30.8.08

Tem gente que ainda tem medo de comunistas

Recebi um comentário do Bruno C., que presumo seja um ex-aluno do COC aqui de São Paulo.
Para não cometer o erro que muitos fazem, de retirar frases do contexto, vou reproduzir o texto dele integralmente e respondê-lo por partes.
Ficamos combinados assim, o texto do Bruno C. está em cinza/itálico e meu da forma convencional.


Bruno C disse...
Oi, Toni, tudo bom? Como estás?

Sim, bem, apesar de um ou outro problema de saúde. Ano passado toquei um projeto para a Revista Época (perigosa publicação esquerdista da família Marinho) e continuo dando aulas para o Ensino Médio. Espero que tudo esteja bem contigo.

De vez em quando leio teu blog e há um tempo venho pensando se deixo minha opinião ou não. Como fizeste à Veja o mesmo tipo de crítica que tenho em relação às tuas colocações, resolvi hoje escrever.

Ótimo que escreva, assim sabemos o que cada um pensa. Como este é um espaço democrático, ao contrário da maior revista do país, será sempre publicado, desde que não ofenda ninguém ou expresse opiniões racistas e preconceituosas.

Acho que tuas críticas são muito simplistas, como foram os motivos retratados pela revista para a má educação no país. Ambos agem como se houvesse o lado do bem e o do mal.

Desculpe-me, mas não tratei da educação no Brasil no texto que você comentou, apenas tratei das críticas da Veja aos professores de Geografia e História e das leituras descontextualizadas que ela fez na matéria. Então, no caso, as críticas não são simplistas, elas simplesmente não existem no texto.
Para ler um pouco sobre educação no meu blog veja as postagens:
Educação no centro do debate
Erro de planejamento desperdiça recursos públicos na educação em São Paulo
Ivan Valente critica educação em São Paulo
Que linda és Cuba - Relato de estágio educacional
A Finlândia faz sucesso na educação

Honestamente, (i) acho a educação no Brasil pífia, (ii) fiquei pasmo com os números mostrados, retratando o conformismo da população em relação a ela, (iii) não gostaria mesmo que meus filhos tivessem doutrinas comunistas na escola, (iv) gostaria que o capitalismo fosse tratado como uma verdade e não como uma possibilidade, (v) não acredito que o capitalismo signifique lucro acima de tudo - por exemplo, o meio-ambiente não pode ser permanentemente afetado pela atividade humana, e isso não se chama responsabilidade ambiental, mas, sim, capitalismo; ético, mas ainda capitalismo -, (vi) não acredito que a chamada responsabilidade social seja função das empresas (pessoas jurídicas), mas das pessoas físicas, entre outros pontos que discordo contigo sobre capitalismo e socialismo.

Embora o parágrafo não termine aqui faço, com a devida licença, uma interrupção para os comentários:
(i): concordo.
(ii): concordo.
(iii): eu também não, mesmo por que quem gosta de doutrina – neste sentido – é igreja e ditadura e não concordo nem com uma e menos ainda com outra. Por outro lado também não desejo que meu filho seja educado pela direita que baba e ainda por cima pensa na Guerra Fria como uma realidade.
(iv): bom, aqui a porca torce o rabo. O que é verdade? Qual capitalismo? O da Suécia ou do Quênia? O do Canadá ou do Paraguai? Ou seriam todos filhos da mesma?
(v): crença não se discute, mas se você olhar um pouco a sua volta verá que o capitalismo significa lucro acima de tudo, até mesmo o papinho furado da responsabilidade social da grande maioria das empresas tem por finalidade fazer bonito para os acionistas.
(vi): concordo plenamente, para mim tal responsabilidade é do Estado, que deve aplicar o princípio da justiça tributária: quem ganha muito paga muito mais impostos!


Por isso, quando te vejo tratar o comunismo como solução para qualquer coisa, fico realmente entristecido e pensando nos jovens que têm de ouvir de ti as mesmas coisas que tive que houvir há quase dez anos.

Quando você me viu ou ouviu dizer que o comunismo é a solução? O que digo e repito é que a minha formação intelectual é marxista e assim analiso os fenômenos sociais. Manja aquele papo de dialética? Então, até os mais radicais dos neocons estadunidenses conhecem essa maneira de pensar e tentam vender o seu peixe assim.

Não sei com que freqüência tu repensas tuas doutrinas e "verdades internas", mas acredito que se fosse na velocidade que se espera de um professor, tu já não mais baterias na mesma tecla repetidamente.

Qual a velocidade que você espera de um professor? E qual seria então a velocidade esperada de um gari? Mudar para onde? Não vai me ver defendendo o neoliberalismo, nem aqui nem em canto algum.

Toni, desculpa te contrariar assim, mas nem tu nem a Veja estais sempre certos ou sempre errados.

Ah! Até você curte uma dialeticazinha! Olha que vão te chamar de marxista também! Mas não se incomode em me contrariar, afinal não é o único.

O capitalismo tem suas vantagens. Por que tu não ajudas o mundo a melhorá-lo em vez de continuar batendo na tecla do socialismo? O Homem já demonstrou que o socialismo é bom apenas no papel, uma utopia.

Vou te contar um segredo: eu até gosto do capitalismo. Sabe aquele do Adam Smith? Então. Nele tudo dá certo e para os infelizes, despossuídos de ousadia e tino de vencedor o Estado garante a dignidade, olha que lindo? É assim, pois não?

Na realidade, ele não funciona com liberdade individual total. E, se um dia o Homem conseguir atingir um desenvolvimento suficiente para viver bem numa sociedade comunista, acho que o mais ideal seria viver numa sociedade anarquista, onde cada um faz apenas o que quer e todos somos geridos pelas leis morais de cada um. Afinal, é esse o grau de desenvolvimento necessário para que a sociedade viva bem "comunistamente".

Também curto o anarquismo, mas aí a utopia é demais. Se você me mostrar um mundo onde o capitalismo deu certo eu te mostro um onde o socialismo também acertou. Entendeu? Nenhum dos modelos implantados até então convenceu. No atacado continuo fechando com o velho Karl, mas no varejo tenho algumas diferenças

Espero que tenha me feito entender. Se não, entra em contato se achares válido.

Entender eu entendi. Acho que você é que não entendeu ou tem pouco tempo para ler o que escrevo. Faço-lhe um convite para ler o blog mais detidamente.

Um abraço!

Outro.

2 comentários:

Renato disse...

estou surpreso. apesar de respeitar opniões contrárias,vejo que algumas maluquices da epoca da ditadura ainda nao foram esquecidas.
1- capitalismo é realidade. sim uma infeliz realidade(ainda vamos mudar)
20 capitalismo bom, não existe, para existir esse capitalismo bom de parte da europa, ele é conseguido graças a exploração do sangue e da natureza dos paises pobres
Meus caros a unica preoucpaçao social das empresas é o lucro, todos os programas criados sao apenas para aumentar os lucros, veja o exemplo toda empresa diz que é responsável em relaçao ao meio ambiente, porque é uma propaganda positiva, apenas isso, quando se melhora algumas condições aos funconarios é com base no quanto ele vai aumentar a produtividade.
apenas um centro de custo,
isso é capitalismo bom????
se for, nao quero conhecer o mal

Renato Couto disse...

Prezados, deixa eu "tentar" esclarecer algo, puxando a brasa para minha sardinha, antes de olhar para Capitalismo e Socialismo, como "política", deve-se olhar como modelo econômico, pois a primeira (forma política), vem da estruturação da sociedade na segunda. Vide a China atual, que ainda se auto-proclama comunista, mas pode? A complexidade do estudo economico é tal, que eaté mesmo, entre nós economistas, existem profundas divergências, portanto elocubrações sobre o melhor sistema (economico), são isso, troca de ideias e ideais...
Os que defendem o livre mercado (segundo meu xará Renato, impossível e injusto, pois é inerente ao homem a exploração, vide dividir o mundo em Europa (exploradora)e países subdesenvolvidos(explorados)-conceito totalmente ultrapassado)veêm o mundo (em TEORIA) de forma harmônica, onde as forças atuantes, levam a longo prazo, a redução do lucro e eficiência na distribuição. Claro que esse mundo de laissez-faire poderá não se afinar com nosso senso particular de justiça distributiva,mas sempre será possível ao Estado ajustá-lo, sem atrapalhar o livre jogo. E sim! Com possibilidade de FORMAÇÃO DE RIQUEZA e não simples (e simplista idéia)de transferência. Porém (e aí é que a porca torce o rabo, né Professor?), o nosso mundinho moderno fica bem distante dos belos edifícios matemáticos, projetados por nós economistas (sim, mea culpa)...O ponto básico (ao meu ver, claro), é que a busca pelo lucro máximo, quando praticada pelo pequeno empresário (cuidado com esse conceito de pequeno), conduz a uma harmonia natural do sistema, mas quando posto em prática pelo monopolista ou oligopolista, dará margem a consideráveis distorções na (má)distribuição de renda, necessitando obviamente da dita intervenção governamental, visando conciliação.
Voltando: Os pontos centrais da controvérsia, entre os méritos dos regimes capitalista e socialista, envolvem questões éticas, jurídicas e filosóficas muito mais amplas do que as questões puramente economicas, apesar (como dito antes) das segundas (questões)serem fruto da primeira. Só um adendo (mais um, né?)Professor, Marx e Smith, são bons para estudar HISTÓRIA economica, porém, economicamente (pelo viés matemático, concordo que chato,mas que sem ele NÃO existe economia), seus estudos são ultrapassados, não discordando do "velho Karl", como mesmo disse, do ponto de vista ideológico.
Em seu livro "A História do Pensamento Econômico", Robert Heilbroner, classifica o livro de Engel " The Condition of the Working Class in England in 1844", como o mais terrível líbelo contra as favelas do mundo indústrial, neste período, Engels andou por toda Manchester (berço da revolução industrial), vendo em que condições se encontrava a recente massa de trabalhadores. Certa vez, comentando sobre a miséria da cidade e as "bases" em que ela havia sido contruída, com um cavalheiro, seu amigo, ouviu como resposta:"E no entanto, ganha-se uma fábula de dinheiro aqui; tenha um bom dia, sir".
O que mudou de lá para cá? Acredito que nós estamos aqui para isso...
É necessário analisar a economia, não como apologia da ordem
existente (ou objeto do desejo), mas com uma visão equilibrada, realçando o positivo e combatendo o negativo de cada "tratado" econômico, buscando corrigir as distorções do sistema, seja ele qual for. Devemos buscar:
Determinado grau de intervenção governamental sem um corpo de burocratas;
A vitalidade (competitiva) do capitalismo, sem uma classe de poderosos capitalistas;
Uma bolsa de valores, sem um cassino...

Cada um deste ítens, deve ser esmiuçado, mas não são assuntos para uma só postagem de blog...

OBS: Professor, uma das coisas que mais gosto no seu blog, é que acabo me estendendo e gerando texto pra postagem no meu(hehe)...Bom domingo!Abraços do amigo.
Renato Couto