2.9.06

Cotas raciais: contra ou a favor?

Este tema sempre se faz presente nas minhas aulas, sejam de Geografia, no colégio, ou Atualidades, no Cursinho.
Vou começar o texto pelo final: sou favorável!
Durante muito tempo essa idéia me enervou pelo “americanismo” contido nela e por achar que reforçaria um racismo ao contrário.
Lendo uma entrevista do mestre Milton Santos, mudei de idéia! Nela o professor Milton Santos dizia que cotas deveriam ter data para começar e para acabar. Prazo de validade!
Pensei: é isso! A sociedade reconhece parcela de sua culpa coletiva pelo estado de coisas em relação ao povo afro-descendente e estabelece um prazo para purgar seus pecados, ao mesmo tempo dá um tempo para que o prejudicado vire o jogo!
Uma coisa é fato, comprovado tanto pelas estatísticas quanto pelo derramar de nosso olhar pelas ruas: os pobres, em sua maioria, são pretos e mulatos, como dizia aquela música de Caetano e Gil, faz alguns anos.
Reafirmo que entendo as cotas como um mal necessário, reparador, uma ação coletiva.
Caso queira melhor formar sua opinião recomendo que comece pelas seguintes leituras:

Manifesto em favor da lei de cotas e do estatuto da igualdade racial
Carta pública ao Congresso Nacional

Quer informações com maior densidade? Leia então os artigos: Política de cotas raciais, os "olhos da sociedade" e os usos da antropologia: o caso do vestibular da Universidade de Brasília (UnB), de autoria de Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura Santos, publicado na Revista Horizontes Antropológicos; A reserva de vagas para negros nas universidades brasileiras, de autoria de Yvonne Maggie e Peter Fry, publicado na Revista de Estudos Avançados e O bicho na toca, de Marco Frenette, publicado na Revista Fórum, nº. 11.
Poderia sugerir vários outros, mas creio que estes bastam para dar início à formação de uma opinião, seja ela qual for, afinal a minha está dada no início do texto.

3 comentários:

Cristina disse...

Sabe, Toni, eu também achava que as cotas deveriam ter data para começar e data para acabar, agindo paralelamente com uma melhora progressiva do ensino público, principalmente nas periferias. Mas hoje não vejo mais essa solução como algo possível, é apenas uma utopia e estaremos nos enganando. É muito cômodo enfiar todo mundo dentro de uma sala e dizer: entraram, agora foda-se! - Digo isso porque estou vendo a dificuldade de alguns colegas, eles passaram no vestibular, nas últimas listas, mas mesmo tendo passado pelo funil não estão conseguindo acompanhar o curso. E o que deve ser feito? Devemos obrigar os professores a diminuir o ritmo e ensinar só o mínimo necessário como é feito em algumas faculdades privadas, ou permitir que esses alunos desistam do curso porque apesar de todo o esforço não conseguem acompanhar algo que está muito distante da realidade em que vivem? Minha opinião é que nenhuma das duas coisas deve ser feita, é preciso melhorar o ensino público acabando com essa putaria de passar todo mundo para quinta série sem saber ler e escrever, proporcionar um conhecimento de mundo interdiscilinar, padronizar o ensino das escolas privadas pelo ensino público já melhorado e cobrar no vestibular o que tenha sido ensinado nas escolas, acabar com a máfia dos cursinhos... permitir que a periferia conheça o mundo possível sabendo que com um pouco de esforço podem cursar uma universidade, desde que o Estado colabore de verdade, não com medidas ilusórias e hipócritas, porque oferecendo uma vara resistente, cada um pesca o peixe que for capaz de puxar. è fácil dizer que melhorar o ensino é muito demorado, difícil é colocar a mão na massa e tentar fazer alguma coisa sólida, não há solução rápida que seja justa, menos ainda se vier sozinha e com a intenção de durar alguns séculos (já que esse é o tempo estimado para uma melhora do ensino...) Isso é Brasil!

Prof Toni disse...

Cris,

qual a razão desses moços e moças não conseguirem acompanhar o curso? Por acaso trabalham o dia todo e cruzam a cidade para chegar à USP ou sair dela e retornar para casa? A defasagem é escolar ou devemos somar mais alguns elementos? Se soubermos desses dados podemos pensar em algumas intervenções, como apoio didático-pedagógico (é obrigação da Universidade fornecê-lo), moradia, bolsa-auxílio...
O tempo é urgente, não podemos esperar algumas gerações, as coisas têm que ser feitas ao mesmo tempo, a questão é: por quem?

cristina disse...

Sim! Têm que ser feitas ao mesmo tempo, mas não são! E ninguém parece estar mexendo os pauzinhos para que isso aconteça, nem o governo, nem a população. Porque a maioria das pessoas precisa de um diploma, só isso, muitos não querem cobrar do governo uma boa educação se puderem entrar na universidade aprendendo ou não.A discussão sobre cotas está avançando muito mais rapidamente do que as discussões sobre projetos para uma melhoria da educação. Tenhos duas amigas que dão aula na rede pública, elas estão enlouquecendo com essas horas a mais que as crianças ficam nas escolas, porque não há instrutores suficientes na periferia, não há computadores para todas as crianças, nem professores de informática, entre muitas outras coisas... a única coisa que eu vejo é um monte de gente discutindo sobre cotas como se isso fosse suficiente. Ainda não me convenci de que é uma oportunidade real, embora entenda a sua importância, porque as próximas gerações não terão cotas + uma educação melhor, as próximas gerações terão cotas + foda-se se você vai conseguir acompanhar o curso. (e sim, a maioria precisa trabalhar, muitos não conseguiram bolsas porque existe uma entrevista na qual precisam demonstrar alguns conhecimentos de mundo, de informática, dependendo de onde pretendem trabalhar dentro da universidade e outras bolsas são oferecidas a quem tem as melhores notas, então...)
O que podemos fazer? Se as cotas são necessárias, como devemos agir para que outras medidas sejam colocadas em prática concomitantemente?