20.2.14
O que acontece na Venezuela?
4.6.08
Cronologia de uma montagem
Leiam o texto abaixo e reflitam:
CRONOLOGIA DE UMA MONTAGEM
Como transformar Chávez em um terrorista em dois meses
O bombardeio de um acampamento das FARC no Equador, por parte da Colômbia, iniciou uma autêntica guerra midiática. Qualquer semelhança entre a versão da grande mídia e a realidade é mero acaso. Saiba como operou o eixo midiático formado pelos jornais The Wall Street Journal (EUA), El Tiempo (Colômbia) e El País (Espanha).
Pascual Serrano - Diagonal
Primeiro disseram que era ditador, mas não convenceram ninguém, por ser ele o presidente americano que mais eleições ganhou. Depois propagaram que ele estava se armando até os dentes e era um perigo para a estabilidade da região, mas a verdade é que Chávez nunca utilizou uma única arma fora de seu país. Ou seja, que o último lance é transformá-lo em terrorista, por meio de uma operação midiática de dois meses. Vamos repassar a cronologia da operação e comparemos cada acontecimento: a versão do eixo midiático (El País, El Tiempo, The Wall Street Jornal, o presidente colombiano Uribe, a Casa Branca) e a versão do que realmente aconteceu.
1º DE MARÇO DE 2008
VERSÃO DO EIXO MIDIÁTICO: O Exército colombiano ataca um acampamento das FARC em uma perseguição perto da fronteira do Equador. A notícia ocupa a primeira página da imprensa internacional.
VERSÃO REAL: O Exército colombiano bombardeou um acampamento com os representantes internacionais das FARC às três da manhã, enquanto todos dormiam. Para isso, invadiram território equatoriano adentrando dois quilômetros no país. Assassinaram, também, três estudantes mexicanos de uma delegação que estava se entrevistando com o comandante Raúl Reyes. Utilizaram tecnologia e mísseis norte-americanos e, depois, assassinaram os feridos com um tiro de misericórdia. Essa delegação guerrilheira estava no Equador para negociar com as autoridades francesas a libertação de Ingrid Betancourt. A morte de Reyes abortou essa operação. Todos estes elementos vão se tornando conhecidos posteriormente, pouco a pouco, e são incorporados somente nas páginas interiores dos jornais. Outro detalhe a ser considerado é que o jornal El Tiempo é propriedade da família Santos, e seu diretor – Enrique Santos – é irmão do ministro de Defesa – Juan Manuel Santos – e primo do vice-presidente colombiano, Francisco Santos.
9 E 10 DE MAIO DE 2008
VERSÃO DO EIXO MIDIÁTICO: No dia 9 de maio, The Wall Street Journal afirma que teve acesso a documentos procedentes do computador de Raúl Reyes, os quais confirmariam que Chávez enviou dinheiro para as FARC. A notícia é reproduzida pelo jornal El Tiempo e por todas as agências internacionais. No dia seguinte, 10 de maio, o jornal El País, da Espanha, afirma que também teve acesso aos documentos de Raúl Reyes e tem como manchete “Os papéis das FARC acusam Chávez”. Mais uma vez, o jornal El Tiempo reproduz a notícia.
15 DE MAIO DE 2008
A Interpol torna público o relatório sobre os supostos computadores de Raúl Reyes.
16 DE MAIO DE 2008
VERSÃO DO EIXO MIDIÁTICO: A imprensa norte-americana, espanhola e colombiana tem como manchete que o relatório da Interpol revela que os computadores eram das FARC e que não foram manipulados pelas autoridades colombianas. O jornal El País afirma que “segundo a agência policial, a Venezuela financiou as FARC”.
VERSÃO REAL: O relatório da Interpol não faz nenhuma referência ao conteúdo dos arquivos, uma vez que, tal e como esclarecem no início, os especialistas informáticos que fizeram a vistoria “eram provenientes de fora da região e não falavam espanhol” – eram asiáticos –, com a finalidade de “eliminar a possibilidade de que fossem influenciados pelo conteúdo dos dados que estavam analisando”. O relatório confirma que milhares de arquivos apresentam data falsa: “2.110 arquivos cujas datas de criação oscilam entre 20 de abril de 2009 e 27 de agosto de 2009; 1.434 arquivos cujas datas de última modificação variam entre 5 de abril de 2009 e 16 de outubro de 2010” e que nos três computadores os discos rígidos externos e as chaves USB foram conectados depois do ataque e antes de serem entregues aos investigadores de informática forense da polícia judiciária colombiana. A Interpol denuncia, portanto, que “o acesso aos dados contidos nas citadas provas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas eletrônicas por parte dos organismos encarregados da aplicação da lei”, ao ponto de que em dias posteriores ao 1º de março de 2008, ou seja, estando em mãos das autoridades colombianas, fica comprovada a “criação de 273 arquivos de sistema, a abertura de 373 arquivos de sistema e de usuário, modificação de 786 arquivos de sistema e eliminação de 488 arquivos de sistema”.
Quanto à procedência desses computadores, o relatório começa esclarecendo que “a verificação realizada pela Interpol das oito provas instrumentais citadas não implica na validação da exatidão dos arquivos de usuário que elas contêm, da interpretação que qualquer país possa fazer desses arquivos, nem da sua origem”.
Nesse mesmo dia é celebrada a Cúpula América Latina e Caribe-União Européia, em Lima. O assunto dos computadores das FARC e as acusações contra Chávez dominam a agenda informativa.
CONCLUSÕES
O desenvolvimento das informações difundidas mostra uma clara coordenação entre meios norte-americanos, como The Wall Street Journal, e os jornais El País e El Tiempo. É possível observar que El Tiempo começou difundindo os “vazamentos” do Governo sobre as circunstâncias do ataque, todos desmentidos posteriormente. Por isso, passaram para a estratégia de que fossem os meios amigos internacionais os que recebessem os vazamentos e difundissem os supostos conteúdos dos computadores. E foi assim que operou o eixo midiático integrado pelo tridente El Tiempo-El País-The Wall Street Journal. Ou seja, o jornal colombiano vinculado com o Governo; o espanhol, cuja empresa aspira obter a concessão de uma licença de televisão aberta na Colômbia e o jornal norte-americano que se encarregou da informação econômica mundial e que representa a ideologia conservadora estadunidense. Um maquinário bem engraxado para convencer o mundo de que Chávez é um terrorista. Afinal de contas, no Iraque deu certo acusar Sadam de manter relações com Al-Qaeda.
ASSOCIAÇÃO DE VÍTIMAS DO COMPUTADOR DE REYES: QUE NÃO FALTE O HUMOR
Que tenham aparecido computadores, discos rígidos e memórias portáteis em perfeito estado depois de um bombardeio é algo que provocou uma seqüência de comentários humorísticos na Venezuela. O escritor Roberto Hernández Montoya assinalou que “sua carcaça, de uma liga de concubinato de chumbo com pizzicato de titânio reforçado, torna-o invulnerável a mísseis de todo tipo, a bombas de fragmentação, a bombas inteligentes e a qualquer arsenal proibido por acordos internacionais. Você morre arrebentado e o computador continua como uma uva e produzindo materiais ao desejo do novo usuário”. Não falta quem tenha dito que não seria estranho que, mais adiante, algum porta-voz da Casa Branca mencione os vínculos ‘sinistros’ de Obama com as FARC —porque isso mostrariam os documentos dos computadores— após as declarações do democrata de que estaria disposto a “manter conversações diretas com os dirigentes de países como Irã, Síria, Cuba ou Venezuela”.
Ainda no plano do humor, foi criada a Associação de Vítimas do Computador de Raúl Reyes, cuja primeira atividade será a convocatória para um concurso de contos: solicitou à população que envie relatos inverossímeis, tal como os que aparecem no computador de Reyes. O mais incrível e inexato dos contos será o que levará o prêmio, que vai consistir, é claro, em um computador. Inclusive há uma paródia na televisão estatal que apresenta um computador, resgatado dos restos do Titanic no fundo do Atlântico e completamente seco, que guarda informações sobre as relações de Uribe com pessoas à margem da lei.
Pascual Serrano é jornalista. Acaba de publicar "Meios violentos. Palavras e imagens para o ódio e a guerra". Maio 2008. El Viejo Topo.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Fonte: Agência Carta Maior – 03/06/08.
18.3.08
A mídia como arma de guerra - do Correio Caros Amigos
A mídia como arma de guerra - por Izaías Almada
Se alguma dúvida existia, para muitos de nós, do papel da mídia no jogo internacional do poder, na estratégia adotada pelo capitalismo neoliberal em manter suas conquistas a qualquer preço e subjugar aqueles que não lêem na sua cartilha, essa dúvida deixa de existir quando se analisa friamente os últimos acontecimentos desta semana na fronteira entre o Equador e a Colômbia.
Um país conturbado há sessenta anos por uma luta político-militar interna, onde mais de 20 mil insurgentes em armas, FARC e ELN, disputam o poder com os sucessivos governos eleitos pela oligarquia.
A Colômbia viu, em poucas horas, cair por terra a máscara de país democrático e legalista. E como sua política é determinada fora de suas fronteiras ou, provavelmente, em algumas embaixadas de Bogotá, deixou a nu a estratégia adotada por todos aqueles que não querem a paz interna no país. Ou, pior ainda, que precisam conflagrar a região, ampliar o conflito, com propósitos diversionistas, desviando a atenção para encobrir aquilo que interessa ao Departamento de Estado norte-americano.
Senão vejamos trecho de um relatório feito ao presidente Bush em 30 de julho de 2001 pelo National Energy Police Report e publicado pelo jornal The Nation: “os EUA necessitam garantir para os próximos anos o fornecimento seguro, estável e barato do petróleo”. O relatório avalia que três regiões no mundo têm que ser consideradas nessa perspectiva: o Golfo Pérsico, a Ásia Central e o Arco Amazônico andino, leia-se Venezuela, Colômbia e Equador.
Há, contudo, um significativo parágrafo na recomendação a Bush: “Caso não se consiga o petróleo por meios diplomáticos, devemos introduzir na matéria o nosso aparato militar”. Golfo Pérsico, Irã e Iraque; Ásia Central, Afeganistão.
Aqui, como se sabe, falharam os “meios diplomáticos”. O Arco Amazônico andino, contudo, está localizado no “quintal”, o que não deveria causar maiores embaraços, mas surgiram aqui dois empecilhos: o primeiro, Hugo Chávez, e mais recentemente Rafael Correa. O tradicional golpe de estado foi tentado contra Chávez em 2002, mas também não deu certo. Idéias de soberania, independência, mercados comuns e construção de alternativas energéticas vão ganhando força entre países como Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba.
Cria-se a Telesur, a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) em oposição à falecida ALCA, o Banco do Sul, a Petrocaribe, onde países pobres caribenhos podem comprar petróleo da Venezuela a preço mais barato. Um pouco de solidariedade invade os números frios do comércio feito de trocas que só beneficia um dos lados, o mais rico.
Preocupado com os conflitos militares no Iraque e no Afeganistão, com as ameaças ao Irã, com a manutenção de Israel como Estado polícia no Oriente Médio, os Estados Unidos da América perceberam que, a rigor, contam apenas com um governo totalmente submisso na América do Sul: a Colômbia. E talvez já não contem, aqui no seu antigo quintal, só com os “meios diplomáticos” para conseguir o seu petróleo seguro e barato.
Como explicar para o mundo que a invasão do território do Equador pelas Forças Armadas da Colômbia, a que se pretendeu dar um caráter de surpresa, era uma ação preventiva de defesa do território colombiano? E apresentar rapidamente como prova alguns documentos “recuperados” do laptop de um líder guerrilheiro, onde se inferia que 300 milhões de dólares foram dados por Hugo Chávez às FARC, que os guerrilheiros iriam comprar 50 quilos de urânio, que Rafael Correa e Chávez tinham acordos secretos com as FARC, um vídeo onde um soldado, em plano muito fechado, conta dólares supostamente encontrados no acampamento guerrilheiro.
Afinal, tudo isso justificaria a ação em território equatoriano. E era preciso que o mundo repercutisse toda a montagem da farsa rapidamente. Rádio, televisão, jornais, internet deveriam espalhar o mais rapidamente possível para as principais capitais européias e para os países da América Latina, em particular, que a Colômbia agiu contra terroristas que até urânio já queriam comprar... (Alguém aí se lembra das armas de destruição em massa de Sadam Hussein?).
A mídia foi acionada como arma de guerra, como tem sido usual nos últimos tempos. E com tal violência e precisão que confunde a cabeça de muitos de nós... E chegamos a duvidar das nossas próprias convicções. Mas em dúvida, sempre podemos nos perguntar:
De onde partiram os aviões e helicópteros que participaram da invasão do território equatoriano e que, pela posição dos disparos, vieram do próprio território do Equador? Seriam da base norte-americana de Manta, cujo contrato não será renovado por Rafael Correa no final de 2008?
Quem dispõe de sofisticada tecnologia de satélites para identificar eventuais telefonemas dados pelo líder guerrilheiro Raul Reyes?
O que foi fazer em Bogotá, dois dias antes do bombardeio ao acampamento guerrilheiro, o contra-almirante Joseph Nimmich, comandante da Força Tarefa do Sul dos EUA?
Onde estaria localizado o laboratório das FARC para enriquecimento de urânio nas selvas colombianas?
Os 300 milhões de dólares que Chávez entregou às FARC teriam sido em cheque ou escondidos em caixas de uísque?
Por que a imprensa não deu o devido destaque à declaração de um dos últimos reféns soltos pelas FARC, em fevereiro, de que Ingrid Bettencourt, uma vez libertada, se candidataria à presidência da Colômbia?
Teria Uribe e o Departamento de Estado norte-americano interesse na libertação de Ingrid Bettencourt?
É preciso ter paciência diante de tanta mentira e farsa. Recomenda-se a leitura do livro O Senhor das Sombras, de Joseph Contreras, sobre Álvaro Uribe.
Izaias Almada é autor, entre outros, do livro "Venezuela Povo e Forças Armadas",
Editora Caros Amigos.
5.3.08
Arthur Virgílio: senador dos contos do vigário
São Paulo, 04 de março de 2008 – Sobre declaração feita hoje no Senado sobre suposto transporte secreto de armamento para a Venezuela, a TAM esclarece:
1. A companhia não realiza “vôos secretos” à Venezuela ou a qualquer outro destino. A TAM mantém vôo regular diário para Caracas, de passageiros e cargas, desde setembro de 2007;
2. A pedido do Ministério da Defesa, a companhia realizou, em caráter de urgência, uma pesquisa em seus registros dos últimos 15 dias, sem encontrar nenhuma exportação de armas, e repassou essa informação às autoridades. Em seguida, iniciou buscas nos dias anteriores, localizando uma exportação de uma carga de revólveres Taurus para um importador venezuelano, totalizando 1.329,4 kg.
3. A exportação, que seguiu todos os trâmites legais, contou com as autorizações oficiais devidas, e o transporte desse tipo de carga pela TAM é autorizado pelo Exército (Certificado de Registro nº 34704, de 11.10.2006, válido até 30.09.2008), que também emitiu a permissão ao exportador (Guia de Tráfego nº 000319/2008, de 15.01.2008).
4. O transporte regular de exportações da Taurus também é feito para países como os EUA e Argentina, sempre cumprindo todos os requisitos previstos em lei.
A Taurus foi uma das grandes financiadoras da campanha contra o desarmamento no Brasil. Espero que Arthur Virgílio, com apoio da Veja, inicie uma campanha para banir a fabricação de armas no país.
Acesse aqui a publicação original.
3.12.07
Porque Chávez perdeu e Baduel ganhou
Bob Fernandes
Hugo Chávez perdeu o referendo porque, cada vez mais, se isola e isola seu governo. Perdeu porque acreditou ser possível afastar ou afastar-se de antigos e sólidos aliados sem que jamais isso lhe custe, ou viesse a custar, nacos de poder. Hugo Chávez perdeu porque, pelas razões conhecidas e pelas ainda desconhecidas, perdeu o amigo e compadre Raúl Isaías Baduel, o homem que o salvara do exílio, cadeia ou morte em abril de 2002.
Entre dezembro passado e este, Hugo Chávez perdeu - a oposição não ganhou, mas ele perdeu via abstenção - três milhões de votos. Não se trata de uma transferência bancária nem se dirá que o general agora reformado Raúl Baduel é detentor de 3 milhões de votos, mas é seguro dizer que, ao perder o amigo de quase quatro décadas e compadre, Chávez perdeu um símbolo. Deixou ir-se mais um pedaço da sua própria história.
Em 1982, Chávez e outros três capitães, ao lado de um frondoso Samán de Güere - segundo a lenda a mesma árvore sob a qual um dia Simon Bolívar fizera um juramento - prometeram libertar a Venezuela.
Raúl Baduel era um dos jovens capitães. Um outro está hoje na oposição e o terceiro foi assassinado no Caracaso em 1989 (revolta popular contra o plano econômico de Carlos Andrés Perez). Restaram juntos, até há pouco, Chávez e Baduel. Baduel, a partir de agora, é o grande nome da oposição venezuelana, é o homem a ser batido.
Sabe-se que a história não é feita apenas pelos homens, mas também pelas circunstâncias; econômicas, políticas, sociais..., mas os homens, muitas vezes, são a representação, o receptáculo, a cristalização de um momento, destas circunstâncias. Raúl Isaías Baduel é, desde já, um nome para o presente e para o futuro na Venezuela.
Praticante do Ai-Ki-Do desde os 15 anos, Baduel, 52, valeu-se dos ensinamentos de Sun Tzu em A arte da guerra para salvar Chávez em 2002. Este é um capítulo da história que será sempre condensado na frase dita por Baduel aos golpistas - via celular - na manhã do sábado 13 de abril de 2002, pouco antes do cobiçado Palácio Miraflores ser retomado:
- Se vocês não devolverem o presidente constitucionalmente eleito, Hugo Rafael Chávez Frías, faltarão postes na Venezuela para pendurá-los!
Baduel, paraquedista como Chávez, era então um comandante da Força Aérea em Maracay. Tinha à sua disposição os aviões que poderiam bombardear e decidir a guerra.
Leitor de Confúcio, Borges, Cortázar, o general valeu-se de Sun Tzu; não atacou, aquartelou-se, tornou-se um ímã da resistência e salvou o pescoço e o governo do amigo e compadre.
Diz-se que Baduel queria a presidência da poderosa petroleira PDVSA e que uma recusa de Chávez a tanto teria sido o fator decisivo para a dissidência. Diz-se, e a história terminará por iluminar mais este capítulo.
Com fama de incorruptível, Baduel era e é detentor de tamanho prestígio que foi o único dos personagens do golpe e contragolpe a não ser ouvido pela Assembléia Nacional – o próprio Chávez o foi. Meses depois o plenário do parlamento o receberia de pé, com aplausos da situação e oposição.
Depois feito ministro do Exército por Chávez e em seguida ministro da Defesa, de onde saiu em julho deste ano, Baduel tem pela frente uma rota quase inevitável.
Em 2008 a Venezuela viverá eleições de governadores e uma candidatura aguarda o general em seu Estado, Aragua. Da mesma forma que um dos homens fortes do chavismo, o ex-vice-presidente Diosdado Cabello será candidato à reeleição no Estado Miranda, um dos que abriga a capital Caracas.
É a eterna luta pelo poder. Três homens se movem em direção ao futuro.
Chávez, como sempre diz seu amigo e mestre em história na Academia Militar, o velho general Pérez Arcay, é um jogador de xadrez. Mas, ao contrário do que supõe e/ou alardeiam seus adversários mais ingênuos, não enxerga e não se move pelo tabuleiro de maneira habitual, corriqueira.
Para Chávez, o tabuleiro não é quadrado. Ele o enxerga de uma outra forma, sem contenções laterais como diz Perez Arcay, e por isso costuma surpreender os adversários.
Chávez perdeu, está frágil. Ele é um homem dos llanos, as vastíssimas planícies venezuelanas, desde sempre um convite à reflexão. Chávez certamente irá agora valer-se de uma porção de si mesmo conhecida por poucos; se recolherá para refletir sobre a derrota, mesmo que na aparência e na a mídia siga a exibir a sua mais conhecida faceta e porção, a que faz barulho. Muito barulho.
O barulho, tantas vezes útil, foi um dos responsáveis pela perda de aliados e pela derrota. Com seus silêncios de orientalista, salpicados pela contundência de ataques precisos e cirúrgicos, Raúl Baduel colocou-se no caminho do amigo e da história.
Chávez irá lamber as feridas e pensar no contra-ataque. As histórias pessoais e as das circunstâncias empurraram para caminhos distintos velhos amigos, aqueles que um dia, em nome da lenda chamada Bolívar, juraram libertar a Venezuela.
Fonte: Terra Magazine
17.11.07
Quem tem medo da Venezuela?
A Venezuela e Hugo Chávez ganharam destaque nos noticiários brasileiros nas últimas semanas.
A reforma constitucional em curso tem chamado muito a atenção de todos.
Por princípio sou contra a reeleição. Qualquer reeleição. Na minha modesta e não pedida opinião, este péssimo hábito profissionaliza o ato da representação política, o que não é desejável, além de impedir o surgimento de novas lideranças.
Posto isso é óbvio que não me agrada o projeto de alteração constitucional proposto por Hugo Chávez. Mas isso não é da minha conta, isso é do interesse direto da Venezuela e do seu povo.
Devemos perguntar se a lei do país está sendo respeitada. Garanto-lhes que sim!
Os golpistas estão do outro lado e foram apoiados pelos EUA e pela Espanha de José Maria Aznar, um fascista. O seu fascismo para consumo interno não me diz respeito, diga-se de passagem, mas sim ao povo espanhol que o elegeu dentro das regras por eles estabelecidas.
Além de realizada dentro dos limites legais venezuelanos, tal emenda deverá ser referendada pela população da Venezuela para entrar em vigor. Para que mais democracia do que isso? Ou será que só defendemos as regras democráticas quando elas nos dão os resultados que queremos?
Vejam a desfaçatez de alguns políticos brasileiros que nasceram, cresceram e enriqueceram sob os auspícios da ditadura militar! José Sarney, Paulo Maluf e toda a turma do DEM (ex-PFL e antes disso, ex-ARENA). Logo eles criticando as “falhas” da democracia da Venezuela! E com amplo respaldo da mídia, a mesma mídia que em grande parte “marchou com deus pela liberdade” (se não sabem do que estou falando é só clicar aqui).
Outra orquestração da grande mídia nos apresenta o temor de uma corrida armamentista desencadeada por Hugo Chávez. É este o temor dos senhores da verdade? Hugo Chávez e suas poderosas armas?
A revista Época, secundada por Veja, apresentou extensa reportagem sobre as “ameaças” chavistas. Clique aqui e leia a matéria da Época e aqui para ler a opinião da Veja de 07/11/07.
Observe o quadro comparativo das Forças Armadas do Brasil e da Venezuela apresentado pela Revista Época na sua edição 493, de 29/10/07:
Para nossa imprensa, Chávez é um ditador e assim é apresentado, mas no Paquistão o homem que se apoderou da presidência por meio de golpe de estado, mantém a oposição trancafiada e tem como principal diversão prender advogados é chamado de presidente Pervez Musharraf. Tenho certeza que assim será chamado enquanto durar seu alinhamento com os EUA!
Nossa mídia é assim: desavergonhadamente e descaradamente servindo aos poderosos, sempre!
16.11.07
O rei bombril
Laerte Braga
O rei Juan Carlos foi para o plenário do encontro de países ibero-americanos irritado com as duras críticas do presidente Lula (Brasil) e da presidente Bachelet (Chile) feitas momentos antes de sua explosão grosseira com o presidente Chávez (Venezuela). Lula e Bachelet foram incisivos com o primeiro-ministro Zapatero sobre a forma de atuação de empresas espanholas em seus países.
Em plenário, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, havia denunciado a intervenção descarada de José Maria Aznar no processo eleitoral de seu país, na tentativa de derrotá-lo.
O presidente Néstor Kirchnner (Argentina) fez duras críticas a Aznar por seu comportamento na crise que quase desmonta a Argentina e durante o breve governo Duhalde. Kirchnner disse que Aznar, então primeiro-ministro, havia ligado para o presidente argentino e exigido o cumprimento do acordo com o FMI. É que foram suspensos todos os pagamentos da dívida externa diante da crise que se seguiu à renúncia do ministro de La Rúa. Foram duas ligações em que Aznar tratou o colega argentino como uma espécie de governador da coroa espanhola.
Juan Carlos é chefe de Estado e não chefe de Governo. Não havia necessidade de sua presença no encontro de governos de países ibero-americanos. Foi ao Chile como representante de empresas espanholas.
Juan Carlos é neto do rei espanhol deposto pela ditadura franquista e para ser indicado rei, o ditador Franco exigiu que seu pai renunciasse ao seu direito ao trono. Para ser rei rompeu com seu pai, atropelou seu pai e se fazendo de bobo, de idiota, foi comendo o mingau pelas beiradas, como dizemos aqui.
Juan Carlos silenciou durante a tentativa de golpe de estado na Espanha, em 1981. Franquistas chefiados por Millan del Bosch tentaram fechar o Parlamento e pleiteavam que todo o poder fosse dado ao rei. Juan Carlos seria o grande beneficiário do golpe. Na Espanha, como na Grã Bretanha, rei reina, mas não governa. Diante do fracasso pronunciou-se pela "legalidade democrática". O jornalista Mauro Santayana trouxe à lembrança esse fato em excelente artigo e mostra que a atitude do rei lhe custou o respeito de espanhóis comprometidos com a democracia.
O golpe de abril de 2002 contra Chávez foi desfechado numa quinta feira e no domingo o presidente venezuelano estava de volta ao poder pelas mãos do povo. Dois governos estavam sabidamente implicados no processo golpista e foram os únicos a reconhecerem de imediato o "governo" de Pedro Carmona. Carmona é sócio de várias empresas espanholas, era o presidente da federação das indústrias da Venezuela, similar da FIESP naquele país. Vale dizer, máfia de sonegadores e coisas piores.
Juan Carlos paga perto de dez mil dólares por antílope caçado na Suíça, em temporada de férias. O governo suíço cobra um alto preço dos caçadores, pois caçam uma espécie em extinção, o antílope europeu.
Juan Carlos e o primeiro-ministro Zapatero são adversários. Na cabeça do rei os países latino-americanos têm que se curvar à Espanha. Raciocina ainda como colonizador. Aquele que vinha e levava o ouro e a prata. Milton Nascimento canta uma canção que ilustra a chegada de um capitão espanhol a um porto brasileiro e o saque promovido a partir de seu navio cheio de canhões.
A presença do rei no encontro é pura propaganda do suco de Espanha. É feito com a extorsão e a exploração de empresas espanholas na América Latina sobre trabalhadores. Não cabe a ele ditar a política de seu país.
A forma como se dirigiu a Hugo Chávez foi desrespeitosa, autoritária, prepotente e deixou claro todo o pensar do rei de Espanha. Pensa como Franco, pensa como Aznar, pensa como a OPUS DEI, faz parte da extrema-direita européia, aquela que considera imigrantes cidadãos de segunda categoria. Franco foi apoiado por Hitler na guerra civil de seu país.
A resposta de Chávez veio à altura. Quem é o rei para calar o presidente eleito pela vontade do povo, por três vezes, num país soberano e independente?
Fernanda Brozoski, estudante da Universidade Central da Venezuela, enviou comunicado a várias comunidades na internet onde adverte para o vídeo falso exibido pela GLOBO no Brasil a propósito dos incidentes envolvendo manifestantes pró e contra Chávez.
Segundo a estudante, o vídeo mostrado no JORNAL NACIONAL (porta-voz da mentira FIESP/DASLU), exibe policiais de outro país, "pois os uniformes não são de policiais daqui". A estudante afirma que as instalações da universidade são as exibidas, mas todo o resto foi montado. E é textual ao dizer que os chavistas foram agredidos por adversários.
"Neste mesmo vídeo vocês vão ver que dois dos estudantes feridos estão de camisas vermelhas". Símbolo do chavismo. A GLOBO apresentou-os aqui como adversários de Chávez agredidos por partidários do presidente, supondo, lógico, que o detalhe não viesse a ser percebido. Para a GLOBO importante é veicular a mentira e tentar transformá-la em verdade.
Brozoski afirma que GLOBO trocou deliberadamente, lógico, a posição de agressores e agredidos. Estudantes de universidades particulares contrários a Chávez, agredindo estudantes da universidade pública. Não podia imaginar que o fato viesse a ser descoberto por aqui, o vídeo editado, montado, adulterado, foi exibido em oito de novembro agora.
É evidente que a GLOBO não vai publicar ou fazer menção à carta da estudante venezuelana e tampouco mudar sua característica de rede a serviço do grande capital nacional e internacional. William Bonner já rotulou os telespectadores do JORNAL NACIONAL de simplórios, de idiotas, quando chamou-os de Homer Simpson diante de professores e estudantes da UNICAMP.
Juan Carlos foi ao Chile como garoto propaganda de empresas espanholas. Desde bancos, empresas de telefonia e comunicações a cafetões como Chico Recarey. É o seu papel. É o que tem feito.
E há um detalhe pouco citado em todo esse processo em que tentam transferir o epíteto de grosseiro para Chávez. Já dominado e moldado pelas cortes de seu país, o primeiro-ministro Zapatero sabe que Juan Carlos ressuscitou o líder fascista Jose Maria Aznar.
O rei falou para fora, atendendo ao golpismo norte-americano. Para dentro, atendendo aos franquistas, aos bancos, às elites, colocou Zapatero em segundo plano, não perdoa o fato de Zapatero ter retirado as tropas espanholas do Iraque. Foi ao Chile cumprir seu papel garoto bombril dessas forças. Tem mil e uma utilidades para os "negócios" e é muito bem remunerado.
Fonte: Revista Nova-e
(http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=876)
5.11.07
O processo criativo da "nossa mídia"
Fiquei abismado com a cara-de-pau da galera.
Vejam as “explicações” para a capa da edição que apresentava a Venezuela como uma ameaça bélica ao Brasil:
Capa da semana
Para fazer a capa desta semana foi feita uma pesquisa de imagem muito específica. O presidente da Venezuela Hugo Chávez teria que estar com cara ameaçadora. Foi muito difícil, ele tem uma cara gorda e simpática, não dá medo em ninguém. A imagem que mais chegou próximo do objetivo foi a que ele está de boina vermelha olhando para o lado esquerdo. Para deixar a imagem ainda mais forte, o nosso ilustrador Nilson Cardoso fez um trabalho de manipulação na imagem original, até chegar a este resultado final.
O que acham? Façam seus comentários
Marcos Marques - diretor de arte
Vejam a “obra de arte”:
16.10.07
Qual é a razão do ódio contra Hugo Chávez?
O diário ABC Color, do Paraguai, publicou um editorial de primeira página, no dia 7 de outubro, com esse grosseiro título: “Uma democracia puta”.Não se referia à ditadura do Partido Colorado, que há sete décadas controla o poder e perpetua o Paraguai como um dos países mais pobres do continente. Nem à reconversão dessa ditadura para uma forma “democrática” dessa ditadura, que fez com que a viúva do ex-ditador Alfredo Stroessner comentasse, singelamente: “Só falta o Alfredo”.Não. Referia-se à Venezuela, um regime que teve seu presidente eleito e reeleito várias vezes, submetido à confirmação do voto popular no meio do seu mandato, com um mecanismo de controle dos eleitores sobre os eleitos, que nenhum outro país do continente possui.O ABC Color é o principal jornal do Paraguai. Não é necessário um exercício de memória muito grande para imaginar sua convivência com a ditadura do partido-Estado Colorado. Agora dizem que apóia a Lino Oviedo, recém libertado para tentar bloquear a possibilidade de vitória de Fernando Lugo, derrotando pela primeira vez ao Partido Colorado. O candidato de preferência do jornal foi condenado em trs processos, um deles por participação na morte do ex-vice presidente Luis Argaña, outro deles por tentativa de golpe militar.Esse jornal se atreve a julgar o caráter democrático do regime venezuelano, para tentar bloquear o ingresso da Venezuela no Mercosul. “Se nossos presidentes do Mercosul, mesmo sabendo qual é sua obrigação histórica com a defesa dos princípios e dos valores políticos que iluminam nossos povos, são capazes de se vender ou de ligar-se mediante uma relação adúltera com um ditador megalômano surgido das catacumbas de um passado sinistro, teremos que convir que nossas democracias se vendem como autênticas putas” – diz o editorial do jornal paraguaio.Antes desse final, o jornal fez um apelo aos parlamentares do Paraguai e do Brasil, para que impeçam o ingresso da Venezuela ao Mercosul – porque disso se trata, essa é a operação política que a direita do continente trata de armar. São os aliados paraguaios dos parlamentares da direita brasileira que igualmente se opõem à entrada da Venezuela no Mercosul.Até julho de 2006, o Mercosul se limitava aos conflitos comerciais entre as grandes corporações privadas da Argentina e do Brasil, na disputa de mercados, relegando o Uruguai e o Paraguai a coadjuvantes sem importância. A participação da Venezuela e da Bolívia, posteriormente do Equador e a aproximação de Cuba, permitem romper esse crculo vicioso.Acontece que todos aqueles que continuam identificados com os interesses dos EUA, do chamado “livre comércio”, que se opõem à consolidação e à extensão da integração latino-americana, buscam deter a entrada da Venezuela, com todo o dinamismo e a ampliação de temas que a incorporação do governo de Hugo Chavez representa. Se opoem ao gasoduto continental, se opõem ao Banco do Sul. Se opõem à autonomia do continente diante da hegemonia imperial dos EUA.São esses os que tentam atrasar a integração continental, representando os interesses do império na região. No Paraguai, como no Brasil, são esses os que resistem ao Mercosul, à integração regional, como agentes do “livre comércio”, do FMI, da OMC e do Banco Mundial. Par isso não poupam nem esforços, nem vocabulário grosseiro. São resquícios de um passado que, embora resistindo – como o Partido Colorado – tem seus dias contados.
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