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18.10.08

A semana não foi fácil

Primeiro para minha pessoa: a recuperação da cirurgia da catarata que estava indo muito bem, danou-se! Pintou uma pequena inflamação e fiquei um tanto quanto assustado, pois parecia que o olho vertia sangue. Minha esposa disse que eu estava exagerando, em todo caso tive que retomar o repouso e voltar com os colírios do pós-operatório e ainda somar um antiinflamatório.
Isso, de certa forma, prejudicou minhas leituras nesta semana de recesso pedagógico, ou do saco cheio como gostam os alunos.
Mas é impossível não comentar alguns acontecimentos:

Campanha eleitoral em São Paulo
O marquetingue da Marta escorregou feio. Ao fazer insinuações, mesmo que sutilmente, sobre a orientação sexual do Kassab, atentou contra a história do Partido dos Trabalhadores e a da própria candidata, que tanto sofre com as picuinhas da imprensa e com o preconceito por defender a união civil entre homossexuais, por exemplo.
Lembro-me como se fosse hoje dos acontecimentos da campanha de 1989. Lula impediu que a campanha fosse levada para o mesmo fosso que Collor e o Grupo Globo a remeteu. E olha que material não faltava!

Polícia x Polícia
Mais uma demonstração da “capacidade de gerenciamento” do PSDB. Governam o estado de São Paulo desde 1995, sem interrupções, conseguiram afundar a educação, saúde e a segurança pública. Por estes temos lido que São Paulo, quando comparado aos outros estados da federação, paga muito mal aos seus professores e aos seus policiais.
O conflito, armado, entre policiais civis e militares trouxe ao público o autoritarismo do Serra e a incapacidade de lidar com extremos e de negociar.

Seqüestro em Santo André
Uma situação limite vivida pelos policiais, reféns e familiares.
Causam-me estranheza: a) o caso de uma refém libertada ter voltado para o cativeiro, penso que seja um caso único no mundo, que sirva de lição para que nunca mais aconteça; b) o acesso que a mídia teve ao seqüestrador. Não tem cabimento entrevistas ao vivo e a condição de estrelato que ele assumiu, mesmo sem ter pedido; c) o desfecho trágico, até agora sem uma explicação plausível por parte das autoridades estaduais, inclusive o governador.

A crise econômica dos EUA
O Brasil resiste à hecatombe, embora contra a vontade da mídia.
Se dependesse dos jornais e TVs nós já estaríamos de pires na mão batendo nas portas do FMI e seus asseclas.
Ela é séria e deve afetar o Brasil sim! Parece-me que muito mais na questão do crédito, que já escasseou para o cidadão comum e também para os investimentos privados.
Também devem sofrer aquelas empresas que se desviaram de sua atividade principal para ganhar dinheiro com operações especulativas.

O papel da nossa mídia nisso tudo
Lamentável!
Esforçaram-se para super-dimensionar a peça publicitária imbecil da campanha de Marta, sem fazer uma auto-crítica de episódios passados, inclusive de ataques à própria candidata no tocante às suas relações conjugais.
A Folha de S. Paulo protege o Serra de maneira descarada. Se tomarmos por base o noticiário da crise área, de responsabilidade federal, já deveríamos ter notícias do “Caos na segurança pública” na esfera estadual. Mas nada, apenas notícias assépticas, sem análises consistentes, amenizando as responsabilidades dos tucanos.
Já pensaram se tal crise acontece num estado governado pelo PT, PSB ou PC do B?
Aliás, Eduardo Guimarães, Luiz Carlos Azenha e Luis Nassif têm nos mostrado como a indignação da mídia nativa é altamente seletiva. Compensa lê-los com freqüência. Sem esquecer das leituras da CartaCapital e do Blog do Mino, é claro!
Quanto ao caso de Santo André, mais uma vez a tragédia é colocada no ar de olho no Ibope. O sensacionalismo barato toma a TV, principalmente a aberta, mas ecoa também no noticiário da TV paga. É óbvio que é um acontecimento extraordinário e como tal deve receber atenção da mídia, mas não seria o caso de submeter o noticiário a um interesse maior: a vida dos reféns?
Essa mania de transformar tudo em Big Brother é revoltante. Agora temos uma novidade copiada – argh! – dos estadunidenses: cada canal de TV leva para os seus estúdios uma infinidade de psicólogos, psiquiatras, especialistas dos mais diversos calibres. De maneira insana, traçam perfis, diagnósticos e apontam soluções a partir do conforto do estúdio e da distância dos fatos, como se fossem os donos de toda a verdade do mundo!
Finalmente a tal crise. Criticam a “aparente calma” do presidente Lula. Queriam o quê? Por acaso deveria ele alardear o pânico? Esconder-se embaixo da cama na Granja do Torto?
Ele cumpre o papel de estadista, que deve transmitir calma numa situação como essa, ao mesmo tempo em que toma medidas para diminuir os impactos negativos do episódio.
Caso a mídia fosse correta poderia tecer críticas quanto às medidas tomadas ou a velocidade das decisões, nunca a aparente calma do presidente.

8.10.08

Graças a Deus o Brasil não é São Paulo!

A "Onda” Kassab e a classe média paulistana.
Uma Nova Velha História.

"(...) O indivíduo completo é aquele que tem capacidade de entender o mundo, sua situação no mundo e que, se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos.
É neste sentido que me pergunto se a classe média é formada de cidadãos. Eu digo que não. Em todo caso, no Brasil não o é, porque não é preocupada com direitos, mas com privilégios. O processo de desnaturação da democracia amplia a prerrogativa da classe média, ao preço de impedir a difusão de direitos fundamentais para a totalidade da população. E o fato da classe média gozar de privilégios, não de direitos, que impede aos outros brasileiros ter direitos. É por isso que no Brasil não há cidadãos. Há os que não querem ser cidadãos, que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos, que são todos os demais, a começar pelos negros que não são cidadãos. Digo-o por ciência própria. (...) "
Milton Santos

De novo a cidade de São Paulo nos presenteia com sua tradição política conservadora.
No momento em que qualquer pessoa minimamente informada e bem intencionada comemora o 'funeral' nacional do PFL, agora disfarçado ou travestido de DEM (Democratas, belo nome pra justamente eles que foram a base de sustentação da Ditadura Fascista de 64) derrotado até na Bahia terra de seu ícone ACM – justamente em São Paulo a maior cidade do Hemisfério Sul vergonhosamente representa a grande esperança de sobrevivência do partido que é a cara do Coronelismo do Sertão, do atraso, dos Generais, da antiga UDN, etc.
Especialmente na cidade de São Paulo esse 'ideal' se é que podemos chamá-lo assim, importado de Portugal Medieval, aqui 'adaptado' pelos Bandeirantes (Bandoleiros e Assassinos fundadores da sociedade mais violenta do planeta) e "aperfeiçoado" pelos Barões do café – (Jecas Aristocráticos metidos a Europeus que enriqueceram esfolando escravos e imigrantes e condenando o país a um atraso secular)
Este mesmo 'ideal' ressurge e sobrevive sistematicamente na cidade de São Paulo, por vezes de forma inacreditável em jovens e em pobres – que se pensam classe média e reproduzem sem saber ou mesmo com convicção – argumentos reeditados de seus avós ou bisavós que outrora votaram em Carlos Lacerda, Jânio, Ademar de Barros e saíram às ruas com "Deus, a Família e etc.". Renasce novamente e de novo se afirma "orgulhosamente’: avesso à política. Mas são os mesmos de sempre que não perdem uma oportunidade de elegerem Maluf, Collor, Pitta e agora Kassab.
Esta História (ou farsa?) é monótona em sua estranha fixação de sempre andar para trás.
Como também é monótona a 'ladainha' de seus argumentos propagados por pólos de excelência: tipo Revista Veja, Caras, e por aí vai.
Argumentos que sempre objetivam uma única e sagrada garantia: que no final das contas nada mude nem um milímetro!
E talvez aí resida a alma desta herança maldita: o medo!
No fundo parece que esta 'tacanhice' crônica nasce mesmo do medo daquilo que não conhecemos ou por profunda ignorância não queremos conhecer. E se há uma coisa que praticamente nunca existiu no Brasil – o país onde a escravidão foi (ou é?) a instituição mais importante de toda a sua história – essa “coisa” assustadora se chama solidariedade. Daí esse modelo de “civilidade” anti-social onde nossa classe média é especialista e o maior objetivo de votar em Kassab assim como votou em Serra: manter a periferia como sempre esteve (EXCLUÍDA).
Num mundo que cada vez mais se torna analfabeto, o analfabetismo “espiritual” desta cidade chega a impressionar.
A história também mostra o que uma classe média tacanha é capaz.
É claro que exemplo maior é o Nazismo Alemão, onde uma classe média egoísta, ambiciosa, assustada, medrosa e ignorante foi a principal responsável pela ascensão de Hitler e seu "ideal" também conservador.
Nossa classe média, penso, é de fato muito parecida. Vemos o preconceito como seu traço principal. Mas, muito mais forte que isso é o seu desejo de receber ordens. (Atualmente Universidades, que já foram centros de excelência, recorrem a reuniões de pais e pedagogia infantil para educar jovens de classe média “geração Malhação ou pós Xuxa”) Este grupo parece desejar ardentemente ordens: seja de um deus, de um patrão, de um governo, ou especialmente daquele que ela mais respeita e teme: a mídia.
Como uma criança que não quer crescer, tudo que ela sonha é com um "pai” autoritário que lhe diga o que é certo e retire o insuportável peso de ter de assumir responsabilidades assim como fazem as marcas, as “tendências" da moda, as “grifes” que tanto são obedecidas.
Essa mesma classe média que cotidianamente nos brinda com exemplos de sua “civilidade” em reuniões de condomínio, clubes, escolas, universidades e no espaço público em geral, é a mesma que se exprime politicamente agora.
Adestrada em sua profunda despolitização pelos novos sábios do mundo corporativo com os maravilhosos 'ideais' arrivistas, egoístas e narcisistas, sacralizados pela sua nova religião individualista: a propaganda.
É ela que agora reafirma seu jeito de ser.
Como uma nova tecnologia de celular ou computador, ela agora "embarca" de cabeça na "onda" Kassab.
Assim como, por medo que alguma coisa mudasse, em segundos escolheu e entregou o país nas mãos do Collor em 89 e depois não assumiu sua irresponsabilidade e leviandade. Assim como não satisfeita com Maluf elegeu Pitta e nós todos pagamos esta conta. Assim como daqui alguns dias fará com seu celular. É esta mesmo que, outra vez rapidamente irá negar ter votado em Kassab, inflar o peito e repetir orgulhosa: "Eu odeio política!”
Hoje, nossa classe média, eternamente ávida por salvadores da pátria (um novo D Sebastião!) engole, assim como faz com seus fast-foods, sem mastigar o novo lançamento do mercado: Kassab!
É impressionante a forma semelhante com isso se dá.
Kassab em menos de um mês ultrapassou Maluf, Alckmin e Marta e desponta como favorito.
Não lembra o Collor? Que saiu do esgoto, como um rato, aparentemente sem apoio e de uma hora pra outra virou um fenômeno eleitoral especialmente em SP? Estranho né?
Não lembra o Pitta? Um candidato fabricado na Eucatex. Que era um ninguém e num instante virou também prefeito de São Paulo.
Coincidência?
Aliás, Pitta a quem Kassab serviu!
Seria engraçado se não fosse trágico.
Os argumentos parecem ser sempre os mesmos. Quer ver:
1º "Ele" é uma pessoa nova! Representa mudança!
(seu currículo já era!)
2º "Ele" não atacou ninguém!
(apesar de não ser a verdade, já está santificado)
3º “Ele” está fazendo coisas que outros não fizeram!
(Dá-lhe mentiras e marketing!)
Aliás, deve ser fácil ser marqueteiro em SP. É só reproduzir o mesmo discurso e pronto. Assim com nas novelas, no Faustão, na Malhação, no programa da Hebe, no cinema norte-americano que a classe média tanto gosta. Tudo sempre igual! Haja monotonia!
Ah, mas tem de disfarçar um pouco, como fez o PFL: mudar o nome, o número e a cor do partido e pronto Então, você, assim como prometem os maravilhosos e qualificados programas femininos da TV - se transformará em uma nova pessoa! Não é fantástico?
A psicanálise há muito conhece bem estes “mecanismos de defesa”, mas para que qualquer neurose seja superada é necessário que o paciente reconheça sua condição. Exatamente o mais difícil pra essa gente, pois exige aquilo que mais lhe falta: personalidade.
Ah, por falar em personalidade. Cadê os eleitores do PSDB? Hein?
O que aconteceu com o Alckmin? Até agora pouco ele não era o frisson de nossa classe média? O candidato mais maravilhoso. O anti-Lula! O próximo presidente?
Se com seus “aliados”, já na campanha eles fazem assim, imagine com a cidade.

Boa Sorte São Paulo!

Milton Fernandes
Professor de História

7.10.08

O resultado na cidade de São Paulo, por zonas eleitorais

Está no site do Estadão o desempenho dos candidatos à Prefeitura por Zona Eleitoral. Clique aqui para ver.
A vitória de Marta ocorreu nas regiões mais carentes da cidade: extremos da zona Oeste, Leste e Sul.
As regiões Central e Norte optaram por Kassab, sendo que em algumas zonas eleitorais, como na Bela Vista, Marta ocupa o 3º lugar, atrás de Alckmin.
Interessante observar zonas eleitorais nas quais o PT sempre obteve boas votações, como a do Rio Pequeno, por exemplo, na Zona Oeste. Nesta zona Soninha (PPS) tem 5,25% dos votos e Ivan Valente (PSOL) conseguiu 1,04%, considerando os eleitores destes candidatos como potenciais eleitores do PT, Marta teria votos suficientes para superar Kassab nesta área. Aliás, caso não houvesse tais defecções no PT, o partido somaria 37,65%.
Conheça o site de campanha da Marta, clicando aqui e o site do Kassab clicando aqui.