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19.3.09

Operação Condor

Operação Condor eliminou fronteiras da repressão política

Condor é uma ave típica dos Andes e símbolo do Chile. Mas é também a ave com a arte da astúcia na caça às suas presas. Foi este o nome que se tornou a marca da unidade sanguinária dos serviços de segurança das ditaduras do Cone Sul na década de 70. A Operação Condor teve no ditador chileno, general Augusto Pinochet, seu grande articulador - e o chefe do seu serviço secreto, a Dina, o coronel Manuel Contreras, o executor. Era um acordo operacional onde as fronteiras entre, inicialmente, Chile, Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Brasil deixaram de existir para operações de caça, captura, tortura e assassinatos de adversários políticos dos regimes daqueles países. A reportagem é de Maria Inês Nassif e publicada no jornal Valor, 11-12-2006.
O Brasil, que iniciou em 1964 seu último período de treva totalitária - que se estenderia até 1985 -, deu os primeiros passos para a articulação anticomunista na região. Em 1970, com medo de "sovietização" da Bolívia, ofereceu aos adversários do presidente Juan José Torres dinheiro, aviões, armas e até mercenários e permissão para instalar áreas de treinamento em território brasileiro perto da fronteira. O golpe de Estado preparado pelo general Hugo Banzer teve apoio logístico do Brasil.

Clique aqui para ler o texto na íntegra.

20.3.08

Não assine o Valor Econômico – a empresa não cumpre o contratado

Criou-se um mito que somente o serviço público presta atendimento ruim aos consumidores ou ao contribuinte.
Dia após dia convenço-me que há uma epidemia de gestores ruins e atendimentos péssimos espalhados pelo país, democraticamente distribuídos entre os setores público e privado.
Já narrei aqui minhas desventuras com empresas como o Ponto Frio e Fiat. Sem contar os fatos inenarráveis envolvendo a Telefônica.
Agora o problema surge de onde menos eu esperava: o jornal Valor Econômico!
Isso mesmo! Este prestigioso jornal, com ótimo noticiário do mundo econômico e político, estruturado por duas grandes empresas de mídia, Globo e Folha de S.Paulo, não é capaz de cumprir um pequeno contrato feito comigo, vejam só.
Fiz uma assinatura desse jornal em junho passado e ganhei 6 meses de CartaCapital. Como já sou assinante da revista passei o “brinde” para o meu sobrinho imediatamente.
Isso foi no meio do ano passado!
Desde então tento receber o brinde e nada! Vários contatos por e-mail e telefone, tempo e paciência desperdiçados.
Hoje consegui uma vitória: a assinatura foi cancelada! Mas, segundo a moça que me atendeu, ainda terei de aguardar 72 horas para a confirmação do setor responsável.
O jornal perdeu um assinante, que, pela maneira como me trataram não fará falta, mas também um leitor, pois não posso confiar no noticiário de uma empresa que não cumpre o que promete.
Por isso recomendo: não assine e não leia o Valor Econômico.

29.2.08

A Finlândia faz sucesso na educação

A Finlândia tem chamado a atenção do mundo em razão dos ótimos resultados dos seus estudantes em testagens internacionais, como o PISA (clique aqui para saber o que é PISA).
É comum que de tempos em tempos aconteçam revoadas de educadores – além de empresários da educação – brasileiros até as terras finlandesas tentando descobrir os segredos do sucesso desse pequeno país europeu.
Abaixo segue matéria publicada hoje no jornal Valor Econômico. Merece ser lida.


O que torna os adolescentes finlandeses tão inteligentes?

Ellen Gamermanvia Enriquez, The Wall Street Journal, de Helsinque, Finlândia

Aqui, estudantes de nível médio raramente têm mais de meia hora de dever de casa. Para os padrões do mundo desenvolvido, o sistema parece relaxado: os estudantes não usam uniforme, não há punição por atrasos nem programas especiais para alunos brilhantes. Quase não há exames padronizados, poucos pais arrancam os cabelos pensando na faculdade e as crianças só começam a ir à escola aos 7 anos.
Ainda assim, de acordo com um ranking internacional, os adolescentes finlandeses estão entre os mais inteligentes do mundo. Eles tiraram algumas das melhores notas entre estudantes de 15 anos de idade testados em 57 países. Em vários países de sistema mais rigoroso, como os Estados Unidos, as notas foram bem mais baixas, enquanto as médias dos brasileiros ficaram entre as dez - piores. E olha que os finlandeses vão à escola de cabelo tingido, usam vestido de alça no inverno (para parecerem mais fortes), adoram sarcasmo e curtem rap e heavy metal. Mas no nono ano escolar estão à frente em Matemática, Ciências e Leitura - a caminho de se tornarem alguns dos mais produtivos trabalhadores do mundo.
Os finlandeses atraíram atenção mundial com seu desempenho em testes trienais patrocinados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, um grupo financiado por 30 países que acompanha tendências sociais e econômicas. Na mais recente rodada de testes, estudantes da Financia ficaram em primeiro em Ciências e segundo em Matemática e Leitura, segundo resultados divulgados no fim do ano passado.
Computando-se as três notas, a Finlândia fica em primeiro lugar, embora os resultados não sejam divulgados dessa maneira, diz Andreas Schleicher, que dirige o Programa para Avaliação Internacional de Estudantes, conhecido como Pisa, sua sigla em inglês. O Brasil ficou em 49o no teste de Leitura, 52o no de Ciências e 54o no de Matemática. Cerca de 400.000 estudantes foram testados ao redor do mundo. O teste é feito com questões de múltipla escolha e redações que avaliam o pensamento crítico e a aplicação do conhecimento. Um exemplo de tema: "Discuta o valor artístico de pixações."
O desempenho escolar dos estudantes finlandeses tem atraído educadores de mais de 50 países que querem aprender o segredo do país. O que eles descobriram é simples, mas não fácil: professores bem treinados e crianças responsáveis. Logo cedo, as crianças fazem muitas coisas sem a supervisão de adultos. E os professores criam lições sob medida para seus estudantes. "Não temos petróleo ou outras riquezas. Conhecimento é o que o povo finlandês tem", diz Hannele Frantsi, uma diretora de escola.
Visitantes e professores em treinamento podem ver como isso é feito do balcão sobre uma classe na escola Norssi, em Jyväskylä, um cidade na área central do país. O que eles vêem é uma abordagem tranqüila e básica. A escola, que é um modelo, não tem adendos comuns em outros países no topo do ranking, como equipes esportivas e bandas.
Basta acompanhar a estudante Fanny Salo, de 15 anos, para ter uma idéia da simplicidade do currículo. Fanny é uma garota cheia de energia, que adora historinhas românticas, o seriado de TV "Desperate Housewives" e as lojas de roupas que visita com as amigas.
Fanny só tira nota A, e como não há classes especiais para estudantes de melhor desempenho, escreve em seu diário enquanto espera que os demais completem uma determinada tarefa. Ela costuma ajudar colegas que ficam para trás. "É bom ter tempo para relaxar um pouco no meio da aula", diz. Educadores finlandeses acreditam que obtêm melhores resultados quando se concentram nos estudantes mais fracos do que se ficarem cutucando os mais dotados para se destacarem dos demais. A idéia é que estudantes brilhantes podem ajudar os medíocres sem prejuízo de seu próprio progresso.
No almoço, Fanny e suas colegas saem da escola para comprar salmiakki, um alcaçuz salgado. Voltam para a aula de Física, que começa quando todos se aquietam. Professores e estudantes referem-se uns aos outros pelo primeiro nome. É proibido usar celular, iPods ou chapéus - e essa é praticamente a única regra da classe.
A Norssi é administrada como um hospital universitário, com cerca de 800 professores em treinamento a cada ano. Universitários trabalham com os estudantes enquanto instrutores ficam por perto, avaliando-os. É preciso mestrado para ser professor e a profissão é concorrida. Mais de 40 pessoas podem se candidatar para a mesma vaga. Os salários estão no nível do Primeiro Mundo, mas em geral eles têm mais liberdade na Finlândia.
Professores finlandeses escolhem livros e adaptam as lições para levar os estudantes aos padrões nacionais. "Na maioria dos países, educação parece uma fábrica de carros. Na Finlândia, os professores são empreendedores", diz Schleicher, da Pisa, que tem sede em Paris e começou a fazer os testes em 2000.
Uma explicação para o sucesso finlandês é sua paixão por leitura. O governo dá um pacote para os pais de recém-nascidos que inclui um livro de figuras. Algumas bibliotecas são anexas a shopping centers e há sempre uma biblioteca ambulante em todos os bairros.
A língua local só é falada aqui e até os livros em inglês mais vendidos são traduzidos muito depois do lançamento. Muitas crianças se esforçaram para ler o último Harry Potter em inglês porque tinham medo de que alguém lhes contasse o final antes que chegasse a versão em finlandês. Filmes e programas de TV têm legendas em vez de dublagem. Uma estudante universitária diz que se tornou uma leitora veloz na infância quando ficou viciada no seriado "Barrados no Baile".
Por essas e outras, o sistema finlandês é difícil de imitar. A população do país, de 5,3 milhões, é bastante homogênea e há pouca disparidade de educação e renda. O governo gasta, em média, US$ 7.500 por estudante. Os impostos são altos, mas o nível de renda permite às crianças se dedicar aos estudos sem precisar trabalhar. Faculdades são gratuitas. O padrão de vida é um dos mais altos do mundo.
Mesmo assim, os finlandeses também temem ficar para trás na economia global. Eles dependem de empresas de eletrônicos e telefonia, como a fabricante de celulares Nokia, e da indústria de celulose e papel para geração de empregos. Alguns educadores dizem que a Finlândia precisa acelerar o desenvolvimento de seus melhores estudantes, como se faz nos EUA, com programas voltados à formação de líderes.
Contudo, o sistema finlandês tem servido de exemplo ao redor do mundo. Numa palestra no Peru sobre como adotar os métodos de ensino finlandeses, o diretor de escola Tapio Erma contou a história de um estudante de nível médio que adormeceu na carteira durante uma aula de matemática avançada. O professor não o acordou. Embora cochilar na classe não seja aprovado, Erma diz: "Temos de aceitar o fato de que são crianças e estão aprendendo a viver."
Fonte: Valor Econômico - 29/2/08.

28.2.08

Territórios de Cidadania

O governo federal apresenta um novo conceito de gestão na área social: Territórios de Cidadania.
O projeto parece resgatado daqueles bons tempos do PT entranhado nos movimentos sociais e grávido da mais bela e pura democracia.
Se vamos passar da idealização para a realização são outros quinhentos e só o tempo responderá.
O Valor Econômico de hoje publica excelente texto de autoria de Maria Inês Nassif. A leitura compensa:


Política vai parar de ganhar com a miséria

Nos primeiros dois anos de governo, os efeitos do Bolsa Família passaram batido. Em parte, por conta de uma reconhecida incapacidade do primeiro governo Lula de divulgar seus feitos. Mas, além disso, pela tendência dos brasileiros "de bem" de subestimarem a extensão da miséria brasileira. E o Brasil é tão pobre e tão desigual que um simples programa de transferência de renda teve enorme impacto sobre a vida das famílias pobres. O país que lê e tem emprego só entendeu a extensão dos resultados do Bolsa Família quando as pesquisas eleitorais, no auge do escândalo do mensalão, passaram a dar a dianteira ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre qualquer candidato oposicionista, apesar de ter sido mantido durante longo período sob o fogo cerrado da oposição.
Lula teve uma retumbante vitória, em 2006, nos bolsões de pobreza e nos Estados mais pobres da Federação - os mais beneficiados pelo programa de transferência de renda. Mas os efeitos políticos do Bolsa Família devem transcender uma eleição (a de 2006) e um presidente (Lula). As eleições de 2006 desarrumaram o arranjo tradicional, onde os chefes políticos locais levam o rebanho até o candidato apoiado pelo chefe estadual e este, por sua vez, negocia favores da política nacional. Esse desarranjo foi favorecido não apenas pelo Bolsa Família, mas também pela universalização do uso da urna eletrônica, guardiã do segredo do voto. Como o chefe político local não era o dono do benefício concedido ao pobre - que vinha na forma de um cadastramento feito pela prefeitura, mas que depois se tornava uma relação entre o beneficiado e o banco onde ele recebe o dinheiro - não era também aquele a quem se deveria retribuir com o voto. Aconteceu de forma bastante ampla, em 2006, uma inversão do que ocorria tradicionalmente: em vez do chefe local dizer em quem o eleitor teria que votar - e já não teria total controle sobre esse voto, que é eletrônico -, foi o chefe quem correu atrás do candidato do cidadão pobre. Lula conseguiu apoios nada desprezíveis de prefeitos de todos os partidos. E certamente não foi porque os prefeitos tinham se tornado petistas. Eles simplesmente adiaram um confronto com seus eleitores - reconciliaram-se com eles por meio de uma adesão pontual ao candidato à reeleição para a Presidência.
O efeito Bolsa Família, que foi tão desprezado até o início do processo eleitoral de 2006, é hoje um risco para os políticos tradicionais. A oposição não pode falar contra o programa de transferência de renda - isso é evidentemente impopular -, mas cristalizou uma clara aversão a programas sociais mais amplos, em especial os saídos da lavra deste governo. Não é de se estranhar a reação pronta do ex-PFL, hoje DEM, que promete sustar o programa Territórios da Cidadania na Justiça, por ter sido lançado em ano eleitoral - o que o tornaria ilegal.
O programa anunciado por Lula pode até surtir efeitos eleitorais, mas a sua única novidade - e boa novidade, aliás - é a ação integrada de programas já existentes, em bolsões de pobreza localizados na área rural. O que o governo anunciou, na verdade, foi um conceito de gerência de programas sociais que já se antevia no Bolsa Família, que agregou na sua origem vários programas dispersos, e nas ações do Ministério do Desenvolvimento Social, que articula ações de vários ministérios.
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Territórios da Cidadania são conceito gerencial
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No caso do Territórios da Cidadania, a coordenação é do Ministério do Desenvolvimento Agrário, mas até o Ministério da Cultura está envolvido. E tem uma lógica que não é simplesmente eleitoral: é voltado para as populações agrárias porque elas são as que vivem nas regiões de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do país; atende localidades mais beneficiadas pelo Bolsa Família porque esse é um indicador de miséria; atendem a um planejamento local, feito por colegiados, onde estão representados também prefeitos e representantes dos governos estaduais, além das comunidades. Teoricamente, o fato de abrigar nos colegiados os prefeitos, independente do partido a que pertençam, despem o programa de caráter eleitoral. Mas, na prática, esses colegiados tiram do prefeito, ou dos deputados que são eleitos por essa população, a "autoria" do benefício à comunidade. Os colegiados são a antiemenda parlamentar. Do outro lado, podem diluir a responsabilidade do governo federal sobre os programas, já que todas as unidades da federação estão lá representadas. O jogo está zerado, portanto. O que definirá o voto desses eleitores é como os políticos se adeqüam a uma realidade onde gradativamente são trazidos ao mercado de consumo um grande número de brasileiros, que a partir de então passam a ter novas exigências que não a sobrevivência imediata.
Há um enorme ganho, inclusive fiscal, nesse conceito gerencial. Atender uma região com o Pronaf sem que a agricultura familiar tenha assistência técnica, ou infraestrutura para escoamento da produção, ou mesmo educação para trazer a economia de subsistência para o capitalismo, é jogar o Pronaf fora. Dar Bolsa Família sem viabilizar à agricultura familiar uma atividade produtiva é eternizar o Bolsa Família. Incentivar o beneficiamento da produção em cooperativa sem que a região tenha luz elétrica é jogar produção no lixo. Miríade de programas sociais que não se integram jogam dinheiro público fora e não alteram em nada a vida da população.
Fora alguns conselhos que já se reuniram para debater a prioridade de seus Territórios de Cidadania, ele ainda é uma intenção. Se o governo Lula tiver capacidade para implantar esse modelo gerencial de programas sociais, será um ganho para o país. Isso é com o Executivo. Quanto aos políticos, o que eles devem fazer, se a intenção declarada do governo tornar-se de fato um programa bem-sucedido, é repensar a forma de arregimentar eleitores. Ações que desintermediam o voto podem até beneficiar um primeiro governo, aquele que o implantou (e esse efeito pode ter ocorrido já no passado, na reeleição de Lula), mas depois passam a ser neutras politicamente. Daí, ganha votos quem fizer a melhor política.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
maria.inesnassif@valor.com.br
Fonte: Valor Econômico - 28/2/08.