na Favela Monte Azul, Zona Sul, faz um trabalho simplesmente lindo. A luta da UNAS, em Heliópolis, mantém a maior favela do Brasil animada e de cabeça erguida. O Centro Cultural da Juventude, na Cachoeirinha, é um exemplo de política pública para jovens em áreas de baixa renda. O CDC Tide Setúbal, em São Miguel, é uma demonstração de como uma fundação mantida com recursos de empresa pode ter uma atuação em sintonia com a comunidade e programação de excelente qualidade.

Torresminho no Saboeiro. Escondidinho no Zé Batidão. Pastel do Bar do Binho. Sopa do Samba da Vela. Panelafro. Prazeres que a mídia não vê

E para encerrar, tem a culinária. No bar Saboeiro, Jardim Tremembé (na Zona Norte), tem o melhor torresminho da Capital. Eu garanto. O escondidinho do Bar do Zé Batidão, na Zona Sul, não fica devendo nada ao do Canto Madalena, badalado (e muito bom) restaurante da Vila Madalena. O pastel do Bar do Binho, no Campo Limpo, é delicioso. A sopa servida no fim do Samba da Vela é inigualável. No Panelafro, o rango é afro e feito com muito esmero. A feijoada do Samba da Laje, na Vila Santa Catarina, preparada com requinte pela Dona Nerosa, é incontestavelmente a melhor entre as rodas de samba.
A Periferia tem seus cantos e encantos. Ela merece estar na mídia. Não como invariavelmente aparece, expondo suas tragédias, mas por sua beleza, pela força do seu povo, por sua riqueza cultural e sua vontade de transformar. O povo não quer sair da Periferia. O povo quer uma Periferia cada vez melhor. Parabéns São Paulo!

23.1.08

O berço do FSM é governado hoje pelo espírito de Davos

A terra que serviu de inspiração para o Fórum Social Mundial e que acolheu suas primeiras edições hoje é governada por um núcleo político conservador, adepto dos padrões da iniciativa privada e dos choques de gestão. O espírito de Davos baixou em Porto Alegre e no RS. O que aconteceu?
Acima, parte do excelente texto de Marco Aurélio Weissheimer, publicado hoje na Agência Carta Maior. Para lê-lo na íntegra clique aqui.

Cuba está na capa da Época

Infelizmente não temos todo o conteúdo da reportagem na Internet, mas clicando aqui dá para ler boa parte da matéria.
Já na chamada da matéria a ironia: “Uma outra ilha é possível?”, numa clara alusão ao slogan do Fórum Social Mundial, “Um outro mundo é possível”.
A capa é ruim e compromete a leitura, pois se apóia em chavão anti-Fidel, mas a matéria tem detalhes interessantes, como a entrevista com Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique e com o dissidente Oswaldo Payá Sardiñas.
A terceira entrevista que dá apoio à matéria principal é ruim de doer, com a manifestação de muitos preconceitos contra o Lula, de forma gratuita inclusive. Quem se presta ao papel é o professor de História da América Latina da UFSCar, Marco Antônio Villa. A entrevista não combina com o equilíbrio e sobriedade das duas anteriores.
De resto é aquele negócio de condenar Cuba, lastimar a pobreza da população, destacar o caráter ditatorial do partido único e afirmar, sempre que possível, que Cuba não tem a menor importância para a América e para o mundo.
É “tão sem importância” que a maior potência do planeta gasta os tubos, já vai pra quase 50 anos, para atingi-la e, por outro lado, faz por merecer a capa da própria revista.
Com todas as ressalvas é uma leitura que compensa ser feita.

21.1.08

Ler o SIVUCA

Ler o SIVUCA faz um bem danado!
Além de temas instigantes para discussão, temos a melhor lista de blogs oriundos de todos os cantos do país. Eles tratam dos mais variados temas e estão abertos à participação de todos.
Não deixem de ler o SIVUCA.

20.1.08

As capas das semanais

A maior parte da grande mídia brasileira parece satisfeita com os rumos da economia, só não suporta o sapo-barbudo.
A julgar pelas capas das semanais, exceção feita à CartaCapital, todas as outras parecem felizes e satisfeitas com nosso capitalismo e suas particularidades, como por exemplo o fato de não precisar gastar do próprio para ter uma grande empresa. Ou ainda, como em diversos casos desde outros governos, sem risco, pois quando o gestor quebra a empresa o governo, com o dinheiro dos contribuintos socorro o inepto.
Vamos às capas:








Capitalismo com patrocínio estatal

A mídia continua a de sempre. Um grande escândalo ronda o governo! Ético, político ou econômico, basta escolher o ponto de vista, mas as semanais fazem vista grossa, com exceção da CartaCapital, como sempre. Depois ainda me perguntam por que sempre recomendo a leitura desta ótima semanal!
A história é bem simples. O governo resolveu patrocinar alguns empresários do ramo de telefonia. Dois deles transformar-se-ão em donos de uma nova empresa, fruto da compra da Brasil Telecom pela Oi. Detalhe interessante: eles não desembolsarão um único centavo na operação!
Leia abaixo um trecho de matéria que está na edição n° 479, nas bancas nesta semana.


Edição 479
Os novos barões
por Sergio Lirio
O governo não poupa esforços para transformar Carlos Jereissati e Sérgio Andrade nos donos de uma “supertele”

Sempre que um governo tenta explicar algo por si só inexplicável acaba por recorrer aos surrados bordões da “razão de Estado” e dos “interesses nacionais”. Tem sido assim ao longo da formação do moderno capitalismo brasileiro, ou à brasileira, que pode ser resumida na história dos (poucos) eleitos pelo poder público para administrar as maiores empresas. Não é diferente agora. A compra da Brasil Telecom pela Oi, que resultará em uma companhia telefônica com faturamento superior a 20 bilhões de reais por ano, antes mesmo de sair do papel, tem tudo para se tornar um clássico do modelo em que as demandas privadas se misturam perigosamente às iniciativas políticas. Nem o potencial de escândalo que inúmeros aspectos da transação suscitam parece abalar o apoio do Palácio do Planalto, artífice da associação entre as concessionárias de telefonia.

Por ironia, as principais resistências, ou no mínimo dúvidas, a respeito da conveniência da operação partem da ministra Dilma Rousseff, freqüentemente apontada pela imprensa como madrinha do negócio. Interlocutores recentes da titular da Casa Civil relataram a CartaCapital quais pontos têm incomodado a ministra:

1. Dilma, não é de agora, defende a criação de uma empresa nacional forte nas telecomunicações, para barrar os avanços da espanhola Telefónica e do mexicano Carlos Slim, que dominam o setor na América Latina. Em meados de 2007, a ministra encomendou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um estudo sobre a melhor forma de estimular a formação de uma tele brasileira. Ela rejeita, porém, os termos da atual operação, pelo fato de os principais compradores, os empresários Sérgio Andrade e Carlos Jereissati, não estarem dispostos a colocar nem 1 centavo do próprio bolso na transação. Para Dilma, seria ideal que os interessados buscassem outra forma de financiamento que não as arcas do BNDES.

2. A ministra preocupa-se com a provável exploração política do fato de a Oi ter investido 10 milhões de reais na Gamecorp, que tem entre seus sócios Fábio Lula da Silva, filho do presidente da República.

Fonte: CartaCapital

18.1.08

Eleição municipal em São Paulo

A eleição deste ano servirá para coroar um consenso: política sem política!
As últimas campanhas presidenciais foram totalmente despolitizadas, isso tanto da parte dos ganhadores como dos perdedores.
A grande novidade foi o PT ter abraçado esse jogo. Se observarmos com cuidado, veremos que até as eleições de 1998 ainda havia “política” nas campanhas. Daí em diante a política sumiu dos programas, das propagandas e da vida eleitoral.
Penso que neste ano este jogo ficará ainda mais claro.
O PT terá algumas vitrines municipais para mostrar em suas propagandas, assim como o PSDB, DEM, PPS...
Todos se igualaram e por baixo.
Vamos esperar os primeiros movimentos.
Aposto que em São Paulo teremos: Marta Suplicy (PT); Soninha (PPS); Kassab (DEM); postulantes que podem mudar essa equação: Alckmin (PSDB) e Clodovil (PTB).
Na ausência da Marta o PT poderá oferecer algum nome de grande penetração regional, mas sem expressão nacional, como um dos Tatto (família que domina boa parte do PT municipal e estadual), mas isso prejudicaria o Partido no confronto com Kassab. Este, por sua vez, depende do aval do José Serra, que tentará neutralizar o poder local de Geraldo Alckmin.
Já o picolé de chuchu (Geraldo Alckmin) pode fazer desta eleição um “tudo ou nada”. Se for o indicado pelo PSDB dificilmente terá adversário no mesmo campo, neutralizando as aspirações de Kassab, além de impor derrota expressiva, mais uma vez, ao grupo do Serra.
Uma vez eleito prefeito fará da Prefeitura um degrau para lançar-se à sucessão de Lula, imitando o gesto do colega José Serra que eleito prefeito governou por apenas um ano e lançou-se candidato ao governo do Estado, cargo que ocupa hoje.
Imagino que nestas eleições municipais – particularmente em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre – será feito o rascunho das disputas de 2010.

16.1.08

Um médico escreve sobre a febre amarela

O novo site do Azenha está “matando a pau!”, como a gente dizia lá no interior. Clique aqui para fazer uma visita.
Vejam a matéria veiculada ontem, tratando da febre amarela e respondendo, em parte, dúvida que expressei aqui por estes dias:

IMUNIZAÇÃO DE 60 MILHÕES MATOU QUATRO; MÉDICO COMENTA TEXTO ALARMISTA: "DEUS ME LIVRE"

Acabo de entrevistar o Dr. Celso Francisco Granato, da UNIFESP de São Paulo. Ele contou que, na vacinação do ano passado, de 60 milhões de pessoas, resultaram 4 mortes. Ou seja, o risco da vacina causar a doença é de 1 em 15 milhões. Porém, ele lembrou que esse risco É MAIOR do que o enfrentado por pessoas que vivem em cidades ou regiões em que o risco de pegar febre amarela é ZERO. Li, como se fosse meu, texto publicado por colunista da Folha, para que o médico decidisse se eu deveria publicá-lo ou não. Reação do Dr. Granato: "De jeito nenhum, Deus me livre". Sobre a mídia: "É preciso ter uma responsabilidade muito grande nessa hora." A entrevista está na Rádio Viomundo. Fiquem com o texto de outra pessoa que é do ramo:

POR PEDRO SARAIVA

Caro Azenha, sou médico clínico geral e nefrologista formado pela UFRJ. Sou seu leitor assíduo, e resolvi escrever-lhe para ver se pelo menos aqui, no seu blog, um médico consegue espaço para falar sobre essa histeria que envolve a febre amarela.
A cobertura da grande imprensa parece que não consegue chegar ao fundo do poço. Depois de inúmeros factóides e de acusar o presidente até de derrubar aviões comerciais, eles agora aparecem com essa irresponsabilidade de criar pânico na população através de um problema de saúde pública. Tive acesso a um texto da jornalista da Folha, Eliane Cantanhêde (que, aliás, parece ser casada com um dos donos de uma produtora ligada as campanhas eleitorais do PSDB), que dizia o seguinte logo no primeiro parágrafo:
"Com sua licença, vou usar este espaço para fazer um apelo para você que mora no Brasil, não importa onde: vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem... Vacine-se logo!”
E depois de alguns parágrafos em que não esclarece nada, termina assim:
"O fantasma da febre amarela, portanto, paira sobre o país como um alerta num momento crucial, para que a saúde e a educação sejam preservadas antes de tudo o mais. Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano --e nos seguintes.”
ABSURDO! ESTÃO USANDO A SAÚDE PÚBLICA PARA POLITICAGEM BARATA!

Alguns esclarecimentos:
Colunistas falam de epidemia com uma facilidade incrível para quem não entende o que quer dizer o termo. Epidemia não é o aparecimento de casos de uma doença no jornal. Uma epidemia só se caracteriza quando ocorre um aumento maior que 2x o desvio padrão sobre a incidência média de uma doença nos últimos anos.
Ou seja: Incidência média + 2x desvio padrão.
Não vi até agora nenhum jornal mostrar a incidência da febre amarela nos últimos 10 anos para uma comparação. Repare na média de casos do período FHC e Lula, será por isso que ninguém mostra os números?
1996 - 15 casos
1997 - 3 casos
1998- 34 casos
1999 - 76 casos
2000- 85 casos e 42 mortes
2001 - 41 casos e 22 mortes
2002 - 15 casos e 6 mortes
2003 - 64 casos e 22 mortes - obs.: 58 dos casos diagnosticados na região sudeste, principalmente MG
2004 - 5 casos e 3 mortes
2005 - 3 casos e 3 mortes
2006 - 2 casos e 2 mortes
2007 - 6 casos e 5 mortes
(fonte: Min. Saúde)

Todos esses casos são da forma de transmissão em área silvestre da febre amarela. Desde a década de 1940 que não há relatos da transmissão urbana da febre amarela. Veja bem, transmissão em zona urbana é diferente de diagnóstico em zona urbana. A forma silvestre é endêmica principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste e se comporta de forma cíclica, com surtos a cada 5-7 anos
A transmissão em área silvestre é feita pelo mosquito do gênero Haemagogus, e se dá através, principalmente, de macacos infectados para humanos não imunizados por vacina. A forma urbana é transmitida do homem para homem através do Aedes aegypti, o mesmo da dengue. O risco de retorno da forma urbana não é novo, e existe desde a década de 80 quando houve a reintrodução do Aedes aegypti no Brasil.
Até o momento (15/01/08), apesar de toda histeria, apenas 2 casos foram comprovadamente de febre amarela este ano. E todos contraídos em áreas silvestres. Ou seja, nada de anormal.
Feitos os esclarecimentos, vamos aos comentários sobre a cobertura da mídia.

1- Estão noticiando morte de macacos, supostamente com febre amarela, como se isso fosse um sinal de que a doença está fora de controle. O pior, vários dos macacos noticiados tiveram exame negativo para febre amarela. Ou seja, estão noticiando apenas morte de macacos.
2- Estão noticiando as mortes por febre amarela como um fato novo do governo Lula, como se ninguém morresse da doença nos anos anteriores. Estão confundindo a ausência de casos urbanos com ausência de casos em geral.
3- E o mais grave, estão criando pânico na população e levando a uma corrida desnecessária e prejudicial aos postos de vacinação. Os comentários dos leitores nas edições da internet do Globo, por exemplo, são assustadores. A mídia informa mal os leitores, e deixa que o boca-a-boca crie teorias da conspiração contra o governo.
A vacina da febre amarela não é vitamina C. Ela é feita com vírus vivo atenuado e por isso apresenta contra-indicações e efeitos colaterais. Quem não mora em área de risco ou não vai viajar para uma, não precisa e não deve receber a vacina. Além de tudo, ainda há o risco de falta da vacina para quem precisa.

Contra-indicações
Crianças com 4 meses ou menos de idade, devido ao risco de encefalite viral (contra-indicação absoluta).
Gestantes, em razão de um possível risco de infecção para o feto.
Pessoas com imunodeficiência resultante de doenças ou de terapêutica: infecção pelo HIV, neoplasias em geral (incluindo leucemias e linfomas), Aids, uso de medicações ou tratamento imunossupressores (corticóides, metotrexate, quimioterapia, radioterapia), disfunção do timo (retirada cirúrgica ou doenças como miastenia gravis, síndrome de DiGeorge ou timoma).
Pessoas que tenham alergia a ovos, uma vez que a vacina é preparada em ovos embrionados.
Pessoas com alergia a eritromicina, um antibiótico que faz parte da composição da vacina.
Pessoas com alergia a gelatina, que faz parte da composição da vacina.
Pessoas com antecedentes de reação alérgica a dose prévia da vacina antiamarílica.
Efeitos colaterais.
Reação alérgica grave (anafilática) ocorre em aproximadamente 1 em cada 131.000 doses aplicadas.
Reações no sistema nervoso central (encefalite) – cerca de 1 caso para cada 150.000 - 250.000 doses.
Comprometimento de múltiplos órgãos com o vírus da febre amarela vacinal - aproximadamente 1 caso para cada 200.000 - 300.000 doses. Acima de 60 anos a incidência desta complicação é maior (cerca de 1 caso para cada 40.000 - 50.000 doses). Mais da metade dos indivíduos com febre amarela vacinal evolui para o óbito.
Se na remota hipótese de alguém morrer por tomar desnecessariamente a vacina a Sra. Eliane Cantanhêde vai se responsabilizar? Ou vai culpar o governo de novo?
Em vez de focar nos inúmeros problemas reais do nosso sistema de saúde, a imprensa prefere criar factóides que em nada ajudam a população.

Clique aqui para conferir a matéria em sua publicação original.

15.1.08

Projeto de exploração de floresta pública

Segundo notícia da Agência Carta Maior o governo dá os primeiros passos para implementar a Lei de Concessão de Florestas (clique aqui para conhecer a Lei 11.284).
No papel a coisa é bonita, vamos ver na Floresta.
O grande mestre Aziz Ab’Saber tem feito severas críticas à Lei, colocando em dúvida inclusive a capacidade do Estado em fiscalizar a sua execução.
Abaixo o texto da Agência Carta Maior:

CONCESSÃO DE FLORESTAS

Empresas apresentam propostas para explorar Jamari

Maurício Thuswohl - Carta Maior

RIO DE JANEIRO - O governo federal vai anunciar até o fim deste mês quais são as empresas vencedoras do processo de licitação para a exploração econômica de três áreas na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. A expectativa em torno do anúncio é grande, pois esta é a primeira concessão de floresta pública feita pelo governo desde que o modelo, previsto na Lei de Gestão de Florestas, foi aprovado. Os primeiros envelopes da licitação foram abertos pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) na quarta-feira (9). Catorze empresas, quase todas madeireiras, apresentaram um total de 19 propostas de gestão e exploração, que serão avaliadas nas próximas semanas pelos técnicos do governo.
A área total da Floresta do Jamari é de 222 mil hectares, mas somente 96 mil hectares, divididos pelo SFB em três unidades de manejo, foram incluídos na licitação. Cada unidade terá, respectivamente, 46 mil, 33 mil e 17 mil hectares, mas uma mesma empresa ou grupo de empresas somente poderá adquirir uma unidade. O período de concessão será de 40 anos, ao longo dos quais a empresa concessionária se compromete a conservar a floresta e somente extrair dela seus produtos _ árvores, raízes, resinas, sementes, cascas de árvore, óleos, etc. _ de forma ambientalmente sustentável, com técnicas de manejo fiscalizadas pelo governo.
De acordo com o estabelecido pela lei, as empresas que vencerem a licitação terão que se comprometer também a não intervir nas atividades extrativistas das populações que tradicionalmente habitam a Floresta do Jamari, como, por exemplo, a coleta do açaí. Um dado importante que será levado em consideração pelo governo na hora de escolher os vencedores, muito mais do que a própria oferta de preços, será sua capacidade de gerar emprego e renda na região sem degradar a floresta.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que “irão ganhar a concessão para a exploração da floresta as empresas que tiverem as melhores propostas do ponto de vista ambiental, social e econômico”. A ministra ressaltou que o maior objetivo do plano de concessão à iniciativa privada é a conservação das florestas nacionais, e que isso será analisado com rigor pelo governo: “A proposta ambiental de manejo tem que ser altamente rigorosa e cuidadosa, para que a exploração seja também uma estratégia de conservação”, disse.
“Em segundo lugar, que a proposta de manejo tenha capacidade de rendimento do ponto de vista econômico, para que possamos maximizar os lucros, as vantagens, os benefícios econômicos. E, em terceiro lugar, que seja capaz de gerar benefícios sociais, porque, afinal de contas, você tem na Amazônia mais de 20 milhões de seres humanos que precisam viver com dignidade”, concluiu a ministra.
O governo, segundo Marina, irá também monitorar em tempo real todos os processos de exploração de floresta pública, a começar pelo Jamari: “Estamos criando um sistema de monitoramento por satélite só para a exploração florestal, que seja em tempo real, exatamente para evitar que a gente tenha que depois chorar pelo leite derramado”, afirmou a ministra em entrevista à Rádio Nacional. O sistema deverá ser criado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Fonte:
Agência Carta Maior – 14/01/07.

14.1.08

Vacinar ou não vacinar? Eis a questão...

Temos uma epidemia de febre amarela?
Confesso-lhes que perdi o pé com a mídia, mas diante do montão de matérias com gente morrendo por todo canto (será?) com suspeita de ter contraído a doença, devemos ou não correr atrás da bendita vacina?
Vejam que interessante: quem esperava ver tal dúvida elucidada pela mídia alimenta-se com mais dúvidas ainda.
Afinal as mortes ocorreram até agora por “suspeita”. Já vi umas cenas num parque em Brasília dezenas de vezes na TV: macaquinhos simpáticos, pulando de galho em galho, enquanto o locutor anuncia que foram encontrados alguns exemplares mortos por causa da febre amarela.
Também as filas para a vacinação em Goiás, Brasília, aeroportos etc. sugerem que devemos buscá-la.
A Folha de S.Paulo, na edição on-line, mostra-se mais comedida, apertem aqui para ler. Em compensação, uma de suas principais colunistas, Eliane Catanhêde, publicou em 09/01 um “Alerta Amarelo” (é clicar no título para ler o texto).
Leiam a conclusão do texto citado acima:
“Bem, o Orçamento, os impostos e os cortes de gastos estão a mil por hora em Brasília neste pós-CPMF, com ministros do Executivo, todo o Legislativo e o Judiciário em pânico diante da tesoura da área econômica do governo. O fantasma da febre amarela, portanto, paira sobre o país como um alerta num momento crucial, para que a saúde e a educação sejam preservadas antes de tudo o mais. Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano – nos seguintes.”

12.1.08

O maior susto de 2008!

Por vezes a gente paga mico por pura desatenção.
Confesso-lhes que me abstive dos jornais e revistas desde 26 de dezembro último, só voltando ao contato dos mesmos nesta semana.
Na Folha de São Paulo de ontem li a seguinte manchete:
“Lula e PMDB definem nome de Lobão para Minas e Energia”.
Quase tive um troço! Não bastava a capitulação ao acústico da MTV e o cara agora resolveu ser ministro! Se ainda fosse da Cultura, vá lá!
Uns 30 segundos depois do espanto percebi que se tratava do senador Edson Lobão (PMDB-MA) e não do Lobão, cantor e compositor.
Hoje na mesma Folha, mas no caderno Dinheiro, sobre a inflação do ano passado:
“Índice fica em 4,46% em 2007 e quase ultrapassa centro da meta do governo”.
O que significa “quase ultrapassa”? Qual a relevância? Se a meta do governo era 4,5% e a inflação ficou em 4,46% isso foi bom ou ruim para a economia e o país? O governo está no caminho certo ou equivocado no controle inflacionário?
Mas a manchete mais estranha está no blog do Tutty Vasques:
“Mangueira de Chico Buarque não é mais aquela.”

Tentando entender o episódio da liberação dos reféns das FARC

A nossa mídia continua reproduzindo os grandes patrões do norte, normalmente noticiam o que quer o governo do Bush.
Quando se trata de Hugo Chávez então chegam a perder as estribeiras!
Gilson Caroni Filho publicou o texto que segue abaixo no portal da Agência Carta Maior.
Lúcido e direto mostra que a mídia brasileira tem partido! É o partido contrário a qualquer manifestação que questione as verdades absolutas paridas pelos economistas-chefes das nações do norte.


Chávez e a imprensa refém

Gilson Caroni Filho

O “mico" é um dos jogos infantis mais conhecidos. Recortado o baralho e distribuídas as cartas, vence quem completar seus pares e não ficar com o simpático macaquinho, o único solteiro do jogo. É uma brincadeira simples e agradável que, respeitadas as especificidades, pode ser aplicada à análise da cobertura jornalística em determinadas circunstâncias. Em alguns casos, como nas recentes negociações entre Chávez e a guerrilha colombiana, é legítimo indagar: quem ficou com o mico?
O irrefreável desejo de ridicularizar a operação internacional, montada pelo presidente venezuelano, para obter a libertação de reféns em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) marcou o viés político presente em editoriais e notícias de quase todos os grandes jornais brasileiros. Podemos falar em torcida pelo fracasso, sem incorrer em exagero. Basta passar os olhos sobre o que escreveram conhecidos articulistas e donos de colunas.
Quando, no último dia de 2007, Hugo Chávez leu, na rede de televisão estatal venezuelana, um comunicado da guerrilha alegando que a intensa atividade do exército colombiano na região impediu que a operação se efetivasse, as oficinas de consenso festejaram mais uma " profecia que se auto-realizava".
Em ritmo frenético, muito se discorreu sobre "a farsa montada às vésperas do Natal para enganar a opinião pública mundial”. Os "narcoterroristas", enfim, admitiam ter mentido sobre o refém Emmanuel, filho de Clara Rojas, uma das 750 pessoas mantidas em cativeiro na Amazônia Colombiana. Com esse reconhecimento duas coisas ficavam patentes: a justeza da intransigência de Uribe e o " fato de Chávez não ter envergadura política, moral e psicológica para tomar para si o papel de negociador". Melhor, impossível, senhores editores. O mico estava com o líder bolivariano.
Estamos diante de algo que vai além de preferências pessoais. A produção jornalística só pode ser compreendida como lugar e objeto de articulações hegemônicas, espaço de representações simbólicas. A motivação da imprensa deitava raízes na desconstrução de lideranças latino-americanas e os significados de seus êxitos e fracassos. Havia dois reféns: Chávez e Uribe. O sucesso de um deles significaria o cativeiro político do outro. E cremos ser ocioso dizer por quem dobram os sinos da velha mídia.
A libertação de Consuelo Gonzáles de Perdomo e Clara Rojas provocou um terremoto no campo jornalístico. Não foi apenas a imagem de Álvaro Uribe que saiu enfraquecida no cenário internacional, mas toda uma estrutura narrativa. O êxito da segunda tentativa de libertação remete a questões que ultrapassam o fato em si.
Como destaca o professor Gilberto Dupas, coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e Presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais, “estamos falando de imagem com relação à América Latina, talvez. Em linhas gerais, eu diria que Uribe dá sinais de fraqueza. E, portanto, pode ser que isso apresse uma coisa positiva, que é uma aproximação do Uribe - e portanto da Colômbia - com uma aliança sul-americana, o que seria altamente desejável. Esse é um aspecto regional que tem peso. Por outro lado, você pode ver que os Estados Unidos estão muito quietos nessa história, não sabem bem como se posicionar, porque se ficar o bicho come, se correr o bicho pega" Com quem está o mico?
Sentencioso, o editorial da Folha de S.Paulo (12/01) insiste na tecla batida de forma orquestrada: "A libertação de Clara Rojas e Consuelo González tornara-se imperiosa para as Farc depois que se descobriu a farsa do menino Emmanuel - o filho de Rojas que a guerrilha colombiana prometera libertar, mas que não estava no cativeiro. Era a única maneira de amenizar um pouco a desmoralização dos seqüestradores flagrados na mentira, que respingou no patrocinador político da operação, o presidente Hugo Chávez". Melancólico, se espera mais de um editor. Que, ao menos, sofisme com mais requinte.
O desmentido cabal está na matéria de capa do diário argentino Página 12. Nela, Consuelo Gonzáles relata com precisão:
"No dia 21 de dezembro começamos a caminhar até o lugar onde iriam nos libertar, caminhamos quase 20 dias. Neste período, tivemos que correr várias vezes porque os militares estavam muito próximos, relatou. González inclusive denunciou que no dia em que Alvaro Uribe deu por suspensa a entrega, as Forças Armadas colombianas lançaram o pior ataque à zona em que se encontravam. "No dia 31 soubemos que iria ocorrer uma mobilização muito grande e no momento em que estávamos para sair, houve um bombardeio muito forte e nós tivemos que nos deslocar rapidamente para outra área".
Em outras palavras, a ex-refém confirma o que disseram Chávez e o comunicado das Farc. É fácil saber quem ficou com o mico. Com uma imprensa que, para cumprir o papel de porta-voz das oligarquias, ignora os próprios pressupostos que lhe confere sentido.

Fonte: Agência Carta Maior

11.1.08

Voltei!



Embora não tenha ido a lugar nenhum, estou de volta ao blog!
Esse pedaço das férias foi consumido com a mudança.
Que trágico mudar!
Parece que as quinquilharias se multiplicam em direção ao infinito.
São caixas e mais caixas de coisas. A maioria delas sem nenhum valor financeiro, mas com um grande e inestimável valor emocional.
A parte boa é a das descobertas.
Encontrei a caderneta de endereços da minha turma de 3º Colegial (1980). Duvido que alguém ainda more no mesmo lugar, mas é legal deixar guardada (não tenho a mínima idéia de serventia para isso).
Encontrei meu guardanapo autografado pelo Sócrates, não o da sicuta, mas o da Democracia Corintiana (que saudades dos dias de glória!).
Achei a pasta de fotografias do estágio em Cuba (clique aqui para saber mais sobre isso).
Alguns livros que imaginava perdidos também foram encontrados.
Em compensação perdi meu filho duas vezes nesta mudança, mas já o encontrei, assim como a esposa e, pior, a sogra!
Encontrei também uma cachorra, chamada Lassie (grafia esquisita, mas segundo Jaiminho é assim mesmo), que eu nem sabia que tinha.
Quando olho para a casa onde estou instalado lembro-me de alguns episódios bíblicos, basicamente aqueles da multiplicação dos peixes e dos pães, talvez pela enorme quantidade de caixas esparramadas pela habitação.
No mais estou com a cabeça fervilhando de novas idéias para as aulas, para o blog e “outras cositas”, me aguardem!

2.1.08

Biblioteca do Le Monde Diplomatique

Boa dica de leitura é a seleção de textos da Biblioteca do Le Monde diplomatique Brasil, eles tratam de problemas do nosso país e também do mundo.
É só clicar aqui para ter acesso.