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18.8.11

Como a mídia retrata a periferia

Estava colocando minhas leituras em dia quando me deparei com o texto que segue abaixo, de autoria do grande Ferréz, escrevendo diretamente do Capão Redondo.
Ele mostra a indignação com matéria veiculada no programa "A Liga" sobre o Capão. Embora trate de um caso em particular, o Capão Redondo, a grande mídia retrata a periferia de maneira a construir estereótipos medonhos.
Não tenho por hábito ver esse tipo de jornalismo. Aliás, com exceção do Profissão Repórter, não acompanho mais nada na TV aberta, só lixo, a começar pelo maior deles: CQC!
Esses programas precisam tomar uma decisão: são humorísticos ou jornalísticos? Esse limbo no qual transitam é bastante conveniente, pois quando tem que responder como jornalistas alegam estar fazendo humor e quando são rejeitados como humoristas alegam fazer jornalismo.
Fiquem com o texto do Ferréz:


A liga, liga nóis?

Assistindo o programa "jornalistico" da Bandeirantes A Liga, eu me constrangi, não só como ativista no bairro, mas como pai de família.
Conforme a matéria avançava, minha esposa saia e voltava não querendo mais ver, minha filha de apenas quatro anos perguntou, - isso é aqui pai?
Triste, muito triste mesmo, ver o que fizeram com o bairro.
Tem funk? toda periferia tem e todo salão burguês tem, tem bebida? toda porta de faculdade tem.
Tem ponto cultural? tem sarau? tem samba? tem festa popular? tem projeto cultural? tem uma área comercial gigantesca? parece que não.
O cemitério agrada mais do que o bar do Saldanha.
O assassinato agrada mais que o Ensaiaço na Grisson, o Sarau da Cooperifa, o Sarau do Binho, o Sarau da Coopermusp, o Cinema da laje, o trabalho de permacultura da Interferência.
O córrego traz mais audiência que o trabalho do Janga+Ação, o protesto dos punks da região, o movimento rock e suas bandas de garagem, a grife exclusiva do bairro, as quermesses populares, os shows de forró, o trabalho com a terceira idade, a Fábrica de Criatividade, o Capão Cidadão, A biblioteca Êxodus, a fanfarra do Euclides da Cunha, o jornal do bairro de Marcus Kawada, a cooperativa de mulheres, o trabalho do Senhor Pedrinho no jardim comercial, A oficina do espaço digital, e mais centenas de coisas positivas.
uma matéria gravada quase que totalmente de noite, com um tom de turismo, com muita ironia e despretenção de ver todos os lados, que é o que o jornalismo tinha que fazer.
Agora entendo quando entraram em contato comigo, e após eu dizer que queria falar de literatura e cultura, nunca mais voltaram.
Mentiram quando diziam que os entrevistados moravam aqui, muitos são turistas, e quem está dentro da comunidade sabe o que estou falando.
Tenho um grande orgulho, das dezenas de moradores que me procuraram e disseram: - aqui não tá assim.
A palavra na reportagem, Lugar violento, foi repetida muitas vezes, mas não engana o povo que enche os ônibus para ir trabalhar, e para voltar para um bom lugar.
Prestenção, respeita nossa quebrada, porque usuário de crack tem, mas você tem que procurar, no meio dos becos, entre homens e mulheres que ralam todo dia por uma vida melhor, você tem que vasculhar bastante para achar um meliante no meio de tanta gente escrevendo, grafitando, recitando, cantando, e produzindo um bairro melhor.
Os moradores lutam todo dia para terem orgulho daqui, pois ao contrário de quem produziu as matérias, agente não tem outra vida não, o nosso berço quando temos um é fixo.

Se você quer opiniar, faça desse blog um grito, pois muita gente do bairro entra nesse espaço.




Fonte: Ferréz

25.8.09

Capão Redondo: quando a justiça funciona

Algumas palavras conseguem me emocionar rapidamente, principalmente quando se percebe que o que move o escritor é o coração, a alma ofendida. Não importa o preciosismo da língua, a correção da gramática, importa a dor que elas exprimem. O que a TV mostrou ontem no Capão Redondo o guerreiro Férrez retrata em poucas palavras:

Não foi fácil olhar aqueles rostos, lágrimas tentavam cobrir o vermelho que a fumaça trouxe.
perder tudo é falar bobagem, perderam o pouco que tinham.
800 famílias.
um terreno partícular.
a justiça em ação, nesses casos ela funciona, o terreno vai voltar para o proprietário, que por tanto tempo nunca foi lá usar.
tinha mais de 500 policiais.
Vai um grande salve pros bombeiros, que mesmo sem a água chegar, fizeram o possível para os moradores não perderem mais, muitos sairam passando mal intoxicados, também tinha uma equipe fiminina da PM que veio trazer água pra gente e leite, lição de humildade em meio ao caos.

Se quiser ver as fotos da praça de guerra, é só clicar aqui.

24.5.08

"Pensamentos de um correria" vai parar na delegacia

O escritor Férrez está sendo processado, pasmem! Clique aqui para ler o que ele diz sobre isso.
Motivo: escreveu!
Isso mesmo! O cara escreveu um artigo na Folha de São Paulo, que comentei e reproduzi uma parte do texto aqui (é só clicar).
A mídia conservadora caiu de pau, acusando-o de apologia ao crime e agora a 77º Delegacia de Polícia de Santa Cecília encampou tal pensamento e resolveu abrir inquérito para apurar o “delito”.
É importante passarmos no blog do Férrez (clique aqui) e deixar registrada a nossa indignação e solidariedade!

29.10.07

Zeca Baleiro o rolex do Huck

Texto na Folha de S.Paulo de hoje, seção Tendências/Debates, clique aqui (mas só assinantes) para conferir o original.
Primoroso!
O rolo do Rolex
ZECA BALEIRO

NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.
Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.
Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como "sou cidadão, pago meus impostos". Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, "romanceando" o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de "vencedor". Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de "marxista babaca" e "comunista de museu") revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram "comunistas", "petistas", "fascistas". Os que o apoiavam eram "burgueses", "elite", palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao "Houaiss": "Elite - 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]".
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista "Veja", notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita "consciência democrática", propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: "Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos". Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.

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JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, "Pet Shop Mundo Cão".

21.10.07

Luciano Huck e o seu rolex, Férrez e os "correria"

Já que baixou a poeira, todas as capas foram dadas, resolvi falar do episódio.
Luciano Huck publicou um texto na Folha de S.Paulo lastimando o assalto sofrido.
Leia o texto clicando aqui.
Começa o artigo num tom ficcional, anunciando a própria morte, como reproduzido a seguir:

Luciano Huck foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.


No dia seguinte o escritor Férrez, publicou outro texto, como que respondendo às preocupações do apresentador de TV. O texto do Férrez pode ser lido aqui.
O artigo do jovem escritor, morador do Capão Redondo, começa assim:

ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto. Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos. Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.

Obviamente que o primeiro texto começa num tom ficcional para depois despejar-se em lamúrias pela perda do rolex. Sorte do Luciano Huck que pode choramingar na Folha de S.Paulo, em espaço tão nobre. Se todos os moradores de São Paulo que são assaltados tivessem a mesma oportunidade, faltariam árvores para tanto papel. E olha que as reclamações não seriam de rolex roubados, mas de vales-transporte, vales-refeição, botijão de gás, tênis ...
No texto do Férrez a ficção é começo, meio e fim. Com a privilegiada visão de quem conhece a periferia por ter nascido, crescido e sempre morado no Capão Redondo, ele não doura a pílula, não é bonzinho e nem caridoso.
Férrez fala daquilo que conhece, não por visitar esporadicamente, nem por dedicar uma pequena porcentagem de sua fortuna pessoal (para posterior abatimento no imposto de renda) para os desafortunados.
O rebotalho do jornalismo transformou o texto dele, uma obra de ficção, em defesa do criminoso e da criminalidade. Um intelectual chegou a ver no texto pretensões de distribuição de renda e justiça social e atacou o jovem escritor sem dó nem piedade.
Onde será que essa turma aprendeu a ler?
Será mera ignorância ou mais um sinal de preconceito?
Afinal deve ser duro ver um “favelado” enfrentando um representante da nossa mais refinada elite nas páginas dos jornais, usando o cérebro e não um 38.
Férrez tem um texto lúcido, lúdico e um trabalho maravilhoso.
Quem quiser pode conferir um pouco desse trabalho clicando aqui.