19.6.22

Beijo

 

Um dos objetivos da minha volta é recuperar textos que me emocionaram.

Vou começar por um, publicado em 18/01/2005, que me marcou muito.

Beijo 

Não o beijo apaixonado, anúncio e preâmbulo da paixão. 

Trata-se do beijo entre homens.

A partir da minha adolescência comecei a frequentar a casa dos meus avós maternos em Bauru, interior de São Paulo, e a tomar contato com uma quantidade de primos, primas, tios e tias.

Tornou-se comum reunirmos boa parte de nossa enorme família nos aniversários do meu avô, em junho. Assim fizemos até ele completar 90. Alguns meses depois ele faleceu.

Também era comum fazermos uma festa na passagem do ano, na casa do tio Juvenal (já citado por aqui em outro texto). Era o momento de reunirmos os primos, amigos e demais parentes.

A festa atravessava a madrugada e, por vezes, tinha sequência num alentado almoço no primeiro dia do ano, sempre com muita cerveja e alegria. Seu "Juva" sentia um imenso prazer em ver aquela reunião, por mais trabalho que aquilo proporcionasse.

Várias vezes, quando me despedia dele, sentia vontade de aplicar-lhe um sonoro beijo nas bochechas, mas a distância respeitosa, as reticências que possuímos com relação a determinadas manifestações (isso não é coisa pra macho!), sempre tolheram essa vontade.

Faz alguns anos ele caiu doente. Cada vez que nos encontrávamos ele estava mais debilitado, mas muito alegre por estar vivo. O carinho que sentia por ele só aumentava. A maneira altiva como enfrentou a doença foi admirável.

Ano passado, por esta época, recebemos a notícia que ele piorara bastante. Eu e minha irmã caçula, Sonia, resolvemos fazer uma rápida viagem até Bauru. Nos preparamos para não demonstrar fraqueza perante os primos e fomos esperando pelo pior.

Quando chegamos ao hospital ele estava surpreendentemente melhor. Consciente, embora com muitas dores. A doença já lhe colocava uma série de limitações.

Conversamos um pouco para não cansá-lo e prometemos vê-lo no outro dia, um sábado, na casa de uma de suas filhas, para onde ele iria ao sair do hospital. Assim fizemos.

Ao nos despedirmos, ele me fez um pedido: - Antonio Carlos, posso lhe dar um beijo? Como foi difícil não chorar. Ele me beijou com muito carinho, eu retribuí com outro beijo e um abraço caloroso.

Alguns dias depois, em 23/1, ele nos deixou, descansou para sempre. Hoje penso por que não o abracei mais, o beijei mais, para que ele pudesse perceber todo o carinho que eu tinha por ele.

Estive em Bauru neste final de semana. Fui recebido pela minha tia e pelos meus primos com muito carinho, com muita alegria e tristeza. Ao despedir-me beijei cada um dos meus primos. Assim farei de agora em diante com as pessoas que amo: não vou mais economizar beijos e abraços.

Texto publicado em 18/01/2005.


Um comentário:

Katia Portes Leão disse...

Seu texto tão bonito me lembrou essa música, linda, do Gilberto Gil, Pai e Mãe... (sin perder la ternura...).

https://youtu.be/taEE9UDGL3g