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4.4.09

Os muros agora são para as favelas

CartaCapital -nº 540

Acabo de ler um texto na CartaCapital - Favelas no paredão (clique no título para ir até ele) - sobre os muros que isolarão as favelas cariocas.
Um pouco depois, no Fazendo Média, deparo-me com texto - brilhante - da professora Adriana Facina (UFF), vejam um trecho:

A recente cobertura da grande mídia sobre as favelas cariocas tem me chamado à atenção. Pauta obrigatória e diária, as favelas aparecem ora como ameaça ecológica, ora como alvo de políticas públicas que são consideradas bem sucedidas e, nesta semana, como focos da violência que se expande pelo asfalto e assusta os moradores de bairros tradicionais da Zona Sul. Em todas as notícias, muitas mentiras são continuamente reiteradas, demonstrando, ao mesmo tempo, uma intenção ideológica clara de criminalizar a população favelada e defender soluções coercitivas para seu controle (vide as ocupações policiais do Dona Marta e da Cidade de Deus), bem como um olhar de classe média que informa a cobertura jornalística. Os repórteres e editores possuem um estranhamento tão profundo em relação ao mundo dessas populações que raramente aguçam ouvidos e olhos para perceber essas realidades sob outros ângulos. Desse modo, vários clichês são repetidos como verdades inquestionáveis.

Leiam o restante aqui.





21.6.08

Crônica de mortes anunciadas

Adriana Facina

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil

A injustiça vem do asfalto pra favela
Há discriminação à vera
Chegam em cartão postal
Em outdoor a burguesia nos revela
Que o pobre da favela tem instinto marginal
E o meu povo quando desce pro trabalho
Pede a Deus que o proteja
Dessa gente ilegal, doutor
Que nos maltrata e que finge não saber
Que a guerra na favela é um problema social

Eu não sou marginal

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil

A injustiça tem o colarinho branco
Usa sapato e tamanco compra tudo que quiser
Tem limusine, avião, BMW
Compra sua imunidade só pra agir de má fé
Enquanto isso os favelados vão sofrendo
E por aqui vou escrevendo
E vou cantando a minha dor, doutor
Indignado com tanta corrupção
Que maltrata os inocentes e alivia o ladrão

Com o tal do mensalão

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil

(Rap da Igualdade, MC Dolores)



A bela letra do MC Dolores, artista negro, criado na favela da Rocinha, a maior da América Latina, foi a primeira coisa que me veio à mente quando comecei a ouvir as notícias do absurdo assassinato de Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, Wellington Gonzaga da Costa, de 19 anos, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos. Moradores do Morro da Providência, onde surgiu a primeira favela carioca e cenário de muitas histórias constitutivas da identidade urbana do Rio de Janeiro, as suas mortes foram o resultado de um projeto macabro que associa um pastor-político, o Exército e novas-velhas modalidades de criminalização da pobreza muito em voga em nossa cidade.
Os rapazes tinham o perfil sociológico de quem, em nossa sociedade brutalmente desigual, está marcado para morrer. Jovens, favelados, voltavam de um baile funk, principal divertimento da juventude pobre hoje. Não sei se eram negros, mas provavelmente usavam as roupas que a mídia ajudou a estigmatizar como figurino de bandido: bonés, bermudas ou calças jeans, camisetas, tênis. Alegres e temporariamente empoderados pelo batidão, se sentindo um pouco mais livres, comentando sobre as gatas do baile, corpos que se expressaram na dança potente, aliviando a pressão. No seu caminho, uma invasão cuja arbitrariedade já havia sido denunciada por movimentos sociais e pela mídia alternativa. Disfarçados pela farda, braços do estado, bandidos interromperam a alegria do fim de festa. Abusos, palavrões, tapas, armas apontadas. Em resposta, alguma reclamação, talvez mesmo alguma menção a direitos do cidadão, como o de ir e vir, quem sabe, algum mais indignado “vai tomar no...”.
Como todo mundo sabe, bandido não perdoa. Surge a sinistra idéia do mercado de carne humana. Celulares e tecnologia à disposição da selvageria. Pagos com dinheiro público. Transporte de corpos vivos. Tortura de corpos semi-vivos. Corpos mortos desfigurados no lixão. Mães chorando sobre cadáveres confundidos com os restos da sociedade de consumo, como a lembrar aos moradores da Provi e a todos os favelados do Rio de Janeiro que eles são o lixo da nossa sociedade.
Indignação no cemitério. Protestos nas ruas. E mais repressão. Nas manchetes dos jornais da mídia cúmplice, que legitima os inseticidas sociais propagados pelas forças de insegurança pública, o protesto e a indignação viram ações de marginais: “tráfico fecha comércio”, “tráfico quer Exército fora do morro da Providência”. Covardemente, acabam por legitimar a criminalização e a repressão implacável do povo favelado. Consumado o assassinato de fato, a chacina simbólica continua em forma de “notícia”.
Presos os 11 militares responsáveis diretos pelo crime, as autoridades vêm a público prometer justiça. No entanto, sabemos que aqueles que realmente criaram essa situação estão protegidos. Quem vai responder pelo envio do Exército para atuar fora de suas funções nessa comunidade? Quem clamou por essa solução de sitiar toda uma população sob suspeita simplesmente pelo fato de ser pobre? Quais são as autoridades públicas, as empresas e os setores da sociedade civil que têm as mãos manchadas de sangue ao irresponsavelmente elaborar, executar, apoiar e legitimar uma política de extermínio de pobres em nosso estado?
A dificuldade em achar imagens dos jovens mortos na imprensa contrasta com a superexposição das fotos dos envolvidos no “caso Isabela”, mostrando claramente que a desigualdade na cobertura e na indignação midiática corresponde a uma espécie de bolsa de valores da vida humana, na qual as ações das vidas de gente como Marcos, Wellington e David valem muito pouco. E nessa lógica, é justamente o poder público que as mantém em baixa.
Em meio à dor, ao sofrimento, ao abandono, à revolta, confrontados com a solene indiferença dos que não se reconhecem como iguais a esses seres humanos, só resta o pedido à providência divina, que não é a do Crivella: proteção contra essa gente ilegal, doutor.


Fonte: Fazendo Média – 19/6/08.

2.4.08

Mundo cão

(...)Troque seu cachorro
Por uma criança pobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Sem parente, sem carinho
Sem rango, sem cobre
(Baptuba! Uap Baptuba!)
Deixe na história de sua vida
Uma notícia nobre...
Troque seu cachorro(Uauuu!)
Troque seu cachorro(Uauuu!)
Troque seu cachorro(Uauuu!)
Troque seu cachorro(Uauuu!)
Troque seu cachorro
Por uma criança pobre...
Tem muita gente por aí
Que tá querendo levar
Uma vida de cão
Eu conheço um garotinho
Que queria ter nascido
Pastor-alemão!
(...)Seja mais humano
Seja menos canino
Dê guarita pro cachorro
Mas também dê pro menino
Se não um dia desse você
Vai amanhecer latindo
Uau! Uau! Uau!...
(Eduardo Dusek, trechos da música 'Rock da cachorra')
Na semana que passou assisti a dois programas na TV que falavam de cachorros e seus donos. Um deles tratava da economia das pet shops e clínicas especializadas, que se difundem no país e ampliam cada vez mais seus serviços, envolvendo cifras espantosas. Banhos de ofurô para desestressar os cãezinhos, acupuntura, acompanhamento psicológico, cabeleireiro, manicure, roupas, alimentos especiais, brinquedos e mais uma profusão de bens e serviços sofisticados, e caros, à disposição dos animais. Uma das reportagens mostrava uma festa numa discoteca de cães, como essas casas de festas infantis, com bolo e surpresinhas caninas. Os “amiguinhos” dançavam animadamente na pista de dança com seus donos. Uma outra mostrava artistas e socialites que tratam seus bichinhos como gente, dando-lhes jóias e mimos totalmente fora do alcance da maioria dos seres humanos brasileiros.Na minha universidade, volta e meia o assunto canino também mobiliza professores, estudantes e funcionários. Hoje está em curso uma mobilização para alimentar cãezinhos nascidos no campus que eram cuidados pelos estudantes do acampamento Maria Julia Braga, despejado a força pela repressão policial, a mando da reitoria. Há um tempo atrás, professores e estudantes foram atacados pelos cachorros, mas a comunidade universitária se mobilizou através de emails e outros meios para evitar a remoção dos bichos, temendo pelo seu futuro incerto.Até aí nada demais. Solidariedade de humanos com cães, os bichinhos ocupando o vazio que a solidão deixa nas vidas das pessoas nessa sociedade maluca, marcada pelo individualismo consumista e por relações imediatistas e utilitárias. Mas confesso que, embora não tenha nada contra cães e considere que animais devam ser bem tratados (na casa dos meus pais sempre tivemos cachorros, cuja rotina de trato era banho, ração e vacinas), esse esmero no trato canino associado a uma indiferença generalizada pelo semelhante me incomoda profundamente. Nunca vi, em meu local de trabalho, por exemplo, uma mobilização em favor de crianças que vivem em estado precário nos arredores do campus. Mal alimentadas, mal vestidas, em condições de risco. Nunca presenciei uma campanha, mesmo que nos limitados marcos de uma caridade cristã, de salvação da população de rua que vive nas imediações da praça em frente do lugar onde estudamos e trabalhamos, e também onde muitos de nós nos divertimos, bebemos cerveja e conversamos.Do mesmo modo, quando vejo cachorrinhos com cortes originais de cabelos, calçados com sapatinhos para não sujarem as patinhas, levando seus donos para passear me sinto meio ofendida como ser humano. E se eu me sinto assim, imaginem crianças e adolescentes despossuídos de tudo, muitos incapazes até mesmo de sonhar com um destino diferente para suas vidas, tamanho o estrago que o abandono dos poderes públicos causou em seus seres. Crianças e adolescentes pretos, pobres, cujas roupas e aparência geram medo e desconfiança nos pertencentes à “boa sociedade”. Rejeitados quando entram em restaurantes para pedir comida, enxotados das calçadas de noite, as mesmas calçadas em que os mimados cãezinhos fazem xixi e cocô livremente, sem serem importunados.Não sei se sou eu que ando mal humorada e de coração duro, mas não tenho como não relacionar esse processo de humanização pelo qual passam os cachorrinhos, se tornando parte da família, recebendo nomes de gente e sendo destinatários do consumismo de seus donos, à desumanização dos seres humanos. São os cães e não as gentes o alvo da nossa humanidade.Com esses pensamentos na cabeça, caminhando pelas ruas da minha cidade, tive a impressão de ouvir um poodle rosa dizer ao seu dono: “late, late, late que eu tô passando...”.

Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

22.11.07

Quem quer doutrinar quem?

Hoje estou sem inspiração e por isso resolvi me dedicar ao “control C”, “control V”.
Abaixo mais um texto brilhante da professora Adriana Facina! É exemplar do tratamento que a grande mídia oferece aos assuntos sérios. Foi publicado no blog Fazendo Média (linkado no menu lateral), blog este de ótima qualidade e que visito com freqüência. Clique aqui para ler o texto na publicação original.



Que história é essa?

Não digas tão exatamente teu nome. Para quê?
Ao fazê-lo, estarás apenas nomeando um outro.
E para que exprimir tão alto a tua opinião? Esquece-a. Qual era mesmo?
Não te lembres de uma coisa por mais tempo do que ela própria dura.
Bertolt Brecht (trecho da peça "Um homem é um homem")

Quando Brecht escreveu o texto acima, em 1925, sintetizou, antes do tempo, a essência da visão da história sob o pensamento único. Nos anos 1990, quando o neoliberalismo se impôs vitorioso sobre os escombros de um capitalismo que se queria humanizado e sobre as ruínas do “socialismo real”, seus arautos defenderam a idéia de que, finda a Guerra Fria, as disputas ideológicas que deram sentido à história do século XX teriam se esvaziado. Assim, numa leitura muito particular de Hegel, o teórico conservador Francis Fukuyama anunciou o fim da história, associado ao triunfo do capitalismo liberal. Livre de ameaças totalitárias, a humanidade poderia caminhar tranqüila nas sendas do progresso, liberta do peso do passado e sem necessidade de projetar um futuro distinto do presente.
Mais de uma década se passou desde a divulgação dessas idéias. A ampliação da desigualdade social, o ressurgimento de movimentos fascistas em todo o mundo, a destruição do emprego e das redes de bem estar social, muitas crises econômicas e o recrudescimento do militarismo imperialista explicitaram a falência do modelo neoliberal em garantir, via mercado auto-regulado, a felicidade humana. Como resposta, o surgimento de movimentos antiglobalização, o crescimento de movimentos sociais com bandeiras anticapitalistas, tentativas de reorganização da classe trabalhadora em tempos de precarização do trabalho, eleição de governos populares na América Latina, ressurgimento de movimentos nacionalistas de caráter antiimperialista. Além disso, um sentimento anti-estadunidense amplamente difundido no mundo que, ainda que de forma um pouco simplista, acerta ao associar sofrimento e miséria de larga parcela da população mundial às políticas imperialistas empreendidas por sucessivos governos dos EUA.
Frente à dificuldade em, no meio desse cenário, seguir sustentando a idéia de que a história acabou, novos rearranjos devem ser tentados. Numa mistura monstruosa entre relativismo pós-moderno e positivismo oitocentista, as viúvas da tese do fim da história agora apontam suas armas midiáticas de grosso calibre contra o pensamento histórico crítico em nome da defesa de uma suposta imparcialidade na abordagem dos processos (que eles preferem chamar, como os positivistas do século XIX, de fatos) históricos. A narrativa histórica deveria ser formada de versões equivalentes sobre os fatos (relativismo pós-moderno), o que garantiria a imparcialidade do historiador diante dos mesmos (positivismo do século XIX).
Desde pelo menos o movimento francês da Escola dos Annales, iniciado nos anos 1920, sem falar do marxismo e, entre nós, de autores como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, o pensamento historiográfico contemporâneo refutou a idéia da neutralidade diante dos processos históricos. A subjetividade, o pertencimento de classe e vários outros elementos são partes constitutivas da análise histórica. Se o historiador deixa claro o lugar de onde fala, tanto melhor para seus leitores, que poderão se posicionar mais claramente diante de seus escritos. Mesmo a história que se diz neutra ou imparcial assume uma perspectiva parcial e, paradoxalmente, é ainda mais ideológica ao não explicitar isso e ao vestir o manto da objetividade científica absoluta.
Toda essa conversa é para a gente chegar na condenação dos livros de Mario Schmidt por O Globo, Veja e Época. Parece risível que um editor de jornalismo de uma empresa que é tão descaradamente parcial na veiculação da informação denuncie um livro didático de História por ser ideológico. Ali Kamel, além de não ser historiador, é autor de um livro que diz não haver racismo no Brasil (sobre os dados da desigualdade racial no Brasil ver reportagem publicada na Folha de S. Paulo nesta semana com os resultados da pesquisa coordenada pelo pesquisador Marcelo Paixão). Sob sua direção, o Fantástico vem apresentando um quadro, com os jornalistas Pedro Bial e Eduardo Bueno, que trata da história do Brasil como uma sucessão de fatos pitorescos e que apresenta erros bizarros, como a falsa informação de que a Inconfidência Mineira teria sido influenciada pela Revolução Francesa, sendo que ela ocorreu meses antes desta.
Sobre Veja, sem comentários. Panfleto ideológico de péssima qualidade, recentemente recebeu uma descompostura do respeitado jornalista Jon Lee Anderson, veterano de guerra da revista New Yorker sobre o mau jornalismo praticado pela revista quando da sua matéria sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. Só a desfaçatez pode explicar como essa produtora de falsificações históricas se arroga de xerife de livros didáticos de História.
Vamos à revista Época. Quando do affair Mario Schmidt, fui entrevistada pelo repórter Nelito Fernandes sobre o livro e seu autor. Quase nada do que falei foi publicado, o que já era esperado. Mas o mais absurdo foi o seguinte: Nelito me fez, de modo, direto, três perguntas. A primeira: “Seu sobrenome se escreve com um c ou dois?”. Respondi: “Um c só”. Segunda: “Você é professora da UFRJ?”. Eu disse: “Não, da UFF”. Terceira: “Você foi aluna do Mario?”. Neguei: “Não, nunca fui sua aluna”. Pois na matéria que saiu na revista eu virei Adriana Faccina com dois cs, professora da UFRJ e ex-aluna de Mario! Se os caras não conseguem ser fiéis nem às verdades mais prosaicas, que dirá quando os temas se complexificam. Pareceu claro a mim que Nelito já tinha uma missão: condenar o livro e seu autor e que minhas informações eram irrelevantes, só serviam para ele mostrar que tinha ido às fontes e não escrito um panfleto saído de sua cabeça ou da pena dos seus editores.
Todos esses veículos, e mais a televisão, atingem milhões de pessoas e estão concentrados em poucas mãos, divulgando aspectos parciais da verdade, quando não mentiras e falsificações deslavadas sem nenhum controle, produzidas sempre do ponto de vista dos vencedores. Aí sim estamos falando de doutrinação muito poderosa, porque diária e cotidiana. Imaginar que dois tempos semanais de aula de história e a leitura de livros didáticos podem fazer frente a isso é uma aberração sem tamanho.
Ao contrário do que dizem seus detratores, os livros de Mario Schmidt dialogam com ampla bibliografia histórica atualizada, trazem documentos históricos importantes e fontes iconográficas excelentes. É um material de ótima qualidade e que não deve ser recolhido de bibliotecas de escolas, a não ser que estejamos falando de censura ideológica, pois se trata de uma obra que se propõe a ser crítica. E é isso que incomoda aqueles que acham que educação não deve ser voltada para estimular o educando a pensar. Como todo livro didático, possui limitações e não é perfeito. Cabe ao professor, em sala de aula, complementar o trabalho com outras linguagens, reflexões e informações.
O pano de fundo dessa história toda diz respeito ao próprio papel da educação no mundo de hoje. Para quê queremos educar nossos filhos? Queremos criar indivíduos conformados com esse mundo que não é bom para ninguém, com exceção dos poderosos, ou desejamos formar seres pensantes, capazes de construir um mundo novo?

Sabemos que a desesperança e a falta de perspectivas de futuro geram consumismo, autodestruição, indiferença em relação ao sofrimento alheio. O conformismo é alimento para comportamentos violentos, para abuso de drogas, para uma existência preocupada somente em predar o presente, extraindo dele cada emoção imediata possível, tentativas de preencher vazios infindáveis.
Livros didáticos críticos são parte de uma concepção de educação que visa não doutrinar os educandos, pois isso os meios de comunicação e o mercado já fazem. Mas sim despertar o senso crítico, ensinar a pensar, a investigar o porquê das coisas. E hoje a escola ainda é um dos poucos espaços de resistência onde isso é possível. A História como disciplina incomoda muito aos poderosos porque ela mostra como nosso mundo chegou ao que é hoje. E se as coisas não foram sempre desse jeito, significa que elas podem ser mudadas. Estamos longe do fim da História.
Entendo a preocupações dos pais com o futuro profissional de seus filhos, e a qualidade do que é ensinado nas escolas e nos livros didáticos é parte disso. Mas não podemos nos deixar chantagear por aqueles que são responsáveis por sentirmos tanta insegurança pelo mundo que nossos filhos vão encontrar pela frente. O mundo que eles estão construindo não é o que queremos para quem amamos. Aqueles que hoje atacam a liberdade de idéias e o espírito crítico são os mesmos que destroem o meio ambiente, aprofundam a desigualdade que gera violência, que defendem um sistema econômico que não garante direitos básicos como emprego, saúde e educação ao seres humanos. Está nas mãos dos jovens de hoje mudarem isso. Se os livros didáticos, os professores e a escola servirem para que sua autoestima como sujeitos históricos ativos seja estimulada, teremos não o fim, mas começo de uma nova história.

P.S.: Felipe Viana, esse texto é para você.

Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).