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2.9.22

Sobre educação política

Não me entendam mal, mas, às vezes, sinto saudades das aulas de OSPB. Não a matéria criada pela ditadura, mas aquela que se lecionava nas escolas pública no final dos anos de 1980, especialmente do livro assinado pelo Frei Beto, conforme mencionado no texto abaixo.



Em 2016 publiquei nesse blog o texto abaixo, que trata da necessidade de educação política nas escolas, além dos outros espaços coletivos.

Claro que hoje teríamos outros espaços para essa educação, mas a ideia continua presente.

Enquanto não construirmos um sólido conhecimento na área estaremos suscetíveis aos governos como este que nos apavora e que tantas coisas ruins têm produzido na sociedade.

 

Educação política 

Vivemos uma crise na nossa sociedade. Penso que essa crise tenha começado aí por volta de 1500.

Agora ela está totalmente exposta, seja na política de alta rapinagem seja no cotidiano.

Do deputado safado ao flanelinha que pratica extorsão, passando pelo árbitro de futebol que arruma os resultados dos jogos em benefício de alguns apostadores.

Não é, portanto, uma crise política apenas. Às vezes tenho a impressão de que as pessoas que reclamam, a maioria pelo menos, o fazem por não se beneficiar das maracutaias.

Por outro lado, percebo uma dificuldade muito grande em imputar as responsabilidades pertinentes, mesmo por parte daquelas pessoas razoavelmente informadas e com bom nível de educação formal.

A educação política acontece, prioritariamente, dentro dos sindicatos, partidos políticos, ONGs, associações comunitárias, centros acadêmicos etc. e com o próprio amadurecimento do indivíduo.

É fácil perceber, no entanto que o individualismo presente no nosso modo de vida afasta as pessoas dessas instituições participativas.

Entendo que a ação política, o exercício da cidadania, independe da escolarização, mas, por outro lado, sinto que a escola poderia contribuir decisivamente com a formação política dos nossos jovens.

Não no aspecto partidário, mas no conhecimento da Constituição, por exemplo, assim como dos demais aspectos legais da defesa do cidadão, do conjunto de deveres e direitos pertinentes ao exercício da cidadania, além da história dos partidos políticos, do sindicalismo, do movimento estudantil, enfim das inúmeras oportunidades que, ao longo da história, fizeram do povo protagonista do seu próprio destino, sem depender dos heróis, fabricados ou verdadeiros.

Talvez uma disciplina escolar, calcada nas relações interdisciplinares, que retome o que havia de bom numa matéria imposta pela ditadura militar, OSPB (Organização Social e Política Brasileira), que foi brilhantemente reformulada numa coleção didática escrita por Frei Betto. Teríamos então um grande encontro da História e da Geografia, mediado pelo Português, com o apoio das outras disciplinas escolares para, num esforço conjunto, oferecer ao aluno possibilidades de leitura do mundo que o capacite ao pleno exercício de sua cidadania, entregando-lhe um arsenal adequado para a leitura da grande mídia sem cair na armadilha do sensacionalismo barato das notícias frugais.

Temas como crise política, reforma política, América Latina, ambiente, mídias, saúde (física, mental, sexual), enfim um amontoado de temas que, repito, em conjunto com as outras disciplinas escolares, poderia ser abordado de acordo com os anseios da comunidade escolar e do contexto que lhe diz respeito.

Claro que tal proposta não pode se distanciar de uma melhoria no sistema educacional, com melhores salários e capacitação para os profissionais envolvidos na sua execução.

Texto publicado em 2/09/2016

19.11.10

Por que todo mundo se mete a falar sobre educação?

Tal pergunta sempre me intrigou. Quando temos um problema de saúde pública no país a imprensa ouve o Ministro da Saúde e também médicos. Quando ocorrem os "deslizamentos" de terra no verão eles ouvem o prefeito e alguém da área de Geografia, Geologia ou Engenharia. Sempre buscam os especialistas.
Mas, quando o assunto é educação, até a Miriam Leitão opina!
Sobre isso o cientista Miguel Nicolelis, brilhante como sempre, concedeu uma entrevista para Conceição Lemes, registrada no site Vi o Mundo do jornalista Luiz Carlos Azenha.
Vejam a introdução da matéria:

Nicolelis: Só no Brasil a educação é discutida por comentarista esportivo
por Conceição Lemes
Desde o último final de semana, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Ministério da Educação (MEC) estão sob bombardeio midiático.
Estavam inscritos 4,6 milhões estudantes, e 3,4 milhões submeteram-se às provas. O exame foi aplicado em 1.698 cidades, 11.646 locais e 128.200 salas. Foram impressos 5 milhões de provas para o sábado e outros 5 milhões para o domingo. Ou seja, o total de inscritos mais de 10% de reserva técnica.
No teste do sábado, ocorreram dois erros distintos. Um foi assumido pela gráfica encarregada da impressão. Na montagem, algumas provas do caderno de cor amarela tiveram questões repetidas, ou numeradas incorretamente ou que faltaram. Cálculos preliminares do MEC indicavam que essa falha tivesse afetado cerca de 2 mil alunos. Mas o balanço diário tem demonstrado, até agora, que são bem menos: aproximadamente 200.
O outro erro, de responsabilidade do Inep, foi no cabeçalho do cartão-resposta. Por falta de revisão adequada, inverteram-se os títulos. O de Ciências da Natureza apareceu no lugar de Ciências Humanas e vice-versa. Os fiscais de sala foram orientados a pedir aos alunos que preenchessem o cartão, de acordo com a numeração de cada questão, independentemente do cabeçalho. Inep é o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, órgão do MEC encarregado de realizar o Enem.
“Nenhum aluno será prejudicado. Aqueles que tiveram problemas poderão fazer a prova em outra data”, tem garantido desde o início o ministro da Educação, Fernando Haddad. “Isso é possível porque o Enem aplica a teoria da resposta ao item (TRI), que permite que exames feitos em ocasiões diferentes tenham o mesmo grau de dificuldade.”
Interesses poderosos, porém, amplificaram ENORMEMENTE os erros para destruir a credibilidade do Enem. Afinal, a nota no exame é um dos componentes utilizados em várias universidades públicas do país para aprovação de candidatos, além de servir de avaliação parabolsa do PRO-UNI.
“Só os donos de cursinhos e aqueles que não querem a democratização do acesso à universidade podem ter algo contra o Enem”, afirma, indignado, ao Viomundo o neurocientista Miguel Nicolelis, professor da Universidade de Duke, nos EUA, e fundador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, no Rio Grande do Norte. “Eu vi a entrevista do ministro Fernando Haddad ao Bom Dia Brasil, TV Globo. Que loucura! Como jornalistas que num dia falam de incêndio, no outro, de escola de samba, no outro, ainda, de esporte, podem se arvorar em discutir um assunto tão delicado como sistema educacional? Pior é que ainda se acham entendedores. Só no Brasil educação é discutida por comentarista esportivo!”
Nicolelis é um dos maiores neurocientistas do mundo. Vive há 20 anos nos Estados Unidos, onde há décadas existe o SAT (standart admissions test), que é muito parecido com o Enem. Tem três filhos. Os três já passaram pelo Enem americano.

Para ler a entrevista na íntegra clique aqui.

28.7.10

Os resultados do ENEM

Entra ano, sai ano e a ansiedade provocada pelos resultados do ENEM coloca meio mundo com os nervos à flor da pele.
A divulgação dos resultados transforma-se em elaboração de rankings que servem tanto a escola privada quanto a escola pública.
Foram vários comentários no Twitter, por exemplo, dando conta que os melhores resultados das escolas públicas estavam entre as federais, ou seja, por essa linha de raciocínio, o governo federal seria mais eficiente na gestão da educação do que os governos estaduais e municipais.
Erro grosseiro, pois nas escolas federais existe uma disputadíssima concorrência pelas vagas disponíveis. Só entram os melhores alunos, portanto, capacitá-los para o ENEM ou para outros exames externos, torna-se tarefa bem mais tranquila do que no restante da rede pública.
As escolas privadas também lançam mão de concurso de entrada, principalmente aquelas que aparecem nos primeiros lugares, quando não praticam uma seleção pré-exame.
Tal seleção pode ser escancarada, embora dentro das regras propostas pelo MEC, como a criação de uma escola, com o mesmo nome fantasia da “matriz”, onde só entram os melhores alunos. Mas pode ser também disfarçada, como, por exemplo, marcar uma prova de recuperação para o mesmo dia do exame do ENEM.
A publicação dos dados do ENEM tem um mérito: trazer a educação para o centro das discussões!
Mídia, empresários, ONGs, Educadores, o pessoal do bar da esquina, enfim, todos discutem, com mais ou menos propriedade, as mazelas da educação no país.
Surgem também exemplos de boas práticas pedagógicas em vários cantos do país.
Mas a receita para o sucesso no ENEM não é nenhum segredo: professores bem pagos e motivados, estrutura acadêmica de forte apoio ao aluno, valorização do conhecimento, leitura, produção de texto, acesso aos bens culturais etc.
Do lado das escolas privadas não existe mágica possível, é só investir e criar o ambiente que citei no parágrafo acima, já na escola pública dependemos das políticas governamentais e de um papel mais ativo da sociedade, principalmente da presença forte e marcante das famílias dentro do universo escolar.
Um grave problema que vejo neste exame é não termos um currículo nacional mínimo. Dessa maneira o aluno não sabe o que será avaliado, afinal é impossível um exame nacional abranger as diferenças regionais de um país do tamanho do nosso.
O debate está aí, nas manchetes e inúmeros artigos da mídia. Será que vai produzir avanços? Ou voltaremos a ele na publicação dos resultados do próximo ENEM?

19.2.10

A educação e o governo Lula

O governo Lula teve boas iniciativas na área educacional: promulgação do Fundeb; piso nacional para os professores; sistema de avaliação externa.

Quanto ao primeiro item aqui mencionado não se trata apenas de mudança de sigla, trocar FUNDEF pelo FUNDEB, mas sim de incluir neste último o ensino médio e a educação de jovens e adultos. Para maiores informações sobre o FUNDEB é só clicar aqui.

Já a implantação do Piso Salarial dos Professores – leia detalhadamente clicando aqui – rompe com o aviltamento profissional da categoria e coloca para a sociedade a necessidade de tratar tal profissional com o devido respeito.

As avaliações sobram: Provinha Brasil (2º ano do Ensino Fundamental); Prova Brasil (5º e 9º anos do Ensino Fundamental); ENEM (concluintes do Ensino Médio) e ENADE (Ensino Superior), estes são os principais instrumentos, contamos ainda com outros diversos instrumentos.

Para tantos aspectos positivos, podemos apontar outros tantos negativos.

Comecemos.

1 – as verbas para educação ainda são insuficientes. Numa entrevista, faz pouco tempo, Mário Sérgio Cortella defendeu que tal verba deveria consumir algo como 10% do PIB.

Também necessitamos aprimorar a gestão destas verbas, isso seria possível com plena participação popular nos Conselhos Escolares (clique aqui para saber o que é isso).

A existência dos Conselhos, bem como seu funcionamento, deveria ser objeto de uma ampla campanha publicitário-educativa, fomentando assim sua implantação e pleno desenvolvimento. Da maneira como está colocado ele é apenas mais uma, dentre tantas, formalidades existentes.

2 – o Piso Salarial dos Professores foi uma boa iniciativa, mas carece de um acompanhamento mais amplo. Falta um Plano de Carreira estimulante, que movimente o professor intelectualmente, recompensando-lhe esforços para o aprimoramento profissional. Por outro lado cabe também aqui uma ampla discussão com os sindicatos, bem como com toda a comunidade escolar, para elaboração de uma avaliação de desempenho da atividade docente.

Claro é que tal avaliação não pode ficar restrita ao desempenho dos alunos nos exames externos, como o quer o governo do estado de São Paulo, simplificando algo tão complexo.

Como funcionário público de um setor tão caro ao país o profissional do magistério deverá receber de maneira clara e inequívoca uma série de deveres inerentes à profissão e desempenhá-los com zelo e cuidado.

3 – as avaliações sobram, conforme já relatado no início deste texto. Parece-me que a dificuldade está em resolver o que fazer com o resultado delas. Neste sentido o Ideb parece no caminho correto (leia aqui sobre o Ideb), pois abarca uma série de medidores e, segundo o portal do MEC: “A partir da análise dos indicadores do Ideb, o MEC ofereceu apoio técnico ou financeiro aos municípios com índices insuficientes de qualidade de ensino. O aporte de recursos se deu a partir da adesão ao Compromisso Todos pela Educação e da elaboração do Plano de Ações Articuladas (PAR).”.

Os outros instrumentos avaliativos deveriam percorrer o mesmo caminho, ou seja, partindo do resultado traçar metas de aprimoramento e não ficar apenas no resultado.

O ENEM – Exame Nacional de Ensino Médio – merece uma consideração particular. Neste ano de 2009 o MEC meteu os pés pelas mãos. Ao tentar mudar o seu caráter expôs toda a sua fragilidade. Uma mudança abrupta causou traumas que, penso eu, serão de difícil superação.

Além da questão, vamos dizer, técnica do vazamento da primeira prova, apareceram vário problemas pedagógicos na segunda prova. O exame ficou muito parecido com os vestibulares, assim a única vantagem do estudante é com a economia de taxas de exames. A quantidade de questões fez da prova uma maratona de resistência e não um exame de conhecimentos ou habilidades.

Some-se a isso a proliferação de cursos universitários, que explodiram no governo anterior é verdade, e temos um quadro que muito ficou a dever se comparado ao discurso do PT, partido majoritário na coligação governista, com relação à educação.

No tocante ao ensino superior as instituições federais receberam mais apoio, comparando-se com os 8 anos do governo FHC e mais estudantes, principalmente os mais pobres, chegaram ao ensino superior, graças ao PROUNI que fez uma magnífica transferência de renda do poder público para as instituições privadas, muitas delas de qualidade acadêmica duvidosa.

Pela importância que a educação sempre recebeu por parte do PT e muitos dos partidos aliados (PC do B, PSB e PDT principalmente), pelo lugar que o tema sempre ocupou nas campanhas eleitorais do Lula imaginava que teríamos muito mais.

O governo fez pouco, essa é a verdade.

14.2.10

Ainda sobre educação...

Faz tempo linquei ao lado, na indicação de leituras, o blog Cremilda Dentro da Escola.

Embora discordando da maioria dos escritos da citada Cremilda, imaginei que o blog apresentasse, de modo coerente, a visão de alguns pais e mães sobre os problemas da escola pública.

Acompanhei-o por um tempo e depois me desencantei. A visão sobre a educação é bastante rústica e os textos tratam de atacar os professores, acusando-os, quase sempre, de responsáveis por tudo de errado que acontece na educação e, principalmente na educação em São Paulo.

O meu principal desapontamento foi com o texto Como educar meu professor. Uma obra de péssimo gosto.

De autoria de Mauro A. Silva é apresentada assim:

“A cartilha “Como educar meu professor” foi idealizada por termos identificado que a maior parte dos professores são mal educados, mal formados e muito “folgados”…

As faculdades e universidades parecem meras vendedoras de diplomas… vendem diplomas em 36 prestações mensais sem juros…”

Onde estão os dados que comprovam tal afirmação? Quem é este Mauro A. Silva que parece conhecer todos os professores deste país? Sim, pois somente conhecendo-os poderia afirmar que a “maior parte” é assim ou assado.

Em dado momento chega a afirmar que o salário do professor, R$ 1.500,00 por uma jornada de 40 horas/semanais, segundo o autor, é bom.

Note que nos textos as responsabilidades do poder público são sempre arranhadas e há uma permanente luta do bem (alunos, pais, Cremilda etc.) contra o mal (professores, dirigentes, políticos etc.).

Essa forma de pensar é muito tosca e inaceitável.

Tenho amigos e familiares no magistério público, tanto municipal quanto estadual, honrando a profissão e nem de longe fazendo as barbaridades que o blog relata.

Existem professores indignos de estarem na sala de aula? Claro que sim, mas profissionais ruins e infelizes existem em todas as áreas: médicos, motoristas, pedreiros, engenheiros, secretárias, jornalistas etc.

Também existem ótimos profissionais, que adoram sua profissão em todas essas áreas.

Cremilda ganharia muito mais se estimulasse a participação nos Conselhos de Escola, se oferecesse instrumentos para que tais participações fossem reais, com amplo exercício de cidadania.

Recuperar a escola pública não pode equivaler à destruição do papel do professor como condutor do processo em sala de aula.

A escola não é a única “produtora” da educação, ela ocupa um pequeno espaço desse processo. A educação começa em casa, na família e prossegue no grupo social, nas práticas cotidianas; a escola responsabiliza-se pelo saber escolar e por parte da socialização dos indivíduos. O professor é um profissional, de fato ele não é pai, mãe, irmão ou amigo. Também não é terapeuta.

Vamos exigir do poder público, equipes multidisciplinares nas escolas, com psicólogos, fonoaudiólogos, oftalmologistas, dentistas, enfim, toda a gama de profissionais que possam orientar e dar suporte às famílias e aos alunos.

Como diria meu sábio avô: cada macaco no seu galho!

A educação vai de mal a pior

Vejam o anúncio publicado na Folha Online de hoje (14/2/10):

PROFESSORES (AS) Pedagoga, c/ exp.alfabetiazalçao e series eniciais do encino fundamental, em escola particular.Residir na Zona Sul. Enviar CV para: valeria@colegioxxxxxxx.com.br ou andrea@colegioxxxxxxx.com.br

O "xxxx" foi por minha conta, mas querendo conferir basta clicar aqui.

24.3.09

A educação durante a Ditadura Militar

Uma das páginas mais intrigantes do período da Ditadura Militar no Brasil é o tal acordo MEC-Usaid.
Até mesmo para os pesquisadores da área o acesso a documentação sempre foi restrita. Alguns defensores da ditadura alegam inclusive que ele é uma de ficção, coisa dos comunistas infiltrados na mídia e nas Universidades.
No entando existe um livro disponível na Internet que trata do tema, servindo ainda como ótimo instrumento de contextualização do período: Beabá dos MEC-Usaid, de autoria de Márcio Moreira Alves - clique aqui para ver o discurso do jovem deputado, usado como desculpa para a decretação do AI-5.
Leia abaixo parte da introdução do livro:

A tentativa de dominação do futuro das gerações brasileiras pela imposição de um sistema de ensino baseado nos interêsses norte-americanos tem sido denunciada nas ruas pela juventude. Mas a denúncia e, sobretudo, o esclarecimento que pode sair dos debates concretos, são prejudicados pela falta de informações objetivas, pelo muro de silêncio que em tôrno de seu
trabalho de entrega da soberania nacional o Govêrno tem erguido. Poucos são os que conhecem os textos dos acôrdos firmados entre a USAID e o Brasil no setor educacional. É possível que nenhum brasileiro, autoridade governamental ou não, tenha uma visão conjunta do sistema que êles começam a consolidar. É certo que ninguém sabe que medidas estão sendo tomadas em decorrência dos planos por êles estabelecidos.
Creio que o intelectual médio no Brasil de hoje tem o dever de ser essencialmente um documentarista. A contribuição mais efetiva que pode dar ao progresso do País é recolher documentos e pronunciamentos oficiais esparsos, classificá-los em uma seqüência lógica,
comentá-los de forma mais ou menos abreviada e colocá-los à disposição do público como material para estudos e debates. Em uma terra onde os meios de comunicação de massa são influenciados, quando não completamente controlados, pelos interêsses estrangeiros e onde o Govêrno, que a êsses interêsses serve, sonega ao povo informações fundamentais, acredito
importante êste tipo de publicação.
Não bastasse o livro, excelente, o prefácio de Lauro de Oliveira Lima é qualquer coisa de fantástico, ainda mais por percebermos que é atual, ainda hoje.
É só cliar aqui para ter acesso ao livro.
Clique aqui e leia uma interessante cronologia das mudanças educacionais ocorridas durante a Ditadura.

17.12.08

Tem gente que aprende enquanto ensina

Peço-lhes licença para publicar uma mensagem muito pessoal, de tão pessoal que tem que ser pública, assim dessa maneira. Trata-se da despedida do Coordenador Pedagógico com quem trabalhei nos últimos 3 anos e meio e que muito me ensinou. Como não tive condições de fazê-lo pessoalmente, registro aqui esta pequena homenagem ao José Ricardo Marcondes Paim:


Mestre,

Gostaria de registrar minha gratidão pelos anos de convivência profissional. De agora em diante ela se dará apenas na qualidade de amigo, não mais na de profissional, mas a amizade e o respeito que cultivamos neste tempo não terminam aqui, só se fortalecem.
Hoje, Jaiminho ficou sabendo de sua saída e ameaçou chorar. Tranquilizou-se quando disse que você saiu do Pueri, mas não deixou de ser nosso amigo.
É assim que sinto, por isso uso meu espaço, que é público, para a despedida formal. Não tive coragem de fazê-lo pessoalmente.
Considero-me privilegiado por ter contado com grandes mestres na minha vida: meu pai, o maior deles, pois dele trago aquilo que escola nenhuma poderia ter me ensinado como ele o fez; alguns saudosos professores da escola básica, poucos é verdade; na Universidade marcaram-me Milton Santos, Manoel Seabra, Regina Sader, André Martin, Aziz Ab’Saber, Amália Ignez, Nídia Nacib, José Sérgio, dentre tantos outros; na política a formidável figura de Florestan Fernandes, além dos companheiros que entregaram os melhores anos de suas vidas para a construção da CUT e do PT, não esta CUT e este PT de hoje, nossos sonhos eram outros; finalmente na minha profissão pude conviver com educadores maravilhosos e dedicados ao ofício, uns famosos, outros nem tanto, mas todos verdadeiros mestres.
Você está neste restrito e seleto grupo de mestres, dos quais guardarei o muito que me ensinaram e o pouco que consegui aprender, sendo-lhes grato para sempre.
Sua generosidade em compartilhar os seus saberes, sua maneira doce de liderar e de conquistar o respeito daqueles que coordena, o humor refinado e sutil, são invejáveis e inesquecíveis.
Desejo-lhe sucesso nos seus novos caminhos!

Grande abraço amigo Paim!

23.10.08

O sujeito do conhecimento

O amigo Guilherme Santinho Jacobik manda para o blog uma reflexão sobre tema amplamente discutido na atualidade: educação.
Mestre em educação pela Universidade de São Paulo e professor da UNIBAN, com grande atuação na escola básica, Guilherme não fala apenas de questões teóricas.
Suas reflexões resultam da sua convivência cotidiana, como pesquisador e profissional, com a educação e com a formação de professores.
Abaixo segue a parte introdutória do artigo:


Que grande dilema vive a escola contemporânea, campo de nossa atuação como educadores, imersa na chamada “sociedade da informação” e perdida nas inúmeras rotulações que lhe são impostas: tradicionalista, atrasada, arcaica, chata etc.
Um grande número de “especialistas” e articulistas de jornais, revistas, rádios e canais de televisão, enfim, da mídia, apontam seus dedos críticos à instituição Escola e, por conseguinte, ao seu maior representante, o professor. Acusam tanto os que atuam quanto os em formação inicial pelo estado precário em que se encontra o ensino no país. De tempos em tempos listas e dados estatísticos, ora do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ora da UNESCO (Órgão da Organização das Nações Unidas ligado às questões educacionais), entre outros, alimentam as críticas e, sem analisar a macro-conjuntura política, econômica e social, encontram facilmente o “bode expiatório” ideal: o professor. E surgem expressões que, de tão repetidas, já ecoam entre nossos próprios pares, entre os próprios educadores: “Os professores pararam no tempo”; “Os professores não querem inovar”; “Sua formação é péssima”; “O professor perdeu sua vocação”, entre tantas outras.
Este é um registro sintomático, não da condição da Escola e de seus Educadores, mas de uma histórica falta de reflexão conjuntural daqueles que analisam o ensino formalizado.
É fato que em termos quantitativos de informação e tecnologia, muito se mudou socialmente. A quantidade de meios de exposição à informação é imensa: internet, T.V., rádio, periódicos, livros etc. Mas será que todo esse contato permitiu a formação de sujeitos com opiniões críticas sustentadas? Terão estes estímulos tornado-se conhecimento a serviço da melhoria social, seja ela individual ou coletiva? Obviamente que não, é o que a realidade nos mostra e a culpa não é somente da Escola
Hoje é lugar comum apontar a defasagem tecnológica de nossas escolas como ponto forte do fracasso da formação do aluno. Pergunto: abastecer a escola (essa mesma criticada) de computadores resolverá essa defasagem? A mudança necessária às escolas, para que estas formem alunos capacitados à vida social, passa apenas pela substituição material?
Não pretendo neste artigo defender ou refutar as inovações materiais na escola, mas sim, levantar mais questões do que as pretensiosas certezas daqueles que criticam o professor, entre elas, duas iniciais: A formação do aluno, tão duramente questionada, deve servir a quê e a quem? Em que outro espaço social há a possibilidade de reflexão sobre o papel dos sujeitos na sociedade, do que a escola?
(...)
Gostaria de finalizar registrando, talvez até de forma defensiva, pois sou também educador, que a Escola tem sido responsabilizada por uma série de absurdos, no entanto, estou convicto ainda, apesar dos tantos anos de luta, que é dela que partem as idéias mais avançadas de mudança social. A rede de relações possíveis numa escola não deve refletir a selvagem relação do mercado, a instituição escola é ainda o campo fértil da reflexão e da ação para a mudança, para o melhor que há na natureza humana. Num momento em que a sociedade não crê mais na Educação como possibilidade de ascensão social, o que se tratava de mais um dos mitos em torno da escola, é ainda nela que se proporciona o convívio da diferença em níveis saudáveis, as trocas de pontos de vistas e a instrumentalização necessária para enfrentar a realidade.

Para ler a íntegra do texto O sujeito do conhecimento, clique aqui.

16.9.08

A educação no Brasil vai mal, de quem é a culpa afinal?

Os livros didáticos, independentes de sua correção, são um grande equívoco.
O correto seria o professor possuir dedicação exclusiva a escola, com 40 horas de trabalho semanal, mas no máximo 20 em sala de aula. O restante deveria ser dedicado à preparação de material, correção de trabalhos e provas, além do atendimento aos alunos.
Os livros didáticos atendem, portanto a uma disfunção do sistema escolar. Um professor dando aulas em três escolas, das 7 horas da manhã até 22 horas pode confeccionar seu próprio material didático? Claro que não!
Podemos pensar o livro didático como um “mal necessário”. Isso não pode impedir que apontemos os seus problemas.
O MEC, por meio de uma equipe de consultores, todos ligados as Universidades, cuida, sem pressa, de avaliar os livros colocados à disposição das escolas públicas. Ao fazer isso o MEC tenta oferecer opções de boa qualidade para os professores.
Óbvio que não podemos imaginar um livro didático que atenda a enorme diversidade regional do nosso país! Essa limitação já seria um grande obstáculo para o uso desse tipo de material.
Por outro lado, imputar exclusivamente ao professor, ao material didático ou ao gestor escolar o problema da educação no Brasil é, no mínimo, simplificação grosseira.
A meu ver o principal problema reside na falta de investimento adequado do Estado.
Passa pela formação de professores? Claro que sim!
Vejam o exemplo da Universidade de São Paulo, tida como uma das melhores do país.
Os cursos, com raras exceções como o do Instituto de Matemática, não são voltados para a licenciatura, mas sim para o bacharelado; o magistério surge como complemento, que se obtém cursando 6 disciplinas na Faculdade de Educação e cumprindo apenas 300 horas de estágio.
A ausência de formação específica para o professor é um crime. Falta-nos preparo pedagógico, que só com a experiência e a duras penas conquistamos.
O salário da escola pública é estimulante? Claro que não! Assim como não são estimulantes as condições de trabalho.
E o estímulo da família ao estudante? Quanto se investe em TV e outras quinquilharias eletrônicas e quanto se investe em livros?
Para quem gosta do exemplo finlandês, li outro dia que o governo dá de presente um livro para cada recém-nascido, é assim que se começa a construção do bom leitor.
Por falar em TV, o espaço que ela, uma concessão pública, dedica a educação é praticamente nulo, restrito as ações de “responsabilidade social” de uma ou outra instituição.
Discutir educação é, portanto, discutir a própria sociedade, em todos os seus aspectos.
Pensar qual é o projeto de país que atende à maioria da população e como ele deverá ser executado.
Pensar ainda se queremos produzir tecnologia de ponta ou continuar inseridos no processo de mundialização econômica num papel subalterno.
Infelizmente ainda não será neste governo que veremos este horizonte preenchido de forma clara, quem sabe mais um pouco de esperança!

14.9.08

A educação pelo olhar da Revista Veja

Em razão do espaço reduzido terei que fazer aqui a mesma coisa que a revista do grupo Abril fez na sua edição de 20/8/08, quando tratou da educação no Brasil: retirar frases do contexto.
Portanto, considerem esse fato ao lerem o que segue.
Depois de examinar 130 livros de História, Geografia e Português (com quais critérios?) a dita cuja concluiu que o nó da educação brasileira reside em duas pontas: a qualidade dos livros didáticos e a ideologia dos professores, que, segundo a mesma, são todos esquerdistas (quase infantis).
A maior lacuna da reportagem reside aí. Faltou analisar livros e professores de Matemática, Física, Biologia, Química e Inglês, isso para tratarmos do chamado núcleo comum, sem contar Artes, Atualidades, Tecnologias e Mídias, Sociologia, Filosofia, ou ainda Teatro, Música etc., a depender do currículo da escola e da região.
É óbvio que os manuais didáticos contêm erros, sejam conceituais ou factuais, pois são obras de simples seres humanos, portanto sujeitos a todas as falhas inerentes à espécie.
Também não podemos nos esquecer dos gigantescos interesses das editoras de livros didáticos, a Abril inclusive – com as “grifes” Ática e Scipione – principalmente no tocante às vendas para os governos. Sabemos que a produção em massa e, às vezes, a toque de caixa para atender encomendas podem comprometer o “produto”.
Professores panfletários também existem, conheci alguns e vez por outra me acusam disso também, principalmente quando analisam o curso de Geografia do Ensino Médio de três anos a partir de uma aula de 45 minutos.
Feitas estas observações, vamos ao trabalho.
Os livros didáticos escolhidos para o escárnio pela matéria pertencem às seguintes editoras:
Anglo (1 citação)
COC (4)
Objetivo (3)
Pitágoras (2)
Ática (6)
Atual (3)
Harbra (1)
Moderna (9)
Nova Geração (2)
Quinteto Editorial (2)
Saraiva (2)
Scipione (2)
As quatro primeiras empresas são sistemas de ensino, as outras são editoras. Destaque para os 8 problemas apontados em obras da própria Abril.
Os livros apontados estão assim distribuídos:
Geografia (16)
História (19)
Português (2)
Primeiro estranhamento: a maior editora do ramo de sistema de ensino, também fabricante de softwares e computadores, a Positivo, não foi citada uma única vez. Encontramos na publicação Nova Escola – da Fundação Victor Civita – grandes anúncios deste grupo, mais exatamente duas páginas duplas na edição de agosto. Embora encontremos outros anunciantes na mesma revista, alguns criticados na reportagem da Veja, como a Saraiva/Atual (1 página), Objetivo Sistema de Ensino (1 página), Rede Pitágoras (1 página), além de outros que não foram “premiados”: Sistema Maxi de Ensino (1 página). Sistema de Ensino Dom Bosco (1 página) e Expoente Sistema de Ensino (1 página), a ausência das obras do sistema Positivo chama a atenção.
Segundo Estranhamento: a Veja corretamente identifica as editoras Ática e Scipione como pertencentes ao grupo Abril, mas não cita o Sistema de Ensino Ser, também pertencente ao Grupo Abril. Será este o único sistema de ensino neutro e portador da verdade universal? Verifiquem vocês mesmos: http://www.ser.com.br/.
Primeira conclusão: se Veja analisou 130 livros e encontrou 37 problemas, podemos pensar que outros 93 estão em perfeita ordem, de acordo com o INDEX preparado pela Abril? Quais são eles? A quais editoras ou sistemas de ensino pertencem?
Segunda conclusão: os professores de História e Geografia são formados de acordo com as premissas dos senhores Marx e Lênin, pois não? Eles possuem o poder sobre a frágil mente de crianças indefesas há décadas, por isso a conspiração comunista, patrocinada pelos charutos de Havana, grassa em nossa pátria! Façam-me o favor!
Veja mais uma vez usa de má fé ao falar de educação como é de seu costume e, a bem da verdade, essa má fé está presente ao tratar de todo e qualquer assunto.
Ao comentar um equívoco do autor de “Das cavernas ao terceiro milênio 3”, que informa ter sido o presidente Allende assassinado, a revista responde assim: “ O presidente Salvador Allende foi mesmo deposto por generais golpistas com a ajuda material e estratégica da CIA, mas desgastou-se pela própria incompetência e não foi assassinado. Suicidou-se.”
Ora, não está aí um juízo de valor? Incompetência cara-pálida? Não! Foi traído por homens que compunham o aparato de Estado, Pinochet à frente e o apoio não apenas da CIA, mas de todo o aparato de governo dos EUA.
Resvala ainda no preciosismo imbecil, como na crítica a uma apostila de História do Objetivo. Nela o autor afirma: “O mapa que mostra a rota da Coluna Prestes (1925-1927) inclui o estado do Tocantins.” Comentário da revista: “O estado de Tocantins só foi criado em 1988.” Claro que o autor, ou o revisor, poderia ter oferecido uma melhor construção para a frase, mas a gravidade de tal equívoco merece tamanho destaque?
A profundidade das análises de Veja, raramente ultrapassam a de um pires.

30.8.08

Tem gente que ainda tem medo de comunistas

Recebi um comentário do Bruno C., que presumo seja um ex-aluno do COC aqui de São Paulo.
Para não cometer o erro que muitos fazem, de retirar frases do contexto, vou reproduzir o texto dele integralmente e respondê-lo por partes.
Ficamos combinados assim, o texto do Bruno C. está em cinza/itálico e meu da forma convencional.


Bruno C disse...
Oi, Toni, tudo bom? Como estás?

Sim, bem, apesar de um ou outro problema de saúde. Ano passado toquei um projeto para a Revista Época (perigosa publicação esquerdista da família Marinho) e continuo dando aulas para o Ensino Médio. Espero que tudo esteja bem contigo.

De vez em quando leio teu blog e há um tempo venho pensando se deixo minha opinião ou não. Como fizeste à Veja o mesmo tipo de crítica que tenho em relação às tuas colocações, resolvi hoje escrever.

Ótimo que escreva, assim sabemos o que cada um pensa. Como este é um espaço democrático, ao contrário da maior revista do país, será sempre publicado, desde que não ofenda ninguém ou expresse opiniões racistas e preconceituosas.

Acho que tuas críticas são muito simplistas, como foram os motivos retratados pela revista para a má educação no país. Ambos agem como se houvesse o lado do bem e o do mal.

Desculpe-me, mas não tratei da educação no Brasil no texto que você comentou, apenas tratei das críticas da Veja aos professores de Geografia e História e das leituras descontextualizadas que ela fez na matéria. Então, no caso, as críticas não são simplistas, elas simplesmente não existem no texto.
Para ler um pouco sobre educação no meu blog veja as postagens:
Educação no centro do debate
Erro de planejamento desperdiça recursos públicos na educação em São Paulo
Ivan Valente critica educação em São Paulo
Que linda és Cuba - Relato de estágio educacional
A Finlândia faz sucesso na educação

Honestamente, (i) acho a educação no Brasil pífia, (ii) fiquei pasmo com os números mostrados, retratando o conformismo da população em relação a ela, (iii) não gostaria mesmo que meus filhos tivessem doutrinas comunistas na escola, (iv) gostaria que o capitalismo fosse tratado como uma verdade e não como uma possibilidade, (v) não acredito que o capitalismo signifique lucro acima de tudo - por exemplo, o meio-ambiente não pode ser permanentemente afetado pela atividade humana, e isso não se chama responsabilidade ambiental, mas, sim, capitalismo; ético, mas ainda capitalismo -, (vi) não acredito que a chamada responsabilidade social seja função das empresas (pessoas jurídicas), mas das pessoas físicas, entre outros pontos que discordo contigo sobre capitalismo e socialismo.

Embora o parágrafo não termine aqui faço, com a devida licença, uma interrupção para os comentários:
(i): concordo.
(ii): concordo.
(iii): eu também não, mesmo por que quem gosta de doutrina – neste sentido – é igreja e ditadura e não concordo nem com uma e menos ainda com outra. Por outro lado também não desejo que meu filho seja educado pela direita que baba e ainda por cima pensa na Guerra Fria como uma realidade.
(iv): bom, aqui a porca torce o rabo. O que é verdade? Qual capitalismo? O da Suécia ou do Quênia? O do Canadá ou do Paraguai? Ou seriam todos filhos da mesma?
(v): crença não se discute, mas se você olhar um pouco a sua volta verá que o capitalismo significa lucro acima de tudo, até mesmo o papinho furado da responsabilidade social da grande maioria das empresas tem por finalidade fazer bonito para os acionistas.
(vi): concordo plenamente, para mim tal responsabilidade é do Estado, que deve aplicar o princípio da justiça tributária: quem ganha muito paga muito mais impostos!


Por isso, quando te vejo tratar o comunismo como solução para qualquer coisa, fico realmente entristecido e pensando nos jovens que têm de ouvir de ti as mesmas coisas que tive que houvir há quase dez anos.

Quando você me viu ou ouviu dizer que o comunismo é a solução? O que digo e repito é que a minha formação intelectual é marxista e assim analiso os fenômenos sociais. Manja aquele papo de dialética? Então, até os mais radicais dos neocons estadunidenses conhecem essa maneira de pensar e tentam vender o seu peixe assim.

Não sei com que freqüência tu repensas tuas doutrinas e "verdades internas", mas acredito que se fosse na velocidade que se espera de um professor, tu já não mais baterias na mesma tecla repetidamente.

Qual a velocidade que você espera de um professor? E qual seria então a velocidade esperada de um gari? Mudar para onde? Não vai me ver defendendo o neoliberalismo, nem aqui nem em canto algum.

Toni, desculpa te contrariar assim, mas nem tu nem a Veja estais sempre certos ou sempre errados.

Ah! Até você curte uma dialeticazinha! Olha que vão te chamar de marxista também! Mas não se incomode em me contrariar, afinal não é o único.

O capitalismo tem suas vantagens. Por que tu não ajudas o mundo a melhorá-lo em vez de continuar batendo na tecla do socialismo? O Homem já demonstrou que o socialismo é bom apenas no papel, uma utopia.

Vou te contar um segredo: eu até gosto do capitalismo. Sabe aquele do Adam Smith? Então. Nele tudo dá certo e para os infelizes, despossuídos de ousadia e tino de vencedor o Estado garante a dignidade, olha que lindo? É assim, pois não?

Na realidade, ele não funciona com liberdade individual total. E, se um dia o Homem conseguir atingir um desenvolvimento suficiente para viver bem numa sociedade comunista, acho que o mais ideal seria viver numa sociedade anarquista, onde cada um faz apenas o que quer e todos somos geridos pelas leis morais de cada um. Afinal, é esse o grau de desenvolvimento necessário para que a sociedade viva bem "comunistamente".

Também curto o anarquismo, mas aí a utopia é demais. Se você me mostrar um mundo onde o capitalismo deu certo eu te mostro um onde o socialismo também acertou. Entendeu? Nenhum dos modelos implantados até então convenceu. No atacado continuo fechando com o velho Karl, mas no varejo tenho algumas diferenças

Espero que tenha me feito entender. Se não, entra em contato se achares válido.

Entender eu entendi. Acho que você é que não entendeu ou tem pouco tempo para ler o que escrevo. Faço-lhe um convite para ler o blog mais detidamente.

Um abraço!

Outro.

19.8.08

A revista Veja quer discutir educação

Na edição desta semana a famigerada revista da Editora Abril resolveu discutir educação.
Pasmem amigos e amigas, num grande furo de reportagem a Veja achou os responsáveis pelas mazelas do ensino no Brasil, tanto público quanto privado: os professores e autores de livros didáticos de Geografia e História!
Isso mesmo, nós somos culpados! Só faltou, ao final da matéria, pedir camburão e algemas para os “mestres”. Talvez fosse o caso de trazer de volta a OBAN, DOI-CODI, SNI etc. Desta forma seria bem mais fácil eliminar todos os comunistas infiltrados nas salas de aula, pagos com o ouro de Moscou, ou seria melhor dizer com os charutos de Cuba e a grana das FARCs?
Delírio puro!
Já imaginaram se todos os professores do país, das redes pública e privada, fossem filiados a um único partido político? Ou pelo tivessem metade do poder que a tal revista julga que temos? Só para começar a conversa ela não existiria mais, tamanha é a sua desonestidade no trato da notícia.
A análise é simplista e não se sustenta de forma alguma.
Para manter o nível do debate no padrão de ignorância da supracitada, bastaria aos pais que não toleram a “doutrinação comunista” das escolas particulares, trocarem de escola, afinal a tal empresa de jornalismo (que tipo de jornalismo?) não ardorosa defensora das leis de mercado?
Então é simples, se não gosto do serviço educacional prestado por uma instituição, troco de instituição!
No caso da escola pública seria de se perguntar como essa cambada de comunista consegue manter o emprego por tanto tempo? Percebam: independente do partido que assuma a prefeitura, governo do estado ou presidência da República.
Para conhecer um pouco do que é tal revista nada como ler uma série de matérias do Luis Nassif, que mostra com dados e exemplos como a Veja faz um jornalismo que não merece receber tal nome. Clique aqui e entenda um pouco tais mecanismos.
Prometo voltar ao tema para analisar a matéria de forma mais detida.

15.4.08

Educação no centro do debate

A publicação do ENEM trouxe o debate sobre educação para o olho do furacão.
As revistas Época (leia um trecho da matéria clicando aqui) e Veja (leia aqui) trouxeram matérias especiais sobre o tema. Sobre elas escreverei depois.
O Estadão de hoje também. A matéria do Estadão está aqui. O blog do Luis Nassif (clique aqui para acessá-lo), no lápis do próprio, apresenta o seguinte comentário:

O Estadão traz matéria sobre os cursos apostilados utilizados pelas redes municipais de ensino em São Paulo. Elogia o material, os resultados, traz alguns dados de municípios bem sucedidos.
Mas passa ao largo das principais críticas ao sistema:
1. A falta de transparência nos processos de aquisição, que faz com que, em muitas prefeituras, acabe se transformando em negociação entre o prefeito e o curso, com os professores sendo deixados de lado.
2. Não menciona que, ao adquirir esses cursos, as prefeituras investem recursos próprios e abrem mão das próprias verbas do MEC.
3. Não menciona que a própria Secretaria de Educação de São Paulo está preparando seu curso apostilado para garantir a uniformidade do ensino e não abrir mão dos livros oferecidos pelo MEC. E pela preocupação com a falta de controle nesse mercado.
Em suma, há um mercado não regulado aí, com ampla margem para negócios pouco ortodoxos, que passou ao largo da argumentação.

Nassif acerta nestas preocupações e a elas podemos adicionar outras tantas, como por exemplo, a aposta, realizada por municípios e agora também pelo estado de São Paulo, na impossibilidade de formar bons professores, centralização de currículos, “vigilância” sobre professores e alunos, mecanização da aprendizagem etc.
A unificação curricular desta forma é antidemocrática, pois não ouve um dos principais interessados: o professor. Também não leva em conta a sociedade, uma vez que ignora as manifestações de especialistas e entidades de classe.
Outro tema da moda é a estúpida idéia de remunerar os professores em razão dos resultados obtidos pelos seus alunos nos exames externos, como se isso fosse o fim último do processo educacional.
Embora a educação tenha sido um dos principais assuntos da mídia nas últimas semanas, isso ocorreu apenas pelo viés economicista, pautando-se por pequenas questões de ordem estatística ou competitiva, deixando de lado a real importância de um processo educacional digno: uma sociedade mais justa e solidária!

14.3.08

Ivan Valente critica educação em São Paulo

O deputado Ivan Valente publicou o artigo que segue abaixo na Folha de S.Paulo de hoje, sexta-feira, 14/3/08.
Faz críticas acertadas aos governos estadual e federal quanto à educação, particularmente com relação à entrevista da Secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Castro, concedida recentemente à revista Veja (clique aqui para ler a entrevista).
No aspecto relativo às avaliações gostaria de salientar que estas, sejam estaduais ou federais, pecam por não dizer claramente, com exceção do ENEM, o que será avaliado.
A possibilidade premiações individualizadas soa totalmente absurda e antidemocrática. Atribuir ao professor a responsabilidade única pelo sucesso ou fracasso do aluno é coisa de gente doida ou muito mal intencionada.


Premiação e castigo na educação
IVAN VALENTE

A política de avaliações sucessivas e de bolsas e bônus de baixo valor não resolverá a grave crise da educação e poderá agravá-la

AS MEDIDAS adotadas pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo têm sido ungidas como a "salvação da lavoura", particularmente a premiação com bônus financeiro para diretores, professores e funcionários, com base especialmente em exames de avaliação de alunos, como o Saresp.
A secretária Maria Helena Castro, em entrevista à revista "Veja", disse que é preciso liquidar alguns mitos na educação. Para ela são mitos: que deve haver isonomia salarial entre professores, que melhores salários levam à melhoria do ensino, que o número de alunos por sala de aula interfere na qualidade do aprendizado, que a escola pública é carente de recursos. Para a secretária, nossos educadores ganham bem, e os recursos educacionais são suficientes. Maria Helena sentenciou que fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, inclusive USP e Unicamp, porque elas se prestam ao "desserviço" de divulgar esses mitos.
Os tucanos estiveram oito anos no governo central e governam São Paulo há 13. FHC vetou o dispositivo do Plano Nacional de Educação que elevava o gasto público com educação de 3,7% para 7% do PIB. Criaram um pseudo-sistema nacional de avaliação para esconder a política de corte dos recursos. Seu objetivo sempre foi diminuir o papel do Estado e atribuir-lhe papel apenas regulatório.
Que resultado o país pode exibir nesses últimos 13 anos que não seja a constatação da péssima qualidade do nosso ensino, da degradação das condições de nossos educadores, do retrato cruel do analfabetismo funcional de 60 milhões de brasileiros? As políticas de fundos para a educação de FHC e de Lula não passam de socialização da miséria. Alguém acredita que o suplemento da União a Estados e municípios, de apenas R$1 bilhão ao ano de recursos novos nos próximos quatro anos, para um universo de 50 milhões de estudantes da educação básica, resultará em algum impacto real na qualidade de ensino?
Podemos nos fiar que a instituição de um piso salarial para o magistério brasileiro de pouco mais de R$ 450 por 20 horas semanais estimule a carreira? Enquanto isso, o país desembolsa R$160 bilhões por ano em juros da dívida pública.
Maria Helena, ao afirmar que o número de alunos por sala de aula é irrelevante para a qualidade da aprendizagem, lembra-nos o documento do Banco Mundial, sua bíblia, que afirma que "nos países de baixa e média renda é necessário diminuir o número de professores, aumentar o número de alunos em sala de aula e utilizar novas tecnologias educacionais". Em São Paulo, há até 65 alunos por sala de aula, quando o recomendado pela Unesco é de no máximo 35 alunos. Para o Banco Mundial, professor é encargo.
Só quem não conhece a realidade da sala de aula e suas brutais precariedades pode achar que os problemas centrais da educação pública são falta de liderança, falhas de gestão e professores faltosos. Esses problemas certamente existem e devem ser atacados e ter suas causas buscadas. Por isso, não dá para sofismar: não há melhora qualitativa na educação sem investimento público pesado na formação continuada de professores, salários dignos que resgatem sua auto-estima, infra-estrutura adequada e participação da comunidade nos rumos educacionais.
Essa política do governo Serra, hoje também aplicada em âmbito federal, de realizar avaliações sucessivas e superpostas com provas, provinhas e provões e, posteriormente, oferecer bolsas, bolsinhas e bônus de baixo valor, estabelecendo concorrência entre escolas e entre professores, numa lógica de mercado, não resolverá em absoluto nossa grave crise educacional – possivelmente, a agravará.
Alguns efeitos previsíveis dessa política de premiação e punição devem se revelar. A vinculação dos recursos ao desempenho dos alunos tende a afastar das escolas que atendem a alunos mais carentes os melhores professores, pois estes sabem que essas crianças apresentam pior desempenho em testes padronizados. Outro efeito é que tenderá a haver uma corrida para as escolas com melhor desempenho da parte de alunos com notas mais elevadas, cuja presença é benéfica para o conjunto da turma. Fica explícito, assim, que esse tipo de política só tende a aumentar a distância dos desempenhos obtidos pelos alunos da mesma rede.
Mito mesmo é acreditar que o papel do Estado é estimular a produção de qualidade por meio de comparação, classificação e seleção, cujo efeito é produzir mais exclusão. Algo incompatível com o dito constitucional: Educação é dever do Estado e direito do cidadão.


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IVAN VALENTE, 61, engenheiro mecânico, é deputado federal pelo PSOL-SP e membro da Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados.

24.12.07

Estatísticas que a mídia grande não faz

1 – Percentual de atraso nos pontos de ônibus da capital de São Paulo* (mas nos aeroportos faz);
2 – Índices de conforto para espera nos pontos de ônibus* ao longo do percurso (mas nos aeroportos faz);
3 – Segurança e conforto oferecido aos passageiros pelos ônibus e demais meios de transportes coletivos, pelo menos nas grandes capitais (mas nos aeroportos faz);
4 – Pratica-se overbooking nos coletivos das capitais brasileiras?
5 – Qual o tempo médio que o paulistano, ou o morador de qualquer outra grande cidade do país, permanece dentro do transporte coletivo?
6 – Índices de conforto e segurança nos ônibus intermunicipais ou interestaduais?
7 – Atrasos e dificuldades para se chegar aos terminais rodoviários no período de festas (vi uma matéria na Record News sobre o terminal de BH elucidativa).

Por que será que não houve batismos para o trânsito da capital de São Paulo, do tipo “caos no trânsito”?
Ou mesmo na educação do Estado de São Paulo, pois com as recentes pesquisas e resultados de provas/exames nacionais e internacionais poderíamos chamar o que acontece no estado mais rico do país, administrado pelo mesmo partido político há 13 anos, de “caos na educação”?


* na capital de São Paulo ou em qualquer outra grande cidade do país.

29.11.07

Brasil é o 76º em ranking de educação

Abaixo longo, mais necessário, texto extraído da página da ONU no Brasil, tratando de um dos temas mais relevantes, em minha opinião, para o mundo: educação.

Brasil é 76º em ranking de educação

Paris/Nova Iorque 29 de novembro – O número de crianças começando a educação primária cresceu muito desde 2000, há mais meninas na escola do que antes e gastos com educação e auxílio subiram. Essas são as boas notícias, de acordo com a sexta edição do
Relatório de Monitoramento Global do Educação para Todos (EPT) lançado pela UNESCO hoje (leia, na íntegra do relatório, informações sobre o Brasil). No entanto, o lado negativo é que os altos custos do ensino e persistentes níveis altos de analfabetismo de adultos estão prejudicando as chances da educação para todos* ser atingida até 2015.
“Estamos no caminho certo, mas quando sistemas de educação se expandem, eles enfrentam desafios mais específicos e complexos”, diz Koichiro Matsuura, Diretor-Geral da UNESCO. “O relatório mais recente do EPT identifica esses desafios claramente: atingindo os mais vulneráveis e desfavorecidos, melhorando as condições de aprendizagem e aumentando o auxílio”.
“Nesse meio do caminho, a nossa avaliação tende a ser positiva, mas ainda há muito o que fazer para que as metas sejam atingidas até a data alvo de 2015. Os países e regiões mais distantes do compromisso de educação para todos avançaram muito mais rápido do que na década de 90,” diz Nicholas Burnett, diretor do relatório de 2008 e recentemente nomeado Diretor-Geral Assistente de Educação. “Boas políticas nacionais e maior gasto doméstico apoiado por auxílio externo estão claramente fazendo a diferença na vida de milhões de crianças, como por exemplo, em Burquina Fasso, Etiópia, Índia, Moçambique, República Unida da Tanzânia, Yemen e Zâmbia.”
Esse relatório mostra que a matrícula em escolas primárias aumentou 36% na África Sub-Sahariana e 22% no Sul e Oeste da Ásia entre 1999 e 2005. Governos em 14 países abolirão a cobrança de taxas para a educação primária, uma medida que favoreceu o acesso para os mais desfavorecidos. No mundo inteiro o número de crianças fora da escola reduziu drasticamente de 96 milhões para 72 milhões em 2005.
Países onde matrículas em escolas primárias subiram muito geralmente aumentaram seus gastos com educação em relação ao PNB. Gastos públicos em educação aumentaram mais de 5% anualmente na África Sub-Sahariana, e no Sul e Oeste da Ásia, as duas regiões mais distantes em relação ao Educação para Todos.
Entre 1999 e 2005, mais 17 países atingiram a paridade de gênero na educação primária, com um número igual de meninos e meninas freqüentando a escola. Dentre esses estão inclusos Gana, Senegal, Malaui, Mauritânia e Uganda; 19 países atingiram paridade na educação secundária, dentre eles, Bolívia, Peru e Vietnam. Como conseqüência, a paridade de gênero em educação foi atingida em 63% dos países no nível primário e 37% no nível secundário em 2005.
Auxílio para a educação básica em países de baixa renda mais do que dobrou entre 2000 e 2004 antes de cair em 2005. Em 2005, países de baixa renda receberam US$ 2.3 bilhões para a educação básica, uma quantia mais alta do que os US$ 1.6 bilhões recebidos em 1999.
Mesmo com esse progresso animador, a linha de chegada permanece distante. O Índice de Desenvolvimento do Educação para Todos (EDI), calculado para 129 países, mostra que 25 desses estão longe de atingir o EPT. Aproximadamente dois terços desses países estão na África Sub-Sahariana, mas Bangladesh, Índia, Nepal, Mauritânia, Marrocos e Paquistão também estão inclusos. (O relatório avisa que o número de países com baixos resultados seria maior se dados estivessem disponíveis para todos os países, incluindo países em conflito ou pós-conflito com baixos níveis de desenvolvimento educacional).
Cinqüenta e três países estão em posição intermediária. Nesse grupo, as taxas de participação na educação primária são freqüentemente altas, mas a baixa qualidade da educação e baixos níveis de alfabetismo em adultos fazem com que o valor do EDI caía. Adicionalmente baseado em projeções das tendências atuais, 58 dos 86 países que não atingiram a educação primária universal não irão atingi-la até 2015.
Enquanto isso, meninas ainda correspondem por 60% das crianças fora da escola nos Estados Árabes e 66% no Sul e Oeste da Ásia. As projeções com base nas tendências atuais mostram que o objetivo de eliminar as disparidades de gênero nos níveis primários e secundários da educação não será atingido até 2015 em mais de 90 dos 172 países. (Em vários países, especialmente na América Latina, Caribe, América do Norte e Europa Ocidental, isso é porque há um maior número de meninas do que meninos na educação secundária.)
O custo continua a limitar o acesso. Mesmo com as provisões constitucionais na maioria dos países que garantem educação primária gratuita, a maioria das crianças em escolas primárias públicas sofre algum tipo de cobrança, que de vez em quando pode representar até um terço da renda domiciliar.
A baixa qualidade da educação é uma questão global que está recebendo uma crescente atenção política. Entre os países em desenvolvimento em especial, o desafio de melhorar a qualidade envolve lidar com as altas taxas de evasão, baixo desempenho dos alunos, falta de professores e tempo de ensino insuficiente. Mesmo que a proporção tenha melhorado um pouco desde 1999, menos de 63% de alunos chegaram à última série da escola primária em 17 países da África Sub-Sahariana que possuem dados disponíveis, enquanto menos de 80% conseguiram o mesmo em países do Sul e Oeste da Ásia. Em vários países africanos menos da metade dos alunos que começaram a educação primária chegam à última série. Ainda mais, avaliações de aprendizagem nacionais em vários países em desenvolvimento indicam que até 40% dos alunos não atingem um padrão de educação mínimo em matemática e na alfabetização.
Para lidar com o aumento de matrículas, a maioria das regiões em desenvolvimento enfrenta a necessidade de contratar novos professores. No total, o mundo necessitará de 18 milhões de novos professores para a educação primária até 2015. A África Sub-Sahariana, o Leste, Sul e Oeste da Ásia, como também a região do pacífico precisarão de quase quatro milhões de novos professores para a educação primária.
Muitos países na África Sub-Sahariana dependem de professores temporários para preencher lacunas. Algumas vezes esses professores podem corresponder a 50% de todos os educadores, eles normalmente recebem menos treinamento e salários mais baixos do que suas contrapartes, servidores públicos de carreira. O relatório solicita políticas para atualizar e profissionalizar professores temporários sem treinamento, para que esses possam, a longo prazo, serem integrados à carreira.
O relatório lamenta que governos nacionais e doadores tenham focalizado na educação primária formal ao custo de programas para a primeira infância e de alfabetização de adultos. Esses programas têm um impacto direto na educação primária universal, paridade de gênero e redução da pobreza. Crianças das famílias mais pobres são as que mais se beneficiariam dos programas de educação e de atendimento a criança. Mesmo com medidas em vários países para expandir o acesso a educação pré-primária, os níveis de participação permanecem abaixo de 20% nos Estados Árabes e na África Sub-Sahariana, e abaixo de 40% no Sul e Oeste da Ásia em média.
O relatório identificou que governos também estão negligenciando a alfabetização para adultos: no mundo inteiro, 774 milhões de adultos – quase 1 em 5 – carecem de habilidades básicas de leitura e escrita. Mais de três quartos desses adultos vivem em apenas 15 países. A alfabetização das mulheres em especial tem uma forte influência na educação e saúde de uma criança, mesmo assim elas ainda correspondem por 64% dos adultos analfabetos no mundo inteiro. Baseado nas tendências atuais, 72 dos 101 países para quais projeções foram calculadas não terão êxito em reduzir pela metade as taxas de analfabetismo até 2015.
Financiamento externo para educação básica permanece em uma quantia bem menor do que os US$ 11 bilhões anuais necessários para que o EPT seja atingido por países de baixa renda. Essa quantia insuficiente tem como alvo países da África Sub-Sahariana e países que enfrentam situações de fragilidade. A França, Alemanha, Japão, os Estados Unidos e o Reino Unido são os cinco maiores doadores para a educação, mas os três primeiros alocam menos de um terço de seu auxílio para o nível básico. Esse relatório indica que muitos dos doadores estão colocando uma prioridade excessiva em educação pós-secundária.
A maioria dos países que atingiram o EPT, ou que estão perto disso estão localizados na América do Norte e Europa, mas essa categoria também inclui a Argentina, Brunei Darussalam, Bahrain, México e a República da Coréia. A Noruega se encontra no topo do Índice de Desenvolvimento do Educação para Todos, seguida pelo Reino Unido, Eslovênia, Suécia, República da Coréia e Itália.
************
O Relatório completo, relatório resumido e informações adicionais estão disponíveis na www.efareport.unesco.org
* O Relatório de Monitoramento Global do EPT é uma publicação anual preparada por uma equipe independente da UNESCO. Eles monitoram o progresso dos seis objetivos do Educação para Todos adotados em Dakar, Senegal, em 2000:
1) expandir e melhorar atendimento e educação para a primeira infância.
2) fornecer educação primária universal gratuita e obrigatória até 2015.
3) eqüidade de acesso a programas de aprendizagem e de habilidades para a vida.
4) melhorar em 50% as taxas de alfabetização de adultos.
5) eliminar disparidades de gênero em educação primária e secundária até 2005 e em todos os níveis até 2015.
6) melhorar todos os aspectos de qualidade na educação.
UNESCO como a agência coordenadora líder do movimento Educação para Todos está mobilizando e harmonizando esforços internacionais de governos, agências de desenvolvimento, sociedade civil, organizações não-governamentais e mídia para atingir esses objetivos.
Fonte: Nações Unidas no Brasil

Brasil está entre piores em lista de educação da OCDE

Texto extraído do site da BBC Brasil:
O Brasil é um dos países com pior nível de educação de ciências para estudantes de 15 anos, segundo uma lista de 57 países organizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
De acordo com a lista, a ser publicada em detalhes na semana que vem, o Brasil fica a frente apenas da Colômbia, Tunísia, Azerbaijão, Catar e Quirguistão.
O estudo testou as habilidades de mais de 400 mil estudantes nos 57 países que, juntos, correspondem a cerca de 90% da economia mundial.
Os estudantes da Finlândia ficaram em primeiro lugar, seguidos pelos de Hong Kong (na China) e do Canadá.
A pesquisa, baseada em testes realizados em 2006, é o principal instrumento de comparação internacional do desempenho entre estudantes do ensino médio.
Conhecimento e aplicação
O teste mediu basicamente o conhecimento de ciências, mas também mediu a capacidade de leitura e incluiu noções de matemática, e como os estudantes aplicavam esse conhecimento para resolver problemas do dia-a-dia.
O estudo afirma que os resultados têm confiabilidade de 95% e que o Brasil estaria entre as posições 50 e 54 da lista.
Ao comentar a lista, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, disse que ela é uma ferramenta para ajudar os governos a definir suas políticas de educação.
“Na economia global competitiva de hoje, educação de qualidade é um dos bens mais valiosos que a sociedade e um indivíduo podem ter”, disse ele.
Segundo Gurría, “a lista é muito mais do que um ranking. Ela mostra o quão bem os sistemas de educação individuais estão equipando os jovens para o mundo de amanhã. Antes de mais nada, mostra aos países seus pontos fracos e fortes.”
O estudo sobre educação da OCDE é publicado a cada três anos. O documento completo será publicado no próximo dia 4 de dezembro.

Clique aqui para ler o artigo na sua versão original.

3.10.07

Um país sem educação

Está na página do Terra de hoje:

SP: pais pedem na Justiça que filho seja reprovado

Em Jundiaí, no interior de São Paulo, o desempenho escolar de uma criança virou tema para a Justiça. Os pais de um aluno da quarta série do Ensino Fundamental recorreram ao Judiciário para pedir a reprovação de seu filho. Segundo a Folha de S.Paulo, o casal alega que o aluno teria recebido um ensino precário em uma escola municipal e não poderia ser aprovado.
Ainda que o caso corra em segredo de Justiça, a Folha registra o comentário do promotor da Infância e da Juventude Mauro Vaz de Lima: "Os pais perceberam que a criança não havia aprendido o suficiente para passar de ano. Eles até pensaram em fazer com que o aluno fosse reprovado pelo número excessivo de faltas. Mas neste caso a família é que seria chamada para dar explicações".

O promotor informou ao jornal que haveria outros dois pedidos de repetência vindos de pais de alunos de escolas públicas - um da rede municipal e outro da estadual.

20.9.07

"Deus na escola": disciplina escolar

Ontem um amigo me alertava que para tudo existe um limite, menos para o ridículo. Pois não é que os deputados estaduais de São Paulo aparecem para socorrer e confirmar essa afirmação?
A nossa Assembléia Legislativa aprovou a criação da disciplina “Deus na escola”!
Segundo a deputada que pariu o projeto será assegurado o respeito à diversidade “cultural e religiosa”. Quanta estupidez! Como respeitar os ateus? Ou será que ateu não pode ter filho na escola pública paulista? Ou os outros deuses de outras religiões?
Espero que o governador Serra tenha o bom senso de mandar tal projeto para o merecido lugar: a lata do lixo!
Abaixo reproduzo matéria da Folha de S.Paulo sobre o tema:


Assembléia aprova criação da disciplina "Deus na escola" em SP
O texto aprovado não especifica se será tema opcional ou se será um conteúdo a ser abordado em várias matérias

Projeto requer sanção do governador José Serra para vigorar; em Sorocaba, projeto foi instituído pelo marido da deputada

LEANDRO BEGUOCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Deus recebeu autorização da Assembléia Legislativa de São Paulo para virar disciplina na rede pública estadual de ensino fundamental.
Foi aprovada lei que institui o projeto "Deus na escola", de autoria da deputada estadual Maria Lúcia Amary, líder do PSDB na Assembléia.
O texto aprovado não especifica se "Deus na escola" será matéria opcional a mais na grade curricular ou conteúdo espalhado na grade curricular, tratado em várias matérias. Nem define o conceito de Deus.
Diz apenas que "será composto um grupo de estudos formado por professores, pedagogos, estudiosos e representantes de diversas religiões para, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa, elaborarem um manual do projeto "Deus na escola", homogêneo a todas as crenças religiosas". Hoje, o ensino religioso é facultativo nas escolas de ensino fundamental do Estado.
Para entrar em vigor, o projeto precisa da sanção do governador José Serra (PSDB).
O secretário da Casa Civil do tucano, Aloysio Nunes Ferreira, disse que o texto não foi discutido com o governo e, portanto, não sabe do que se trata.
Porém, destacou ser "preciso tomar muito cuidado com os princípios de laicidade do Estado previstos na Constituição do país" e que isso deverá ser levado em conta na avaliação.
Em Sorocaba, em 1997, no governo do marido de Maria Lúcia, o hoje deputado federal Renato Amary (PSDB), o "Deus na escola" foi instituído. A cartilha usada em salas de aulas se propunha "a auxiliar o professor do ensino fundamental que, voluntariamente, se dispuser a ministrar aulas de religião, interdisciplinariamente".
A autora diz ter confiança de que o projeto será sancionado. "Queremos construir o caráter das crianças por meio de Deus", diz a deputada, católica.
Jornal Folha de S. Paulo – 20/9/07.