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16.9.08

A educação no Brasil vai mal, de quem é a culpa afinal?

Os livros didáticos, independentes de sua correção, são um grande equívoco.
O correto seria o professor possuir dedicação exclusiva a escola, com 40 horas de trabalho semanal, mas no máximo 20 em sala de aula. O restante deveria ser dedicado à preparação de material, correção de trabalhos e provas, além do atendimento aos alunos.
Os livros didáticos atendem, portanto a uma disfunção do sistema escolar. Um professor dando aulas em três escolas, das 7 horas da manhã até 22 horas pode confeccionar seu próprio material didático? Claro que não!
Podemos pensar o livro didático como um “mal necessário”. Isso não pode impedir que apontemos os seus problemas.
O MEC, por meio de uma equipe de consultores, todos ligados as Universidades, cuida, sem pressa, de avaliar os livros colocados à disposição das escolas públicas. Ao fazer isso o MEC tenta oferecer opções de boa qualidade para os professores.
Óbvio que não podemos imaginar um livro didático que atenda a enorme diversidade regional do nosso país! Essa limitação já seria um grande obstáculo para o uso desse tipo de material.
Por outro lado, imputar exclusivamente ao professor, ao material didático ou ao gestor escolar o problema da educação no Brasil é, no mínimo, simplificação grosseira.
A meu ver o principal problema reside na falta de investimento adequado do Estado.
Passa pela formação de professores? Claro que sim!
Vejam o exemplo da Universidade de São Paulo, tida como uma das melhores do país.
Os cursos, com raras exceções como o do Instituto de Matemática, não são voltados para a licenciatura, mas sim para o bacharelado; o magistério surge como complemento, que se obtém cursando 6 disciplinas na Faculdade de Educação e cumprindo apenas 300 horas de estágio.
A ausência de formação específica para o professor é um crime. Falta-nos preparo pedagógico, que só com a experiência e a duras penas conquistamos.
O salário da escola pública é estimulante? Claro que não! Assim como não são estimulantes as condições de trabalho.
E o estímulo da família ao estudante? Quanto se investe em TV e outras quinquilharias eletrônicas e quanto se investe em livros?
Para quem gosta do exemplo finlandês, li outro dia que o governo dá de presente um livro para cada recém-nascido, é assim que se começa a construção do bom leitor.
Por falar em TV, o espaço que ela, uma concessão pública, dedica a educação é praticamente nulo, restrito as ações de “responsabilidade social” de uma ou outra instituição.
Discutir educação é, portanto, discutir a própria sociedade, em todos os seus aspectos.
Pensar qual é o projeto de país que atende à maioria da população e como ele deverá ser executado.
Pensar ainda se queremos produzir tecnologia de ponta ou continuar inseridos no processo de mundialização econômica num papel subalterno.
Infelizmente ainda não será neste governo que veremos este horizonte preenchido de forma clara, quem sabe mais um pouco de esperança!

14.9.08

A educação pelo olhar da Revista Veja

Em razão do espaço reduzido terei que fazer aqui a mesma coisa que a revista do grupo Abril fez na sua edição de 20/8/08, quando tratou da educação no Brasil: retirar frases do contexto.
Portanto, considerem esse fato ao lerem o que segue.
Depois de examinar 130 livros de História, Geografia e Português (com quais critérios?) a dita cuja concluiu que o nó da educação brasileira reside em duas pontas: a qualidade dos livros didáticos e a ideologia dos professores, que, segundo a mesma, são todos esquerdistas (quase infantis).
A maior lacuna da reportagem reside aí. Faltou analisar livros e professores de Matemática, Física, Biologia, Química e Inglês, isso para tratarmos do chamado núcleo comum, sem contar Artes, Atualidades, Tecnologias e Mídias, Sociologia, Filosofia, ou ainda Teatro, Música etc., a depender do currículo da escola e da região.
É óbvio que os manuais didáticos contêm erros, sejam conceituais ou factuais, pois são obras de simples seres humanos, portanto sujeitos a todas as falhas inerentes à espécie.
Também não podemos nos esquecer dos gigantescos interesses das editoras de livros didáticos, a Abril inclusive – com as “grifes” Ática e Scipione – principalmente no tocante às vendas para os governos. Sabemos que a produção em massa e, às vezes, a toque de caixa para atender encomendas podem comprometer o “produto”.
Professores panfletários também existem, conheci alguns e vez por outra me acusam disso também, principalmente quando analisam o curso de Geografia do Ensino Médio de três anos a partir de uma aula de 45 minutos.
Feitas estas observações, vamos ao trabalho.
Os livros didáticos escolhidos para o escárnio pela matéria pertencem às seguintes editoras:
Anglo (1 citação)
COC (4)
Objetivo (3)
Pitágoras (2)
Ática (6)
Atual (3)
Harbra (1)
Moderna (9)
Nova Geração (2)
Quinteto Editorial (2)
Saraiva (2)
Scipione (2)
As quatro primeiras empresas são sistemas de ensino, as outras são editoras. Destaque para os 8 problemas apontados em obras da própria Abril.
Os livros apontados estão assim distribuídos:
Geografia (16)
História (19)
Português (2)
Primeiro estranhamento: a maior editora do ramo de sistema de ensino, também fabricante de softwares e computadores, a Positivo, não foi citada uma única vez. Encontramos na publicação Nova Escola – da Fundação Victor Civita – grandes anúncios deste grupo, mais exatamente duas páginas duplas na edição de agosto. Embora encontremos outros anunciantes na mesma revista, alguns criticados na reportagem da Veja, como a Saraiva/Atual (1 página), Objetivo Sistema de Ensino (1 página), Rede Pitágoras (1 página), além de outros que não foram “premiados”: Sistema Maxi de Ensino (1 página). Sistema de Ensino Dom Bosco (1 página) e Expoente Sistema de Ensino (1 página), a ausência das obras do sistema Positivo chama a atenção.
Segundo Estranhamento: a Veja corretamente identifica as editoras Ática e Scipione como pertencentes ao grupo Abril, mas não cita o Sistema de Ensino Ser, também pertencente ao Grupo Abril. Será este o único sistema de ensino neutro e portador da verdade universal? Verifiquem vocês mesmos: http://www.ser.com.br/.
Primeira conclusão: se Veja analisou 130 livros e encontrou 37 problemas, podemos pensar que outros 93 estão em perfeita ordem, de acordo com o INDEX preparado pela Abril? Quais são eles? A quais editoras ou sistemas de ensino pertencem?
Segunda conclusão: os professores de História e Geografia são formados de acordo com as premissas dos senhores Marx e Lênin, pois não? Eles possuem o poder sobre a frágil mente de crianças indefesas há décadas, por isso a conspiração comunista, patrocinada pelos charutos de Havana, grassa em nossa pátria! Façam-me o favor!
Veja mais uma vez usa de má fé ao falar de educação como é de seu costume e, a bem da verdade, essa má fé está presente ao tratar de todo e qualquer assunto.
Ao comentar um equívoco do autor de “Das cavernas ao terceiro milênio 3”, que informa ter sido o presidente Allende assassinado, a revista responde assim: “ O presidente Salvador Allende foi mesmo deposto por generais golpistas com a ajuda material e estratégica da CIA, mas desgastou-se pela própria incompetência e não foi assassinado. Suicidou-se.”
Ora, não está aí um juízo de valor? Incompetência cara-pálida? Não! Foi traído por homens que compunham o aparato de Estado, Pinochet à frente e o apoio não apenas da CIA, mas de todo o aparato de governo dos EUA.
Resvala ainda no preciosismo imbecil, como na crítica a uma apostila de História do Objetivo. Nela o autor afirma: “O mapa que mostra a rota da Coluna Prestes (1925-1927) inclui o estado do Tocantins.” Comentário da revista: “O estado de Tocantins só foi criado em 1988.” Claro que o autor, ou o revisor, poderia ter oferecido uma melhor construção para a frase, mas a gravidade de tal equívoco merece tamanho destaque?
A profundidade das análises de Veja, raramente ultrapassam a de um pires.

22.11.07

Quem quer doutrinar quem?

Hoje estou sem inspiração e por isso resolvi me dedicar ao “control C”, “control V”.
Abaixo mais um texto brilhante da professora Adriana Facina! É exemplar do tratamento que a grande mídia oferece aos assuntos sérios. Foi publicado no blog Fazendo Média (linkado no menu lateral), blog este de ótima qualidade e que visito com freqüência. Clique aqui para ler o texto na publicação original.



Que história é essa?

Não digas tão exatamente teu nome. Para quê?
Ao fazê-lo, estarás apenas nomeando um outro.
E para que exprimir tão alto a tua opinião? Esquece-a. Qual era mesmo?
Não te lembres de uma coisa por mais tempo do que ela própria dura.
Bertolt Brecht (trecho da peça "Um homem é um homem")

Quando Brecht escreveu o texto acima, em 1925, sintetizou, antes do tempo, a essência da visão da história sob o pensamento único. Nos anos 1990, quando o neoliberalismo se impôs vitorioso sobre os escombros de um capitalismo que se queria humanizado e sobre as ruínas do “socialismo real”, seus arautos defenderam a idéia de que, finda a Guerra Fria, as disputas ideológicas que deram sentido à história do século XX teriam se esvaziado. Assim, numa leitura muito particular de Hegel, o teórico conservador Francis Fukuyama anunciou o fim da história, associado ao triunfo do capitalismo liberal. Livre de ameaças totalitárias, a humanidade poderia caminhar tranqüila nas sendas do progresso, liberta do peso do passado e sem necessidade de projetar um futuro distinto do presente.
Mais de uma década se passou desde a divulgação dessas idéias. A ampliação da desigualdade social, o ressurgimento de movimentos fascistas em todo o mundo, a destruição do emprego e das redes de bem estar social, muitas crises econômicas e o recrudescimento do militarismo imperialista explicitaram a falência do modelo neoliberal em garantir, via mercado auto-regulado, a felicidade humana. Como resposta, o surgimento de movimentos antiglobalização, o crescimento de movimentos sociais com bandeiras anticapitalistas, tentativas de reorganização da classe trabalhadora em tempos de precarização do trabalho, eleição de governos populares na América Latina, ressurgimento de movimentos nacionalistas de caráter antiimperialista. Além disso, um sentimento anti-estadunidense amplamente difundido no mundo que, ainda que de forma um pouco simplista, acerta ao associar sofrimento e miséria de larga parcela da população mundial às políticas imperialistas empreendidas por sucessivos governos dos EUA.
Frente à dificuldade em, no meio desse cenário, seguir sustentando a idéia de que a história acabou, novos rearranjos devem ser tentados. Numa mistura monstruosa entre relativismo pós-moderno e positivismo oitocentista, as viúvas da tese do fim da história agora apontam suas armas midiáticas de grosso calibre contra o pensamento histórico crítico em nome da defesa de uma suposta imparcialidade na abordagem dos processos (que eles preferem chamar, como os positivistas do século XIX, de fatos) históricos. A narrativa histórica deveria ser formada de versões equivalentes sobre os fatos (relativismo pós-moderno), o que garantiria a imparcialidade do historiador diante dos mesmos (positivismo do século XIX).
Desde pelo menos o movimento francês da Escola dos Annales, iniciado nos anos 1920, sem falar do marxismo e, entre nós, de autores como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, o pensamento historiográfico contemporâneo refutou a idéia da neutralidade diante dos processos históricos. A subjetividade, o pertencimento de classe e vários outros elementos são partes constitutivas da análise histórica. Se o historiador deixa claro o lugar de onde fala, tanto melhor para seus leitores, que poderão se posicionar mais claramente diante de seus escritos. Mesmo a história que se diz neutra ou imparcial assume uma perspectiva parcial e, paradoxalmente, é ainda mais ideológica ao não explicitar isso e ao vestir o manto da objetividade científica absoluta.
Toda essa conversa é para a gente chegar na condenação dos livros de Mario Schmidt por O Globo, Veja e Época. Parece risível que um editor de jornalismo de uma empresa que é tão descaradamente parcial na veiculação da informação denuncie um livro didático de História por ser ideológico. Ali Kamel, além de não ser historiador, é autor de um livro que diz não haver racismo no Brasil (sobre os dados da desigualdade racial no Brasil ver reportagem publicada na Folha de S. Paulo nesta semana com os resultados da pesquisa coordenada pelo pesquisador Marcelo Paixão). Sob sua direção, o Fantástico vem apresentando um quadro, com os jornalistas Pedro Bial e Eduardo Bueno, que trata da história do Brasil como uma sucessão de fatos pitorescos e que apresenta erros bizarros, como a falsa informação de que a Inconfidência Mineira teria sido influenciada pela Revolução Francesa, sendo que ela ocorreu meses antes desta.
Sobre Veja, sem comentários. Panfleto ideológico de péssima qualidade, recentemente recebeu uma descompostura do respeitado jornalista Jon Lee Anderson, veterano de guerra da revista New Yorker sobre o mau jornalismo praticado pela revista quando da sua matéria sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. Só a desfaçatez pode explicar como essa produtora de falsificações históricas se arroga de xerife de livros didáticos de História.
Vamos à revista Época. Quando do affair Mario Schmidt, fui entrevistada pelo repórter Nelito Fernandes sobre o livro e seu autor. Quase nada do que falei foi publicado, o que já era esperado. Mas o mais absurdo foi o seguinte: Nelito me fez, de modo, direto, três perguntas. A primeira: “Seu sobrenome se escreve com um c ou dois?”. Respondi: “Um c só”. Segunda: “Você é professora da UFRJ?”. Eu disse: “Não, da UFF”. Terceira: “Você foi aluna do Mario?”. Neguei: “Não, nunca fui sua aluna”. Pois na matéria que saiu na revista eu virei Adriana Faccina com dois cs, professora da UFRJ e ex-aluna de Mario! Se os caras não conseguem ser fiéis nem às verdades mais prosaicas, que dirá quando os temas se complexificam. Pareceu claro a mim que Nelito já tinha uma missão: condenar o livro e seu autor e que minhas informações eram irrelevantes, só serviam para ele mostrar que tinha ido às fontes e não escrito um panfleto saído de sua cabeça ou da pena dos seus editores.
Todos esses veículos, e mais a televisão, atingem milhões de pessoas e estão concentrados em poucas mãos, divulgando aspectos parciais da verdade, quando não mentiras e falsificações deslavadas sem nenhum controle, produzidas sempre do ponto de vista dos vencedores. Aí sim estamos falando de doutrinação muito poderosa, porque diária e cotidiana. Imaginar que dois tempos semanais de aula de história e a leitura de livros didáticos podem fazer frente a isso é uma aberração sem tamanho.
Ao contrário do que dizem seus detratores, os livros de Mario Schmidt dialogam com ampla bibliografia histórica atualizada, trazem documentos históricos importantes e fontes iconográficas excelentes. É um material de ótima qualidade e que não deve ser recolhido de bibliotecas de escolas, a não ser que estejamos falando de censura ideológica, pois se trata de uma obra que se propõe a ser crítica. E é isso que incomoda aqueles que acham que educação não deve ser voltada para estimular o educando a pensar. Como todo livro didático, possui limitações e não é perfeito. Cabe ao professor, em sala de aula, complementar o trabalho com outras linguagens, reflexões e informações.
O pano de fundo dessa história toda diz respeito ao próprio papel da educação no mundo de hoje. Para quê queremos educar nossos filhos? Queremos criar indivíduos conformados com esse mundo que não é bom para ninguém, com exceção dos poderosos, ou desejamos formar seres pensantes, capazes de construir um mundo novo?

Sabemos que a desesperança e a falta de perspectivas de futuro geram consumismo, autodestruição, indiferença em relação ao sofrimento alheio. O conformismo é alimento para comportamentos violentos, para abuso de drogas, para uma existência preocupada somente em predar o presente, extraindo dele cada emoção imediata possível, tentativas de preencher vazios infindáveis.
Livros didáticos críticos são parte de uma concepção de educação que visa não doutrinar os educandos, pois isso os meios de comunicação e o mercado já fazem. Mas sim despertar o senso crítico, ensinar a pensar, a investigar o porquê das coisas. E hoje a escola ainda é um dos poucos espaços de resistência onde isso é possível. A História como disciplina incomoda muito aos poderosos porque ela mostra como nosso mundo chegou ao que é hoje. E se as coisas não foram sempre desse jeito, significa que elas podem ser mudadas. Estamos longe do fim da História.
Entendo a preocupações dos pais com o futuro profissional de seus filhos, e a qualidade do que é ensinado nas escolas e nos livros didáticos é parte disso. Mas não podemos nos deixar chantagear por aqueles que são responsáveis por sentirmos tanta insegurança pelo mundo que nossos filhos vão encontrar pela frente. O mundo que eles estão construindo não é o que queremos para quem amamos. Aqueles que hoje atacam a liberdade de idéias e o espírito crítico são os mesmos que destroem o meio ambiente, aprofundam a desigualdade que gera violência, que defendem um sistema econômico que não garante direitos básicos como emprego, saúde e educação ao seres humanos. Está nas mãos dos jovens de hoje mudarem isso. Se os livros didáticos, os professores e a escola servirem para que sua autoestima como sujeitos históricos ativos seja estimulada, teremos não o fim, mas começo de uma nova história.

P.S.: Felipe Viana, esse texto é para você.

Adriana Facina é antropóloga, professora do Departamento de História da UFF, membro do Observatório da Indústria Cultural e autora dos livros Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2004) e Literatura e sociedade (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004).

2.11.07

A questão dos livros didáticos

Alguns órgãos de imprensa têm desenvolvido verdadeiro cavalo de batalha com relação aos livros didáticos, principalmente os de História e Geografia.
Infelizmente, como normalmente acontece na nossa mídia-espetáculo, a discussão é pouco séria e serve mais para questões ideológicas do que pedagógicas. São diversos os problemas dessas análises.
Um primeiro problema, grave, é a maneira como a crítica é construída pelos jornalistas. Sem querer aqui questionar a enorme sapiência desses “especialistas em generalidades”, falta-lhes conhecimento no campo da pedagogia e também das ciências, mas, acima de tudo, falta-lhes humildade. Quase sempre arrogantes e com as receitas prontas, questionam a posição ideológica dos autores e, ao mesmo tempo, expõem outra, como se só a deles fosse correta e aceitável.
O segundo problema é a fixação contrária à determinada linha de pensamento, ignorando que ela encontra respaldo e legitimidade nas instituições universitárias sérias, quer sejam no Brasil ou em outros países. Todo texto que questiona o capitalismo e o liberalismo como valores absolutos é detonado.
Um terceiro, muito grave, é a falta de transparência na publicação dos artigos. Os órgãos que o fazem, como as revistas Veja e Época ou o jornal O Globo, não dizem ao leitor que são partes interessadas comercialmente nesta discussão.
A Editora Abril possui duas “grifes” para edição de livros didáticos: Ática e Scipione , além da Veja Na Sala de Aula (clique aqui para acessar o site da publicação), que publica sugestões de aulas e manuais para os professores.
Já a Editora Globo possui diversas publicações destinadas a alunos e professores, destacando-se as revistas Época e Galileu.
A Época na Educação (é só clicar aqui para ler) se apresenta assim: “Desde 2001, as revistas ÉPOCA e GALILEU vão para escolas de segundo grau - selecionadas anualmente - com o objetivo de formar leitores críticos e participativos. Os professores utilizam as sugestões dos fascículos produzidos todos os meses para desenvolver atividades com seus alunos.”. Observem que, para a Época, o Ensino Médio AINDA é chamado de segundo grau.
Nesta mesma linha temos a Carta na Escola (clique aqui para ter acesso ao site da revista), publicação da Editora Confiança proprietária da revista Carta capital.
Nós, professores, sabemos que o melhor material didático é aquele que preparamos, todos os outros contém equívocos, imprecisões ou lacunas, pois são feitos para o “atacado” e na sala de aula temos nossas particularidades. Por outro lado todos sabem, não só os professores, que não temos tempo de preparar nosso próprio material, assim somos levados a escolher aquele que melhor nos atende.
Já trabalhei com vários materiais didáticos, tanto com livros como com sistemas de ensino e nenhum me atendeu plenamente, mas nenhum deles inviabilizou minhas aulas ou me impediu de um trabalho conseqüente com o grupo de alunos.
Essa postura macartista da imprensa em nada ajuda o debate, o melhor seria ouvir a voz dos especialistas, tanto aqueles que estão nas Universidades, como aqueles que estão nas salas de aula. Principalmente estes últimos.

22.9.07

Livro didático: mentiras e manipulações no artigo do Ali Kamel

Luis Nassif jogou um pouco de luz nesta discussão que tomou conta da mídia recentemente: o MEC e os livros didáticos.
Interessante saber que são muitos os interesses que devem ser considerados nesta discussão: políticos, pedagógicos e grana. Agora, pelo jeito que a coisa anda, mais um se soma: o combate rasteiro às ações do governo Lula.
Essa mídia que vive “testando hipóteses”, louca da silva para derrubar o governo, vem desinformando cada dia mais e, de forma alucinada, despolitizando completamente o debate político.
Criticam o governo pelo pouco que ele tem de bom. Pois é justamente esse pouco que descontenta os bem aquinhoados de sempre, aqueles que sempre tiveram todos os privilégios em suas mãos e que construíram, ano após ano, governo após governo, esse enorme abismo social que envergonha todo brasileiro com o mínimo de senso de justiça e solidariedade.
Transcrevo abaixo na íntegra o texto publicado no Blog do Nassif, mas antes clique aqui para ler o artigo que deu origem ao debate: O que ensinam às nossas crianças, de autoria de Ali Kamel.

O caso do livro no índex
Coluna Econômica - 21/09/2007
A guerra ideológica continua produzindo uma vítima recorrente: a notícia. Digo isso a propósito do artigo de Ali Kamel em “O Globo”, reproduzido no “Estadão”, desancando o livro “Nova História Crítica, 8ª série” – acusado por ele de doutrinação comunista –, e denunciando o MEC (Ministério da Educação) de distribuí-lo gratuitamente.
A denúncia repercutiu na imprensa mundial, de “El Pais”, na Espanha, ao “Miami Herald”, nos Estados Unidos.
Na verdade o livro foi adotado pelo MEC em 2002, gestão Fernando Henrique Cardoso, e deixou de ser adotado em abril deste ano, gestão Luiz Ignácio Lula da Silva. E Kamel sabia disso.
Nem a indicação foi culpa de FHC (se é que se pode falar em culpa), nem a desclassificação foi obra de Lula.
Kamel sabia que o processo de seleção de livros, pelo MEC, virou uma política de estado, ainda na gestão FHC, e não houve nenhuma modificação que sinalizasse para sua politização.
O sistema de seleção criado virou padrão para muitos países. O papel do MEC é definir um conjunto de universidades que sejam centros de excelência. Depois, cada qual indica professores para analisar as obras. O MEC avalia apenas se há conflito de interesses, se o professor eventualmente tem ligação com alguma editora.
Em seguida, todos são chamados a Brasília e lhes são entregues os livros sem identificação de editora ou autor. As obras recomendadas entram em uma lista do MEC e são apresentadas às escolas, para escolha dos professores.
Antes, havia um problema. Grandes editoras faziam um trabalho de marketing, enviando vendedores para convencer os professores. O MEC corrigiu o que considerava uma distorção. Passou a editar um Guia de Leitura e a remeter para as escolas. E os professores passaram a fazer escolhas pela Internet. Esse modelo reduziu o poder de fogo das grandes editoras, gerou muita pressão, mas abriu a possibilidades para pequenas e médias editoras entrarem no mercado.
O livro em questão entrou para a lista em 2002, devido à avaliação positiva de um professor da UNESP (Universidade Estadual Júlio de Mesquita Neto), ainda na gestão Paulo Renato de Souza.
Quem retirou de pauta, na última avaliação, em abril passado, foi a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pois os novos avaliadores entenderam que as ressalvas eram fortes demais para que permanecessem. Nem o MEC interferiu no primeiro movimento, nem interferiu no segundo.
A única mudança que fez foi ampliar o número de universidades de quatro para oito. O livro acabou vetado por um avaliador de uma nova universidade incluída na seleção.
Repito, Kamel sabia disso. Mais. Na seleção de trechos que colocou, do livro, menciona o que considera loas aos regimes comunistas. Mas deixou de fora trechos do livro em que há críticas explícitas ao marxismo, a Stalin e a Mao.
Pior: homem que domina as estatísticas, deixou as ferramentas de lado na hora de analisar as obras colocadas à disposição dos professores. Existem 400 livros didáticos apenas na 4ª e 5ª séries. Não se valeu sequer de amostragem estatística, como, por exemplo, avaliar 20 livros e constatar problemas em parte deles.

Fonte: http://www.projetobr.com.br/web/blog/6#4303