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22.6.08
Violência no Rio de Janeiro
Três jovens foram assassinados no Rio de Janeiro, na favela da Providência.
Estava esperando aquelas passeatas, com velas e panos brancos na janela. Aquelas que percorrem a orla na cidade maravilhosa, ou que terminam na Avenida Paulista ou no Ibirapuera aqui em São Paulo.
Cadê o pessoal bonito, bem arrumado e penteado – com as roupas de grife e os óculos escuros – protestando contra a barbárie e a violência?
Claro que não aparecerão, afinal os mortos eram garotos pretos e pobres, moradores da favela, uns até com passagem pela polícia...
A solidariedade e o senso de justiça estão ordenados por classe social e são altamente seletivos.
Fossem moços brancos, filhos de alguém com boa conta bancária ou com acesso privilegiado aos meios de informação e já teríamos passeatas e campanhas midiáticas tomando conta do país.
Abaixo segue uma reflexão do Itamar Silva, coordenador do Ibase:
Chacina da Providência
Itamar Silva*
A cidade do Rio de Janeiro, mais uma vez, é cenário das contradições que marcam o Estado brasileiro. Há avanço democrático na estrutura representativa formal, como conselhos, fóruns abertos à participação da sociedade, bem como leis cidadãs como a que garante e promove os direitos de crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA). Por outro lado, as polícias estaduais – militar e civil – e, agora, o próprio Exército brasileiro, responsáveis pela segurança de cidadãos e cidadãs, e que deveriam se pautar pelos parâmetros legais, promovem chacinas em favelas e áreas populares.
As favelas do Rio, tantas vezes usadas como moeda de troca na política clientelista, resistiram e conseguiram introduzir no manual das políticas públicas o tema da urbanização. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) é a mais recente evidência de que essas localidades estão inexoravelmente imbricadas à paisagem e à história dessa cidade.
No entanto, enquanto a população da favela se organiza para interferir no debate em torno das obras do PAC, ali, onde se constituiu a primeira favela dessa cidade, na Providência, uma atuação silenciosa (ao menos assim seria até as vésperas da próxima eleição), levada a cabo por um dos candidatos à prefeitura do Rio, promove uma maquiagem no local, com recursos do governo federal e sob a proteção do Exército. No entanto, o “cimento social” usado para rebocar as casas está manchado pelo sangue de três jovens negros, moradores daquela favela.
Na manhã do sábado, 14 de junho, David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17, foram presos por militares dentro da favela e levados ao quartel do Exército. Depois de interpelados, oficialmente foram dispensados – a partir daí “a notícia carece de exatidão”.
Os jovens não chegaram em casa. Por decisão daqueles militares, diretamente envolvidos na prisão – um tenente, um sargento e dois soldados –, foram levados até a favela da Mineira, a poucos metros dali e comandada por uma facção rival àquela que controla o Morro da Providência. No dia seguinte, os corpos dos três jovens apareceram junto aos detritos despejados no lixão de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias.
Não se sabe qual foi a negociação entre os militares e os traficantes da Mineira. Não se sabe o que foi dito e a título de que aqueles militares cumpriram esse papel. Ainda não está claro qual a relação anterior entre os militares e os traficantes. No caso em questão, os jovens não trocaram tiros com e também não foram encontrados com eles “armamentos pesados” e nem mesmo foi feita “a maior apreensão de drogas”, argumentos que recorrentemente têm sido acionados pela polícia do Rio para “convencer” a sociedade carioca de que as execuções ocorridas nas favelas foram e são inevitáveis.
Mas apesar de todas as evidências da inocência dos jovens, a chacina da Providência foi incapaz de sensibilizar a classe média carioca e gerar manifestações de forte apelo emotivo, exigindo o cumprimento da lei.
Mais uma vez nos deparamos com dois pesos e duas medidas quando o fato é a morte violenta no Rio de Janeiro. Uns são “matáveis”: homens, jovens negros e moradores de favelas. Outros devem ser protegidos. Com certeza a dor dilacerante desses familiares terá menos solidariedade do conjunto da sociedade carioca e menos espaço nos horários e espaços nobres da mídia local do que costumam ter acontecimentos igualmente trágicos envolvendo jovens e pessoas de outras classes sociais.
Essa chacina recoloca o debate sobre o papel do Exército nas favelas cariocas. Independente de sermos a favor ou contra, este fato obriga, mesmo que por um tempo, que o Exército se recolha à caserna para refletir sobre o seu papel no controle da violência urbana e, especificamente, sobre a melhor forma de contribuir para o restabelecimento da autoridade perdida pelo Estado brasileiro nos territórios dominados pelo tráfico e/ou pela polícia mineira.
É com pesar que constatamos que num curto período de tempo, deixados a sós na sua atuação em uma favela, esses militares incorporaram o que há de mais vil na prática da chamada “banda podre” das polícias do Rio de Janeiro: pactuação com as forças marginais que dominam as favelas e o uso de vidas humanas como moeda de troca.
Então, o que o Exército continuará fazendo na Providência? Por que a aliança publicamente apregoada por Lula e Sérgio Cabral em torno dos investimentos no Rio de Janeiro não constrói um diálogo entre o Exército e a Secretaria de Segurança Pública do Estado? E por que um projeto de um senador, com uso de recursos públicos, conquista o direito de ter o Exército como cão de guarda? O que prevalecerá: o Estado de direito, democrático, igual para todos e todas ou o estado neopopulista em que se privatiza o público e não se respeita a vida?
*Coordenador do Ibase
Publicado em 20/6/2008.
Estava esperando aquelas passeatas, com velas e panos brancos na janela. Aquelas que percorrem a orla na cidade maravilhosa, ou que terminam na Avenida Paulista ou no Ibirapuera aqui em São Paulo.
Cadê o pessoal bonito, bem arrumado e penteado – com as roupas de grife e os óculos escuros – protestando contra a barbárie e a violência?
Claro que não aparecerão, afinal os mortos eram garotos pretos e pobres, moradores da favela, uns até com passagem pela polícia...
A solidariedade e o senso de justiça estão ordenados por classe social e são altamente seletivos.
Fossem moços brancos, filhos de alguém com boa conta bancária ou com acesso privilegiado aos meios de informação e já teríamos passeatas e campanhas midiáticas tomando conta do país.
Abaixo segue uma reflexão do Itamar Silva, coordenador do Ibase:
Chacina da Providência
Itamar Silva*
A cidade do Rio de Janeiro, mais uma vez, é cenário das contradições que marcam o Estado brasileiro. Há avanço democrático na estrutura representativa formal, como conselhos, fóruns abertos à participação da sociedade, bem como leis cidadãs como a que garante e promove os direitos de crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA). Por outro lado, as polícias estaduais – militar e civil – e, agora, o próprio Exército brasileiro, responsáveis pela segurança de cidadãos e cidadãs, e que deveriam se pautar pelos parâmetros legais, promovem chacinas em favelas e áreas populares.
As favelas do Rio, tantas vezes usadas como moeda de troca na política clientelista, resistiram e conseguiram introduzir no manual das políticas públicas o tema da urbanização. O Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) é a mais recente evidência de que essas localidades estão inexoravelmente imbricadas à paisagem e à história dessa cidade.
No entanto, enquanto a população da favela se organiza para interferir no debate em torno das obras do PAC, ali, onde se constituiu a primeira favela dessa cidade, na Providência, uma atuação silenciosa (ao menos assim seria até as vésperas da próxima eleição), levada a cabo por um dos candidatos à prefeitura do Rio, promove uma maquiagem no local, com recursos do governo federal e sob a proteção do Exército. No entanto, o “cimento social” usado para rebocar as casas está manchado pelo sangue de três jovens negros, moradores daquela favela.
Na manhã do sábado, 14 de junho, David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17, foram presos por militares dentro da favela e levados ao quartel do Exército. Depois de interpelados, oficialmente foram dispensados – a partir daí “a notícia carece de exatidão”.
Os jovens não chegaram em casa. Por decisão daqueles militares, diretamente envolvidos na prisão – um tenente, um sargento e dois soldados –, foram levados até a favela da Mineira, a poucos metros dali e comandada por uma facção rival àquela que controla o Morro da Providência. No dia seguinte, os corpos dos três jovens apareceram junto aos detritos despejados no lixão de Jardim Gramacho, no município de Duque de Caxias.
Não se sabe qual foi a negociação entre os militares e os traficantes da Mineira. Não se sabe o que foi dito e a título de que aqueles militares cumpriram esse papel. Ainda não está claro qual a relação anterior entre os militares e os traficantes. No caso em questão, os jovens não trocaram tiros com e também não foram encontrados com eles “armamentos pesados” e nem mesmo foi feita “a maior apreensão de drogas”, argumentos que recorrentemente têm sido acionados pela polícia do Rio para “convencer” a sociedade carioca de que as execuções ocorridas nas favelas foram e são inevitáveis.
Mas apesar de todas as evidências da inocência dos jovens, a chacina da Providência foi incapaz de sensibilizar a classe média carioca e gerar manifestações de forte apelo emotivo, exigindo o cumprimento da lei.
Mais uma vez nos deparamos com dois pesos e duas medidas quando o fato é a morte violenta no Rio de Janeiro. Uns são “matáveis”: homens, jovens negros e moradores de favelas. Outros devem ser protegidos. Com certeza a dor dilacerante desses familiares terá menos solidariedade do conjunto da sociedade carioca e menos espaço nos horários e espaços nobres da mídia local do que costumam ter acontecimentos igualmente trágicos envolvendo jovens e pessoas de outras classes sociais.
Essa chacina recoloca o debate sobre o papel do Exército nas favelas cariocas. Independente de sermos a favor ou contra, este fato obriga, mesmo que por um tempo, que o Exército se recolha à caserna para refletir sobre o seu papel no controle da violência urbana e, especificamente, sobre a melhor forma de contribuir para o restabelecimento da autoridade perdida pelo Estado brasileiro nos territórios dominados pelo tráfico e/ou pela polícia mineira.
É com pesar que constatamos que num curto período de tempo, deixados a sós na sua atuação em uma favela, esses militares incorporaram o que há de mais vil na prática da chamada “banda podre” das polícias do Rio de Janeiro: pactuação com as forças marginais que dominam as favelas e o uso de vidas humanas como moeda de troca.
Então, o que o Exército continuará fazendo na Providência? Por que a aliança publicamente apregoada por Lula e Sérgio Cabral em torno dos investimentos no Rio de Janeiro não constrói um diálogo entre o Exército e a Secretaria de Segurança Pública do Estado? E por que um projeto de um senador, com uso de recursos públicos, conquista o direito de ter o Exército como cão de guarda? O que prevalecerá: o Estado de direito, democrático, igual para todos e todas ou o estado neopopulista em que se privatiza o público e não se respeita a vida?
*Coordenador do Ibase
Publicado em 20/6/2008.
21.6.08
Crônica de mortes anunciadas
Adriana Facina
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
A injustiça vem do asfalto pra favela
Há discriminação à vera
Chegam em cartão postal
Em outdoor a burguesia nos revela
Que o pobre da favela tem instinto marginal
E o meu povo quando desce pro trabalho
Pede a Deus que o proteja
Dessa gente ilegal, doutor
Que nos maltrata e que finge não saber
Que a guerra na favela é um problema social
Eu não sou marginal
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
A injustiça tem o colarinho branco
Usa sapato e tamanco compra tudo que quiser
Tem limusine, avião, BMW
Compra sua imunidade só pra agir de má fé
Enquanto isso os favelados vão sofrendo
E por aqui vou escrevendo
E vou cantando a minha dor, doutor
Indignado com tanta corrupção
Que maltrata os inocentes e alivia o ladrão
Com o tal do mensalão
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
(Rap da Igualdade, MC Dolores)
A bela letra do MC Dolores, artista negro, criado na favela da Rocinha, a maior da América Latina, foi a primeira coisa que me veio à mente quando comecei a ouvir as notícias do absurdo assassinato de Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, Wellington Gonzaga da Costa, de 19 anos, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos. Moradores do Morro da Providência, onde surgiu a primeira favela carioca e cenário de muitas histórias constitutivas da identidade urbana do Rio de Janeiro, as suas mortes foram o resultado de um projeto macabro que associa um pastor-político, o Exército e novas-velhas modalidades de criminalização da pobreza muito em voga em nossa cidade.
Os rapazes tinham o perfil sociológico de quem, em nossa sociedade brutalmente desigual, está marcado para morrer. Jovens, favelados, voltavam de um baile funk, principal divertimento da juventude pobre hoje. Não sei se eram negros, mas provavelmente usavam as roupas que a mídia ajudou a estigmatizar como figurino de bandido: bonés, bermudas ou calças jeans, camisetas, tênis. Alegres e temporariamente empoderados pelo batidão, se sentindo um pouco mais livres, comentando sobre as gatas do baile, corpos que se expressaram na dança potente, aliviando a pressão. No seu caminho, uma invasão cuja arbitrariedade já havia sido denunciada por movimentos sociais e pela mídia alternativa. Disfarçados pela farda, braços do estado, bandidos interromperam a alegria do fim de festa. Abusos, palavrões, tapas, armas apontadas. Em resposta, alguma reclamação, talvez mesmo alguma menção a direitos do cidadão, como o de ir e vir, quem sabe, algum mais indignado “vai tomar no...”.
Como todo mundo sabe, bandido não perdoa. Surge a sinistra idéia do mercado de carne humana. Celulares e tecnologia à disposição da selvageria. Pagos com dinheiro público. Transporte de corpos vivos. Tortura de corpos semi-vivos. Corpos mortos desfigurados no lixão. Mães chorando sobre cadáveres confundidos com os restos da sociedade de consumo, como a lembrar aos moradores da Provi e a todos os favelados do Rio de Janeiro que eles são o lixo da nossa sociedade.
Indignação no cemitério. Protestos nas ruas. E mais repressão. Nas manchetes dos jornais da mídia cúmplice, que legitima os inseticidas sociais propagados pelas forças de insegurança pública, o protesto e a indignação viram ações de marginais: “tráfico fecha comércio”, “tráfico quer Exército fora do morro da Providência”. Covardemente, acabam por legitimar a criminalização e a repressão implacável do povo favelado. Consumado o assassinato de fato, a chacina simbólica continua em forma de “notícia”.
Presos os 11 militares responsáveis diretos pelo crime, as autoridades vêm a público prometer justiça. No entanto, sabemos que aqueles que realmente criaram essa situação estão protegidos. Quem vai responder pelo envio do Exército para atuar fora de suas funções nessa comunidade? Quem clamou por essa solução de sitiar toda uma população sob suspeita simplesmente pelo fato de ser pobre? Quais são as autoridades públicas, as empresas e os setores da sociedade civil que têm as mãos manchadas de sangue ao irresponsavelmente elaborar, executar, apoiar e legitimar uma política de extermínio de pobres em nosso estado?
A dificuldade em achar imagens dos jovens mortos na imprensa contrasta com a superexposição das fotos dos envolvidos no “caso Isabela”, mostrando claramente que a desigualdade na cobertura e na indignação midiática corresponde a uma espécie de bolsa de valores da vida humana, na qual as ações das vidas de gente como Marcos, Wellington e David valem muito pouco. E nessa lógica, é justamente o poder público que as mantém em baixa.
Em meio à dor, ao sofrimento, ao abandono, à revolta, confrontados com a solene indiferença dos que não se reconhecem como iguais a esses seres humanos, só resta o pedido à providência divina, que não é a do Crivella: proteção contra essa gente ilegal, doutor.
Fonte: Fazendo Média – 19/6/08.
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
A injustiça vem do asfalto pra favela
Há discriminação à vera
Chegam em cartão postal
Em outdoor a burguesia nos revela
Que o pobre da favela tem instinto marginal
E o meu povo quando desce pro trabalho
Pede a Deus que o proteja
Dessa gente ilegal, doutor
Que nos maltrata e que finge não saber
Que a guerra na favela é um problema social
Eu não sou marginal
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
A injustiça tem o colarinho branco
Usa sapato e tamanco compra tudo que quiser
Tem limusine, avião, BMW
Compra sua imunidade só pra agir de má fé
Enquanto isso os favelados vão sofrendo
E por aqui vou escrevendo
E vou cantando a minha dor, doutor
Indignado com tanta corrupção
Que maltrata os inocentes e alivia o ladrão
Com o tal do mensalão
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
(Rap da Igualdade, MC Dolores)
A bela letra do MC Dolores, artista negro, criado na favela da Rocinha, a maior da América Latina, foi a primeira coisa que me veio à mente quando comecei a ouvir as notícias do absurdo assassinato de Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, Wellington Gonzaga da Costa, de 19 anos, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos. Moradores do Morro da Providência, onde surgiu a primeira favela carioca e cenário de muitas histórias constitutivas da identidade urbana do Rio de Janeiro, as suas mortes foram o resultado de um projeto macabro que associa um pastor-político, o Exército e novas-velhas modalidades de criminalização da pobreza muito em voga em nossa cidade.
Os rapazes tinham o perfil sociológico de quem, em nossa sociedade brutalmente desigual, está marcado para morrer. Jovens, favelados, voltavam de um baile funk, principal divertimento da juventude pobre hoje. Não sei se eram negros, mas provavelmente usavam as roupas que a mídia ajudou a estigmatizar como figurino de bandido: bonés, bermudas ou calças jeans, camisetas, tênis. Alegres e temporariamente empoderados pelo batidão, se sentindo um pouco mais livres, comentando sobre as gatas do baile, corpos que se expressaram na dança potente, aliviando a pressão. No seu caminho, uma invasão cuja arbitrariedade já havia sido denunciada por movimentos sociais e pela mídia alternativa. Disfarçados pela farda, braços do estado, bandidos interromperam a alegria do fim de festa. Abusos, palavrões, tapas, armas apontadas. Em resposta, alguma reclamação, talvez mesmo alguma menção a direitos do cidadão, como o de ir e vir, quem sabe, algum mais indignado “vai tomar no...”.
Como todo mundo sabe, bandido não perdoa. Surge a sinistra idéia do mercado de carne humana. Celulares e tecnologia à disposição da selvageria. Pagos com dinheiro público. Transporte de corpos vivos. Tortura de corpos semi-vivos. Corpos mortos desfigurados no lixão. Mães chorando sobre cadáveres confundidos com os restos da sociedade de consumo, como a lembrar aos moradores da Provi e a todos os favelados do Rio de Janeiro que eles são o lixo da nossa sociedade.
Indignação no cemitério. Protestos nas ruas. E mais repressão. Nas manchetes dos jornais da mídia cúmplice, que legitima os inseticidas sociais propagados pelas forças de insegurança pública, o protesto e a indignação viram ações de marginais: “tráfico fecha comércio”, “tráfico quer Exército fora do morro da Providência”. Covardemente, acabam por legitimar a criminalização e a repressão implacável do povo favelado. Consumado o assassinato de fato, a chacina simbólica continua em forma de “notícia”.
Presos os 11 militares responsáveis diretos pelo crime, as autoridades vêm a público prometer justiça. No entanto, sabemos que aqueles que realmente criaram essa situação estão protegidos. Quem vai responder pelo envio do Exército para atuar fora de suas funções nessa comunidade? Quem clamou por essa solução de sitiar toda uma população sob suspeita simplesmente pelo fato de ser pobre? Quais são as autoridades públicas, as empresas e os setores da sociedade civil que têm as mãos manchadas de sangue ao irresponsavelmente elaborar, executar, apoiar e legitimar uma política de extermínio de pobres em nosso estado?
A dificuldade em achar imagens dos jovens mortos na imprensa contrasta com a superexposição das fotos dos envolvidos no “caso Isabela”, mostrando claramente que a desigualdade na cobertura e na indignação midiática corresponde a uma espécie de bolsa de valores da vida humana, na qual as ações das vidas de gente como Marcos, Wellington e David valem muito pouco. E nessa lógica, é justamente o poder público que as mantém em baixa.
Em meio à dor, ao sofrimento, ao abandono, à revolta, confrontados com a solene indiferença dos que não se reconhecem como iguais a esses seres humanos, só resta o pedido à providência divina, que não é a do Crivella: proteção contra essa gente ilegal, doutor.
Fonte: Fazendo Média – 19/6/08.
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