25.11.14

O novo governo Dilma


As especulações sobre a composição do Ministério do novo governo Dilma, a ser instalado em 1/1/2015, causa estragos à esquerda, além de certa frustração para parte do eleitorado que optou pelo projeto capitaneado por Dilma na última eleição.
Alguns amigos, reais e virtuais, desfilam análises bem interessantes, sejam elas críticas ou de apoio aos nomes especulados pela mídia.
Uma coisa é certa: Dilma caminhará nesse segundo mandato no fio da navalha. Não tem o estrondoso apoio que Lula obteve no seu primeiro mandato, nem a clamorosa aprovação que o mesmo obteve ao final do seu 2º mandato.
A eleição de Dilma foi dramática, por margem estreita de votos. A militância petista, outrora aguerrida nas ruas, mostrou sua força nas redes sociais, divulgando as realizações e propostas dos governistas e combatendo, incessantemente as mentiras atiradas pela mídia comercial.
Imaginava-se uma enorme guinada à esquerda no próximo mandato, mas esquecemos de combinar com os eleitores. Sim, para que isso acontecesse precisaríamos de uma enorme bancada de senadores e deputados progressistas. Isso não aconteceu. A chamada centro-esquerda perdeu assentos no parlamento.
Sem o parlamento não se governa no sistema presidencialista brasileiro, por mais incoerente que isso possa parecer. Então se faz necessário produzir uma coalizão de forças para garantir maioria, mesmo que ocasional e oscilante ao sabor dos ventos, ao governo.
Essa coalizão pode se dar de duas maneiras. Uma, construindo-se um novo programa de governo; outra, negociando-se cargos com os partidos que desejarem compor a base governista. Essa negociação pode ser transparente e sujeita às críticas dos opositores desse jogo, ou pode-se fazê-la a meia luz, de forma pouco clara.
Com certeza Dilma ficará com a possibilidade da negociação de cargos e, imagino eu, o fará de forma transparente, sem subterfúgios.
Na área econômica ela precisará aplacar a ira dos conservadores e estimular a atividade empresarial, por isso é óbvio que teremos gente do mercado atuando nesses ministérios, assim como no Banco Central.
A correlação de forças no Congresso pende mais para a direita, por isso a presidenta pisará em ovos para compor o Ministério. Deverá contemplar o PMDB (o partido está sempre com o governo, não importando quem seja governo), o PSD (do Kassab), além dos outros que integraram a campanha: PDT, PC do B, PP, PR, PROS e PRB.
Mesmo dentro dessa salada os partidos não são monolíticos, prova maior é o posicionamento do PMDB.
Em nome da governabilidade vários ministérios serão entregues aos grupos de centro-direita, mais afinados com o mercado. É a tal da realpolitik.
Espero apenas que isso não seja exagerado. Alguns símbolos do que há de pior no conservadorismo nativo não podem fazer parte do governo, tais como: grileiros, assassinos de trabalhadores, exploradores do trabalho escravo, homofóbicos e sexistas, fundamentalistas e viúvas da ditadura militar etc.
Aguardemos, no entanto, as indicações/nomeações por parte da presidenta para que possamos fazer uma avaliação correta, sem precipitações e sem seguir apenas o embalo da mídia comercial.

19.11.14

Carta Aberta à VUNESP, Professores e Vestibulandos

Carta Aberta à VUNESP, Professores e Vestibulandos
Partindo do real papel do vestibular na sociedade brasileira, qual seja, selecionar segundo critério meritocrático a entrada de estudantes nas universidades do país, falar desse processo seletivo obrigatório significa compreender que mesmo com a expansão da oferta de vagas efetuada na última década (através do Reuni, Prouni, Fies, entre outros Programas de acesso implementados nas universidades nos últimos anos, sobre os quais cabem críticas relevantes, porém não é o que nos pretendemos aqui no momento), ela ainda não é suficiente e, portanto, o vestibular continua ranqueando estudantes e deixando um grande número para o lado de fora dos muros das universidades públicas, ratificando a desigualdade econômica, de acesso à educação pública de qualidade, aos bens culturais e a meios de comunicação mais democráticos.
Nesse contexto, as provas dos vestibulares geraram e continuam gerando discussões na sociedade em geral a partir dos temas levantados nas questões de cada ano, (re)colocando muitas vezes assuntos importantes na ordem do dia, com base num conteúdo cientificamente embasado e utilizando-se de autores expressivos da sociologia, filosofia, história, geografia, literatura etc. para fazer com que os candidatos reflitam sobre o que se espera que respondam.
Porém, tendo em vista o último vestibular da Unesp -que coloca em cheque conceitos históricos que refletem a história política, econômica e cultural brasileira- vimos por meio desta carta, nos manifestar a respeito de algumas questões que ferem gravemente a legitimidade do vestibular que oferece acesso a esta Universidade, bem como seu estatuto científico, ambos frutos de conquistas às quais sempre fomos instigados a respeitar e defender, enquanto ex-alunos desta Instituição.
Na questão 7, a temática da maternidade é apresentada de maneira absolutamente inapropriada para o momento histórico presente em que se coloca a questão de gênero como central nas análises sociais. Inexplicavelmente a Vunesp recupera uma anacrônica leitura da questão de gênero, concebendo-a a partir de parâmetros naturalizantes. Mesmo não encontrando qualquer evidência nos processos reais, o vestibulando é obrigado a ratificar uma visão que trata o tema como uma fatalidade biológica, se não mesmo como uma obrigação social ou moral da mulher. Se a máxima lançada por Simone de Beauvoir, há mais de sessenta anos ("Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a fêmea humana no seio da sociedade"), parece não incomodar a comissão elaboradora da prova, nos causa estranheza que não se sintam envergonhados por desrespeitar a obra daquela que foi provavelmente a mais destacada professora da Universidade Estadual Paulista em toda a sua história, Heleieth Saffioti, autora do clássico estudo "A mulher na sociedade de classes: mito e realidade".
Ainda em relação a esta questão, cabe frisar que não é o acesso -ou falta dele- à educação que faz de um grupo social uma minoria política, mas sim a desigualdade vivenciada na correlação de forças, na distribuição do poder existente na sociedade. Desse modo, reduzir toda a luta feminina a um singelo pedido por condescendência dos patrões em relação à 'vocação natural da maternidade' nos soa inadmissível.
Na questão 59, existe a tentativa não apenas de suavizar, mas sim de eximir as nações europeias por qualquer responsabilidade sobre as consequências negativas decorrentes do expúrio processo neocolonial que escravizou e explorou diversos povos africanos bem como as riquezas presentes em seus territórios, culpabilizando-os por sua atual situação de miséria, já que segundo o texto da questão, já haviam ali conflitos instaurados, antes da invasão das potências ocidentais. Nos sentimos como se a Unesp estivesse simplesmente negando os ensinamentos de referências como Florestan Fernandes (“A integração do negro na sociedade de classes” ou "O negro no mundo dos brancos"), Octavio Ianni ("As metamorfoses do escravo" ou "Cor e mobilidade social em Florianópolis" -em parceria com Fernando Henrique Cardoso), o pluralismo inaugurado por Levi-Strauss ("Raça e história") e fundamentalmente o método crítico de autores como Walter Benjamin ("Teses sobre a história") e Edward Palmer Thompson ("A história vista de baixo").
O autor joga uma nuvem de fumaça sobre a Conferência de Berlim (1884) e a partilha da África, com todas as suas consequências, portanto é negacionista. Depois, espontaneamente, faz uma alusão ao iluminismo (sem citar fontes), e nega os efeitos da presença de oligopólios europeus no Continente. Ou seja, a análise do texto não se sustenta nem como reles nota de roda pé de estudos consagrados dentro da tradição crítica de interpretação dos processos sociais. E é esta interpretação crítica que vem sendo valorizada em todos os documentos referenciais para o tratamento de tais fenômenos no campo das ciências humanas quando voltadas para o ensino fundamental e médio, para não dizer da educação em geral. É conhecida de todos nós, trabalhadoras e trabalhadores da educação, a resistência imposta pelas universidades públicas de São Paulo em adotar medidas que favoreçam a inclusão em seu meio de estudantes que fazem parte das minorias políticas, mas nem a tão defendida 'autonomia universitária' lhes dá o direito de fazer vista grossa para os Parâmetros Curriculares Nacionais em suas avalições admissionais.
Na questão 56, chegamos à conclusão de que o debate sobre o multiculturalismo e o relativismo cultural deseja relativizar as construções sociais e políticas mais profundas da Sociedade Brasileira e sugerir uma 'tolerância aos que intoleram'. O problema da questão da Vunesp não é quem escreve e nem quem é citado como referência, mas o que se escreve e a maneira como se questiona: o lugar e os termos a partir do qual se decide formular um problema e transformá-lo em questão para os vestibulandos.
Franz Fanon, lembrando daquilo que certa vez um professor seu lhe disse, afirmou: "sempre que você ouvir alguém maltratar um judeu, preste atenção, porque ele está falando sobre você [um negro]". Quer dizer, falar de diferença enquanto atraso e barbárie no Iraque pode ser também um jeito de falar, por exemplo, de populações indígenas no Brasil, sobre países ou populações africanas ou afro-brasileiras e por aí vai. Nossa preocupação com a questão envolve a linguagem e o formato no qual esta foi construída. Tal discurso, defensor do caráter hierárquico no trato das tradições culturais, pode até encontrar amparo ou legitimidade dentro daquela tradição denominada criticamente por Edward Said como 'orientalista', mas soa como 'palavra mofa' à luz da renovação crítica que a área dos estudos culturais sofreu nas últimas décadas.

Defendemos uma educação plural, que valorize a diversidade inesgotável no campo das ciências. O que não podemos fazer é nos calar diante de uma proposta educativa que se negue a ser crítica!
Esperamos que esta manifestação quebre o silêncio até agora existente a respeito do problema aqui apontado. O corpo docente parece alienado deste debate, não se incomodando com o fato do vestibular estar fazendo chacota aberta das teses e ideias que eles mesmos nos ensinaram nesta instituição que tem tão larga tradição de participação crítica no debate público nacional. Os estudantes também não se manifestaram publicamente a respeito da questão. Esperamos que o façam a partir de agora, e utilizando os mais variados instrumentos e meios de pressão. Como ex-alunos da Unesp, mas fundamentalmente como trabalhadoras e trabalhadores da educação, nos recusamos a acreditar que auxiliar os alunos a 'escovar a história a contrapelo' possa promover a seleção de respostas erradas nas provas admissionais.
Neste sentido, convidamos a todos que sintam-se representados por este documento que assine embaixo e divulgue da melhor forma que julgar possível. Mais que um texto nosso, é uma construção coletiva. 

Fonte: https://www.facebook.com/pages/Carta-Aberta-%C3%A0-Vunesp-Professores-e-Vestibulandos/747193165360116?fref=nf

Clique no endereço acima para assinar.

27.10.14

Explode o preconceito nas redes sociais. Qual a minha culpa nisso?



O amigo de labuta Tiago Fuoco levantou uma questão pra lá de interessante: o que nós, professores de Humanas, estamos fazendo das nossas aulas?
Ele parte do princípio de que o fato dos nossos alunos e alunas externarem seus preconceitos, destilando ódio por todos os poros nas redes sociais, é também nossa responsabilidade, uma vez que esses jovens chegam a passar três anos, ou até mais, conosco.
Não quero carregar mais essa cruz para a profissão. Devo lembrar que nosso tempo de aula é bastante restrito quando o comparamos com o tempo de convivência familiar, comunitária e roda de amigos dos nossos alunos e alunas.
Mas que Tiago colocou-me algumas pulgas na orelha, isso colocou. Talvez tenhamos que repensar o currículo de Humanas. Sem consultar dados, mas apenas apelando à memória, digo que sempre que se apresenta uma nova disciplina no Ensino Médio sacrifica-se a carga horária de Geografia e História.
Outro dia alguém publicou um artigo, não vou procurá-lo agora, dizendo que se todas as “novas disciplinas” propostas pelos congressistas fossem aprovadas, o Ensino Médio teria pelo menos 20 horas de aula por dia, seis dias por semana!
            Por outro lado, lembro ao Tiago e demais colegas de labuta, que muitos professores fazem coro aos alunos nas lamúrias racistas e preconceituosas, inclusive nas redes sociais!
            Isso é estarrecedor! Pensar que um sujeito ou sujeita passou quatro anos numa universidade preparando-se para lecionar e sai por aí atacando nordestinos, gays, pretos, religiões de matriz africana etc. é o fim da picada!
            Em conjunto com os colegas que ensinam Português precisamos trabalhar com clareza a questão da liberdade de expressão, inclusive os limites legais para o seu exercício, precisamos também trabalhar mais política em sala de aula.
            Esses jovens precisam saber o que faz um vereador, um deputado, um senador um prefeito e assim por diante; necessitam entender a divisão dos três poderes, sabendo o papel de cada um deles na tal democracia representativa.
            Várias vezes os alunos me lançaram perguntas fora do “programa da FUVEST”, do tipo: “como se funda um partido político?”; “por que o prefeito não coloca mais polícia na rua?”; “por que a Dilma não prende os corruptos então?”; perguntas lógicas e necessárias, mas se paramos para respondê-las sempre haverá alguém dizendo que estamos praticando “embromation”.
            A escola precisa, como um corpo, tomar pra si essas reflexões, inclusive junto aos docentes. Não é possível que um professor racista, seja de Matemática, Física ou Geografia, esteja em sala à frente de dezenas de jovens.
            Os partidos políticos precisam fazer-se presentes no cotidiano desses jovens, não é possível apostar tudo na propaganda de TV e transformar projetos, quando os tem, em sabonete.
            Claro que estamos diante de uma novidade. É a primeira eleição que usamos as redes sociais com essa intensidade, com a presença forte de uma geração que não conheceu o terror da Ditadura, o desemprego dos Planos Cruzado, Collor e Real, que só conhece o evento das privatizações pela Veja.
            Os órgãos de imprensa devem ser chamados à responsabilidade e atuarem no combate ao preconceito, seja ele de qualquer tipo. Não precisamos do assombro da ditadura do politicamente correto, mas não dá pra aceitar humoristas (?) oferecendo bananas aos negros, ou diminuindo um ser humano por causa do seu sexo ou orientação sexual!
            Esse fenômeno de intolerância que aflorou agora nas eleições, principalmente em São Paulo, tem muito o dedo da grande mídia, mas outros fatores não podem ser desprezados, como a escola, as igrejas...

23.10.14

Mais caixa 2 nas campanhas políticas

A prática de Caixa 2 em eleições é uma praga, que só poderá ser combatida com o financiamento público de campanhas.
Infelizmente isso afeta todos os partidos, acho que pouco provável que alguém consiga se manter virgem nesse cipoal.
Para aqueles que propalaram que o julgamento do "mensalão" poria fim a estas prática sugiro uma leitura atenta do artigo que segue.
São conjecturas, mas com base em documento assinado por uma "autoridade" em arrecadação e gerenciamento financeiro de campanhas. A assinatura, conforme atestado no documento, é verdadeira, resta saber se o documento é verdadeiro no seu todo.
Parafraseando uma Ministra em recente julgamento: "A literatura nos autoriza a acreditar que é..."!



Foi assim que Aécio levantou
R$ 166 milhões para 2012-2014?

Aécio Neves e Eduardo Campos estariam unidos desde a eleição de 2012
O Procurador Federal de Minas Gerais, Eduardo Morato Fonseca, recebeu do Sindicato dos Auditores Fiscais de Minas Gerais (SINDIFISCO-MG), um documento que mostra uma lista de políticos, partidos e empresas numa operação para, supostamente,  financiar as campanhas eleitorais de 2012 para prefeitos e vereadores.

Conversa Afiada tem a informação de que o promotor Morato Fonseca encaminhou a documentação à Procuradoria Geral da República, já que entre os suspeitos estão políticos com direito a foro privilegiado.

No documento, onde se lê “consórcio” é possível entender que dele façam parte operações à margem da legislação eleitoral.

O arquivo teria sido enviado ao candidato a Presidente Aécio Neves (PSDB), em 4 de setembro de 2012, por Danilo de Castro, à época Secretário de Estado de Governo de Minas e possível operador do esquema. Nessas eleições, Castro coordenou a campanha de Pimenta da Veiga (PSDB) ao Governo de Minas.

Para ler todo o texto (com cópia de documentos) clique aqui.

18.10.14

A bolsa família da classe média



Sou leitor bissexto do blog Tijolaço, herdeiro da coluna jornalística mantida durante muito tempo por Leonel Brizola.
Textos críticos e elucidativos tem a boa prática do jornalismo de opinião calcado em fatos e dados, sempre passíveis de verificação.
O texto que a amiga Carol Garcia me enviou, da lavra do Tijolaço, é formidável.
Desnuda as Bolsas Famílias que nós, da chamada classe média e até mesmo os ricos, recebemos costumeiramente e não nos ofendemos, além de exigirmos sempre mais.
Para que todos possam usufruir do texto reproduzo-o na íntegra:

Nós ganhamos Bolsa-Família todo ano… Muito maior, e ninguém me xinga

Recebo um e-mail do Ângelo, um camarada que não vejo há uns 30 anos, mas que foi um dos envolvidos  na primeira “manifestação subversiva ” que vi e entendi, depois de uns “tios” estranhos que passaram uns dias lá por casa logo após o golpe de 64.
Ângelo, seus irmãos – filhos do velho Alberto, um homem admirável – e outros moleques se revoltaram quando os outros moradores de um conjunto de prédios  modestos na Rua Cabuçu, no Lins de Vasconcelos, subúrbio do Rio, decidiram fazer muros em volta dos edifícios, separando a garotada que crescia junto e junto fazia suas traquinagens.
E picharam os muros novinhos: “vocês estão ficando ricos?” “Pensam que a gente é vaca para botar em curral?”
Pois o Ângelo, neste e-mail, chama-me a atenção para algo que nunca vi ninguém dizer, embora obvio.
Que nós, classe-média – e também os ricos – também ganhamos um bolsa família do Governo, bem maior que o dos pobres…
Pois não é que descontamos, por cada dependente, neste ano de 2014, exatos R$ 2.156,52 no imposto de renda, por ano?
Isso mesmo, R$ 179,71 mensais.
Esta lá, na tabela da Receita Federal.
Portanto, é dinheiro que a gente deixa de pagar de imposto e que se soma às nossas disponibilidades, como diz o Ângelo, para comprarmos o que quisermos, do feijão até bebidas e artigos supérfluos.  Ninguém tem nada com isso e os R$ 179, 71  contam para cada filho, não importa se eu tenha um ou 18 bacuris.
Seria dinheiro do Governo e passa a ser meu, seu, nosso.
Mas os pobres do Bolsa-Família só levam R$ 35 por rebento, ou R$ 42, se forem adolescentes.
Com um máximo de cinco semoventes miúdos, aliás.
Somando com o benefício básico, de R$ 77,  não dá nem R$ 300 reais por mês, ou mais um pouco, se tiver criança pequena, etc…
Menos do que eu descontaria com dois filhos, só.
Mas eu também ganhei – e muitos ganham – também o “Bolsa-Escola”, porque podemos abater  mais  R$ 3.230,46 por ano com escola particular por cada filho, ou mais R$ 270 por filho estudando, sem limite de filhos.
Por filho, note bem.
Nem falamos no plano de saúde, aliás.
E aí, diz o Ângelo, eu posso beber umas e outras com essa grana que deixo de pagar de imposto, e ninguém tem nada com isso.
Ninguém nos xinga por isso.
Ninguém diz que a gente se enche de filhos para ficar com mais dinheiro, em vez de recolher impostos.
Ninguém nos chama de vagabundos, de inúteis, de parasitas.
Mas diz dos pobres.
Como pergunta o meu amigo de tempos “imemoriais”: “Quer dizer que bolsa família pra bacana pode, pobre é que é vagabundo e não pode receber?”
Ângelo, você não se corrige, daqui a pouco vai querer pichar uns muros na Rua Cabuçu.
Se me chamar, eu vou com você.
Fonte: http://tijolaco.com.br/blog/?p=22172

6.10.14

Um pouco de Aécio Neves

Vamos ao 2º turno e, mais uma vez, para o embate entre o PT e o PSDB.
Deixo claro aqui que defendo um lado, que é o da candidatura da Dilma Rousseff.
O governo dela merece críticas? Inúmeras. Mas as qualidades e os acertos, e mais ainda, a expectativa de correção de rumos para um próximo mandato, levam-me a defender sua reeleição.
Em tempo: sou contra a reeleição para qualquer cargo. Política não pode ser profissão. E também sou contra a obrigatoriedade do voto.
Feito o registro a realidade nos espera: a reeleição é contemplada pela Constituição e o voto obrigatório também!
Primeiro gostaria de justificar minha oposição permanente ao PSDB e, por consequência, ao candidato Aécio Neves.
Por falta de inspiração vou usar aqui, mesmo sem ter pedido antes, um texto do Pablo Villaça, blogueiro, roteirista, crítico de cinema, dentre outras ocupações.
Esse texto me representa:

A Democracia Particular de Aécio Neves

Pablo Villaça

Eu escrevo.

É o que sei fazer. É minha profissão, minha terapia, minha principal forma de expressão e também a maneira com que defendo meus ideais.

Há quem discurse. Há quem se candidate a cargos públicos. Há quem troque socos. Eu escrevo.

Não que escrever sobre política seja minha principal ocupação – ou mesmo secundária. Em número absoluto de palavras, o Cinema certamente domina meus textos – tanto na forma de críticas e posts, como também nos roteiros que escrevi e dirigi e no livro que publiquei. Em segundo lugar, vêm os contos. Só então, os textos nos quais busco discutir minhas posições políticas.

Tenho algumas regras, porém: não me importo com a vida pessoal de quem quer que seja. Não aceito dinheiro para defender uma causa (não que jamais tenham oferecido). Não separo sujeito de verbo (esta regra deveria ser seguida por mais pessoas, mas divago).

Assim, foi com surpresa que me descobri numa lista de 66 tuiteiros que o candidato à Presidência da República, sr. Aécio Neves, quer ver calados. De acordo com o processo no. 1081839-36.2014.8.26.0100, Neves exige que o Twitter entregue a ele os dados pessoais e sigilosos de 66 pessoas que mantêm contas naquela rede social – e duvido que o objetivo final seja encaminhar flores ou chocolates para cada um. Em outras palavras: um senador da República, ex-governador de Minas Gerais e um presidenciável está buscando intimidar cidadãos que se atreveram a criticá-lo.

Caro senador, como diriam os Corleone, “não é pessoal; são apenas negócios”.

Nunca escrevi, por exemplo, sobre os insistentes boatos envolvendo o político e o consumo de drogas – boatos tão comuns que já inspiraram gritos de torcida em estádio e levaram até mesmo um aspirante a comediante notoriamente reacionário e que certamente enxerga a candidatura de Aécio com bons olhos a fazer piadas em seu stand up sobre a fama do senador. E sabem por que nunca escrevi? Porque nunca vi Aécio Neves consumir drogas e jamais li uma notícia que trouxesse evidências inquestionáveis sobre isso. Sim, ele já foi filmado embriagado, já foi parado por blitz e se recusou a fazer teste do bafômetro, tendo sua carteira apreendida, e também deu uma entrevista recente à TV Estadão no qual cambaleava, trazia um olhar perdido e falava com dicção incerta, mas, embora eu possa questionar o bom senso de um candidato a presidente que se deixa flagrar embriagado em ao menos duas ocasiões (a entrevista ao Estadão poderia ser fruto de, sei lá, um efeito de medicamento para alergia), jamais me ocorreria questionar sua corrida presidencial a partir disso. Álcool não é ilegal e cada um faz o que quiser em seu tempo livre.

Não. O que realmente me preocupa com relação a Aécio Neves – e que já me inspirou, aí, sim, a escrever sobre sua candidatura – é sua gestão em Minas Gerais, estado no qual nasci, cresci e ainda resido. Eu me preocupo, por exemplo, com o fato de MG ser, entre os 26 estados e o Distrito Federal, apenas o 24o. em termos de gastos com Educação num balanço publicado em 2011 (Aécio deixou o governo ao fim de 2010). Eu me preocupo que sejamos também o 24o. estado nos gastos com Saúde. Eu me preocupo com o fato de a dívida pública de MG ser a 2a. maior e uma das mais caras do país. Eu me preocupo com os 4,3 bilhões de reais desviados da Saúde em MG, seja Aécio Neves réu na ação ou não (era o governador, afinal). Eu me preocupo com o aeroporto em Cláudio e outras questões relacionadas a ele (inclusive a possibilidade de ser rota para o tráfico). Eu me preocupo com o fato de haver um jornalista preso em MG há meses, sendo que seus advogados enfrentaram dificuldades para ter acesso ao processo e que a justificativa da juíza para mantê-lo na cadeia tenha sido (pasmem) a possibilidade de que ele viesse a publicar mentiras em seu jornal (uma justificativa ao melhor estilo Minority Report). E, não menos importante, me preocupa muito os relatos constantes de tentativas frequentes de censura ou retaliação a jornalistas que ousam criticar o ex-governador (e, ao final deste post, incluirei um doc produzido por um canal estrangeiro sobre o assunto e que, numa comprovação de que desconhece o conceito de “ironia”, Aécio tentou censurar).

Não creio que, como cidadão, eu esteja abusando de meus direitos ao abordar estes assuntos. Não enxergo, sinceramente, qualquer justificativa para que o senador, ex-governador e agora presidenciável recorra à justiça para tentar me intimidar.

No processo, Aécio alega que os tuiteiros (detesto essa palavra, mas vá lá) são provavelmente “robôs” ou perfis “remunerados para veicular conteúdo ilícito”.

Não sou advogado, mas isto me parece calúnia. Depois de 20 anos de carreira e de ser publicado em português e inglês em veículos que vão do Cinema em Cena ao site de Roger Ebert (desde quando era hospedado pelo jornal Chicago Sun-Times), ser chamado de “robô” é algo inédito para mim – bom, isto se não contar a minha namorada de adolescência que me acusou de dançar como um andróide e me traumatizou para o resto da vida, me impedindo de voltar às pistas de dança e frustrando meu sonho de me profissionalizar usando o pseudônimo de “Tony Mineiro”.

Além disso, venho de uma família para a qual a política é assunto muito, muito sério. Como já escrevi em outras ocasiões, minha mãe e meus tios lutaram contra a Ditadura e tenho parentes que carregam até hoje as sequelas das torturas sofridas nos porões malditos do DOI-Codi. Milito politicamente desde os 18 anos – nunca profissionalmente, mas, sim, de forma contínua. Se não ocorre a Aécio que alguém possa defender ideais apenas por amor, sinto por ele, mas é o que faço. Como já escrevi antes, eu me preocupo com o Brasil no qual meus filhos irão crescer. Esta motivação é suficiente para me manter ativo.

Mas, como dito no início deste post, minha ferramenta é a escrita. Não tenho uma fortuna para investir em marketing pessoal ou para propagar minhas ideias. Não tenho poder político para influenciar legisladores ou quem quer que seja. Escrevo porque preciso, porque amo escrever e porque é minha maneira de tentar ser escutado e de compartilhar minhas preocupações. Depois de duas décadas escrevendo, tenho um número considerável de leitores e me orgulho não só disso, mas do carinho com que estes leitores me presenteiam continuamente.

Já Aécio tem, à sua disposição, armas como dinheiro e poder político. E é preocupante que, apenas por ser criticado (e é, afinal, uma pessoa pública que quer gerir o futuro do país), ele tente usar suas ferramentas para me impedir de usar a minha.
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Importante: os links que COMPROVAM cada uma das afirmações que fiz acima sobre Aécio:

https://www.youtube.com/watch?v=lgg-7emSBwE https://www.youtube.com/watch?v=-5fC8dVTmL0 http://g1.globo.com/…/aecio-neves-tem-habilitacao-apreendid… https://www.youtube.com/watch?v=lHuo0zYCano http://www.sindifiscomg.org.br/ChoqueGestao/link01.pdf http://www.sindifiscomg.org.br/ChoqueGestao/link05.pdf http://www.mercadocomum.com/…/divida_publica_de_minas_gerai… http://www.revistaforum.com.br/…/tjmg-confirma-aecio-neves…/ http://www.revistaforum.com.br/…/explicacoes-de-aecio-neve…/ http://www.revistaforum.com.br/…/aeroporto-de-claudio-e-o-…/ http://www.viomundo.com.br/denuncias/justica.html http://www.viomundo.com.br/…/minas-sem-censura-denuncia-pri… http://www.observatoriodaimprensa.com.br/…/a_tentativa_de_c… http://www.revistaforum.com.br/…/pelos-parametros-de-aecio…/
E, finalmente, link pro doc estrangeiro que fala sobre as contínuas tentativas de censura feitas por Aécio em MG: https://www.youtube.com/watch?v=MRJyT5JUdM8