3.12.07

Porque Chávez perdeu e Baduel ganhou

Um dos melhores textos sobre o referendo de ontem na Venezuela está logo abaixo. De autoria de Bob Fernandes, um dos maiores conhecedores da Venezuela e um dos melhores textos da imprensa brasileira da atualidade. Foi publicado no Terra Magazine.
Porque Chávez perdeu e Baduel ganhou

Bob Fernandes

Hugo Chávez perdeu o referendo porque, cada vez mais, se isola e isola seu governo. Perdeu porque acreditou ser possível afastar ou afastar-se de antigos e sólidos aliados sem que jamais isso lhe custe, ou viesse a custar, nacos de poder. Hugo Chávez perdeu porque, pelas razões conhecidas e pelas ainda desconhecidas, perdeu o amigo e compadre Raúl Isaías Baduel, o homem que o salvara do exílio, cadeia ou morte em abril de 2002.
Entre dezembro passado e este, Hugo Chávez perdeu - a oposição não ganhou, mas ele perdeu via abstenção - três milhões de votos. Não se trata de uma transferência bancária nem se dirá que o general agora reformado Raúl Baduel é detentor de 3 milhões de votos, mas é seguro dizer que, ao perder o amigo de quase quatro décadas e compadre, Chávez perdeu um símbolo. Deixou ir-se mais um pedaço da sua própria história.
Em 1982, Chávez e outros três capitães, ao lado de um frondoso Samán de Güere - segundo a lenda a mesma árvore sob a qual um dia Simon Bolívar fizera um juramento - prometeram libertar a Venezuela.
Raúl Baduel era um dos jovens capitães. Um outro está hoje na oposição e o terceiro foi assassinado no Caracaso em 1989 (revolta popular contra o plano econômico de Carlos Andrés Perez). Restaram juntos, até há pouco, Chávez e Baduel. Baduel, a partir de agora, é o grande nome da oposição venezuelana, é o homem a ser batido.
Sabe-se que a história não é feita apenas pelos homens, mas também pelas circunstâncias; econômicas, políticas, sociais..., mas os homens, muitas vezes, são a representação, o receptáculo, a cristalização de um momento, destas circunstâncias. Raúl Isaías Baduel é, desde já, um nome para o presente e para o futuro na Venezuela.
Praticante do Ai-Ki-Do desde os 15 anos, Baduel, 52, valeu-se dos ensinamentos de Sun Tzu em A arte da guerra para salvar Chávez em 2002. Este é um capítulo da história que será sempre condensado na frase dita por Baduel aos golpistas - via celular - na manhã do sábado 13 de abril de 2002, pouco antes do cobiçado Palácio Miraflores ser retomado:
- Se vocês não devolverem o presidente constitucionalmente eleito, Hugo Rafael Chávez Frías, faltarão postes na Venezuela para pendurá-los!
Baduel, paraquedista como Chávez, era então um comandante da Força Aérea em Maracay. Tinha à sua disposição os aviões que poderiam bombardear e decidir a guerra.
Leitor de Confúcio, Borges, Cortázar, o general valeu-se de Sun Tzu; não atacou, aquartelou-se, tornou-se um ímã da resistência e salvou o pescoço e o governo do amigo e compadre.
Diz-se que Baduel queria a presidência da poderosa petroleira PDVSA e que uma recusa de Chávez a tanto teria sido o fator decisivo para a dissidência. Diz-se, e a história terminará por iluminar mais este capítulo.
Com fama de incorruptível, Baduel era e é detentor de tamanho prestígio que foi o único dos personagens do golpe e contragolpe a não ser ouvido pela Assembléia Nacional – o próprio Chávez o foi. Meses depois o plenário do parlamento o receberia de pé, com aplausos da situação e oposição.
Depois feito ministro do Exército por Chávez e em seguida ministro da Defesa, de onde saiu em julho deste ano, Baduel tem pela frente uma rota quase inevitável.
Em 2008 a Venezuela viverá eleições de governadores e uma candidatura aguarda o general em seu Estado, Aragua. Da mesma forma que um dos homens fortes do chavismo, o ex-vice-presidente Diosdado Cabello será candidato à reeleição no Estado Miranda, um dos que abriga a capital Caracas.
É a eterna luta pelo poder. Três homens se movem em direção ao futuro.
Chávez, como sempre diz seu amigo e mestre em história na Academia Militar, o velho general Pérez Arcay, é um jogador de xadrez. Mas, ao contrário do que supõe e/ou alardeiam seus adversários mais ingênuos, não enxerga e não se move pelo tabuleiro de maneira habitual, corriqueira.
Para Chávez, o tabuleiro não é quadrado. Ele o enxerga de uma outra forma, sem contenções laterais como diz Perez Arcay, e por isso costuma surpreender os adversários.
Chávez perdeu, está frágil. Ele é um homem dos llanos, as vastíssimas planícies venezuelanas, desde sempre um convite à reflexão. Chávez certamente irá agora valer-se de uma porção de si mesmo conhecida por poucos; se recolherá para refletir sobre a derrota, mesmo que na aparência e na a mídia siga a exibir a sua mais conhecida faceta e porção, a que faz barulho. Muito barulho.
O barulho, tantas vezes útil, foi um dos responsáveis pela perda de aliados e pela derrota. Com seus silêncios de orientalista, salpicados pela contundência de ataques precisos e cirúrgicos, Raúl Baduel colocou-se no caminho do amigo e da história.
Chávez irá lamber as feridas e pensar no contra-ataque. As histórias pessoais e as das circunstâncias empurraram para caminhos distintos velhos amigos, aqueles que um dia, em nome da lenda chamada Bolívar, juraram libertar a Venezuela.
Fonte: Terra Magazine

Um comentário:

Miguel Grazziotin disse...

Caro Prof. Toni
Brilhante post.
Parabéns.