30.9.06

A mídia venceu: vou votar no Lula!

Depois de abrir o UOL, antevendo a manchete da Folha de S.Paulo para amanhã, resolvi: vou votar!
Não suporto a idéia de ser obrigado a fazê-lo, essa lei é anacrônica e estúpida, mas pior é ver a eleição sendo decidida pelo golpismo da imprensa!
Não consigo deixar de pensar em 1989, quando a Globo fazia o serviço sujo, secundada por órgãos da imprensa escrita.
Claro que este Lula e este PT não se parecem nadinha com o de 1989. Já a mídia...
Penso que meu voto não refrescará em nada, mas não contribuirei com esses tontos e menos ainda com a hipótese de ver o Brasil governando pela OPUS DEI.
Entristecido, emputecido, torcendo o nariz, vou à seção eleitoral amanhã para cravar o 13, espero que pela última vez!

27.9.06

Vitória confirmada

Do blog do Mino Carta:

"As pesquisas confirmam o óbvio, vai ser um passeio para Lula. Sinto em dizer, sem falsa modéstia, que também se confirmam algumas observações deste que escreve. Primeira: a maioria miserável, e muitos remediados, caminham de um lado. Aquela que o governador Lembo definiu como minoria branca caminha do outro. No meio abre-se o abismo e nele medram PCC, a violência urbana, a guerra do tráfico, e até mesmo o assalto do ladrãozinho de rua. Pronto a matar. Segunda observação: a mídia deveria meditar sobre o seu fracasso. Em tantas outras oportunidades eficaz, desta vez mostrou a extraordinária capacidade de fazer buracos n’água."

É só esperar pela segunda-feira.

Reação Cultural - 2ª Edição

Gente, já está no ar a 2ª edição do Reação Cultural.

Merece uma olhada, tem bastante coisa bacana de se ler.

Espero vocês lá!

http://reacaocultural.blogspot.com/

Votar ou não votar: eis a questão!

Nas últimas eleições municipais decidi que não mais votaria enquanto o voto fosse obrigatório.
Para manter a coerência devo me afastar da urna, como o diabo da cruz, nestas eleições presidenciais.
Tenho vários motivos para isso:
O voto continua obrigatório.
O horário eleitoral é pura demagogia.
Não existem partidos políticos.
Não existe um único programa de governo sério.
Lula não fez o mínimo que eu esperava dele: reforma agrária (nem precisava ser radical), reforma educacional (educação para todos) e melhorias na saúde.

Isso para não falar dos candidatos ao legislativo, como dizem os meus alunos: sem noção!
Claro que aqui em São Paulo poderíamos lembrar de algumas pessoas sérias, como José Eduardo Cardozo, Soninha Francine e Roberto Gouveia, candidatos a deputado federal pelo PT.
Também tenho profundo respeito pelo candidato do PSOL, Ivan Valente, assim como pelo Plínio de Arruda Sampaio, candidato ao governo do estado, mas o partido não existe e começa do mesmo ponto onde o PT parou, acumulando os mesmos erros. Não consigo levar esse partido a sério.
Senado? Bom, neste caso considero a opção pelo Suplicy bem razoável.
Governo estadual? Esta é a parada mais difícil. O melhor candidato, em minha opinião, é o Plínio, mas conta com o obstáculo já mencionado acima.
Serra, nem pensar, o veto é ideológico! Além de ter essa mania de se eleger e não cumprir o mandato. Foi assim como senador e também como prefeito.
Mercadante? Não me inspira confiança e não me perguntem a razão! É intuição e pronto! O discurso dele está horroroso, próximo da direita arcaica, só falta dizer que vai colocar a ROTA na rua. Também não apresentou propostas sérias e possíveis na área de educação e saúde.
Claro que a raiva que os ataques da grande imprensa me fazem ter vontade de ir lá na seção eleitoral no dia 1/10 e repetir o voto em Lula. O Estadão e a Folha brincam com a inteligência do eleitor e do leitor, isso para não falar daquela famigerada revista semanal que nem merece ter o nome citado.
Todo o esforço de manipulação do noticiário no tocante ao “dossiê” contra os tucanos não funcionou, exceto por ter excluído um dos dados mais importantes: 70% da movimentação da máfia das ambulâncias ocorreu no governo tucano. O outro dado importante é a origem da grana para a negociação, isso sim podendo se configurar crime, não o dossiê.
O esforço de alguns magistrados em favor do tucanato também me comoveu!
Como são toscos!
Por enquanto estou firme na minha disposição e declaração de princípios: enquanto o voto for obrigatório não votarei!

26.9.06

São Paulo: cidade limpa?

A Câmara Municipal aprovou projeto do Executivo proibindo a propaganda externa na cidade de São Paulo.
Outdoors, placas, painéis, pinturas em muros, entre outros meios, estão todos proibidos a partir do dia 1º de janeiro de 2007, ou seja, na prática qualquer tipo de propaganda exterior.
É uma medida saudável, pois alivia a aparência de sujeira permanente que tal publicidade apresenta, embora algumas peças sejam verdadeiras obras de arte.
A lei não considerará como anúncios os banners ou pôsteres indicativos de eventos culturais que serão exibidos na própria edificação, museu ou teatro, desde que não ultrapassem 10% da área total de todas as fachadas.
Os estudos apontando os males da poluição visual já são muito presentes e, pela dimensão da metrópole, não imagino outra solução para a cidade que não a adotada.
Os publicitários estão reclamando bastante, inclusive apontando para um grande número de desempregados no setor.
Quer conhecer a lei na íntegra? Clique aqui.

24.9.06

Vai votar?

Antes de escolher o seu candidato confira:
http://perfil.transparencia.org.br/

Perfis de candidatos à Câmara dos Deputados em 2006

Este serviço é oferecido com a intenção de proporcionar ao visitante informações recolhidas em bancos de dados públicos a respeito de candidatos à Câmara dos Deputados nas eleições de 2006.
A intenção é propiciar ao eleitor uma decisão mais informada sobre seu voto para deputado federal.
Além de deputados que pretendem ser reeleitos são incluídos também ex-ministros, ex-governadores, ex-senadores, ex-prefeitos de capitais que buscam um mandato na Câmara. Se um candidato não se classifica numa das categorias mencionadas (os que buscam reeleição e os que ocuparam função de relevância), então seu nome não é incluído aqui.
Candidatos que queiram inserir em seus históricos manifestações próprias devem enviá-las por escrito para o endereço perfil@transparencia.org.br, informando um número de telefone para contacto direto. As manifestações serão introduzidas após verificação da autenticidade da origem. Não serão aceitos comentários que mencionem outros candidatos.
Solicita-se a outros candidatos a deputado federal que queiram ter seus históricos incluídos aqui que manifestem a intenção enviando e-mail para o endereço perfil@transparencia.org.br, informando um número de telefone para contacto direto. O histórico será incorporado após se verificar a autenticidade do pedido.

23.9.06

Eleições: reta final

Estava ansioso pelas semanais, afinal depois de uma campanha morna, alguns quadros do PT resolveram colocar água na fervura da direita, com uma manobra digna de virar piada: a tentativa de comprar um dossiê sobre o envolvimento dos tucanos com a máfia das ambulâncias.
Vamos ver o que elas nos trouxeram, a começar pela Veja (argh!).


Veja
Claro que a capa é dedicada ao Lula, mais suave do que a ameaça que circulou pela Internet, mas no conteúdo não amansa. Qualifica o dossiê de falso, único órgão de imprensa a fazê-lo, salvo engano. Desce aos detalhes. Vocifera pela impugnação da candidatura do presidente Lula, embora não ofereça provas consistentes para isso. De resto reproduz declarações de pessoas insuspeitas, dentre elas: Célio Borja (ex-UDN, Arena e PFL), ninguém menos que o Ministro da Justiça de Fernando Collor!
Como não poderia deixar de ser, bate novamente no islamismo. Com uma matéria horrorosa, Islã contra o papa, destila o seu primoroso preconceito.


Istoé
A revista continua na sua linha da semana em que denunciou o esquema da máfia das ambulâncias com os tucanos.
Primeiro conta uma história para boi dormir: Por dentro da reportagem. Chega a ser engraçada a história, mas quem se interessar pode conferir clicando no título acima.
Depois continua batendo. O misterioso Abel, contando as ligações deste empresário piracicabano com o ex-ministro Barjas Negri (hoje prefeito de Piracicaba) é a matéria principal, mas tem prosseguimento com outras denúncias na mesma linha e, para concluir, trata dos escândalo propiciado pelos petistas.


Época
Um pouco mais comedida a revista apresenta em sua matéria de capa a história do dossiê também. Na matéria principal levanta duas questões: isso afetará as eleições? E depois, quais as conseqüências? Clique aqui e veja parte da matéria disponível on-line.
Também apresenta uma matéria sobre as besteiras do papa, embora mais equilibrada que a megera, também se coloca pró-ocidente, clique aqui e confira a matéria.

CartaCapital
A capa de CartaCapital está instigante. O conteúdo mais ainda. A começar pela coluna Linha de Frente, de Walter Fanganiello Maierovitch, tratando das bobagens do papa. Compensa a leitura (clique aqui para fazê-lo).
Com relação às eleições uma análise de Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi merece destaque (clique aqui para ler).
Em A Semana (clique no título para ler) as opiniões da revista. Precisas.
Infelizmente a matéria sobre o papa reacionário e suas bobagens não está on-line, mas pelo título dá pra ter uma idéia: “DE VOLTA ÀS CRUZADAS?”.

21.9.06

Racistas controlam a revista Veja

Altamiro Borges

Na sua penúltima edição, a revista Veja estampou na capa a foto de uma mulher negra, título de eleitor na mão e a manchete espalhafatosa: “Ela pode decidir a eleição”. A chamada de capa ainda trazia a maldosa descrição: “Nordestina, 27 anos, educação média, R$ 450 por mês, Gilmara Cerqueira retrata o eleitor que será o fiel da balança em outubro”. O intuito evidente da capa e da reportagem interna era o de estimular o preconceito de classe contra o presidente Lula, franco favorito nas pesquisas eleitorais entre a população mais carente. A edição não destoava de tantas outras, nas quais esta publicação da Editora Abril assume abertamente o papel de palanque da oposição de direita e destina veneno de nítido conteúdo fascistóide.
Agora, o escritor Renato Pompeu dá novos elementos que apimentam a discussão sobre a linha editorial racista desta revista. No artigo “A Abril e o apartheid”, publicado na revista Caros Amigos que está nas bancas, ele informa que “o grupo de mídia sul-africano Naspers adquiriu 30% do capital acionário da Editora Abril, que detém 54% do mercado brasileiro de revistas e 58% das rendas de anúncios em revistas no país. Para tanto, pagou 422 milhões de dólares. A notícia é de maio e foi publicada nos principais órgãos da mídia grande do Brasil. Mas não foi dada a devida atenção ao fato de a Naspers ter sido um dos esteios do regime do apartheid na África do Sul e ter prosperado com a segregação racial”.
Líderes da segregação racial
A Naspers tem sua origem em 1915, quando surgiu com o nome de Nasionale Pers, um grupo nacionalista africâner (a denominação dos sul-africanos de origem holandesa, também conhecidos como bôeres, que foram derrotados pela Grã-Bretanha na guerra que terminou em 1902). Este agrupamento lançou o jornal diário Die Burger, que até hoje é líder de mercado no país. Durante décadas, o grupo, que passou a editar revistas e livros, esteve estreitamente vinculado ao Partido Nacional, a organização partidária das elites africâneres que legalizou o detestável e criminoso regime do apartheid no pós-Segunda Guerra Mundial.
Como relata Renato Pompeu, “dos quadros da Naspers saíram os três primeiros-ministros do apartheid”. O primeiro diretor do Die Burger foi D.F. Malan, que comandou o governo da África do Sul de 1948 a 1954 e lançou as bases legais da segregação racial. Já os líderes do Partido Nacional H.F. Verwoerd e P.W. Botha participaram do Conselho de Administração da Naspers. Verwoerd, que quando estudante na Alemanha teve ligações com os nazistas, consolidou o regime do apartheid, a que deu feição definitiva em seu governo, iniciado em 1958. Durante a sua gestão ocorreram o massacre de Sharpeville, a proibição do Congresso Nacional Africano (que hoje governa o país) e a prolongada condenação de Nelson Mandela.
Já P. Botha sustentou o apartheid como primeiro-ministro, de 1978 a 1984, e depois como presidente, até 1989. “Ele argumentava, junto ao governo dos Estados Unidos, que o apartheid era necessário para conter o comunismo em Angola e Moçambique, países vizinhos. Reforçou militarmente a África do Sul e pediu a colaboração de Israel para desenvolver a bomba atômica. Ordenou a intervenção de forças especiais sul-africanas na Namíbia e em Angola”. Durante seu longo governo, a resistência negra na África do Sul, que cresceu, adquiriu maior radicalidade e conquistou a solidariedade internacional, foi cruelmente reprimida – como tão bem retrata o filme “Um grito de liberdade”, do diretor inglês Richard Attenborough (1987).
Os tentáculos do apartheidRenato Pompeu não perdoa a papel nefasto da Naspers. “Com a ajuda dos governos do apartheid, dos quais suas publicação foram porta-vozes oficiosos, ela evoluiu para se tornar o maior conglomerado da mídia imprensa e eletrônica da África, onde atua em dezenas de países, tendo estendido também as suas atividades para nações como Hungria, Grécia, Índia, China e, agora, para o Brasil. Em setembro de 1997, um total de 127 jornalistas da Naspers pediu desculpas em público pela sua atuação durante o apartheid, em documento dirigido à Comissão da Verdade e da Reconciliação, encabeçada pelo arcebispo Desmond Tutu. Mas se tratava de empregados, embora alguns tivessem cargos de direção de jornais e revistas. A própria Naspers, entretanto, jamais pediu perdão por suas ligações com o apartheid”.
Segundo documentos divulgados pela própria Naspers, em 31 de dezembro de 2005, a Editora Abril tinha uma dívida liquida de aproximadamente US$ 500 milhões, com a família Civita detendo 86,2% das ações e o grupo estadunidense Capital International, 13,8%. A Naspers adquiriu em maio último todas as ações da empresa ianque, por US$ 177 milhões, mais US$ 86 milhões em ações da família Civita e outros US$ 159 milhões em papéis lançados pela Abril. “Com isso, a Naspers ficou com 30% do capital. O dinheiro injetado, segundo ela, serviria para pagar a maior parte das dividas da editora”. Isto comprova que o poder deste conglomerado, que cresceu com a segregação racial, é hoje enorme e assustador na mídia brasileira.
Os interesses alienígenas
Mas as relações alienígenas da revista Veja não são recentes nem se dão apenas com os racistas da África do Sul. Até recentemente, ela sofria forte influência na sua linha editorial das corporações dos EUA. A Capital International, terceiro maior grupo gestor de fundos de investimentos desta potência imperialista, tinha dois prepostos no Conselho de Administração do Grupo Abril – Willian Parker e Guilherme Lins. Em julho de 2004, esta agência de especulação financeira havia adquirido 13,8% das ações da Abril, numa operação viabilizada por uma emenda constitucional sancionada por FHC em 2002.
A Editora Abril também têm vínculos com a Cisneros Group, holding controlada por Gustavo Cisneros, um dos principais mentores do frustrado golpe midiático contra o presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. O inimigo declarado do líder venezuelano é proprietário de um império que congrega 75 empresas no setor da mídia, espalhadas pela América do Sul, EUA, Canadá, Espanha e Portugal. Segundo Gustavo Barreto, pesquisador da UFRJ, as primeiras parcerias da Abril com Cisneros datam de 1995 em torno das transmissões via satélites. O grupo também é sócio da DirecTV, que já teve presença acionária da Abril. Desde 2000, os dois grupos se tornaram sócios na empresa resultante da fusão entre AOL e Time Warner.
Ainda segundo Gustavo Barreto, “a Editora Abril possui relações com instituições financeiras como o Banco Safra e a norte-americana JP Morgan – a mesma que calcula o chamado ‘risco-país’, índice que designa o risco que os investidores correm quando investem no Brasil. Em outras palavras, ela expressa a percepção do investidor estrangeiro sobre a capacidade deste país ‘honrar’ os seus compromissos. Estas e outras instituições financeiras de peso são os debenturistas – detentores das debêntures (títulos da dívida) – da Editora Abril e de seu principal produto jornalístico. Em suma, responsáveis pela reestruturação da editora que publica a revista com linha editorial fortemente pró-mercado e anti-movimentos sociais”.
Um ninho de tucanos
Além de ser controlada por grupos estrangeiros, a Veja mantém relações estreitas com o PSDB, que é o núcleo orgânico do capital rentista, e com o PFL, que representa a velha oligarquia conservadora. Emílio Carazzai, por exemplo, que hoje exerce a função de vice-presidente de Finanças do Grupo Abril, foi presidente da Caixa Econômica Federal no governo FHC. Outra tucana influente na família Civita, dona do Grupo Abril, é Claudia Costin, ministra de FHC responsável pela demissão de servidores públicos, ex-secretária de Cultura no governo de Geraldo Alckmin e atual vice-presidente da Fundação Victor Civita.
Não é para menos que a Editora Abril sempre privilegiou os políticos tucanos. Afora os possíveis apoios “não contabilizados”, que só uma rigorosa auditoria da Justiça Eleitoral poderia provar, nas eleições de 2002, ela doou R$ 50,7 mil a dois candidatos do PSDB. O deputado federal Alberto Goldman, hoje um vestal da ética, recebeu R$ 34,9 mil da influente família; já o deputado Aloysio Nunes, ex-ministro de FHC, foi agraciado com R$ 15,8 mil. Ela também depositou R$ 303 mil na conta da DNA Propaganda, a famosa empresa de Marcos Valério que inaugurou um ilícito esquema de financiamento eleitoral para Eduardo Azeredo, ex-presidente do PSDB. Estes e outros “segredinhos” da Editora Abril ajudam a entender a linha editorial racista da revista Veja e a sua postura de opositora radical do governo Lula.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).

artigo publicado na Revista Nova-e em setembro/2006.

20.9.06

A casa caiu!

Estou tentando entender a atual crise, deflagrada pelo próprio PT, ou pelo menos por alguns importantes quadros partidários.
Parece-me que para tentar uma virada na reta final, contra o Serra aqui em São Paulo, jogaram muita farinha (para não dizer outra coisa) no ventilador.
Esses moços não aprenderam ainda que são pré-escolares na arte da política convencional quando comparados às velhas raposas que sempre mandaram no galinheiro?
O poder embriaga de fato e no caso do delírio dos camaradas petistas eles se acham poderosos e mais, que tem a mídia sobre o seu controle. Pobres coitados.
O quadro agora é o seguinte: a vaca está indo para o brejo!
A reeleição de Lula depende da velocidade do ruminante e dos empurrões que ela receber rumo ao alagado.
Aqui em Sampa a mídia não deu sossego! A Rádio CBN (Grupo Globo) bateu a segunda-feira inteira na tecla de que têm as digitais do Lula nessa operação.
Ao contrário das outras vezes o presidente Lula e o PT agiram rapidamente, afastando aqueles que, de alguma forma se envolveram com isso.
É claro que a Veja vai forçar as tintas na edição do final de semana, clamará, “lacerdisticamente”, pelo impedimento do presidente!
Uma reeleição que estava praticamente ganha, agora está ameaçada!
Pior ainda: o Mercadante vinha subindo nas pesquisas, devagar, mas com chances de forçar um segundo turno na reta final.
A reeleição de Lula está nas mãos da Rede Globo, só ele tem o poder de chegar ao eleitorado "cativo" de Luís Inácio.
Como diria meu grande ídolo Obelix: esses romanos são loucos!

19.9.06

Novo escândalo na praça

Pois quando tudo parece caminhar para a pasmaceira, alguns cuidam de se emaranhar em suas próprias teias.
Desta vez a PF apanhou gente filiada ao PT numa operação de aquisição de dossiê contra o candidato ao governo do estado de São Paulo, José Serra.
Não fosse a clareza com que alguns petistas já se pronunciaram daria até para levantar a lebre de alguma armação para comprometer a candidatura Lula, que vai de vento em popa, diga-se de passagem.
Aliás, essa trapalhada foi providencial para o PSDB, pois livra o Sr. Serra de dar explicações sobre os fatos apresentados no tal dossiê.
Para a mídia anti-Lula a história caiu como uma luva. Hoje a famosa tucana Miriam Leitão chegou a dizer que o “escândalo faria corar os envolvidos em watergate”, brincadeira?
Engraçado que a dita cuja e os seus camaradas emplumados não tiveram o mesmo ímpeto investigativo-moralista nos 8 anos de governo do “príncipe”. E olha que denúncia foi coisa que não faltou, aliás, registre-se o grande empenho desta turma em impedir a instalação de CPIs no governo tucano, hábito que trouxeram do Planalto Central para o Paulista (a imprensa informa que o picolé de chuchu conseguiu barrar mais de 60 CPIs).
Vamos aos fatos:
=> comprar dossiês não é crime;
=> portar quase R$ 2 milhões em dinheiro vivo, sem explicar a origem, é!
=> autoridade participar de solenidades não é crime, como mostra o vídeo do tal dossiê, mas influenciar licitações, acobertar falcatruas de deputados emendando orçamento é!
Então a PF deve investigar a procedência e legalidade desta pequena fortuna e, juntamente com o Congresso, esgotar as investigações nos tocante à Máfia das Ambulâncias.

17.9.06

Para a Folha de S.Paulo nem todos são filiados a partidos políticos

Estranhei uma notícia da Folha de S.Paulo de hoje (17/9). Vejam alguns trechos abaixo:

“O governador Blairo Maggi (MT) concedeu isenção de imposto sob medida à Planam....Candidato a vice na chapa de Maggi à reeleição, o deputado estadual Silval Barbosa (PMDB), é co-autor de lei complementar...O outro autor é o deputado estadual e aliado de Maggi José Riva (PP).”

Vejam, temos um candidato a vice que é do PMDB, um deputado estadual que é do PP, mas não sabemos, pelos menos pela Folha de S.Paulo, qual o partido do governador Blairo Maggi. Qual será a razão?
Para quem não sabe ele é do PPS, o partido que antigamente era comunista. Outra coisa estranha, a convergência entre um partido de esquerda e um dos maiores plantadores de soja do Planeta.
Será que existe alguma norma proibindo de apontar o partido do governador que disputa a reeleição? Alguma norma do famoso Manual de Redação? Alguém consegue me explicar?

Eleições: decisão na marca do pênalti

Faltando 15 dias para as eleições vejamos como estão as principais semanais do país:

Istoé
Na capa os Vedoim em destaque, batendo forte em José Serra (leia a matéria clicando aqui). Em compensação Geraldo Alckmin ganha saborosas páginas (clique aqui para ler), onde garante que haverá segundo turno e que as pesquisas de opinião atuais são equivocadas. Conta para isso com uma grande quantidade de votos nulos e brancos.
Outra matéria que merece atenção é a que trata das ameaças contra o bispo do Xingu, dom Erwin Krautler. Compensa ler a matéria, clique aqui para fazê-lo.
Aborda ainda o assassinato do Cel. Ubiratan.


Época
A revista dá sua capa para um assunto muito interessante: inclusão de crianças com síndrome da Down, embora use a novela da Globo, Páginas da Vida, para anunciar a matéria, ou seja, tome o tal “merchandinsing social” (clique aqui para ler parte da matéria). Na seção de política tem um quadro interessante, mas superficial, de respostas dos candidatos à presidência às perguntas dos leitores. Veja a matéria clicando aqui. Faz ainda referências à carta do FHC e também trata da nova crise com a Bolívia. Também destaca o caso do assassinato do Cel. Ubiratan, o comandante do massacre do Carandiru.


Veja
A famigerada entregou os pontos. O centro da discussão política é o José Serra, talvez representando a fortaleza do PSDB, já que no plano nacional tudo indica que a vaca foi para o brejo. Como último suspiro alardeia o caso das “cartilhas da SECOM”, acenando inclusive com a possibilidade de instauração de processo de impeachment, segundo o senador Tasso Jereissati, o probo.Risível! Destaques para Fernando Gabeira, novo modelo de política para a família Civita, embora tenha pisado na bola justamente essa semana na CPI das Sanguessugas e também para o assassinato do Cel. Ubiratan. (Clique no nome da revista para acessá-la on-line).



CartaCapital
Para variar, show de bola. Na matéria de capa uma análise sobre as possíveis bancadas para a próxima legislatura. Dentre as matérias disponíveis no site recomendo Plantar para quem?, ótima sobre política agrícola e bancos de fomento; também Comércio sem ilusões, tratando do G-20 e do comércio mundial, além do imperdível A moda do três em um, relato de debates promovido pela CartaCapital.
Quer saber? Se eu fosse você correria até a banca mais próxima e compraria a revista.
Os colegas professores devem comprar também a CartaCapital na Escola, a edição número 8 está no site e a de número 9 chega amanhã às bancas.

16.9.06

Novas bobagens do papa

Novamente este papa reacionário mostra sua verdadeira “fé”: a intransigência e a intolerância!
No final do último papado ele protagonizou, junto com o gordo fascista polonês (nenhuma ofensa aos gordos e menos ainda aos poloneses), um dos primores da intolerância e arrogância católica, quando apoiou recomendação da igreja italiana para que se evitassem os casamentos inter-religiosos, principalmente com muçulmanos.
Agora faz um discurso na Alemanha que prima pelo desprezo da razão, embora invoque a mesma para articular suas bobagens contra a fé islâmica (clique aqui e leia os “piores” momentos do discurso).
Será que este infeliz não tem a dimensão do seu papel no mundo? Ele poderia guardar essas bobagens para o seu bando de puxa-sacos e não despejá-las em público.
Não bastasse a perseguição que este fariseu empreendeu contra os religiosos progressistas, principalmente no chamado Terceiro Mundo, resolve agora provocar o povo muçulmano! A troco do quê, alguém sabe me responder?
Ele poderia ter colhido melhores exemplos dentro das práticas do próprio cristianismo.
Poderia ter mencionado a implacável perseguição aos judeus, poderia ter mencionado As Cruzadas ou ainda a “colonização” da América acompanhada do extermínio dos povos nativos. Ou que tal o patrocínio à escravidão? Ou ainda o simpático apoio às atrocidades de um tal Adolf Hitler?
Com certeza agora teremos os pedidos formais de desculpas, mas o estrago já foi feito e como dizia meu sábio avô, depois que inventaram esse negócio de desculpas ninguém mais perde os dentes.

clique nas palavras ou expressões em negrito para saber um pouco mais sobre o tema...

Perólas do Timor-Leste

Caros Amigos,

São tantas as coisas a contar... Mas quero focar também as coisas boas de Timor-Leste. Temos esse costume de olhar somente para parte vazia do copo, que na verdade, está cheio até a metade.
Aliás, ultimamente só ando falando de coisas tristes. Pudera, esta semana, pedalando por Dili, encontrei novas cenas de destruição. Se somarmos São Paulo e Líbano, por exemplo, a luta da humanidade pelo direito básico de viver em paz, é algo ainda impensável.
Mas vamos seguindo com algumas reflexões sobre os últimos fatos acontecidos deste lado do mundo, a 20.000km de distância.
O que pensar e fazer quando:
Você vê uma Freira colando na prova...
Você descobre que no processo seletivo de novos professores, no período de ocupação indonésia, o futuro docente deveria ministrar uma aula fictícia para uma sala vazia - ensinar as cadeiras - enquanto um grupo de avaliadores ficava atrás de uma sala com espelhos a observá-los...
As pessoas, depois da crise em 2006 no Timor, continuam a dizer que o fato aconteceu porque os timorenses "são parvos, ignorantes" ou ainda "que se matem"...
Os australianos - assim como os americanos - desconsideraram as recomendações da ONU, pressionaram e conseguiram se manter como única força militar em solo timorense, impedindo a entrada de um exército neutro, sob comando das Nações Unidas. Adeus autodeterminação...
O líder rebelde - o Major Alfredo Reinado - e seus 56 liderados fugiram - a moda brasileira, pela porta da frente da prisão - no feriado nacional de 30 de Agosto. Segundo apurou-se, as forças neozelandesas que faziam a segurança do local, se retiram da prisão sem aviso, sob a orientação australiana de que não estão aqui para defender prisões, mas sim o povo timorense (sic!)....

Ainda há muito que se discutir sobre estes assuntos, mas dar conta de duas vidas uma no Brasil e outra aqui não esta fácil...

Abraços

Tarcísio Botelho

Voltei!

Amigos e amigas estou de volta!
Não estava em campanha política, mas viajando com meus alunos da 2ª Série do Ensino Médio, vocês podem ver um pouco dessa viagem no blog Pueri no Vale.
Antes disse fiquei um pouco ausente em razão do período de fechamento de notas, sistema trimestral, fui um pouco relapso na organização dos meus horários e agenda.
Na semana do feriado tive o prazer de reencontrar alguns amigos na cidade de Fernandópolis, a 550 km aqui da capital. Muita conversa boa, música, truco, cerveja e churrasco. Estava precisado.
Agora me aguentem!

11.9.06

continuo fora de São Paulo

Amigos e amigas,

cheguei ontem de Fernandopólis (região de São José do Rio Preto). Passei um feriado agradável e animado, cercado de muitos amigos.
Amanhã, terça-feira, vou para Bananal realizar um estudo do meio com meus alunos da 2ª série do ensino médio do Colégio Pueri Domus.
Retornarei na sexta-feira, se conseguir acesso farei postagens de lá, caso contrário só no próximo final de semana.

Até mais.

5.9.06

Pequena ausência

Caros amigos e amigas, em função de uma sobrecarga de problemas, pessoais, profissionais, sociais, financeiros, psicológicos... Darei um descanso para todos vocês até o próximo dia 10.
Até lá...

Toni

2.9.06

Não ter raízes

Às vezes isso é um problema, outras vezes solução!
Fazendo uma viagem no tempo percebi como sou desconectado de um lugar.
Vejam, nasci em Lucélia, uma pequena cidade do interior de São Paulo, muito cedo fui para o mundo, com meus pais. Vivemos aqui em São Paulo entre a metade dos anos 60 e dos anos 70.
Morei na zona norte e depois nos bairros operários do fundão da zona sul.
Pelo meio dos anos 70 mudamo-nos para Varginha, sul das Minas Gerais. Lá vivi minha adolescência e início da idade adulta, cronologicamente falando. Em 1981 saí de Varginha, retornei para São Paulo. Nos primeiros anos um grupo de amigos e um amor desvairado me mantiveram amarrado naquela bela cidade do sul das Geraes.
O amor se foi, graças ao grande idiota que sou, os amigos foram tomando rumos diferentes e a própria distância cuidou de nos separar, hoje mantenho contato apenas com um desses amigos lá das montanhas do sul de Minas.
Voltei para São Paulo, a ditadura militar já caminhava para o seu ocaso e me dediquei de corpo e alma a militância política.
Partido clandestino, alimentando o sonho da revolução que nunca veio, movimento popular, construção do Partido dos Trabalhadores, movimento sindical...
Respirava política. Até que “os meus amigos” (ao contrário do que disse Cazuza) chegaram ao poder. Cada fatia de poder que eu via os caras abocanharem crescia minha decepção e desencanto.
Paralelamente a uma carreira profissional num banco alimentava essa intensidade política.
Veio a crise dos 30. Crise profissional, pessoal, financeira, política...
Resolvi virar professor e abandonar todo o resto. Mais um rompimento. Os grandes amigos do tempo do Banco, do Sindicalismo, do Partido, enfim daquele mundo no qual vivia, foram raleando e desaparecendo.
Desde 1993 na sala de aula. Passei por várias escolas e fiz poucos amigos, parece que estou vacinado contra as perdas, por isso não me importo muito em fazer aquisições.
Vínculos mesmo só com uma turma de faculdade. Longas jornadas de truco e cerveja noite à dentro (e a fora), criaram uma amizade que parece ser inquebrantável, embora cada um no seu canto, com seus afazeres, ainda nos reunimos esporadicamente.
Aliás, amanhã tem churrasco, talvez eu até apareça, embora depois da minha internação no INCOR esteja evitando “áreas de risco” (entendam: picanha, cerveja, truco... só!).
Talvez esteja me sentindo velho. Ou a perda de algumas pessoas próximas nos últimos anos tenha me trazido o medo da morte, mas estou com uma vontade irresistível de restabelecer alguns laços, menos com “os amigos” que estão no poder, sentados nas mesas luxuosas do Planalto Central.

Texto publicado em 14/7/06.

Cotas raciais: contra ou a favor?

Este tema sempre se faz presente nas minhas aulas, sejam de Geografia, no colégio, ou Atualidades, no Cursinho.
Vou começar o texto pelo final: sou favorável!
Durante muito tempo essa idéia me enervou pelo “americanismo” contido nela e por achar que reforçaria um racismo ao contrário.
Lendo uma entrevista do mestre Milton Santos, mudei de idéia! Nela o professor Milton Santos dizia que cotas deveriam ter data para começar e para acabar. Prazo de validade!
Pensei: é isso! A sociedade reconhece parcela de sua culpa coletiva pelo estado de coisas em relação ao povo afro-descendente e estabelece um prazo para purgar seus pecados, ao mesmo tempo dá um tempo para que o prejudicado vire o jogo!
Uma coisa é fato, comprovado tanto pelas estatísticas quanto pelo derramar de nosso olhar pelas ruas: os pobres, em sua maioria, são pretos e mulatos, como dizia aquela música de Caetano e Gil, faz alguns anos.
Reafirmo que entendo as cotas como um mal necessário, reparador, uma ação coletiva.
Caso queira melhor formar sua opinião recomendo que comece pelas seguintes leituras:

Manifesto em favor da lei de cotas e do estatuto da igualdade racial
Carta pública ao Congresso Nacional

Quer informações com maior densidade? Leia então os artigos: Política de cotas raciais, os "olhos da sociedade" e os usos da antropologia: o caso do vestibular da Universidade de Brasília (UnB), de autoria de Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura Santos, publicado na Revista Horizontes Antropológicos; A reserva de vagas para negros nas universidades brasileiras, de autoria de Yvonne Maggie e Peter Fry, publicado na Revista de Estudos Avançados e O bicho na toca, de Marco Frenette, publicado na Revista Fórum, nº. 11.
Poderia sugerir vários outros, mas creio que estes bastam para dar início à formação de uma opinião, seja ela qual for, afinal a minha está dada no início do texto.

Brasil-Bolívia e o cenário geopolítico sul-americano

Brasil-Bolívia e o cenário geopolítico sul-americano

Segue abaixo texto do amigo Edilson A. Silva:

Edilson Adão C. Silva* - Especial para o UOL

A recente celeuma envolvendo a nacionalização dos hidrocarbonetos (gás e petróleo) bolivianos demonstra a reconfiguração geopolítica que perpassa pelo subcontinente sul-americano nos últimos anos. Esta reconfiguração aponta para uma América do sul mais à esquerda, como nunca antes visto. Neste espaço, onde para muitos o Brasil seria uma "liderança natural", tem aparecido lampejos de rebeldia à suposta liderança, como transparece nas ações de Hugo Chávez, Evo Morales, ou mesmo Nestor Kirchner.
A Bolívia, razão da última turbulência, traz em sua trajetória uma história de derrotas e usurpação de suas riquezas. No início, foi a prata, levada de Potossi pelo colonizador espanhol. As jazidas de estanho, que chegaram a ser as segundas maiores do mundo, se exauriram devido à exploração intensiva que mineradoras internacionais realizaram no país. Sobrou do espólio exploratório o gás, o petróleo e muita pobreza. Talvez a última chance de sair do atoleiro social no qual vive o país esteja em resguardar o que sobrou de suas reservas minerais para um uso mais racional e em prol do país, coisa que de fato nunca houve.
Em sua formação territorial, o país acumula grandes perdas. Para o Chile, perdeu a saída para o mar, após a Guerra do Pacífico, no final do século XIX. O revanchismo boliviano é vivo até hoje e foi um dos fatores dos distúrbios de 2003 que derrubaram o presidente Sánchez de Lozada; o presidente acertara com os chilenos o escoamento dos recursos bolivianos por um porto no país vizinho, fato inaceitável aos índios nacionalistas.
Quanto às relações Brasil-Bolívia (em um século de história) revelam um indisfarçável subimperialismo brasileiro. No começo do século XX, o diplomata José Maria Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, encaminhou as negociações entre os dois países, após esses se desentenderem sobre seringueiros brasileiros na imprecisa fronteira Brasil-Bolívia. O desfecho do episódio culminou com a conquista do Acre pelo Brasil.
Na metade do século passado, Brasil e Argentina constituíram os dois jogadores em busca da hegemonia local, permanecendo os outros três países que também se encontram na área da bacia Platina - Bolívia, Paraguai e Uruguai - à mercê da influência de uma ou outra potência regional. A Argentina iniciou o século XX com preponderância na América do Sul, mas o Brasil virou o jogo a partir da segunda metade do século. Nesse contexto, o Brasil "roubou" a Bolívia da Argentina, oferecendo-lhe uma "saída" para o Atlântico por dentro do território brasileiro, através da EFBRB (Estrada de Ferro Brasil-Bolívia), viabilizando ao país andino o acesso ao Porto de Santos. Nessa realização estava contida a estratégia brasileira de captação dos vizinhos sul-americanos, idealizada nos gabinetes da Escola Superior de Guerra, de quem o general Golbery do Couto e Silva era o principal mentor intelectual.
O terceiro movimento da geopolítica brasileira nessa espécie de "satelização" boliviana, foi a investida da Petrobras rumo às riquezas dos hidrocarbonetos do vizinho andino. Isto se deu no início dos anos 1990, ainda no governo Collor, e se aprofundou com o início das obras do gasoduto Brasil-Bolívia, em 1997. Com a utilização do gás boliviano, a matriz energética brasileira, assentada até então na energia hidráulica e petrolífera, passaria a contar com uma contribuição do gás de aproximadamente 10% em seu parque energético.
A ação do governo brasileiro pretendia atender a duas pretensões: primeiro, potencializar a demanda energética brasileira, à época sob forte ameaça de um "apagão"; segundo, consolidar a subserviência geopolítica boliviana ao Brasil. A Petrobrás seria indispensável nesse processo, já que se converteu em uma das gigantes do petróleo na área internacional.
Mas o cenário da política interna boliviana seria abalado por uma série de manifestações nacionalistas, que, entre outras coisas, clamava pela nacionalização do subsolo boliviano e se manifestava contra a "entrega" das reservas do país. No conturbado cenário, perpassaram pela Bolívia, em menos de três anos, três presidentes. Um plebiscito, realizado em 2003, atestou o resultado de 92% pelo resgate da soberania boliviana junto aos hidrocarbonetos. É evidente a mudança do cenário político que ocorreu na Bolívia, um país que há pouco tempo tinha no comando do país um presidente com forte sotaque inglês, El Gringo (Sanches de Lozada, educado nos Estados Unidos e oriundo da elite branca boliviana).
A eleição de Evo Morales, em 2005, para a Presidência da República anunciava as mudanças. Índio aimará, líder cocaleiro, socialista e fundador do partido de esquerda MAS (Movimento ao Socialismo), vinha somar-se à onda esquerdista ascendente na América do Sul. Para muitos, esse foi um efeito da falência do modelo neoliberal, adotado em massa no subcontinente na década de 1990.
O último capítulo é a presente crise Brasil-Bolívia envolvendo a discórdia em torno da exploração do gás. Os fatos ainda estão se desenrolando e a polêmica instaurada. Contudo, uma análise conjuntural pertinente, exige que a paixão nacionalista de ambos os lados seja colocada de lado e a âncora da compreensão deve ser lançada primeira ao passado e depois ao futuro, para poder assim, analisar com lisura o presente.

Edilson Adão C. Silva é professor do Cursinho da Poli, em São Paulo, e autor de "Oriente Médio: a Gênese das Fronteiras" (editora Zouk).

Fonte: http://noticias.uol.com.br/licaodecasa/materias/medio/atualidades/ult1685u241.jhtm