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20.1.10

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental - por Eduardo Galeano

Ler o que Eduardo Galeano escreve é sempre emocionante. Vejam como em poucas linhas ele consegue nos contar sobre o Haiti:

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental

Por Eduardo Galeano, em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citibank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e, sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Eduardo Galeano é escritor

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=&iditens=473

28.7.09

O que quer a CPI da Petrobras?

Latuff é sublime!

Caso queiram conferir no original e ver mais obras do mesmo autor é só clicar aqui.

4.5.09

A morte de Augusto Boal

Foto publicada pela Agência Carta Maior
O Brasil perdeu um grande artista e um imenso cidadão. Como ele não estava no BBB, talvez as notícias não façam justiça a esta figura: Augusto Boal.
Nos anos 70 caiu em minhas mãos, por "acidente" e por debaixo dos panos, o livro Teatro do Oprimido. Ali encontrei o teatro que procurava e o meio de fazer política e falar para as pessoas sobre as injustiças e a opressão.
Clique aqui e aqui para ler sobre ele na CartaCapital.
Aqui um belo texto publicado na Caros Amigos. Aqui uma ótima entrevista, de fevereiro de 2008, dada à Revista Fórum.
Finalmente a matéria, excelente, do portal Agência Carta Maior, leia um trecho:

Filho de um padeiro português que chegou ao Rio de Janeiro por se recusar a servir como soldado em uma guerra com a qual não concordava e de uma certa senhora que abandonara o primeiro noivo praticamente no altar para casar, por decisão e gosto, com um “aventureiro”, Augusto Boal aprendeu desde logo que o mundo pode ser mudado, bastando para isso decisão e coragem. Toda a sua invenção no teatro parece se basear nesta fé sobre o efeito da ação do homem no mundo, que não é apenas um lance retórico, como no teatro burguês, e deve ser encontrada nos motivos da vida ordinária.


Clique aqui para ler o texto na íntegra.

20.11.08

Dia da Consciência Negra

Muito oportunamente a revista Caros Amigos lança uma bela coleção:



O professor Joel Rufino dos Santos é historiados, professor universitário e autor de vários livros, sendo reconhecido legitimamente como referência em história africana e do povo negro brasileiro.
Abaixo as capas dos 2 primeiros fascículos:




20.6.08

Recomendação de leitura

A revista Caros Amigos deste mês está primorosa, como sempre. Corra até a banca mais próxima e compre o seu exemplar.
Caso queira visite o site, só para ter uma idéia. Para isso, basta clicar na capa abaixo:

6.3.08

Caros Amigos especial sobre Cuba

Imperdível!

Vejam o sumário:

4 PERFIL- Fidel Quixote
12 POVO - O charme discreto do povão
14 SAÚDE - Os Estados Unidos se curvam
18 EDUCAÇÃO - Um professor para cada dez alunos
19 DIVERSÃO - Um povo de esportistas
20 ESTUDANTES - Os filhos de Fidel
22 24 DRAMA - Caso de amor entre uma americana e um cubano
25 CINEMA - O salto cinematográfico
26 SISTEMA POLÍTICO - “Democracia socialista é uma redundância”
29 ARTIGO - É preciso conhecer o país – Alessandra Silvestri-Levy

Corra até a banca mais próxima e encomende o seu exemplar!


2.2.08

Às vezes tenho vergonha do meu país

O Brasil é um país maravilhoso, com um povo de brios, batalhador, que dá conta de sua vida como se operasse milagres diariamente.
Infelizmente temos vícios, construídos historicamente, que nos envergonham!
A matéria do excelente jornalista da Caros Amigos, João de Barros, que reproduzo abaixo é ilustrativa disso, assim como o trabalho escravo nos latifúndios Brasil adentro ou o trabalho infantil.
E ainda tem gente que estuda, à custa do dinheiro público, para dizer que a culpa da escravidão era dos escravos...


A lei e a lei do cão
por João de Barros

Valdinei de Souza Silva, o Nei da Silva, é preto e pobre. Aos 31 anos, é um dos ativistas sociais mais conhecidos na cidade do Embu, na Grande São Paulo. Escultor, poeta, professor de música, ator de teatro, coordenador da Primeira Semana Lítero-Cultural da cidade, militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), sempre lutou por igualdade étnica e social. Entre seus trabalhos voluntários, ele leva em conta o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ) das comunidades mais carentes, mais propensas ao tráfico de drogas. No dia 12 de setembro passado, Nei estava de bicicleta – procurava gente para o seu grupo de teatro –, numa entrada da favela São Marcos e deu com dois rapazes, negros como ele, e começou a conversar. Entusiasmado, convidava os jovens para participar de uma peça que seria encenada dali a seis meses.
“Cadeia é um bagulho muito louco e, pior, se o Choque entrar vai sobrar pra todo mundo”
Então, surgem os policiais militares William Ricardo Pereira e Cláudio Antônio de Moraes, a pé, apontando armas e gritando: “Mão na parede! É polícia!” Nei sabia como são as batidas policiais. Reclamou da abordagem, mas afinal aceitou levar mais uma revista geral. Os policiais encontraram, dentro de uma sacola de supermercado que estava com o adolescente EAS, cem pedras de crack, vinte papelotes de cocaína, 51 porções de maconha e 312 reais em notas de pequeno valor. O menor confirmou ser dele a droga e que Nei e o menor MVO nada tinham a ver com a história. “Os três vão pro distrito”, sentenciou um policial. Nei tentou argumentar. Não tinha passagens pela polícia. Não conhecia os rapazes; arregimentava-os para levar ao teatro. Nunca mexera com drogas, portanto não era traficante, como diziam os policiais. Era um artista, que se dedicara à criação de uma casa de cultura, da biblioteca na favela do Inferninho. “Artista? Você é um negro fuleiro, corruptor de menores, um bandido filho da puta”, respondia o soldado William, também ele um negro. No Brasil, há muito tempo as PMs aboliram o princípio do direito da presunção de inocência. Todos acham que o tráfico de drogas usa os menores, para livrar a cara do adulto. Esse caso, para eles, era típico.
Preso número 494773-5
Na delegacia, os policiais contaram a seguinte versão: eles receberam “a informação do tráfico de drogas no local e depararam com Valdinei e os menores vendendo os entorpecentes, evidenciando-se considerável grau de organização e eficiente divisão de tarefas – com Valdinei fazendo a vigilância na extremidade da viela e o EAS menor revendendo as drogas”. Tratava-se, pois, de um crime hediondo, sem os benefícios da progressão de pena e reclusão de cinco a doze anos em regime fechado. O delegado Higino Grizio mandou então lavrar o boletim de ocorrência com o que lhe foi relatado. Ao ouvir as alegações de Nei, não quis saber de conversa. “Se você disser mais uma vez que o barato não é seu, eu lhe quebro na pancada”, ameaçou. E Nei foi levado para o Centro de Detenção Provisório (CDP) de Itapecerica da Serra, na tarde de 13 de setembro. Era o preso 494773-5.
Quando soube da prisão do marido, Ivanete Ferreira Barbosa, 40 anos, grávida do terceiro filho de Nei, que nascerá neste mês, ficou “em estado de choque, anestesiada, sem saber o que fazer”. Depois foi à luta. Inscreveu-se para as visitas dominicais no CDP e tratou de espalhar a notícia na cidade. Todos os que ouviam a história se solidarizavam com Nei. Jornais da região denunciavam o preconceito. Um abaixo-assinado, revelando a violência, teve mais de duzentas assinaturas. Os artistas do Embu – entre os quais Raquel Trindade, Wanderley Ciuffi, Tônia do Embu e Luiza Caetano – organizavam rifas para vender as obras por eles doadas para bancar um advogado.
“Às vezes eu pensava se eu não tinha evoluído e virado um gigantesco inseto, como o personagem do livro Metamorfose, de Franz Kafka. E desatava num choro incontrolado ao pensar na mulher, nos filhos. Porque é duro ficar na prisão sem culpa e ter de esperar ser julgado por um barato que você não fez"
Depois de uma semana trancafiado num lugar abafado, úmido, sujo e cheio de percevejos, onde se perde a noção do tempo porque mal se vê a claridade do dia, Nei foi para a cela 4, do raio 1 do presídio. Lá, viveu com até quarenta presos numa cela com capacidade para doze. “O Estado trata o preso como um aglomerado de bichos”, diz. Há presos que dormem no chão. A comida é ruim para todos. “Cadeia é um bagulho muito louco e, pior, se o Choque entrar vai sobrar pra todo mundo”, ensinaram-lhe. Por isso, não havia violência nem agressão verbal. Vigoravam o respeito, a disciplina de um com o outro, a paz forçada.
Na primeira visita que fez ao CDP, Ivanete viu que o que ela ouvia falar é, na verdade, muito pior. “Os funcionários são treinados para tratar a todos como joão-ninguém. A revista é o pior momento: você fica nua e faz três flexões de frente e de costas para as moças verem que não há nada escondido na vagina e no ânus. Depois há a passagem por várias portas de aço, quando vasculham suas coisas, furam a comida que você leva. Enfim, você entra numa cela apertada e fedorenta. Assim é o sistema carcerário.” Quando voltava ao barraco onde mora, no Jardim Idemori, em Itapecerica da Serra, ela levava um temor: o medo de uma rebelião. “Lá é um estopim. Meu medo era esse, de ele estar inocente naquele lugar e acontecer alguma coisa lá dentro.”
Cárcere de um inocente
Durante os 96 dias que ficou no CDP, Nei foi se familiarizando com o novo ambiente. Quando as trancas se abriam, ele encontrava cerca de 240 presos no pátio. Olhava para cima e via uma imensa grade. Sob os pés, cerca de 2 metros de concreto, que recobriam as mantas de aço. Ao redor do pátio, muros altíssimos, de uns 50 centímetros de espessura, igualmente permeados de telas de aço. Podia ver, ao longe, o portão de saída, numa muralha de ferros e cadeados. Pela lei, teria de ser julgado em 81 dias, portanto no dia 8 de dezembro. “Às vezes eu pensava se eu não tinha evoluído e virado um gigantesco inseto, como o personagem do livro Metamorfose, de Franz Kafka. E desatava num choro incontrolado ao pensar na mulher, nos filhos. Porque é duro ficar na prisão sem culpa e ter de esperar ser julgado por um barato que você não fez", conta Nei.
Para vencer o tédio e a revolta que sentia, passou a “ler feito um doido”. Lia os Pensamentos, de Che, Arte da Guerra, de Sun Tzu, Guerra de Guerrilhas, de Fernando Portela, obras de Graciliano Ramos, Machado de Assis, Castro Alves, Augusto dos Anjos, além de viajar na República, de Platão, com dois amigos recentes. “A gente fazia a relação entre o mito da caverna e a cadeia. Víamos uma réstia de luz que vinha de fora. Aí, imaginávamos todos nós de costas para a entrada da prisão, de onde eram projetadas sombras de outras pessoas que, adiante do muro, mantinham uma fogueira acesa. Os presos então julgavam ser uma realidade essas sombras. Contudo, um deles foge, e descobre que elas são feitas por homens como eles, assim como todo o mundo e a natureza.”
O julgamento foi marcado para 18 de dezembro. Ele foi ouvido e mandado de volta ao CDP. Já anoitecia quando perguntaram pelo preso 494773-5. “Ih, caramba, o que vão inventar agora? Será que vão forjar mais crimes contra mim”, pensou. A notícia era outra: o juiz Ítalo Fernandes concedera-lhe liberdade provisória, depois de ouvir o advogado de defesa, Tadeu Galeti, desmontar a farsa dos policiais. Agora, até o Ministério Público pede a absolvição de Nei por “falta de provas”.
No entanto, a liberdade que lhe deram transformou-o num meio cidadão. Não pode sair de casa depois das 10 horas da noite nem antes de 8 da manhã. Se precisar viajar, tem de pedir uma autorização ao juiz. Mal pode andar pelos becos onde caminhava, por temer nova prisão. Nem retomar o seu cotidiano. Para ele, filho de um índio mineiro da tribo maxacali, nômade por natureza, “ser quase livre é ser quase morto”. E resume assim a sua chaga: “A polícia vê no negro, no favelado e na periferia o perigo. Isso caracteriza uma sociedade deformada, uma anomalia social. Nós, os pobres, trabalhamos para construir a riqueza da nação e somos, ao mesmo tempo, vistos como uma ameaça”.
Enfim a sentença...
No último 25 de janeiro, aniversário de 454 anos de São Paulo, Nei foi absolvido pela Juíza de Direito do Embu, Denise Cavalcante Fortes Martins. Leia o trecho da decisão:
"Os elementos indiciários não se prestam à formação da convicção acerca da materialidade e autoria do crime imputado ao réu. Ante o exposto, e tudo mais que dos autos consta, com fundamento no artigo 386, inciso IV, do Código de Processo Penal, JULGO IMPROCEDENTE a ação e ABSOLVO o réu VALDINEI SOUZA SILVA, em relação à pratica do ato delitivo previsto no artigo 33 "caput" e artigo 35, combinados com o artigo 40, todos da Lei 11.343/06 por não existir nos autos indícios suficientes da autoria delitiva.
Transitada em julgado, procedam as anotações e comunicações necessárias. Publique-se, registre-se e intime-se.
Embu, 25 de janeiro de 2008."

João de Barros é jornalista.
Fonte: Caros Amigos – Só no site.

26.10.07

A questão curda

A Turquia posicionou milhares de soldados na fronteira com o Iraque e ameaça uma operação de grande escala no país vizinho. O objetivo seria combater os integrantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que lutam por independência. Segundo a agência de notícias Anatólia, as Forças Armadas da Turquia já estariam realizando “ataques mirados” no Curdistão iraquiano desde o último domingo. No início de outubro, 13 soldados turcos foram mortos por guerrilheiros curdos. Dez dias depois, o Parlamento turco autorizou ações militares no norte do Iraque, local apontado como “base de adestramento de terroristas”. Em seguida, um confronto no sudeste da Turquia causou a morte de 12 soldados turcos e de 32 curdos. Outros 16 soldados ficaram feridos e oito estariam seqüestrados. Para Murat Karayilan, um dos principais líderes do PKK, o que está por trás da guerra iminente é a necessidade da Turquia de eliminar a autonomia curda no Iraque, “porque o Estado turco sabe que, enquanto existir uma federação curda no sul, será impossível controlar os curdos no norte”. A morte dos militares gerou um clima de comoção nacional e a população turca pressiona o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan para que opte pela via militar. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse publicamente ser contrário à invasão, porém, segundo o jornal turco Hurriyet, Washington estaria planejando uma operação em conjunto com Ancara. Os guerrilheiros do PKK afirmaram que, em caso de ataque, irão sabotar os oleodutos da região. Caros Amigos esteve no Curdistão, em março deste ano, para contar a saga do povo curdo, para entender o que está por trás de uma guerra silenciada que já dura mais de duas décadas e que já matou mais de 30 mil pessoas.

Leia a seguir a reportagem de Fernando Evangelista, publicada na edição 122 de Caros Amigos de maio de 2007(basta clicar no título):


Curdos: A Guerra Silenciosa

24.10.07

O Brasil de hoje é fruto do golpe de 1964

por Hamilton Octavio de Souza

O golpe militar de 1964 impôs não apenas 21 anos de ditadura, mas também o ambiente político e cultural que possibilitou – no período da “redemocratização” – ao neoliberalismo aportar com tudo no território brasileiro, estimulado pelas elites empresariais, saudado pelas classes médias e engolido pelos trabalhadores sem maiores resistências.
Em plena Guerra Fria, com o imperialismo norte-americano jogando pesado contra os blocos socialista e terceiro-mundista, o golpe interrompeu o processo de reformas de base articulado por lideranças trabalhistas como o governo João Goulart. As reformas faziam sentido no bojo do desenvolvimento industrial das décadas de 40 e 50, e representavam a justa cobrança dos trabalhadores no acerto de contas com o capital, especialmente para virar a página do atraso oligárquico.
Com o golpe, a experiência educacional transformadora foi duramente reprimida e todo o sistema passou a ser controlado de cima para baixo, com rígida vigilância. Tanto é que inúmeros professores e projetos educacionais foram banidos. Ao mesmo tempo acelerou-se o processo de privatização do ensino superior. Foram criadas as “fundações sem fins lucrativos” que enriqueceram tanta gente. As fábricas de diplomas ganharam status de faculdades e universidades. O sistema criado na ditadura permanece intacto, não apenas vigora até hoje, como é um dos pilares de formação e sustentação intelectual do neoliberalismo.
O projeto de reforma agrária de Celso Furtado, que o governo João Goulart ensaiava colocar em prática, previa a desapropriação de todas as terras ao longo das rodovias e ferrovias, de forma que se pudessem assentar rapidamente todas as famílias que quisessem trabalhar na terra. O golpe de 1964 abortou a reforma agrária e até hoje o Brasil não conseguiu resolver a secular questão agrária e nem criar um modelo para o desenvolvimento da agricultura familiar, a produção de alimentos e a proteção ambiental. Ao contrário, o Brasil agora convive com o latifúndio improdutivo e com o latifúndio do agronegócio – a concentração da terra voltada para a exportação (soja, eucalipto, cana e pecuária), altamente destruidora das reservas florestais, dos recursos hídricos e do meio ambiente.
Nem bem o Brasil saiu da ditadura militar, em 1985, e as elites brasileiras já estavam salivando para privatizar o patrimônio público acumulado nos anos de centralização e de estatização, quando os gestores do regime endividaram o País e o povo brasileiro com inúmeros projetos faraônicos. A ditadura acelerou a destruição da Amazônia com a rodovia Transamazônica e os projetos fracassados de colonização; a ditadura acelerou a destruição dos recursos hídricos com os projetos de grandes hidrelétricas; a ditadura acelerou a destruição cultural do Brasil com os seus projetos autoritários de educação e comunicações. O apoio da ditadura à TV Globo e às demais redes de televisão foi decisivo para “formar” gerações alienadas com a cabeça no consumo e no circo. O sistema de controle da informação e da cultura montado pela ditadura continua intacto até hoje – sob o domínio de alguns grupos empresariais e coronéis eletrônicos espalhados no território nacional.
Nem bem saiu da ditadura e ingressou no neoliberalismo, as elites brasileiras avançaram sobre os direitos dos trabalhadores, retiraram conquistas de décadas, investiram pesado nas “flexibilizações” e “desregulamentações” da legislação trabalhista e social, passaram a arrochar sistematicamente os salários, colocaram milhões na informalidade e multiplicaram várias vezes o exército de reserva – também chamado de desemprego estrutural. Isso só foi possível porque a sociedade brasileira moldada pelos 21 anos de ditadura apagou da memória e da história oficial as lutas feitas e as reformas sonhadas antes de 1964. Depois do último embate, nas eleições de 1989, quando as forças democráticas e populares foram derrotadas – em “eleições livres” – pelo neo-coronelismo apoiado pela velha imprensa empresarial e pelo aparato televisivo construído pelo regime militar, a resistência democrática e popular entrou em declínio, importantes setores da esquerda se renderam ou foram cooptados pelo modelo político-econômico, as propostas transformadoras e socializantes desapareceram dos sindicatos e das universidades. É nesse quadro que o movimento social ainda tenta se reerguer – com muita dificuldade.
Basta lembrar que toda a imprensa brasileira – com exceção do jornal Ultima Hora – apoiou o golpe militar de 1964, na defesa dos interesses dos fazendeiros, do capital industrial nacional e do capital estrangeiro. Da mesma forma, hoje, a grande maioria da imprensa brasileira defende ardentemente os postulados do neoliberalismo, apóia a entrada desenfreada do capital estrangeiro, o sistema financeiro concentrado em grandes bancos e a concentração da terra para o agronegócio. Os motivos de fundo para o golpe de 1964 constituem ainda hoje o programa em vigor das elites dominantes. Isso significa que o golpe de 1964 pode ser considerado completamente vitorioso, pois interrompeu de forma duradoura – há 43 anos – o que estava sendo ensaiado de transformações em favor das classes trabalhadoras. Desde então os trabalhadores não vivenciaram mais nenhum processo de reformas que pudesse mudar as estruturas do País. O Brasil é hoje mais capitalista do que já foi em toda a sua história. Com todos os problemas que esse sistema produz.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor da PUC-SP.

Publicado em Caros Amigos (http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed127/so_no_site_geral_hamilton.asp)

6.10.07

Entrevista com Ariano Suassuna na Caros Amigos

No site da revista Caros Amigos tem uma obra prima: entrevista com Ariano Suassuna, realizada em 2003, para a edição de junho.
A chamada é assim:

“Eu não faço concessão nenhuma”

A entrevista começou com um não. “Com a revista Caras eu não falo, não. Que me respeitem!” Essa foi a resposta de Ariano Suassuna ao não entender bem o recado deixado pela Caros Amigos em sua secretária eletrônica. Desfeito o engano, o polêmico escritor recebeu os jornalistas em seu casarão, um verdadeiro monumento à cultura brasileira, no bairro de Casa Forte, às margens do rio Capiberibe. Assim como seu engraçado personagem Chicó, de O Auto da Compadecida, Ariano é um grande contador de histórias, entremeando suas opiniões com causos e contos populares. Apesar de toda a poesia nas entrelinhas, ele diz tudo na bucha. Até porque, como ele mesmo gosta de lembrar, não é “homem de ficar em cima do muro”.

Leia a entrevista clicando aqui.

16.9.07

Para entender Renan Calheiros

A revista Caros Amigos traçou um perfil fabuloso do senador das Alagoas.
Numa excelente matéria do repórter João de Barros a gente começa a entender por que tantos têm medo de Renan.
Leia um trecho:

As faces de Renan

O REPÓRTER JOÃO DE BARROS PASSOU UMA SEMANA EM ALAGOAS EM BUSCA DO VERDADEIRO RENAN CALHEIROS. OUVIU CORRELIGIONÁRIOS DO SENADOR, ADVERSÁRIOS POLÍTICOS, ALIADOS E EX-ALIADOS, AMIGOS E EX-AMIGOS, PARENTES; JORNALISTAS; E UM PESQUISADOR DA HISTÓRIA ALAGOANA. DA EMPREITADA SALTAM VÁRIOS RENANS, "UM POLÍTICO CAMALEÔNICO" NO DIZER DE UM EX-COMPANHEIRO DE PARTIDO.

O Boeing da Gol pousa no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, em Maceió. Dia quente e abafado, céu nublado. “Vai chover” – me diz um companheiro de viagem. Caminhamos pelo terminal, futurista, cinco pavimentos que mescla vidro, alumínio e granito, inaugurado pelo presidente Lula, em companhia do então governador Ronaldo Lessa (PSB), do ex-presidente da Infraero Carlos Wilson e do senador Renan Calheiros, em 2005. Tem o formato de um olho humano, projeto do arquiteto Mário Aloísio Barreto Melo. Mal elogio a beleza, o recatado senhor que anuncia chuva diz:

“Bonito ele é, mas a roubalheira que promoveram é que foi uma beleza. Era para custar xis [R$ 52 milhões] e ficou por ípsilon [R$ 238,3 milhões].”

Responsabiliza a empreiteira baiana OAS e “os políticos” pelo superfaturamento. Ele me conta que documentos contábeis foram encontrados “picotados no galpão da Construtora OAS, mas a maior parte foi levada por um caminhão de reciclagem e destruída. Sobraram apenas pedaços de notas fiscais de compras de material elétrico e hidráulico, contas de telefone, comprovantes de entrega de mercadoria e restos de materiais plásticos”. Diz ainda que a obra foi financiada com recursos da Infraero, Embratur e governo do Estado.

“Assim é Alagoas, assim é o Brasil. Rouba-se e não dá em nada.”

A ira desse alagoano não é fortuita. Ouvirei acusações de quase todas as pessoas que vou entrevistar para elaborar o perfil do senador Renan Calheiros, que responde a inquérito na Comissão de Ética do Senado Federal, inquérito que abalou o Congresso – foi acusado de receber ajuda do lobista Cláudio Gontijo, da construtora Mendes Júnior, para pagar a pensão da filha, fora do casamento, com a jornalista Mônica Veloso. Vão me relatar escândalos que têm Alagoas como palco – do prefeito de Delmiro Gouvêia, acusado de desviar R$ 13 milhões em licitações fraudulentas, à tortura nos presídios; do caso dos precatórios à ação livre de pistoleiros.

A matéria completa está na edição de agosto (nº. 125).