4.3.08

Luis Nassif x Veja

A série de matérias do Luis Nassif sobre o péssimo jornalismo (?) praticado por Veja continua. Para ter acesso a todos os texto é só clicar no link abaixo:
http://luis.nassif.googlepages.com/home

3.3.08

Pelas ruas de Havana

Nos períodos de folga em Cuba, passeamos livremente pelas "calles". Embora haja uma distinção nos serviços oferecidos aos turistas e aos cubanos não é difícil burlar os esquemas, uma vez que não existe rigidez nos controles.
O primeiro impacto é a arquitetura de Havana Velha. Deslumbrante!
O movimento de pessoas é intenso. Oferecem charutos, rum, afrodisíacos e outros “remédios”. Conversar com estas pessoas leva-nos a compreender melhor o período que o país atravessa. A conversa acontece fácil e com muita franqueza. Vários deles dominam mais de um idioma além do espanhol. São sempre atenciosos e simpáticos.
Encontramos muitas pessoas apaixonadas pelo "Sistema", defensores ardorosos da Revolução. Neste grupo estão principalmente aqueles que sentiram mais de perto as agruras de antes da Revolução. Entre os mais jovens há uma unanimidade: adoram CHÊ; muitos criticam o "Sistema", no tocante a ausência de liberdades individuais e a incapacidade de prover bens de consumo (principalmente roupas e tênis).
Deste segundo grupo é ilustrativo meu diálogo com um jovem nas proximidades do Centro de Convenções Pedagógicas. Ele me apontou muitos dramas para pessoas de sua faixa etária: dinheiro, moradia, sair do país etc. Demonstrou muita revolta, apesar de livrar a barra do Fidel, "a culpa do que acontece em Cuba é de seus assessores", disse o jovem.
Ele mora com sua avó, que é da "Santeira", equivalente na nossa umbanda à dona de terreiro, e uma irmã. Infelizmente no dia marcado para irmos a sua casa não foi possível, pois ele e um grupo de amigos foram presos por estarem "borrachos", às vésperas do Congresso Pedagogia 97, oferecendo charutos e rum em plena Vila Pan-americana.
Aos 17 anos tentou fugir e por isso foi preso por 2 anos. Ao sair tentou ingressar na Universidade, mas foi barrado, segundo seu depoimento, por ser "ingrato" com o "Sistema".
Diz ainda que sua noiva já fez três abortos, em razão de não terem possibilidade de casar, pois não têm casa. Esse detalhe é exemplar do problema habitacional existente em Cuba. Quando o questionei sobre métodos de contracepção ele alegou que os preservativos não são de boa qualidade e "incomodam".
Também ouvimos problemas relatados por motoristas de táxi (particulares) e vendedores.
Os problemas apontados por estas pessoas não são negados por aquelas outras. Mesmo nas defesas mais apaixonadas da Revolução não negam os problemas existentes na Ilha, mas dizem que as compensações são maiores, apontam o papel exercido pelos Estados Unidos – principalmente quanto ao Bloqueio – como fundamental para estes aspectos negativos.
Entre as pessoas que trabalharam diretamente conosco, ligadas ao Centro de Convenções Pedagógicas, também aparece esta clareza: os problemas não são negados.
Independente dos depoimentos o que mais me chocou foi a prostituição. Em Havana ela é descarada, chegando a ser agressiva, não só aos olhos.
Alegam os cubanos que, se acaso governo resolvesse por fim a prostituição o faria com muita presteza, usando da repressão, mas nestes tempos de abertura para o mundo, com o turismo assumindo o caráter de principal atividade econômica de Cuba, isso não pode ser feito. A repressão deve ser substituída pela educação, sob pena de se criar uma atividade nitidamente criminosa ao invés de coibir um problema econômico.
Dizem aqueles defensores da Revolução que em Cuba a população não passa por necessidades, sendo garantido a todas as pessoas a alimentação, educação, saúde, moradia, etc., mas sofre por não poder satisfazer desejos (considerados legítimos) tais como: roupas, tênis, eletrodomésticos, automóveis, ou coisas mais simples como "chicles" e "caramelitos".
Partilho desta opinião. Mesmo porque seria impossível a um povo faminto demonstrar a alegria que vimos nas ruas de Cuba, mesmo no "Camello" (ônibus) superlotado, na fila da gasolina ou da sorveteria.

(este texto foi escrito em março de 1997)

Que linda és Cuba VII - Ensino Superior

O ENSINO SUPERIOR

O que mais chamou a atenção em Cuba foi a separação existente entre o bacharelado e a licenciatura. Por exemplo: caso queira ser geógrafo, o caminho é a Universidade de Havana, no curso de Geografia, agora para ser professor de geografia deverá cursar um Instituto Superior Pedagógico, de onde sairá "Licenciado em Geografia".
E não se trata, como aqui no Brasil, de um profissional de "segunda linha". A formação de professor se dá em 5 anos de estudos (período integral), os estágios começam já no primeiro ano (um dia por semana na escola, observando), sendo que atingem, no mínimo, 3.500 horas ao final do curso.
Pudemos observar também a importância da pesquisa científica para os professores. São desafiados a sistematizar constantemente, investigando e buscando soluções para os problemas, tanto no campo teórico, como no prático.
Para as escolas técnicas os professores são formados num Instituto Superior Pedagógico especializado, dedicado somente às disciplinas profissionalizantes.
Também existe uma intensa relação entre estudo-trabalho. Todos os integrantes das escolas trabalham por um determinado período no campo, de forma coletivizada (organizados em brigadas).
Da mesma forma que no técnico profissionalizante, a escolha profissional do universitário deverá atender as necessidades da sociedade cubana dentro do planejamento estabelecido pelo governo.
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

2.3.08

Que linda és Cuba VI - Ensino Médio

O Subsistema de Educação Média

Neste subsistema temos o ensino secundário (preparatório para a universidade); o técnico profissionalizante e o operário.
Dentro de um critério de seletividade, onde se considera o aproveitamento do estudante, a partir do 9º ano ele poderá seguir três caminhos: cursar mais um ano, dentro da perspectiva de tornar-se um operário especializado (padeiro, por exemplo), ou cursar uma das profissões de técnico qualificado (mecânico); caso tenha um ótimo aproveitamento cursará a secundária rumo à universidade.
A opção profissional está intimamente ligada às necessidades do país, e da região mais especificamente. Assim, caso um aluno queira estudar mecânica de automóveis, mas dentro do planejamento local, as vagas já estiverem preenchidas, ele terá que escolher outra profissão. Como não há desemprego na Ilha não se permite a formação de excedente de mão-de-obra.
A escola profissionalizante ocupa-se também em reciclar os trabalhadores periodicamente.
Antes do "Período Especial" existiam 432 especialidades, hoje existem apenas 69. Tais modificações fizeram-se necessárias para adequações tecnológicas e também para adequação dos planos de estudos à nova realidade cubana.
Dentre estas 69 especialidades 53 são técnicos médios e 16 de obreiros qualificados, voltados para indústria, agropecuária, economia e serviços.
Existem 580 Centros (em 1959 existiam 6), com 21.300 professores, que são formados em Universidade Pedagógica específica para atuação nas escolas técnicas. Dos 580 Centros, 150 são agropecuários, 130 industriais, 92 de economia e serviços e 208 de ofícios (extremamente ligados às necessidades territoriais).
Nos planos de estudos é reservado 50% do tempo para as atividades práticas, sendo que naquelas escolas de formação do técnico especializado ele deve apresentar uma "tese" de conclusão de curso, revelando a importância reservada à pesquisa. Existem 112 planos de estudos diferentes, tendo em comum a obrigatoriedade do trabalho agrícola (para alunos, professores, funcionários, etc.), e a possibilidade do Diretor do Centro remanejar, de acordo com as características locais, 12 horas deste plano.
Este subsistema de ensino atende a 196.486 alunos, dos quais 24.506 são trabalhadores.
O ano letivo estende-se por mais de 230 dias, onde se incluem de 5 a 7 semanas no campo (trabalho agrícola) e aproximadamente 3 semanas para exames.
O pré-universitário estende-se do 10º ao 12º ano, e pode ser cursado nos IP (Instituto Pré-universitário Urbano), em regime de externato, ou no regime de internato no campo, nos IPUEC (Instituto Pré-Universitário em Campo).
Para aqueles alunos que demonstram talentos e habilidades acima da média existem as EVA (Escola Vocacional de Artes), IDE (Escola de Iniciação Desportiva) e o IPVCE (Instituto Pré-Universitário Vocacional em Ciências Exatas).
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

Que linda és Cuba V - Escolas especiais

O Subsistema de Educação Especial

Este subsistema tem como objetivo possibilitar aos alunos uma formação profissional que lhe permita uma incorporação ativa à sociedade.
Até 1959 existiam 14 instituições que atendiam 134 alunos. Hoje são 427 escolas especiais que atendem a 55.000 alunos.
Elas estão divididas em 2 grupos: específica e de trânsito.
As de trânsito são aquelas para onde vão os alunos com alguma dificuldade de aprendizagem ou de conduta, e que depois de corrigido o problema são reintegrados à escola "normal".
As específicas servem aqueles que tenham problemas graves, de deficiência mental, por exemplo, e que estão impossibilitados de incorporarem-se ao sistema convencional.
As escolas estão organizadas de modo a trabalhar com a família e a comunidade. Uma vez detectado o "problema" a família recebe uma preparação adequada para aprender a tratar com o "especial" bem como a comunidade.
A escola não tem na deficiência do educando sua preocupação central, mas sim nas suas potencialidades, e para elas são dirigidos os esforços dos educadores.
Os educadores que trabalham nas Escolas Especiais são todos licenciados, com 1 ano de pós-graduação por especialidade.
Além dos dois tipos de escolas já mencionados este sistema responde também pelo acompanhamento das crianças com distúrbios de linguagem que são tratadas nas escolas convencionais (34.000).
Interessante observar que dos alunos encaminhados às escolas transitórias somente 20 (no ano de 1996) necessitaram de um 2º retorno.
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

Que linda és Cuba IV - A educação primária

O Subsistema de Educação Primária

A educação primária está inserida dentro da Educación General Politécnica y Laboral, onde encontramos o maior número de educandos.
Tem como objetivos: formação integral da personalidade dos estudantes, conhecimentos elementares das mais diferentes matérias dos planos de estudo, sentimentos e convicções cívicas, cultura física, educação estética e educação para o trabalho.
Está dividida em três níveis:

- Enseñanza Primária (1º ao 6º)

- Enseñanza Média Básica (7º ao 9)

- Enseñanza Média Superior (10º ao 12º)

O ensino primário divide-se em dois ciclos: do 1º ao 4º ano, onde o professor é polivalente (exceto educação física e artes) e acompanha o aluno do início ao fim do ciclo, com três disciplinas: Língua Materna, Matemática e O Mundo Em Que Vivemos (noções básicas de Geografia, História e Ciências).
No 2º ciclo (correspondente ao 5º e 6º ano) os professores são dois (além dos específicos já mencionados): um para humanidades e outro para exatas, sendo introduzidas as disciplinas de História e Geografia de Cuba, Educação Cívica e Ciências Naturais.
A possibilidade de retenção pode ocorrer ao final do 2º e 4º ano do primeiro ciclo e ao final do 6º ano do 2º ciclo, sendo que nesta série a avaliação é elaborada pelo município.
Como princípio da educação cubana a avaliação é contínua e diagnóstica, cabendo ao professor resolver os problemas em sala da aula. Quando isso não é possível as escolas contam com apoio permanente de uma equipe composta por fonoaudiólogos, psicólogos, médicos, etc.
Estando o aluno enfermo, impossibilitado de ir à escola, há professores designados para acompanhá-lo, no hospital ou em casa.
Existem 7.403 escolas externas (aulas das 8 horas ao meio-dia e atividades após 14h30min até as 17 horas); 1.444 semi-externas (as crianças passam o dia todo na escola) e 86 internas (nas quais as crianças têm folgas nos finais de semana apenas). As escolas estão localizadas prioritariamente nas áreas rurais (75%).
Além destas existem Escolas de Iniciação Desportiva e Escolas Vocacionais de Arte, para onde são encaminhados os jovens que demonstram talentos especiais em alguma modalidade esportiva ou artística.
Hoje 100% das crianças entre 6 e 11 anos estão escolarizadas, sendo que 99,3% se mantêm na escola após o período obrigatório (até o 9º ano) e 98% concluem a secundária.
Cuba tem 1.044.573 alunos na escola primária, e, para atendê-los existem 1.611 pedagogos especializados, 64.603 docentes (77,2% com nível universitário), 1.139 fonoaudiólogos, 282 psicopedagogos, 13.252 auxiliares de ensino, além de especialistas de outras áreas.
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

1.3.08

Que linda és Cuba III - A pré-escola

Até o ano de 1959 (ano do Triunfo da Revolução como dizem os cubanos) o atendimento às crianças antes da idade escolar era realizado por entidades beneficentes, que atendiam aos órfãos e desamparados.
Nos anos 60 surge a Federação das Mulheres Cubanas, que passa a organizar as necessidades das mulheres, que passavam a incorporar-se ao mercado de trabalho.
Criam-se os "Circulos Infantiles" e, ao mesmo tempo, Escolas para formar diretoras e assistentes, recrutadas dentro da militância revolucionária.
Em 1971 é criado o "Instituto de la Infância", com dois objetivos básicos: educar a criança de forma integral e aperfeiçoar o pessoal docente.
Os Circulos constituem a via institucional que atende às mulheres trabalhadoras, preferencialmente professoras e médicas, somando hoje um total de 1.113 centros atendendo a 16% das crianças cubanas entre 0 e 6 anos.
Aqueles que não conseguem o acesso aos Circulos passam a integrar o programa "Educa a tu hijo", composto por 9 livretos que são desenvolvidos com a Coordenadora do Programa, estabelecida em um Circulo, durante encontros que se realizam a cada 2 semanas. Por este programa são atendidas 68,84% das crianças. Interessante que até os dois anos de idade a responsabilidade por aplicar o programa é do médico de família (nunca é demais lembrar que 99,9% dos partos são realizados em hospitais).
Englobando os dois modos de atendimento, 94,71% das crianças cubanas estão integradas ao Sistema Pré-Escolar. Percebe-se que ele tem um caráter diferente das nossas creches. Ao visitarmos uma pré-escola nos chamou à atenção a reprodução do ambiente doméstico (tanques de lavar, enceradeira, etc.) e de ambientes de trabalhos diversos. A diretora nos explicou que isso se enquadra dentro da filosofia da educação cubana: educar para o trabalho, e ali se demonstra que não existe trabalho de "mulheres" e trabalho de "homens", numa tentativa de se combater o machismo.
As crianças de diferentes idades convivem no mesmo ambiente, para que as mais novas aprendam com as mais velhas (pedagogia indígena).
Existe uma modalidade diferente chamada de "Circulos Infantiles de Educación Especial", destinada a atender crianças com "desvantagens sociais" (mães hospitalizadas ou presas, alcoólatras, crianças abandonadas). As crianças permanecem em período integral no Circulo e ao final do dia são recolhidas por "famílias substitutas".
O sistema conta com 14.549 docentes, sendo que mais de 80% tem nível universitário.
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

Que linda és Cuba II - O Sistema Nacional de Educação de Cuba

Cuba atravessa uma crise estrutural, fruto da derrocada do bloco socialista. Das trocas comerciais de Cuba, 85% eram realizadas com o mundo socialista.
Também o bloqueio americano é agressivo. Basta atentarmos para a tal Lei Helms-Burtton (clique aqui para ler a Lei – em espanhol – e aqui para ler sobre ela).
Em razão destes fatores Cuba não pode mais oferecer bolsas, como fazia até a década de 80, para os países da África e América Latina (prioritariamente).
Hoje os estudantes oriundos de outros países são mais uma fonte de renda para a combalida economia cubana.
Ainda assim, só para dar um exemplo, o curso de medicina (reconhecidamente uma especialidade de destaque mundial) completo custa US$ 53.000, aí inclusos material, alojamento e alimentação, para os estrangeiros, pois o cubano não desembolsa um só centavo pelo curso. Só para comparar: uma anuidade de uma faculdade mediana aqui na Região Sudeste do Brasil não sai por menos de US$ 20.000.
Embora o país tenha vivido uma situação de colapso total no início dos anos 90 - quando houve fome - não foi fechada uma única sala de aula ou policlínica e, embora tenha racionalizado seus gastos, isso não implicou em limitação do atendimento a população ou demissão de profissionais. Continuou garantindo o material necessário para o estudo (uniformes, cadernos, livros, etc.) de todos os alunos, em todos os níveis de ensino.
Hoje Cuba vive dentro do que chamam de "Período Especial em Tempos de Paz", exercitando todas as práticas envolvidas na preparação permanente que sempre tiveram para enfrentar uma eventual invasão militar norte-americana.
Os principais problemas de cunho operacional na educação são a falta de papel e grafite.
A educação em Cuba é democrática, estatal, laica, obrigatória (até o 9º ano), gratuita, e gerida de forma centralizada/descentralizada.
A escola é fator principal na articulação da sociedade, sendo prioritário o papel da família para oferecer a base a partir da qual se atinge a escola.
Tal situação não foi concedida pela natureza ou por milagre, mas é fruto de uma intensa preocupação que o governo revolucionário manifestava já durante a luta. Em cada território libertado, ainda durante a luta de guerrilha, criavam-se escolas.
Os sindicatos e outras organizações, tais como o CDR (Comitê de Defesa da Revolução), FMC (Federação das Mulheres Cubanas), FEU (Federação dos Estudantes Universitários) etc., participam ativamente do processo educacional, atuando diretamente nas escolas através de colegiados, e também da vida do país com assento no Conselho de Estado e demais instâncias de decisão.
Quando, em 1960, o governo resolveu combater o analfabetismo com toda a sua força, optou-se por atacar a causa maior do fenômeno: a falta de escola. No dia primeiro de janeiro de 1960, decorrido um ano da vitória revolucionária foram criadas 4.680 salas de aula, com vários quartéis sendo convertidos em escolas. Assim ocorreu a primeira garantia real de combate ao analfabetismo: escola para todos.
Em 1959 Cuba possuía aproximadamente 1.000.000 de analfabetos. Algo em torno de 27% da população. Na abertura da Assembléia Geral da ONU, Fidel anuncia que Cuba acabaria com o analfabetismo em 1 ano. Em 22/12/61 restava um analfabetismo de 3,2% da população, constituída, na sua maioria por pessoas muito idosas.
Nesse esforço de alfabetização foram envolvidas 77.000 pessoas, entre professores, alfabetizadores populares, brigadistas operários e estudantes. Quem sabia mais (não interessava o quanto mais) ensinava a quem sabia menos.
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

Que linda és Cuba - Relato de estágio educacional

Esta expressão é definitiva para se explicar a Ilha.
Descobri isso ao chegar no aeroporto José Martí, em Havana, como participante do 1º Estágio de Vivência Educacional em Cuba, promovido pelo SEMBRAR - Núcleo de Estudos de Educação Comparada da América Latina e Caribe e pelo Centro Acadêmico Paulo Freire da Faculdade de Educação da USP.
A este primeiro estágio, realizado em 1997, sucederam-se mais três, sempre por iniciativa dos estudantes de diversos cursos da USP.
Como marxista, formado numa fase de transição entre o Estalinismo dos anos 70 e as experiências democratizantes do "socialismo petista" dos anos 80, militante socialista, a ansiedade de conhecer o país que, durante muito tempo, embalou meus sonhos de um mundo mais justo e solidário era muito grande.
Consegui superar meu medo de avião (beirou o pânico), e ainda fazer um movimento mental extremamente complicado: despir-me de uma visão idealizada ao longo dos anos para, num grande exercício de vida, encontrar-me com o povo cubano.
A visão foi parcelar, pois nosso contato íntimo se deu com Havana, e assim como Brasília, ou São Paulo, não é o Brasil, embora seja o Brasil, Havana também não é Cuba, embora seja Cuba.
Conversar com pessoas que viveram a Revolução tomando em suas mãos o desafio de construir uma sociedade diferente, tendo "O Grande Irmão" a menos de 200 quilômetros do seu pequeno território, e ainda com transmissão de TV e rádio permanente, caracterizando uma verdadeira invasão territorial, é emocionante!
Os relatos que se seguem traduzem minhas impressões, coletadas nas ruas, visitas às escolas, conferências e andanças diversas.
É importante esta observação porque não submeti minhas anotações a nenhuma pesquisa bibliográfica, muito menos as comparei com escritos das outras pessoas que integravam o grupo.
Certo que partilhamos, durante a viagem, muitas de nossas impressões e discordamos de muitas coisas, mesmo porque dentre as pessoas que integravam o grupo o efeito do estágio se fez sentir de mil maneiras diferentes.
(este texto é parte do relato do estágio educacional que fiz em Cuba em 1997)

29.2.08

A Finlândia faz sucesso na educação

A Finlândia tem chamado a atenção do mundo em razão dos ótimos resultados dos seus estudantes em testagens internacionais, como o PISA (clique aqui para saber o que é PISA).
É comum que de tempos em tempos aconteçam revoadas de educadores – além de empresários da educação – brasileiros até as terras finlandesas tentando descobrir os segredos do sucesso desse pequeno país europeu.
Abaixo segue matéria publicada hoje no jornal Valor Econômico. Merece ser lida.


O que torna os adolescentes finlandeses tão inteligentes?

Ellen Gamermanvia Enriquez, The Wall Street Journal, de Helsinque, Finlândia

Aqui, estudantes de nível médio raramente têm mais de meia hora de dever de casa. Para os padrões do mundo desenvolvido, o sistema parece relaxado: os estudantes não usam uniforme, não há punição por atrasos nem programas especiais para alunos brilhantes. Quase não há exames padronizados, poucos pais arrancam os cabelos pensando na faculdade e as crianças só começam a ir à escola aos 7 anos.
Ainda assim, de acordo com um ranking internacional, os adolescentes finlandeses estão entre os mais inteligentes do mundo. Eles tiraram algumas das melhores notas entre estudantes de 15 anos de idade testados em 57 países. Em vários países de sistema mais rigoroso, como os Estados Unidos, as notas foram bem mais baixas, enquanto as médias dos brasileiros ficaram entre as dez - piores. E olha que os finlandeses vão à escola de cabelo tingido, usam vestido de alça no inverno (para parecerem mais fortes), adoram sarcasmo e curtem rap e heavy metal. Mas no nono ano escolar estão à frente em Matemática, Ciências e Leitura - a caminho de se tornarem alguns dos mais produtivos trabalhadores do mundo.
Os finlandeses atraíram atenção mundial com seu desempenho em testes trienais patrocinados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, um grupo financiado por 30 países que acompanha tendências sociais e econômicas. Na mais recente rodada de testes, estudantes da Financia ficaram em primeiro em Ciências e segundo em Matemática e Leitura, segundo resultados divulgados no fim do ano passado.
Computando-se as três notas, a Finlândia fica em primeiro lugar, embora os resultados não sejam divulgados dessa maneira, diz Andreas Schleicher, que dirige o Programa para Avaliação Internacional de Estudantes, conhecido como Pisa, sua sigla em inglês. O Brasil ficou em 49o no teste de Leitura, 52o no de Ciências e 54o no de Matemática. Cerca de 400.000 estudantes foram testados ao redor do mundo. O teste é feito com questões de múltipla escolha e redações que avaliam o pensamento crítico e a aplicação do conhecimento. Um exemplo de tema: "Discuta o valor artístico de pixações."
O desempenho escolar dos estudantes finlandeses tem atraído educadores de mais de 50 países que querem aprender o segredo do país. O que eles descobriram é simples, mas não fácil: professores bem treinados e crianças responsáveis. Logo cedo, as crianças fazem muitas coisas sem a supervisão de adultos. E os professores criam lições sob medida para seus estudantes. "Não temos petróleo ou outras riquezas. Conhecimento é o que o povo finlandês tem", diz Hannele Frantsi, uma diretora de escola.
Visitantes e professores em treinamento podem ver como isso é feito do balcão sobre uma classe na escola Norssi, em Jyväskylä, um cidade na área central do país. O que eles vêem é uma abordagem tranqüila e básica. A escola, que é um modelo, não tem adendos comuns em outros países no topo do ranking, como equipes esportivas e bandas.
Basta acompanhar a estudante Fanny Salo, de 15 anos, para ter uma idéia da simplicidade do currículo. Fanny é uma garota cheia de energia, que adora historinhas românticas, o seriado de TV "Desperate Housewives" e as lojas de roupas que visita com as amigas.
Fanny só tira nota A, e como não há classes especiais para estudantes de melhor desempenho, escreve em seu diário enquanto espera que os demais completem uma determinada tarefa. Ela costuma ajudar colegas que ficam para trás. "É bom ter tempo para relaxar um pouco no meio da aula", diz. Educadores finlandeses acreditam que obtêm melhores resultados quando se concentram nos estudantes mais fracos do que se ficarem cutucando os mais dotados para se destacarem dos demais. A idéia é que estudantes brilhantes podem ajudar os medíocres sem prejuízo de seu próprio progresso.
No almoço, Fanny e suas colegas saem da escola para comprar salmiakki, um alcaçuz salgado. Voltam para a aula de Física, que começa quando todos se aquietam. Professores e estudantes referem-se uns aos outros pelo primeiro nome. É proibido usar celular, iPods ou chapéus - e essa é praticamente a única regra da classe.
A Norssi é administrada como um hospital universitário, com cerca de 800 professores em treinamento a cada ano. Universitários trabalham com os estudantes enquanto instrutores ficam por perto, avaliando-os. É preciso mestrado para ser professor e a profissão é concorrida. Mais de 40 pessoas podem se candidatar para a mesma vaga. Os salários estão no nível do Primeiro Mundo, mas em geral eles têm mais liberdade na Finlândia.
Professores finlandeses escolhem livros e adaptam as lições para levar os estudantes aos padrões nacionais. "Na maioria dos países, educação parece uma fábrica de carros. Na Finlândia, os professores são empreendedores", diz Schleicher, da Pisa, que tem sede em Paris e começou a fazer os testes em 2000.
Uma explicação para o sucesso finlandês é sua paixão por leitura. O governo dá um pacote para os pais de recém-nascidos que inclui um livro de figuras. Algumas bibliotecas são anexas a shopping centers e há sempre uma biblioteca ambulante em todos os bairros.
A língua local só é falada aqui e até os livros em inglês mais vendidos são traduzidos muito depois do lançamento. Muitas crianças se esforçaram para ler o último Harry Potter em inglês porque tinham medo de que alguém lhes contasse o final antes que chegasse a versão em finlandês. Filmes e programas de TV têm legendas em vez de dublagem. Uma estudante universitária diz que se tornou uma leitora veloz na infância quando ficou viciada no seriado "Barrados no Baile".
Por essas e outras, o sistema finlandês é difícil de imitar. A população do país, de 5,3 milhões, é bastante homogênea e há pouca disparidade de educação e renda. O governo gasta, em média, US$ 7.500 por estudante. Os impostos são altos, mas o nível de renda permite às crianças se dedicar aos estudos sem precisar trabalhar. Faculdades são gratuitas. O padrão de vida é um dos mais altos do mundo.
Mesmo assim, os finlandeses também temem ficar para trás na economia global. Eles dependem de empresas de eletrônicos e telefonia, como a fabricante de celulares Nokia, e da indústria de celulose e papel para geração de empregos. Alguns educadores dizem que a Finlândia precisa acelerar o desenvolvimento de seus melhores estudantes, como se faz nos EUA, com programas voltados à formação de líderes.
Contudo, o sistema finlandês tem servido de exemplo ao redor do mundo. Numa palestra no Peru sobre como adotar os métodos de ensino finlandeses, o diretor de escola Tapio Erma contou a história de um estudante de nível médio que adormeceu na carteira durante uma aula de matemática avançada. O professor não o acordou. Embora cochilar na classe não seja aprovado, Erma diz: "Temos de aceitar o fato de que são crianças e estão aprendendo a viver."
Fonte: Valor Econômico - 29/2/08.

28.2.08

Chico de Oliveira e as eleições estadunidenses

Na Folha de S.Paulo (assinantes clicar aqui) de hoje, 28/2/08, Chico de Oliveira dispara sua artilharia, como sempre bem fundamentada e com alvos certos.


Obama, Tocqueville e a ilusão americana
FRANCISCO DE OLIVEIRA

Obama, com seu terninho correto que faz par com o tailleur de Hillary Clinton, é tão parecido com sua rival quanto o PT com o PSDB

TOCQUEVILLE ESTÁ entre os mais reputados teóricos da democracia, e seu livro clássico sobre a democracia na América em nada se parece com os tratados enfadonhos e formais sobre a forma de governo inventada pelos gregos da época clássica. Trata-se de investigação sobre os fundamentos, eu diria, sociológicos, da democracia nos EUA; nosso Sérgio Buarque de Holanda fez, com o também clássico "Raízes do Brasil", a explicação de por que a forma democrática é quase inviável em Pindorama.
Mais de um século depois, o belicista Churchill cunhou outro paradoxo, plagiando Tocqueville: a democracia é o pior de todos os regimes, salvo todos os outros. O velho leão britânico somente aprenderia a não incentivar guerras coloniais -"remember" a Guerra dos Bôeres- depois que o nazismo ameaçou liquidar a velha Albion e submeter o mundo ocidental a uma nova idade das trevas.
Barack Obama, parece, será o indicado pelos democratas para a disputa da Casa Branca, desbancando a chata da Hillary, coisa que talvez se defina logo no próximo dia 4. Para os leitores de Tocqueville, talvez sua eleição à mansão sem estilo da avenida Pensilvânia pareça realizar os prognósticos do nobre francês. Mas aqui entra o famoso paradoxo de Tocqueville, segundo o qual a ampla democratização torna banal a participação dos cidadãos e desinteressante a democracia.
O forte absenteísmo dos próprios norte-americanos às suas eleições presidenciais confirmaria o pessimismo tocquevilleano. Em termos schmittianos, a democracia de massas é não-agônica, onde não se decide nada. Não falta ao paradoxo de Tocqueville, como é óbvio, um certo desdém aristocrático, que o autor francês disfarça todo o tempo.
Uma crítica de direita se alinharia apressadamente ao paradoxo, desqualificando imediatamente a eleição do primeiro negro à Presidência dos EUA. Uma crítica pela esquerda vê o problema de outro ângulo: o paradoxo de Tocqueville não decorre da banalização da democracia pelo predomínio das massas, mas é um produto da colonização da política pela economia. Em outras palavras, o capitalismo, em sua fase globalitária, torna inútil a política e irrelevante a participação dos cidadãos. Nos EUA, é certo que decisões como a invasão do Iraque foram até mesmo planejadas no Salão Oval, mas antes o celerado Bush filho teve que pedir permissão a Alan Greenspan, o ex-todo-poderoso presidente do Fed; aliás, esse senhor atravessou os dois mandatos de Clinton e entrou pelo mandato de Bush adentro, somente renunciando um ano e meio atrás, e os norte-americanos nunca votaram nele para coisa alguma. E o Senado norte-americano, que ratifica as indicações presidenciais, faz-lhe uma argüição que é tão contestadora quanto os programas de Silvio Santos. Isso é a colonização da política pela economia.
Entre nós, mesmo a própria democratização brasileira, de que o PT foi co-autor importante, é hoje irrelevante: em lugar da transformação prometida pelos longos anos da "invenção democrática", o PT e Lula transformaram-se em fiadores do capitalismo globalitário no Brasil. Vejam-se, como já se salientou aqui mesmo nesta Folha, os lucros do sistema bancário brasileiro e o tratamento do social: meros R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, o ai-jesus de Lula e do lulo-petismo, e R$ 160 bilhões de juros da dívida pública interna. Ou em 2007, os R$ 20 bilhões do lucro dos quatro maiores bancos contra os R$ 21 bilhões de todo o Orçamento social de Lula (incluindo-se seguridade social, Bolsa Família et al).
Tomara que Obama desminta o paradoxo de Tocqueville; tomara que suspenda imediatamente o odioso embargo contra Cuba, aproveitando inclusive a oportunidade da retirada de Fidel da linha de frente do governo cubano; tomara que retire as tropas do Iraque, terminando de vez com esse desastre anunciado; tomara que retome a linha de um Jimmy Carter, não apoiando as ditaduras e o descarado intervencionismo gringo; tomara que inaugure uma linha próxima do New Deal rooseveltiano e detenha o empobrecimento das classes populares norteamericanas e a crescente desigualdade; tomara que um desastre como o Katrina não possa outra vez expor a olho nu a produção desapiedada da pobreza, escondida no charme da outrora francesa Nova Orleans. Tomara. Mas que é improvável, é. Ele é tão parecido com a Hillary, com seu terninho correto que faz par com o tailleur da ex-primeira-dama, quanto o PT com o PSDB. Tocqueville ri na tumba?

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FRANCISCO DE OLIVEIRA, 74, é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Territórios de Cidadania

O governo federal apresenta um novo conceito de gestão na área social: Territórios de Cidadania.
O projeto parece resgatado daqueles bons tempos do PT entranhado nos movimentos sociais e grávido da mais bela e pura democracia.
Se vamos passar da idealização para a realização são outros quinhentos e só o tempo responderá.
O Valor Econômico de hoje publica excelente texto de autoria de Maria Inês Nassif. A leitura compensa:


Política vai parar de ganhar com a miséria

Nos primeiros dois anos de governo, os efeitos do Bolsa Família passaram batido. Em parte, por conta de uma reconhecida incapacidade do primeiro governo Lula de divulgar seus feitos. Mas, além disso, pela tendência dos brasileiros "de bem" de subestimarem a extensão da miséria brasileira. E o Brasil é tão pobre e tão desigual que um simples programa de transferência de renda teve enorme impacto sobre a vida das famílias pobres. O país que lê e tem emprego só entendeu a extensão dos resultados do Bolsa Família quando as pesquisas eleitorais, no auge do escândalo do mensalão, passaram a dar a dianteira ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre qualquer candidato oposicionista, apesar de ter sido mantido durante longo período sob o fogo cerrado da oposição.
Lula teve uma retumbante vitória, em 2006, nos bolsões de pobreza e nos Estados mais pobres da Federação - os mais beneficiados pelo programa de transferência de renda. Mas os efeitos políticos do Bolsa Família devem transcender uma eleição (a de 2006) e um presidente (Lula). As eleições de 2006 desarrumaram o arranjo tradicional, onde os chefes políticos locais levam o rebanho até o candidato apoiado pelo chefe estadual e este, por sua vez, negocia favores da política nacional. Esse desarranjo foi favorecido não apenas pelo Bolsa Família, mas também pela universalização do uso da urna eletrônica, guardiã do segredo do voto. Como o chefe político local não era o dono do benefício concedido ao pobre - que vinha na forma de um cadastramento feito pela prefeitura, mas que depois se tornava uma relação entre o beneficiado e o banco onde ele recebe o dinheiro - não era também aquele a quem se deveria retribuir com o voto. Aconteceu de forma bastante ampla, em 2006, uma inversão do que ocorria tradicionalmente: em vez do chefe local dizer em quem o eleitor teria que votar - e já não teria total controle sobre esse voto, que é eletrônico -, foi o chefe quem correu atrás do candidato do cidadão pobre. Lula conseguiu apoios nada desprezíveis de prefeitos de todos os partidos. E certamente não foi porque os prefeitos tinham se tornado petistas. Eles simplesmente adiaram um confronto com seus eleitores - reconciliaram-se com eles por meio de uma adesão pontual ao candidato à reeleição para a Presidência.
O efeito Bolsa Família, que foi tão desprezado até o início do processo eleitoral de 2006, é hoje um risco para os políticos tradicionais. A oposição não pode falar contra o programa de transferência de renda - isso é evidentemente impopular -, mas cristalizou uma clara aversão a programas sociais mais amplos, em especial os saídos da lavra deste governo. Não é de se estranhar a reação pronta do ex-PFL, hoje DEM, que promete sustar o programa Territórios da Cidadania na Justiça, por ter sido lançado em ano eleitoral - o que o tornaria ilegal.
O programa anunciado por Lula pode até surtir efeitos eleitorais, mas a sua única novidade - e boa novidade, aliás - é a ação integrada de programas já existentes, em bolsões de pobreza localizados na área rural. O que o governo anunciou, na verdade, foi um conceito de gerência de programas sociais que já se antevia no Bolsa Família, que agregou na sua origem vários programas dispersos, e nas ações do Ministério do Desenvolvimento Social, que articula ações de vários ministérios.
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Territórios da Cidadania são conceito gerencial
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No caso do Territórios da Cidadania, a coordenação é do Ministério do Desenvolvimento Agrário, mas até o Ministério da Cultura está envolvido. E tem uma lógica que não é simplesmente eleitoral: é voltado para as populações agrárias porque elas são as que vivem nas regiões de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do país; atende localidades mais beneficiadas pelo Bolsa Família porque esse é um indicador de miséria; atendem a um planejamento local, feito por colegiados, onde estão representados também prefeitos e representantes dos governos estaduais, além das comunidades. Teoricamente, o fato de abrigar nos colegiados os prefeitos, independente do partido a que pertençam, despem o programa de caráter eleitoral. Mas, na prática, esses colegiados tiram do prefeito, ou dos deputados que são eleitos por essa população, a "autoria" do benefício à comunidade. Os colegiados são a antiemenda parlamentar. Do outro lado, podem diluir a responsabilidade do governo federal sobre os programas, já que todas as unidades da federação estão lá representadas. O jogo está zerado, portanto. O que definirá o voto desses eleitores é como os políticos se adeqüam a uma realidade onde gradativamente são trazidos ao mercado de consumo um grande número de brasileiros, que a partir de então passam a ter novas exigências que não a sobrevivência imediata.
Há um enorme ganho, inclusive fiscal, nesse conceito gerencial. Atender uma região com o Pronaf sem que a agricultura familiar tenha assistência técnica, ou infraestrutura para escoamento da produção, ou mesmo educação para trazer a economia de subsistência para o capitalismo, é jogar o Pronaf fora. Dar Bolsa Família sem viabilizar à agricultura familiar uma atividade produtiva é eternizar o Bolsa Família. Incentivar o beneficiamento da produção em cooperativa sem que a região tenha luz elétrica é jogar produção no lixo. Miríade de programas sociais que não se integram jogam dinheiro público fora e não alteram em nada a vida da população.
Fora alguns conselhos que já se reuniram para debater a prioridade de seus Territórios de Cidadania, ele ainda é uma intenção. Se o governo Lula tiver capacidade para implantar esse modelo gerencial de programas sociais, será um ganho para o país. Isso é com o Executivo. Quanto aos políticos, o que eles devem fazer, se a intenção declarada do governo tornar-se de fato um programa bem-sucedido, é repensar a forma de arregimentar eleitores. Ações que desintermediam o voto podem até beneficiar um primeiro governo, aquele que o implantou (e esse efeito pode ter ocorrido já no passado, na reeleição de Lula), mas depois passam a ser neutras politicamente. Daí, ganha votos quem fizer a melhor política.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras
maria.inesnassif@valor.com.br
Fonte: Valor Econômico - 28/2/08.

26.2.08

Padre Júlio Lancelotti: dois pesos e várias medidas na Folha de S.Paulo

Reproduzo abaixo parte da coluna do ombudsman da Folha de São Paulo do último domingo. Como a FSP mantém seu acesso restrito aos assinantes, o tal texto pode ser encontrado no Observatório da Imprensa, basta clicar aqui.
Particularmente no caso do Pe. Júlio Lancelotti eu já havia me manifestado aqui neste blog no texto Notícia discreta sobre Padre Júlio Lancelotti e Jornalismo de péssima qualidade, além de outros artigos dando voz à defesa do Padre e questionando o linchamento público ao qual ele era submetido.
Pois bem, quando o Ministério Público constata que ele foi vítima de crime e não autor, a Folha oculta a notícia num rodapé de página. É esse tipo de jornalismo que me enoja.
A Folha, e os outros órgãos de imprensa também, o faz por “Ibope”? Ou será simplesmente o mau-caratismo da manipulação barata?
Com vocês a palavra do ombudman da Folha de São Paulo:


FOLHA DE S. PAULO
Mário Magalhães

"Somos todos ombudsmans", copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 24/2/08

"Ao observar o insucesso dos apelos para que a seção de cartas honre o nome, um leitor escreveu em novembro: ´A atual polêmica sobre o ´Painel do Leitor` só vem confirmar que ombudsman de jornal é igual a peito de homem, não serve para nada. Os leitores reclamam, o ombudsman encaminha, e a Redação ignora ou dá uma resposta mal-educada´.
Matutei e não vislumbrei, de fato, serventia do meu peito (a não ser para ´matar` a bola). E há jornadas em que, como ombudsman, sucumbo à síndrome do peito de homem, o sentimento de inutilidade. Como na edição de anteontem.
Eu renovara recomendações para que a Folha reencontrasse o equilíbrio na cobertura sobre acusações contra o padre Júlio Lancelotti. Notícia ruim para ele tinha destaque; boa, não. Na sexta-feira, ocultou-se em rodapé de página a conclusão do Ministério Público de que o religioso foi vítima de extorsão, e não autor de crime.

Entrevista de Evo Morales ao "Il Manifesto"

Entrevista preciosa de Evo Morales ao jornal italiano “Il Manifesto”, está traduzida no portal da Agência Carta Maior.


ENTREVISTA – EVO MORALES

“O embaixador dos EUA lidera a conspiração contra meu governo”

Presidente da Bolívia acusa embaixador dos Estados Unidos no país de conspirar contra o governo e de tentar repetir no país "o que fizeram no Kosovo". Evo Morales revela que camponeses e indígenas já pediram armas para defender o governo, mas defende revolução pelas urnas e não pelas armas.

Pablo Stefanoni - La Paz*

Às sete da manhã, o Palácio Quemado já está um formigueiro e os ministros devem ter paciência para conversar com o chefe de Estado. “É assim mesmo”, diz um embaixador com experiência na dinâmica “evista” a um ministro novato no gabinete que se impacienta com a demora de Evo Morales em chegar a uma reunião com exportadores.

Em um intervalo de alguns minutos, o líder cocalero conversou com Il Manifesto sobre temas da atualidade nacional e internacional. Enquanto tomava um suco de mamão, acusou o embaixador dos Estados Unidos, Philip Goldberg, de conspirar contra seu governo e de tentar repetir na Bolívia “o que fizeram no Kosovo”. Admite que camponeses e indígenas pediram armas para defender o governo diante das demandas autonomistas de Santa Cruz. E assinala que, se o diálogo não avançar, a saída será convocar um referendo revogatório para o presidente e os governadores, “para que o povo diga a quem apóia”.

Il Manifesto: Como é possível retomar o diálogo com os governadores opositores?
Evo Morales: Nós apostamos na autonomia. No referendo de 2006, a maioria dos bolivianos disse “Não”, mas em quatro regiões ganhou o “Sim”. Por isso garantimos autonomias na nova Constituição e sinto que é necessário criar um espaço no Poder Executivo, um ministério de Autonomias que comece a construir com os movimentos sociais uma autonomia baseada na legalidade e na solidariedade entre regiões. Mas alguns grupos confundem autonomia com separação ou independência.

Il Manifesto: Santa Cruz segue avançando direção de seu referendo autonomista de 4 de maio...
Evo Morales: Gostaríamos que parassem para que pudéssemos avançar juntos.

Il Manifesto: Se o diálogo fracassar segue valendo a proposta do referendo revogatório?
Evo Morales: Exato. Por isso dissemos que apostamos nas urnas e não nas armas.

Il Manifesto: Mas admitiu também que alguns setores campesinos pediram armas para defender o governo. Como é isso?
Evo Morales: Recebi algumas ligações telefônicas e sou transparente. Comentei com a imprensa que tergiversou sobre minhas declarações. Preocupou-me bastante receber chamadas de companheiros do campo e da cidade que me disseram textualmente: “Irmão presidente, quando era dirigente sindical você se fez respeitar, agora nós faremos respeitar, nos dê armas”. Eram fortes as chamadas. Em um certo momento tive que desativar meu celular, que atendo só de madrugada.

Il Manifesto: E qual foi sua resposta a esses pedidos?
Evo Morales: Por certo não estamos de acordo com isso. Disse que é preciso fazer uma revolução nas urnas e não com armas, e estamos cumprindo isso. Mas as agressões e humilhações causam estas reações em nossos companheiros. Inclusive houve uma marcha a La Paz pedindo-me armas. Tudo isso é provocado por uma direita racista que já me chamou de macaco. E se tratam o presidente como um animal, o que podem esperar os camponeses e indígenas?

Il Manifesto: O Senhor se referiu ao Kosovo. Crê que pode ocorrer o mesmo na Bolívia?
Evo Morales: Quero que o mundo inteiro saiba é que há uma conspiração contra minha pessoa encabeçada pelo embaixador dos Estados Unidos (Philip Goldberg). Perguntemo-nos de onde veio o embaixador estadunidense (que atuou no Kosovo). Não vamos permitir que os Estados Unidos sigam conspirando para dividir a Bolívia com grupos oligárquicos e mafiosos. Se os EUA lutam contra a corrupção e a injustiça por que não extraditam o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada? (acusado por quase uma centena de mortes, produto da repressão na “guerra do gás” de 2003). Quando os povos se levantam, estas autoridades pró-império e pró-capitalistas correm para onde isso ocorre. Quando já não podem dominar, porque há democracias libertadoras e não comprometidas, os EUA fomentam a divisão.

Il Manifesto: Considera encerrado, com as desculpas do embaixador, o caso da utilização de bolsistas como informantes?
Evo Morales: O senhor Vincent Cooper (funcionário da segurança da embaixada dos EUA) é persona non grata para a Bolívia e o assunto está sendo investigado. Hoje sabemos que utilizam seus estudantes, que vêm com vontade de aprender, para fazer espionagem. Descobrimos até que a polícia boliviana fazia espionagem e perseguições para a embaixada-norte-americana.

Il Manifesto: Acredita que uma vitória democrata nos EUA poderia melhorar as relações?
Evo Morales: Entendo que há políticas de Estado nos EUA, mas gostaríamos que começassem a respeitar os direitos humanos e os processos de libertação e as transformações profundas que estão ocorrendo na América Latina. Para isso, devem pôr fim à prática da espionagem, da tentativa de submissão e da soberba. O ex-embaixador Manuel Rocha chamava-me de Bin Laden.

Il Manifesto: Como viu a saída de Fidel Castro do poder?
Evo Morales: Como o Che, Fidel é um símbolo imbatível para toda a humanidade. É um homem histórico. Em minhas conversas de horas e horas com Fidel ele sempre me falava da vida, da saúde e da educação Hoje isso se materializou na Bolívia com a Operação Milagre, com mais de 100 mil pessoas operadas dos olhos gratuitamente. Ficará um grande vazio.

* Entrevista publicada originalmente em Il Manifesto, Itália

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

23.2.08

Ainda sobre Fidel

Recebi de um prezado amigo o texto abaixo. Mandou-me por e-mail, comentando o texto "Viva Fidel":
Faço meu seu pensamento e acrescento o orgulho que levo comigo por ter em 1981 cumprimentado o comandante, assim como podido conviver durante 2 meses com a realidade que, na época, foi um sonho realizado. Muito se falará a favor e, no "chamado mundo democrático" , contra Fidel Castro Ruz, entretanto, é inegável sua luta abnegada e vibrante contra as grandes injustiças da humanidade e a favor de uma Cuba sem analfabetismo, com saúde e educação de qualidade para todos.
Uma vez, lá em Cuba, cruzei com um grupo de crianças, carregando uma bola, a caminho de um campo de futebol para uma pelada. Paramos todos e conversamos um pouco, enquanto um amigo gravava os depoimentos dos garotos a respeito da vida lá. Após um tempo de perguntas e respostas, um garoto tomou o microfone e deu um depoimento com o seguinte teor: " Eu gostaria que as crianças do Brasil pudessem ter a a vida que nós temos aqui em Cuba". Emocionante pela verdade da mensagem, espontaneidade e generosidade do garoto.
Fico feliz com a aposentadoria de Fidel. Sua participação no trabalho de tentar melhorar o mundo foi realizado.
José Ricardo Marcondes Paim

21.2.08

Mensagem de Fidel Castro, como foi publicada

Mensaje del Comandante en Jefe


Queridos compatriotas:

Les prometí el pasado viernes 15 de febrero que en la próxima reflexión abordaría un tema de interés para muchos compatriotas. La misma adquiere esta vez forma de mensaje.

Ha llegado el momento de postular y elegir al Consejo de Estado, su Presidente, Vicepresidentes y Secretario.

Desempeñé el honroso cargo de Presidente a lo largo de muchos años. El 15 de febrero de 1976 se aprobó la Constitución Socialista por voto libre, directo y secreto de más del 95% de los ciudadanos con derecho a votar. La primera Asamblea Nacional se constituyó el 2 de diciembre de ese año y eligió el Consejo de Estado y su Presidencia. Antes había ejercido el cargo de Primer Ministro durante casi 18 años. Siempre dispuse de las prerrogativas necesarias para llevar adelante la obra revolucionaria con el apoyo de la inmensa mayoría del pueblo.

Conociendo mi estado crítico de salud, muchos en el exterior pensaban que la renuncia provisional al cargo de Presidente del Consejo de Estado el 31 de julio de 2006, que dejé en manos del Primer Vicepresidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. El propio Raúl, quien adicionalmente ocupa el cargo de Ministro de las F.A.R. por méritos personales, y los demás compañeros de la dirección del Partido y el Estado, fueron renuentes a considerarme apartado de mis cargos a pesar de mi estado precario de salud.

Era incómoda mi posición frente a un adversario que hizo todo lo imaginable por deshacerse de mí y en nada me agradaba complacerlo.

Más adelante pude alcanzar de nuevo el dominio total de mi mente, la posibilidad de leer y meditar mucho, obligado por el reposo. Me acompañaban las fuerzas físicas suficientes para escribir largas horas, las que compartía con la rehabilitación y los programas pertinentes de recuperación. Un elemental sentido común me indicaba que esa actividad estaba a mi alcance. Por otro lado me preocupó siempre, al hablar de mi salud, evitar ilusiones que en el caso de un desenlace adverso, traerían noticias traumáticas a nuestro pueblo en medio de la batalla. Prepararlo para mi ausencia, sicológica y políticamente, era mi primera obligación después de tantos años de lucha. Nunca dejé de señalar que se trataba de una recuperación "no exenta de riesgos".

Mi deseo fue siempre cumplir el deber hasta el último aliento. Es lo que puedo ofrecer.

A mis entrañables compatriotas, que me hicieron el inmenso honor de elegirme en días recientes como miembro del Parlamento, en cuyo seno se deben adoptar acuerdos importantes para el destino de nuestra Revolución, les comunico que no aspiraré ni aceptaré- repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe.

En breves cartas dirigidas a Randy Alonso, Director del programa Mesa Redonda de la Televisión Nacional, que a solicitud mía fueron divulgadas, se incluían discretamente elementos de este mensaje que hoy escribo, y ni siquiera el destinatario de las misivas conocía mi propósito. Tenía confianza en Randy porque lo conocí bien cuando era estudiante universitario de Periodismo, y me reunía casi todas las semanas con los representantes principales de los estudiantes universitarios, de lo que ya era conocido como el interior del país, en la biblioteca de la amplia casa de Kohly, donde se albergaban. Hoy todo el país es una inmensa Universidad.

Párrafos seleccionados de la carta enviada a Randy el 17 de diciembre de 2007:

"Mi más profunda convicción es que las respuestas a los problemas actuales de la sociedad cubana, que posee un promedio educacional cercano a 12 grados, casi un millón de graduados universitarios y la posibilidad real de estudio para sus ciudadanos sin discriminación alguna, requieren más variantes de respuesta para cada problema concreto que las contenidas en un tablero de ajedrez. Ni un solo detalle se puede ignorar, y no se trata de un camino fácil, si es que la inteligencia del ser humano en una sociedad revolucionaria ha de prevalecer sobre sus instintos.

"Mi deber elemental no es aferrarme a cargos, ni mucho menos obstruir el paso a personas más jóvenes, sino aportar experiencias e ideas cuyo modesto valor proviene de la época excepcional que me tocó vivir.

"Pienso como Niemeyer que hay que ser consecuente hasta el final."

Carta del 8 de enero de 2008:

"...Soy decidido partidario del voto unido (un principio que preserva el mérito ignorado). Fue lo que nos permitió evitar las tendencias a copiar lo que venía de los países del antiguo campo socialista, entre ellas el retrato de un candidato único, tan solitario como a la vez tan solidario con Cuba. Respeto mucho aquel primer intento de construir el socialismo, gracias al cual pudimos continuar el camino escogido."

"Tenía muy presente que toda la gloria del mundo cabe en un grano de maíz", reiteraba en aquella carta.

Traicionaría por tanto mi conciencia ocupar una responsabilidad que requiere movilidad y entrega total que no estoy en condiciones físicas de ofrecer. Lo explico sin dramatismo.

Afortunadamente nuestro proceso cuenta todavía con cuadros de la vieja guardia, junto a otros que eran muy jóvenes cuando se inició la primera etapa de la Revolución. Algunos casi niños se incorporaron a los combatientes de las montañas y después, con su heroísmo y sus misiones internacionalistas, llenaron de gloria al país. Cuentan con la autoridad y la experiencia para garantizar el reemplazo. Dispone igualmente nuestro proceso de la generación intermedia que aprendió junto a nosotros los elementos del complejo y casi inaccesible arte de organizar y dirigir una revolución.

El camino siempre será difícil y requerirá el esfuerzo inteligente de todos. Desconfío de las sendas aparentemente fáciles de la apologética, o la autoflagelación como antítesis. Prepararse siempre para la peor de las variantes. Ser tan prudentes en el éxito como firmes en la adversidad es un principio que no puede olvidarse. El adversario a derrotar es sumamente fuerte, pero lo hemos mantenido a raya durante medio siglo.

No me despido de ustedes. Deseo solo combatir como un soldado de las ideas. Seguiré escribiendo bajo el título "Reflexiones del compañero Fidel" . Será un arma más del arsenal con la cual se podrá contar. Tal vez mi voz se escuche. Seré cuidadoso.

Gracias


Fidel Castro Ruz

18 de febrero de 2008

5 y 30 p.m.

Fonte: http://www.nnc.cubaweb.cu

20.2.08

Minha terra tem palmeiras e outros falantes!

Outro dia pedi a contribuição do colega José Ronaldo, doutor nas artes do falar bem, para que ele iluminasse as trevas do debate sobre a correção no falar nossa língua pátria. Por conta da crítica do Farol de Alexandria (by PHA), também conhecido como FHC à suposta ignorância do presidente Lula e também por conta dos preciosismos que tal discussão lançou na mídia nativa.
Agradeço-lhe imensamente a contibuição.
Eis:

Não faz muito tempo que as enfadonhas aulas de português eram aulas exaustivas de exposições de conteúdos GRAMÁTICA. Ou seja, aula de análise sintática. Localizar o sujeito, o adjunto adverbial, as funções inúmeras – 23? – do quê e do se e mais uma penca de termos soltos em frases e orações escritas em manuais puramente para este fim. A hegemonia da frase, geralmente, separada e desligada do mundo, da vida, do aluno, e, claro, do bom senso. Era como se vivêssemos num tempo ainda regido pelas discretas ordenações manoelinas, joaninas ou felipinas.
Contudo, com a universalização da educação, com o desenvolvimento de pesquisas sócio-lingüísticas e com a democratização ocorrida no país pós década de 80 a prática de ensino da língua passou por profundas transformações. Sendo assim, o avanço de tais pesquisas e de outros estudos sobre conexão entre linguagem, pensamento e mundo, já no início do século 20, começaram a derrubar os seculares dogmas gramaticais comprovando os mais vivazes preconceitos lingüísticos.
Além disso, também se evidenciou que a GRAMÁTICA apresenta apenas uma variedade padronizada do português - mas não a única – e nem sempre com sustentação científica. Neste sentido, o ensino da língua materna na escola dificultou, e muito, a formação de leitores e produtores de textos competentes. Porém, se, indiretamente ou diretamente, emperrou o desenvolvimento da cidadania, nem tanto prejudicou o mercado do ensino da língua.
A última década foi promissora aos empresários do idioma pátrio. O mercado de dvds, cds e manuais ensinando “a falar bem” rendeu alguns milhões de direitos autorais bem como aplausos e honrarias às celebridades da vez. Nunca falar correto foi tão lucrativo para alguns. A mídia mais festiva inclusive publicou no ano passado a quantidade exata de palavras que cada profissional de sucesso deverá dominar a fim de alcançar a glória. Por isso, caso o cidadão comum "queira estar se encaminhando" para realização financeira, não "poderá estar abrindo" mão do vocabulário pátrio. Mesmo se no meio do caminho tiver uma pedra, remova-a e faça parte do seleto grupo de empreendedores e vencedores, não se esquecendo de adquirir, com todo conforto e segurança, o mais novo dvd interativo com músicas e questões de gramática facilmente memorizáveis.
Contra aqueles que fugiram das aulas de análise sintática ou aqueles que não freqüentaram a escola, ou ainda contra os que não aprenderam a ordem dos termos da oração, coube os mais impiedosos preconceitos. Fulano não sabe falar; ou beltrano não leu os clássicos literários; ou sicrano não concorda sujeito e predicado. Por isso, tais “cidadões” são de uma classe inferior e são inferiores por não saberem falar e escrever corretamente.
A compreensão das relações entre texto e discurso e, como já dito antes, a formação de leitores e produtores competentes de enunciados e textos articulados com a cultura contemporânea devem ser os principais objetivos da escola que queira interromper o caminho da exclusão social e promover a inclusão de fato. O reconhecimento da língua como fundamento da subjetividade humana e elemento constituinte da identidade do sujeito permanece como o alvo de qualquer programa de ensino de língua materna que leve em conta os princípios básicos de uma verdadeira cidadania. A língua pertence aos falantes e seu ensino caminha junto com a prática da escrita e da leitura, prática essa o objetivo da aula de português.


Prof. José Ronaldo

19.2.08

Viva Fidel!

Afasta-se o mito. O homem sobreviverá por quanto tempo ainda?
Fidel, Che, Camilo, Raúl e tantos outros heróis e heroínas da Revolução Cubana povoaram meu imaginário, meus sonhos e desejos de um mundo menos desigual.
Não sou daqueles que santifica ou glorifica Cuba, afinal ela é produto das batalhas de homens e mulheres e assim sendo contém erros e acertos.
Penso que mais acertos do que erros. Basta caminhar por Havana e conversar com o povo.
Estive em Cuba em 1997, estagiando na área de educação e tentando conhecer um pouco daquela realidade.
Caminhei livremente pelas ruas, sem policiais a me perseguir ou espionar meus amigos cubanos.
Um desses amigos disse-me um dia: “o povo cubano não passa necessidades, mas não pode suprir todos os seus desejos e desejos são, quase sempre, legítimos para os seres humanos”.
Falamos livremente sobre tudo: futebol, beisebol, religião, política e geografia.
Ouvi muitas piadas sobre Fidel e, confesso, adaptei algumas para usar contra o FHC.
Entrei nas escolas. Vi o que eles fizeram no seu sistema educacional.
Visitei Policlínicas e a Vila Pan-Americana.
Quando voltei, chorei muito.
Perguntava-me, e pergunto-me até hoje, como é que o nosso país, incomparavelmente mais rico do que a Ilha, não resolveu ainda os problemas básicos da população, como educação e saúde?
Claro que sabemos, todos nós, a resposta.
Fidel liderou uma revolução. De um punhado de homens e mulheres em Sierra Maestra até o poder. Ele e Ernesto Che Guevara encarnaram essa Revolução como poucos!
Enfrentou, de pé, apesar das 638 vezes que os EUA tentaram matá-lo, o grande irmão do Norte sem dobrar os joelhos ou a consciência.
O fim da URSS foi um duro golpe e muitos apostaram no fim da Revolução.
Algumas rotas foram alteradas e ela se manteve. Voltou-se para o turismo e abriu-se para o mundo.
Cuba jamais voltará a ser o que era antes da Revolução. Os estadunidenses não conseguirão produzir outro Fulgêncio Batista, mesmo que lustrado no MIT.
Qual o socialismo persistirá? Não sei.
Raúl será o provável sucessor. Não por se irmão de Fidel, mas ter combatido a luta revolucionária e ter participado de todos os momentos da construção da Cuba socialista, treinando e preparando uma das mais eficientes forças armadas da América.
O povo cubano tem treinamento militar no fim da escola básica. Os CDR – Comitê de Defesa da Revolução – possuem armas. Já imaginaram o povo brasileiro com treinamento militar e armas ao alcance das mãos?
Fidel é amado pela maioria do seu povo. A revolução é amada pela maioria do povo cubano.
O povo cubano saberá conservá-la, consertá-la e seguir adiante, sem a intromissão dos abutres do Norte ou de qualquer outro canto.
Eu o admiro, sem ignorar aquilo que considero seus erros.
Viva Fidel!

Fidel Castro renunciou

O FUTURO DE CUBA

Não haverá um substituto para Fidel

Não pode haver um substituto para Fidel. Não apenas por suas qualidades como líder, mas porque as circunstâncias históricas nunca serão as mesmas. Fidel presenciou tudo desde a revolução cubana até a queda da União Soviética, e décadas de confronto com os EUA. A análise é de Ignácio Ramonet.

Ignácio Ramonet*

A longa e extraordinária carreira política de Fidel Castro chegou ao fim - pelo menos no que se refere à presidência. Mas sua enorme influência irá continuar viva. Suas colunas regulares para o Granma, o jornal do Estado - para onde ele continuou escrevendo durante sua doença - irá continuar. Apenas agora, a assinatura será alterada - ao invés das reflexões do comandante chefe, agora será velho camarada Fidel. Os cubanos e observadores internacionais em geral continuarão lendo.
Não pode haver um substituto para Fidel. Não apenas por suas qualidades como líder, mas porque as circunstâncias históricas nunca serão as mesmas. Fidel presenciou tudo desde a revolução cubana até a queda da União Soviética, e décadas de confronto com os Estados Unidos. O fato dele se afastar em vida irá ajudar a assegurar uma transição em paz. O povo cubano agora aceita que o país ainda pode ser conduzido no mesmo caminho, mas por um time diferente. Há um ano e meio, eles estão se acostumando com a idéia, enquanto Fidel permaneceu teoricamente como presidente. Como sempre, Fidel era o mentor.
A coisa mais surpreendente que eu achei sobre esse homem, em mais de cem horas que passamos juntos em conversas para a compilação de sua memória, foi o quanto ele era modesto, humano, discreto e respeitoso. Ele tem uma enorme moral e senso ético. Ele é um homem de princípios rigorosos e existência sóbria. Ele também é – eu descobri – apaixonado pelo meio ambiente.
Ele não é nem o homem que a mídia ocidental pinta nem o super-homem que a imprensa cubana às vezes apresenta. Ele é um homem normal, ainda que um homem incrivelmente batalhador. É um estrategista exemplar, que conduziu sua vida com permanente resistência. Ele contém uma curiosa mistura de idealismo e pragmatismo: ele sonha com uma sociedade perfeita, mas sabe que as condições materiais são muito difíceis de serem transformadas.
Ele deixa seu gabinete confiante que o sistema político de Cuba está estável. Sua preocupação atual não é mais sobre o socialismo no seu país do que a qualidade de vida ao redor do mundo, onde muitas crianças são iletradas, famintas e sofrendo de doenças que poderiam ser facilmente curáveis.
Ele também pensa que seu país deve ter boas relações com todas as nações, independente de seus regimes ou orientações políticas. Agora ele está passando a responsabilidade para um time que já foi testado e no qual tem confiança. Isso não irá trazer mudanças espetaculares. Muitos dos próprios cubanos – mesmo aqueles que criticam aspectos do regime – não desejam mudanças. Eles não querem perder as vantagens que foram conquistadas, a educação gratuita até a universidade, o acesso gratuito e universal à saúde, ou o fato de que há segurança e paz, num país onde a vida é calma.

Relações com os EUA
E enquanto Fidel Castro atua em tempo integral como colunista, então, a principal tarefa de seus herdeiros políticos será a forma de enfrentar o desafio perpétuo de Cuba: as relações com os Estados Unidos. Nós devemos esperar para ver se vão ocorrer mudanças. Por duas vezes, Raul Castro anunciou que está preparado para dialogar com Washington sobre os problemas entre os dois países.
E os próprios Estados Unidos podem ter uma mudança em sua política. O democrata Barack Obama já sinalizou, por exemplo, desejo de interagir com países tidos como inimigos da América, como o Irã, a Venezuela ou Cuba. No entanto, uma imediata e radical mudança é improvável, embora exista razão para esperar que as eleições de novembro nos Estados Unidos provoquem ao menos no médio prazo uma atmosfera diferente dos anos Bush – uma gestão que Fidel considerou a mais perigosa dos 10 presidentes estadunidenses com quem ele teve experiência, não apenas para Cuba, mas também para o povo estadunidense e para o mundo.
A saída de Bush provavelmente conduzirá a uma reavaliação da política externa: aprendendo com as desastrosas lições do Iraque e do Oriente Médio e retornando o foco para a América Latina. Os Estados Unidos vão encontrar um cenário político transformado: pela primeira vez, Cuba tem verdadeiros amigos no governo na América Latina, sobretudo na Venezuela, mas também no Brasil, Argentina, Nicarágua e Bolívia, uma série de governos que não são particularmente pró-estadunidenses. É do interesse dos Estados Unidos redefinir suas relações com todos eles, de forma não-colonial, não-explorativa e baseada no respeito.
Ao mesmo tempo, Cuba tem desenvolvido estreita relações com países parceiros como a Alternativa Bolivariana para as Américas – uma organização política e econômica – e acordos com o Mercosul na área comercial. No quadro internacional maior, Cuba deixou de ser um caso único.
As mudanças mais visíveis que podem ocorrer no plano internacional são o fortalecimento dos laços com a América Latina. O socialismo será sem dúvida alterado, mas não nos moldes do que ocorreu na China ou no Vietnã. Cuba continuará seguindo o seu próprio caminho. O novo regime começará as mudanças no nível econômico, mas a perestroika cubana não a abrirá politicamente, não haverá eleições multipartidárias. Suas autoridades estão convencidas de que o socialismo é a correta escolha, mas o sistema deve ser sempre melhorado. E sua preocupação agora, mais do que o afastamento de Fidel, é ser unitário.
Mas em Cuba tudo é relacionado aos Estados Unidos: aquilo que é um aspecto global da política externa precisa ser compreendido. O afastamento de Fidel, antecipado há tempos, significa continuidade. Mas para a evolução dessa pequena nação histórica, a eleição de Obama poderia ser sísmica.

*Ignácio Ramonet é diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, faz parte da coordenação internacional do Fórum Social Mundial e é autor do livro Biografia a Duas Vozes, pela Editora Boitempo.