20.9.08

Karl Marx manda lembranças

Didático texto do César Benjamin na Folha de S.Paulo de hoje, sábado.
Karl Marx manda lembranças

O que vemos não é erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas
AS ECONOMIAS modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam "comportamento racional". Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação. Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as "necessidades do estômago" são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria. Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D" essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade. Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo. O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D". Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.
CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de "Bom Combate" (Contraponto, 2006). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.
Fonte: Folha de S.Paulo - 20/9/08.

4 comentários:

Renato Couto disse...

Um assunto de comentário grande, mas tentarei ser sucinto (em virtude do sol no meu quintal):
1)IDEOLÓGICAMENTE, ninguém pode ser contra o velho Karl, mas vários de seus questionamentos inerentemente de raciocínio econômico, são irrefutavelmente errados, ou seja, quem pode duvidar que exista uma imensa pobreza no mundo e pior ainda, uma imensa desigualdade social? Mas tentar justificar (melhor seria questionar) esta, sob a ótica falaciosa da mais-valia, é outra história...
PARÊNTESE)Todos (mais ou menos), compreendem a idéia de que o excesso de moeda causa danos terríveis a qualquer economia, disse de moeda e não de riqueza. Então aqui no nosso quintal, temos o BC intervindo de várias formas (libera/compra dólar, aumenta juros, emite títulos da dívida pública, etc), absolutamente necessárias, para que não descambemos novamente para aquele passado negro inflacionário. O GRANDE problema, não são as políticas do BC, mas sim o porquê delas, aí a culpa recai no Governo, fomentador da dívida pública, que desequilibra nosso balanço...
2)Este parêntese foi para justificar, que a culpa dessa crise em nossas portas, não é do sistema em si, mas da gerência do sistema. E quem faz o papel de BC no mundo? Imaginemos ( sempre hipoteticamente, pois ninguém nunca poderá provar) que os EUA estivesse há vários anos emitindo dólar, sem lastro (moderno, não o antigo padrão ouro), porém, despejando este dólar em outras praias...isso ano após ano, sem parar, “comprando” crescimento a custa do desequilíbrio alheio...Então aparece o EURO, torna-se forte e TODO aquele dólar que circulava pelo mundo, começa a voltar para casa, inchando o meio circulante yankee...
4)Como sempre professor, a culpa não está nos sistemas e sim nos homens, afinal, por que o comunismo deu tão errado, senão por culpa de figuras tão sinistras como Stalin e Mao e seu corpo de burocratas? E o capitalismo? Tão belos castelos de cartas matemáticos do livre mercado (e conseqüente distribuição social) sucumbem ao menor sopro de ganância de meia-dúzia de donos do planeta.

Forte Abraço!

Renato disse...

é apesar de sempre escutar a mesma ladainha(a começar pela minha casa) que o sonho acabou , que Karl Marx está ultrapassado, eis que ele surge, para apontar o dedo na ferida desse sistema podre e assustar os donos do poder.

Prof Toni disse...

Pois é "Renatos", idependente da profundidade da discussão teórica o que importa é ter a certeza de que a "regulação do mercado" pelo próprio é uma temeridade, conversa mole pra boi dormir, já dizia o Nouriel Roubini faz algum tempo.

Mauro Sérgio disse...

Independente de qualquer discussão ideológica, não dá pra negar o caráter científico do marxismo. Ele entre fácil no rol das grandes teorias essenciais à compreensão do mundo, como a relatividade ou a evolução das espécies.

O fato é que ele conseguiu prever, com uma antecedência que seus detratores jamais irão admitir, diversos dos males econômicos que nos acometem nos dias de hoje.

A longevidade do marxismo só é comparável a ingenuidade dos que acreditam na capacidade do mercado ir contra sua própria natureza e se auto-regular.

Ao que parecem, ainda continuam tentando enterrar o velho Karl Marx. Só esqueceram de combinar com o defunto, que continua vendendo saúde e lucidez.