14.2.10

Ainda sobre educação...

Faz tempo linquei ao lado, na indicação de leituras, o blog Cremilda Dentro da Escola.

Embora discordando da maioria dos escritos da citada Cremilda, imaginei que o blog apresentasse, de modo coerente, a visão de alguns pais e mães sobre os problemas da escola pública.

Acompanhei-o por um tempo e depois me desencantei. A visão sobre a educação é bastante rústica e os textos tratam de atacar os professores, acusando-os, quase sempre, de responsáveis por tudo de errado que acontece na educação e, principalmente na educação em São Paulo.

O meu principal desapontamento foi com o texto Como educar meu professor. Uma obra de péssimo gosto.

De autoria de Mauro A. Silva é apresentada assim:

“A cartilha “Como educar meu professor” foi idealizada por termos identificado que a maior parte dos professores são mal educados, mal formados e muito “folgados”…

As faculdades e universidades parecem meras vendedoras de diplomas… vendem diplomas em 36 prestações mensais sem juros…”

Onde estão os dados que comprovam tal afirmação? Quem é este Mauro A. Silva que parece conhecer todos os professores deste país? Sim, pois somente conhecendo-os poderia afirmar que a “maior parte” é assim ou assado.

Em dado momento chega a afirmar que o salário do professor, R$ 1.500,00 por uma jornada de 40 horas/semanais, segundo o autor, é bom.

Note que nos textos as responsabilidades do poder público são sempre arranhadas e há uma permanente luta do bem (alunos, pais, Cremilda etc.) contra o mal (professores, dirigentes, políticos etc.).

Essa forma de pensar é muito tosca e inaceitável.

Tenho amigos e familiares no magistério público, tanto municipal quanto estadual, honrando a profissão e nem de longe fazendo as barbaridades que o blog relata.

Existem professores indignos de estarem na sala de aula? Claro que sim, mas profissionais ruins e infelizes existem em todas as áreas: médicos, motoristas, pedreiros, engenheiros, secretárias, jornalistas etc.

Também existem ótimos profissionais, que adoram sua profissão em todas essas áreas.

Cremilda ganharia muito mais se estimulasse a participação nos Conselhos de Escola, se oferecesse instrumentos para que tais participações fossem reais, com amplo exercício de cidadania.

Recuperar a escola pública não pode equivaler à destruição do papel do professor como condutor do processo em sala de aula.

A escola não é a única “produtora” da educação, ela ocupa um pequeno espaço desse processo. A educação começa em casa, na família e prossegue no grupo social, nas práticas cotidianas; a escola responsabiliza-se pelo saber escolar e por parte da socialização dos indivíduos. O professor é um profissional, de fato ele não é pai, mãe, irmão ou amigo. Também não é terapeuta.

Vamos exigir do poder público, equipes multidisciplinares nas escolas, com psicólogos, fonoaudiólogos, oftalmologistas, dentistas, enfim, toda a gama de profissionais que possam orientar e dar suporte às famílias e aos alunos.

Como diria meu sábio avô: cada macaco no seu galho!

A educação vai de mal a pior

Vejam o anúncio publicado na Folha Online de hoje (14/2/10):

PROFESSORES (AS) Pedagoga, c/ exp.alfabetiazalçao e series eniciais do encino fundamental, em escola particular.Residir na Zona Sul. Enviar CV para: valeria@colegioxxxxxxx.com.br ou andrea@colegioxxxxxxx.com.br

O "xxxx" foi por minha conta, mas querendo conferir basta clicar aqui.

11.2.10

A polêmica sobre a atualização dos índices de produtividade da agropecuária

Abaixo segue um texto tratando de um tema urgente e necessário. Embora sem tempo para cumprir a promessa - de avaliar aquilo que considero erros maiores do governo Lula -, continuo minhas leituras e, nessa garimpagem, pensei que o texto caberia como uma luva na discussão da questão agrária.

Imagino que um dos maiores erros deste governo foi não ter feito avançar a reforma agrária. Se compararmos o plano de reforma agrária da campanha, idealizado pelo professor Plinio de Arruda Sampaio, com metas até mesmo modestas, com aquilo que foi de fato realizado, a decepção é imensa.

O governo anunciou novos parâmetros para a produtividade agrícola, índices que não são revistos desde a década de 1970 e depois recuou, num autêntico ato de traição aos movimentos sociais que lutam pela terra, preferiu alinhar-se aos latifundiários.

Fiquem com o texto:

A polêmica sobre a atualização dos índices de produtividade da agropecuária

Se a agropecuária brasileira é, como tem sido alardeado amplamente pelos porta-vozes do agronegócio, um exemplo de modernização tecnológica, transformando solos antes considerados inférteis em áreas de altíssima produtividade, porque tantos protestos contra a atualização dos índices?

Em agosto de 2009, chegou à mídia mais uma rodada de discussões sobre a necessidade atualizar os índices de produtividade da agricultura brasileira. O Ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, com o apoio do chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Luis Dulci, anunciou que a medida seria tomada em breve. Na ocasião, o ministro declarou que os novos índices eram “confortáveis para quem produzia na média regional” e deu alguns exemplos de áreas, reconhecidas como de domínio do agronegócio, que estariam abaixo dos valores efetivamente atingidos em safras anteriores. O ano findou, mas os índices não foram atualizados.

O tema não é novo. Os índices atualmente vigentes, calculados a partir do grau de utilização e de exploração econômica da terra, baseiam-se em números fornecidos pelo Censo Agropecuário de 1975, quando a modernização da agricultura e da pecuária brasileira dava seus primeiros passos. De lá para cá, essas atividades incorporaram muita tecnologia, tanto mecânica quanto química, além de avançarem no terreno das biotecnologias. No entanto, os índices nunca foram recalculados.

Em 2003, o MDA iniciou estudos para que fosse possível essa atualização. Para que os novos valores passem a vigorar, é necessária a oficialização, feita por meio de uma portaria interministerial, que deve ser assinada tanto pelo Ministro do Desenvolvimento Agrário quanto pelo da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Quando o estudo feito pelo MDA foi enviado para análise do Ministério da Agricultura, então dirigido por Roberto Rodrigues, este argumentou sobre a necessidade de novos estudos técnicos. Às vésperas das eleições presidenciais, em 2006, o governo decidiu não tocar mais no assunto, uma vez que logo se evidenciou que a medida proposta tinha um enorme potencial de gerar tensões. Decorridos dois anos do segundo mandato do presidente Lula, cresceu a pressão dos movimentos sociais (principalmente MST, mas também Contag), novos estudos foram feitos, e o governo, mais uma vez, anunciou, em meados de 2009, que iria atualizar os índices.

Para ler o restante da matéria é só clicar aqui.

3.2.10

Entrevista com Prof. Aziz Ab'Saber

Carolina Oms
Especial para Terra Magazine

Chove há 42 dias seguidos na cidade de São Paulo. Sobe para 70 o número de mortes causadas pelas chuvas no Estado, segundo balanço divulgado pela Defesa Civil nesta terça-feira, 2. Os temporais tiraram de casa mais de 26 mil pessoas.

O geógrafo Aziz Ab'Saber atribui à natureza sua parcela de culpa nas tragédias, mas não esquece a responsabilidade dos governantes:
- Agora, não adianta o governador dizer: 'foi a chuva que ocasionou isso'. Ele tem que saber que há um período que vem desde dezembro de 2009 e atravessou o ano inteiro de 2010 e só vai terminar depois dos meados de março.
Desses 42 dias de chuva, a maioria deles intensificou o já caótico trânsito da metrópole, alagou ruas e interditou túneis. Ab'Saber critica a falta de planejamento das obras: "Os dois túneis que a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) aprovou no fim de seu governo, para dizer que fez obras, no mesmo estilo de (Paulo) Maluf (PP), sem qualquer previsão de impacto".
Professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Ab'Saber estuda geografia há 68 anos e é considerado um dos principais nomes da área em atividade do país.

Leia os principais trechos da entrevista:

Terra Magazine - Nesta terça, 2, choveu pelo 42º dia seguido na cidade de São Paulo. No Estado e na sua capital, tem ocorrido deslizamentos, enchentes, mortes, alagamentos...
Aziz Ab'Saber - Temos problema em toda a parte do Estado de São Paulo, tanto em Atibaia por causa das represas, quanto na capital, por causa das ruas e das beiradas do rio Tietê. É um ano em que as fortes chuvas atingem setores não urbanizados, como é o caso das represas, então nós estamos em período muito triste.

TM: Os governantes estão culpando as chuvas, que realmente não tem dado trégua, mas dá para culpar somente a natureza em um caso como esse?

A natureza é culpada por causa do El Niño, é um ano anômalo, isso não tenha dúvida. Agora, não adianta o governador dizer: "foi a chuva que ocasionou isso". Ele tem que saber que há um período que vem desde dezembro de 2009 e só vai terminar depois dos meados de março, estamos em um verão anômalo devido à periodicidade climática. No passado já houve algumas grandes chuvas e alagamentos, mas eram muito menores os danos, porque as cidades cresceram muito de um modo não só caótico, mas desigual. Alguns lugares têm escoamento bom e outros não têm. Um rio como o Pirajussara, tem trechos que são de canais, depois tem trechos de encarceramento, depois de encarceramentos muito fracos e depois outras obras, etc. Então o crescimento da cidade foi extensivo e diversificado, com grandes problemas quando vêm períodos de chuva forte.

TM: Um exemplo é o buraco da Avenida Nove de julho, que abriu outra vez...

Há córregos importantes que formam o rio Tamanduateí, um deles, onde está a Avenida 23 de maio, e o outro, a Avenida Nove de Julho, e têm uma predição de escoar tudo que cai dos setores mais altos dessas avenidas. No caso do Pacaembu fez-se aquele piscinão e se conseguiu resolver o problema, mas no caso desses dois, não. Não dá pra fazer um piscinão na frente do túnel da Nove de Julho, não dá. E o resultado é que, quando chove, entra por baixo dos canais da avenida e aflora em alguns lugares por excesso de escoamento.
Cada local tem a sua especificidade e necessita de estudos específicos. Os dois túneis que Marta Suplicy aprovou no fim de seu governo, para dizer que fez obras, no mesmo estilo do Maluf, foram construídos sem qualquer previsão de impacto. E agora nesse ano, que foi um ano anômalo, a situação tornou-se grave.

TM: Houve também a queda de encosta na rodovia Presidente Dutra...

Nos locais de terra vermelha que é um solo fofo, em alguns lugares onde o talude não foi bem estabilizado, as grandes chuvas entram por dentro do solo e acontecem os deslizamentos em função das chuvas e da declividade dos taludes (NR: talude é o plano inclinado que limita um aterro. Tem como função garantir a estabilidade do aterro).

TM: O nível de água nos reservatórios do Estado também preocupa, não?

As represas que tentaram retirar água das encostas da Mantiqueira Ocidental e de outras serras deixaram terrenos baixos e menos alagados, a população foi entrando nessas faixas e os governantes deixaram. E agora essas populações, estão ameaçadas pelo excesso de água dessas represas - o caso de Atibaia, por exemplo, é seríssimo - e estão desesperadas. Elas entraram nesses vales na frente da barragem e nunca se lembraram que a barragem poderia arrebentar.

TM: As áreas ao redor do rio Tietê têm sido cada vez mais impermeabilizadas; o
Governo do Estado diz que a contrapartida das árvores retiradas da Marginal Tietê são as árvores que estão sendo plantadas ou re-plantadas nos parques lineares.

Isso não adianta nada. Isso serve para eles dizerem que estão trabalhando. Isso vai ter importância se houver grandes chuvas rio acima, mas as massas de água vêm de rio acima.

23.1.10

Ainda uma breve avaliação do governo Lula

Em outubro escrevi um texto apontando o que eu considerava os maiores acertos do atual governo, isso foi em 3/10, é só clicar aqui para reler.

Prometi que voltaria ao tema apontando os maiores erros. Para isso pedi a colaboração dos leitores do blog.

Recebi alguns comentários e também alguns e-mails sobre a postagem.

Os maiores problemas apontados, com os quais concordo, foram as questões ambiental e agrária. Somo a esses dois a educação.

Dr. Miguel, lá do RS, clique aqui para lê-lo, leitor atento, sugeriu-me que os maiores críticos ao governo Lula são aqueles que votaram contra ele. Concordo, mas não penso que estejam errados.

Os eleitores de Serra, que nele votaram por convicção, devem combater o governo Lula, assim como os petistas combateram o governo FHC. Isso não me incomoda, o que me deixa transtornado é o discurso preconceituoso e fascista de alguns críticos e, principalmente, da mídia.

Além disso, devemos lembrar que um governante governa para todos e não somente para os seus eleitores.

Também não devemos esquecer a Carta ao povo brasileiro (clique aqui se deseja ler). Tenho claro que o governo que assumiu em 2003 havia renunciado a muitas bandeiras históricas do PT e, se assim não o fizesse, não teria sido eleito.

Além das três questões elencadas acima – ambiental, agrária e educacional – temos que lamentar a prática constante da fisiologia no trato da coisa pública. Dirão uns que isso é inerente ao sistema e concordarei, mas quando Lula tomou posse, em 2003, tinha respaldo popular para enfiar uma grande reforma política goela abaixo dos crápulas contumazes e apenas vimos surgir novos crápulas, associados aqueles antigos e tudo continuou como dantes.

Pois bem, a partir de amanhã vamos destrinchar um pouco mais essas questões.

O dia em que os tucanos acabaram com as enchentes em São Paulo

Peguei essa dica no site Vi o Mundo que, por sua vez, havia recebido de um leitor.
Querendo conferir a autenticidade da peça é só clicar aqui.

20.1.10

Garrincha - o poeta da bola

Hoje faz 27 anos que ele morreu!

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental - por Eduardo Galeano

Ler o que Eduardo Galeano escreve é sempre emocionante. Vejam como em poucas linhas ele consegue nos contar sobre o Haiti:

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental

Por Eduardo Galeano, em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citibank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e, sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Eduardo Galeano é escritor

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=&iditens=473

15.1.10

Sobre a tragédia no Haiti

Claro que temos nossas próprias tragédias, mas esta que assola o pequeno país da América Central destaca-se pela emergência.
Então não se trata de fazer uma competição para saber qual tragédia é a pior. A dor que sentimos próxima é sempre maior do que aquela que está distante. Por isso temos que lidar com o máximo de fraternidade para entender a dor alheia.
Também podemos reclamar dos governantes de diversos países que foram céleres e generosos para evitar que bancos e empresas quebrassem na crise de 2008 e agora oferecem pequenas migalhas para aquele povo tão sofrido. Mas qual a novidade neste tipo de ação?
Os projetos de apoio e solidariedade aparecem por todos os lados. Só penso que devemos cuidar para auxiliar as instituições sérias e corretas.
Para ter a dimensão da tragédia clique aqui e veja uma coletânea de fotos impressionantes.
Clicando aqui você lê uma ótima iniciativa de cobertura jornalística do terremoto e suas consequencias.
Mas não é só solidariedade. Muitas bobagens são ditas nestas horas. Umas mais graves e outras menos.
Leia aqui as bobagens ditas pela Sandy - aquela que fazia dupla com o Júnior - sobre a tragédia.
Abaixo o comentário, para lá de absurdo e estúpido, do Cônsul do Haiti em São Paulo.

Blackout




13.1.10

A mídia e o Programa Nacional de Direitos Humanos

Que o jornalismo empresarial brasileiro caminha rapidamente para o buraco não é novidade!
Que lhe falta credibilidade e honestidade até as portas sabem, mas, ainda assim, as chamadas do Jornal Nacional, a capa da Veja e as manchetes da Folha, Estadão, O Globo e congêneres continuam a fazer a cabeça da "classe média" nacional. Infelizmente! Quer seja por falta de tempo, comodismo ou simples ignorância mesmo.
Reproduzo abaixo, copiando do Vi o Mundo, artigo que mostra de maneira resumida e exemplar a desinformação e desonestidade que campeia no debate sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos III:

DIREITOS HUMANOS
O jornalismo derrotado

Por Marcos Rolim em 12/1/2010
Reproduzido do sítio
Gramsci e o Brasil, 12/1/2010

Via Observatório da Imprensa, sugestão do Gustavo Paim Pamplona

A julgar pelos noticiários, um fantasma assola o Brasil: o Programa Nacional de Direitos Humanos em sua terceira versão (PNDH-III). Todas as potências da Santa Aliança unem-se contra ele: setores da mídia, políticos conservadores, o agronegócio, os militares e a cúpula da Igreja. Os críticos afirmam que o programa propõe a "revisão da Lei de Anistia", que é autoritário ao propor "controle sobre os meios de comunicação", além de ser "contra o agronegócio". Radicalizando, houve quem – fora dos manicômios – identificasse no texto disposição por uma "ditadura comunista". É hora de denunciar esta farsa onde a desinformação se cruza com o preconceito e a manipulação política.
Auxiliei a redigir o texto final do Programa, juntamente com os professores Paulo Sérgio Pinheiro e Luiz Alberto Gomes de Souza. A parte que me coube foi a da Segurança Pública, mas participei de todos os debates. Assinalo, assim, que a 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos havia proposto uma "Comissão de Verdade e Justiça"; nome que traduzia a vontade de "investigar e punir" os responsáveis pelas violações durante a ditadura. O PNDH-III, entretanto, propôs uma "Comissão da Verdade", porque prevaleceu o entendimento de que o decisivo é a recuperação das informações, ainda sonegadas, sobre as execuções e a tortura.

Prática democrática
O Programa não fala em "revisar a Lei da Anistia"; pelo contrário, afirma que a Comissão deve "colaborar com todas as instâncias do Poder Público para a apuração de violações de Direitos Humanos, observadas as disposições da Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979". Para quem não sabe, a lei citada é a Lei de Anistia. A notícia, assim, era o afastamento da pretensão punitiva. O caminho escolhido, como se sabe, foi o oposto; o que não assinala informar mal, mas desinformar, simplesmente.
No mais, é interessante que os críticos nunca tenham se manifestado quando, no período do presidente Fernando Henrique Cardoso, propostas muito semelhantes foram apresentadas. Senão vejamos: no que diz respeito aos conflitos agrários, o PNDH-I (1996) já propunha "projeto de lei para tornar obrigatória a presença no local, do juiz ou do Ministério Público, no cumprimento de mandado de manutenção ou reintegração de posse de terras, quando houver pluralidade de réus, para prevenir conflitos violentos no campo, ouvido também o Incra". O PNDH-II, seis anos depois, repetiu a proposta.
Qual a novidade, neste particular, do PNDH-III? Apenas a ideia de mediação dos conflitos; prática que tem sido usual e que seria institucionalizada por lei. A senadora Kátia Abreu, então, pode ficar tranquila. Se o governo apresentar o projeto, ela terá a chance de se posicionar contra a mediação de conflitos e exigir que o tema seja resolvido à bala, como convém a sua particular concepção de democracia.

Reação vexatória
Quanto à reação ao tal ranking de veículos comprometidos com os direitos humanos, o assombro é ainda maior, porque o primeiro PNDH trouxe a ideia de: "Promover o mapeamento dos programas de rádio e TV que estimulem a apologia do crime, da violência, da tortura, das discriminações, do racismo, [...] e da pena de morte, com vistas a [...] adotar as medidas legais pertinentes". A mesma proposta foi repetida no PNDH-II.
Assinale-se que o PNDH-II propôs, além disso: "Apoiar a instalação do Conselho de Comunicação Social, com o objetivo de garantir o controle democrático das concessões de rádio e TV [...] e coibir práticas contrárias aos direitos humanos" e "Garantir a fiscalização da programação das emissoras de rádio e TV, com vistas a assegurar o controle social [...] e a penalizar as empresas [...] que veicularem programação ou publicidade atentatória aos direitos humanos".
Uau! Não são estas as armas dos inimigos da "liberdade de expressão"? Mas, se é assim, por que os críticos não identificaram o "ovo da serpente" na época?
Mais uma vez, ao invés de aprofundar o debate sobre as políticas públicas, a maior parte da mídia se deliciou com a reação vexatória dos militares, com o oportunismo da direita e com o medievalismo da Igreja, e o fez às custas da informação, para não variar.

Nota do Viomundo: De quebra, golpeia-se a ideia de que os cidadãos brasileiros, independentemente de filiação partidária, participem da formulação de políticas públicas, quaisquer que sejam as políticas públicas. É um retrocesso democrático proporcionado por aqueles que dizem defender a democracia! É a democracia dos coronéis, em que o bispo, o general e o dono do jornal se reuniam para decidir o que podia e o que não podia -- e não estou falando do que podia ou não ser feito, mas do que podia ou não ser proposto, já que todos os três PNDH, os do FHC e o de Lula, são meras proposições. É o mau jornalismo a serviço do retrocesso político, é a recompensa ao jornalismo-cafajeste praticado no Brasil.




Fonte: Vi o Mundo

9.1.10

Faz muito tempo que digo que o Brasil precisa fazer um grande acerto de contas com sua história recente. Só olhando em profundidade o que aconteceu e os desmandos da ditadura militar poderemos impedir que tal se repita.

É absurdo o tratamento que os programas de História do Brasil dedicam a este período recente do nosso país, para alguns é como se não houvesse existido.

Por isso precisamos investigar, descobrir e denunciar publicamente os assassinos e torturadores. Tortura é muito diferente de combate e de guerra.

Sobre a anistia e a Comissão da Verdade

Irrevogável não é a lei de anistia. Irrevogáveis são os direitos e garantias individuais referidos na Constituição Federal (arts. 5º, 60, parágrafo 4º. inc. IV), justamente os que mais que sofreram sob a ditadura, muitos dos quais até hoje carentes de reparação. O terrorismo de Estado não pode ser igualado à luta que se empreendeu contra ele, de resto, quase toda ela, punida sem defesa, na época em que se verificou, coisa que não ocorreu com os responsáveis pela truculência oficial. O artigo é de Jacques Távora Alfonsin.

A polêmica acesa com a ameaça de demissão do ministro da Defesa e de chefes militares, criada a partir de um decreto da presidência da república que institui uma "comissão nacional da verdade", capaz de possibilitar modificação da lei de anistia, está dividindo a opinião de juristas e políticos, ao ponto de, segundo alguns, gerar uma crise constitucional de efeitos graves.
O problema todo parece ter sido criado pela interpretação que se está dando ao Decreto presidencial 7037 de 21 de dezembro passado, que aprovou o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNDH-3, cuja Diretriz 23 (Reconhecimento da memória e da verdade como Direito Humano da cidadania e dever do Estado) estabeleceu como Objetivo Estratégico I, o seguinte:
Promover a apuração e o esclarecimento público das violações de Direitos Humanos praticadas no contexto da repressão política ocorrida no Brasil no período fixado pelo art. 8o do ADCT da Constituição, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional.
Ação Programática: a) Designar grupo de trabalho composto por representantes da Casa Civil, do Ministério da Justiça, do Ministério da Defesa e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, para elaborar, até abril de 2010, projeto de lei que institua Comissão Nacional da Verdade, composta de forma plural e suprapartidária, com mandato e prazo definidos, para examinar as violações de Direitos Humanos praticadas no contexto da repressão política no período mencionado, observado o seguinte: (seguem-se várias condições de execução)
Das muitas opiniões que a imprensa tem publicado, a respeito, uma das que defende qualquer impossibilidade de modificação da lei de anistia, do modo juridicamente menos defensável, por incrível que pareça, pode ser a de um ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, que escreve semanalmente na Zero Hora.
Entende o referido autor que a irrevogabilidade da anistia reside no fato de que "a anistia pode ser mais ou menos justa, mas não é a justiça seu caráter marcante. É a paz. No arco-íris social, com suas contradições, essa me parece ser a nota dominante." (edição de 4 de janeiro corrente).
Partindo de quem parte essa opinião, ela não deixa de surpreender por três razões principais:
1. A paz jamais conquistará ser vivida e gozada pelo povo todo, com fundamento outro que não o da justiça. Outra base só pode encontrar alguma "razão" em quem ignora uma simples relação de causa e efeito, pois a justiça é um fundamento indispensável, inafastável, necessário, da paz. Desde as origens latinas, como estudantes de primeiro semestre de muitas faculdades desse estudo ainda aprendem, "opus iustitiae pax" (a obra da justiça é a paz).
Pobre do tal arco-iris social, então. A lembrança não poderia ser mais infeliz. Segundo a imagem bíblica, o arco-iris foi colocado por Deus como sinal de sua reconciliação com o povo todo depois do dilúvio. A diferença, no caso, é que o dilúvio da ditadura brasileira, cujas águas ainda se encontram longe de dar pé a quem ousou contestar as suas violações de direitos humanos, é feito de um ódio que continua desafiando qualquer arco capaz de abrigar iris suficiente para iluminar a história com a verdade que, agora, a tal Comissão pretende viabilizar.
Pelas reações iradas que se tem ouvido, se essa ainda nem teve tempo para elaborar o projeto de lei previsto na ação programática da diretriz 23 do PNDH-3, imagine-se o que acontecerá se ela conseguir redigi-lo e obtenha concordância do Executivo para ele ser encaminhado ao Congresso Nacional.
2. Uma argumentação como a do referido articulista, portanto, em favor da irrevogabilidade da lei, explica porque, volta e meia, branda suas lições, algumas repassadas de ironia, contra a impunidade que, a seu ver, costuma seguir-se às ações de gente pobre sem-terra e sem-teto que ocupa terras, a isso coagida pela miséria e pela opressão social de que é vítima. Como pensam outros juristas de mesmo perfil ideológico ao dele, aquela é uma paz que pode conviver com a injustiça social refletida nessas defesas de vida, dignidade e cidadania.
É um tipo específico de paz, discriminatório, reservado para uma classe, de preferência privatista e patrimonialista, que garanta tranqüilidade para alguns, mesmo ao preço da insegurança e do sofrimento da maioria. Tudo aquilo que um Estado autenticamente democrático e de direito repudia como materialmente falso, injusto.
3. É lícito concluir-se que, de acordo com esse raciocínio sobre a lei de anistia, o status militar, o passado político de quem abusou do poder, prendeu, torturou, matou, deve continuar guardando a sua podridão disfarçada, assim como os sepulcros caiados, a anistia impondo fazerem-se iguais impunidade e imunidade. Bem na linha dos chavões que estão circulando: "Não abrir de novo velhas feridas", "não mexer com fatos (e principalmente poderes) que afetem a disciplina militar", "não revogar uma lei que pacificou o país", "o terror não se fez sob responsabilidade exclusiva do Estado".
Esses são argumentos usados por quantos ainda não se convenceram que feridas fechadas podem esconder doenças encubadas, que militares e outros agentes públicos não têm outros poderes senão os delegados pelo povo, numa autêntica democracia, e foi pela desobediência desse princípio, exatamente, que o país viveu um período da sua história marcado por sofrimento, tortura, morte e injustiças que mantêm muitas feridas ainda abertas.
O terrorismo de Estado não pode ser igualado à luta que se empreendeu contra ele, de resto, quase toda ela, punida sem defesa, na época em que se verificou, coisa que não ocorreu com os responsáveis pela truculência oficial. Isso, aliás, pode ser deduzido pela visível destinação que teve o parágrafo 2º do art. 1º da lei de anistia (6883 de 28 de agosto de 1979): "Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal."
Não é possível comparar, por exemplo, os objetivos que a repressão executada pelo Delegado Fleury buscava, com aqueles que, de tão cruelmente perseguidos e sofridos, levaram Frei Tito a se suicidar, fora da pátria e do povo que defendeu com tanto ardor.
Irrevogável, ao contrário do que apregoa o ex-ministro, não é a lei de anistia. Irrevogáveis são os direitos e garantias individuais referidos na Constituição Federal (arts. 5º, 60, parágrafo 4º. inc. IV), justamente os que mais que sofreram sob a ditadura, muitos dos quais até hoje carentes de reparação.
É mais do que hora, portanto, de se defender essa Comissão da Verdade, para que as vergonhosas violações de direitos humanos, executadas por sucessivas ditaduras brasileiras, algumas registradas em publicações como "Brasil nunca mais" e "Batismo de sangue" (Frei Betto), para lembrar apenas duas das mais conhecidas, não sigam estimulando, escondidas em segredo oficial, a repetição de infidelidades históricas que o Estado brasileiro já praticou contra o seu povo.
(*) Jacques Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.

Fonte: CartaMaior

7.1.10

Projeto enchentes

Excelente iniciativa! Solidariedade de verdade, sem discurso demagógico de "otoridade"!
Clique aqui para acessar a página do Projeto enchentes.

Estamos nos caminhos das águas

Como temia aquele personagem do Asterix: "o mundo está desabando sobre nossas cabeças".
Antes que comecem a nos ameaçar com o fantasma do aquecimento global, convem algumas observações de cunho geográfico.
Outro dia disse no tuiter que o problema não é a natureza, mas a falta dela. Claro que não dá para explicar em 140 caracteres, tentemos aqui então.
A região atingida mais gravemente no atual verão pelas chuvas, como Angra dos Reis (RJ) e São Luiz do Paraitinga (SP), sem esquecer a capital paulista, pertence ao domínio morfoclimático dos Mares de Morros (1). Este domínio caracteriza-se por apresentar relevo íngreme, com acentuadas declividades e grande quantidade de chuva no verão. Originalmente era tomado pela floresta da Mata Atlântica.
Essa caracterização é encontrada em qualquer livro de Geografia do Brasil e consta do programa de ensino da escola básica para a área de ciências humanas.
Meus alunos devem lembrar que quando tratamos disso, tratamos também do impacto da degradação da vegetação – começou mais ou menos em 1500 – e também da ocupação desordenada do solo, fruto da especulação imobiliária e da ausência de políticas públicas para combater as desigualdades sociais.
Essa ausência de planejamento urbano levou a ocupação das encostas e das várzeas, lugares para os quais a natureza determinou papeis importantes, além de compor a paisagem dos anúncios de condomínios e pousadas.
As várzeas servem para o transbordo dos rios na época das cheias – verão – sendo este o seu papel. A preservação destas áreas, bem como da mata ciliar, é condição para o equilíbrio e a sobrevivência dos rios.
Vejam o caso da capital paulista. Várzeas ocupadas irregularmente, matas ciliares inexistentes, leitos assoreados e canalizados. Tudo o que não se pode fazer com um curso d’água fizemos com os rios, córregos e riachos da capital paulista.
Some-se isso a impermeabilização do solo – concreto e asfalto – e temos o resultado catastrófico.
Os bairros que surgem nas margens dos rios quase sempre são fruto da especulação imobiliária e da completa ausência do Estado na organização do uso e ocupação do solo urbano.
O primeiro instrumento de planejamento integrado da Região Metropolitana da Grande São Paulo (RMSP) é de 1971. Ele e todos os outros posteriores tornaram-se letra morta perante os interesses das forças políticas e econômicas que sempre comandaram essa cidade, com exceção de raros e curtos períodos.
No próximo texto abordarei Angra dos Reis e São Luiz do Paraitinga.

(1) http://is.gd/5Sbvy

5.1.10

De volta à labuta

Devagar a vida vai voltando ao normal. Fim das festas, ano novo se abrindo...

Claro que alguns privilegiados ainda esperarão o carnaval chegar, mas para a grande maioria dos brasileiros o tempo não para, como dizia o poeta.

As desgraças se sucedem: Angra dos Reis, Cunha, São Luiz do Paraitinga... São Paulo, a capital, tem um temporal atrás do outro.

Culpa da natureza? Óbvio que não!

Residem aqui e acolá algumas culpas individuais, mas os maiores responsáveis por essas tragédias de verão, que ocorrem ano após ano, com maior ou menor gravidade, são aqueles que abdicam de planejar e favorecem a especulação imobiliária. São aqueles que veem apenas o lucro, menosprezando as vidas humanas.

Governantes omissos, para dizer o mínimo, deveriam responder nas urnas e na Justiça por estes crimes.

22.12.09

Turbulências de final de ano

Não gosto deste período de festas. Como não sou cristão nem consumista o natal não me diz muita coisa.
Às vezes fico depressivo com tanta movimentação e consumo. São tantas pessoas que não podem entrar nessa festa...
A profissão também não ajuda. Normalmente é o período de formaturas dos alunos da escola básica. Atuo no Ensino Médio faz algum tempo e é neste período que nos despedimos de algumas turmas – cliquem aqui para ler sobre isso –, aquelas que encerram este ciclo. Normalmente depois de acompanhá-los por três anos, pelo menos, isso nos faz tristes, pelo distanciamento, e felizes pelo sucesso desses meninos e meninas com os quais trabalhamos com tanto zelo.
Outra marca da profissão – para aqueles que lecionam em escola privada – neste período é a tão temida demissão.
Aí a gente tem que sacudir a roseira, correr atrás e preparar-se para outra realidade e novas vivências.
Isso explica minha ausência nesta última semana.
Agora, com tudo calmo, vou tratar de cumprir promessas.
Em outubro escrevi um texto apontando as maiores qualidades que via neste governo. Cliquem aqui para lê-lo.
Prometi escrever um com iguais defeitos.
Recebi uma sugestão de uma ex-aluna: questão ambiental. Um amigo, também professor de Geografia, destacou a o mesmo tema e adicionou a questão agrária. Outro colega destacou o distanciamento entre o que o PT pregava e o que fez, uma vez no governo. O último comentário, registrado na postagem, diz respeito às alianças para compor a chamada “base aliada”.
Penso que são bons temas para começar a escrever, alguma outra sugestão?

9.12.09

Era uma vez...

Um governador, de um certo partido político, que afirmou ter acabado com as enchentes.
Lembram-se?
Então vejam:

6.12.09

Revista Veja: esqueçam o que eu publiquei

Já faz algum tempo que eu prometi não mais tratar das coisas da revista Veja neste espaço. Mas a desfaçatez dos cabras dos Civita não tem limites. Observem como era tratado o sr. José Roberto Arruda, o homem do panetone, há 5 meses (clique na imagem para ler a reportagem no site da dita cuja):




E o tratamento que recebe agora:


Isso sem nenhuma autocrítica, análise sobre eventuais erros, nada! Tudo acontece assim no reino dos Civita, como se eles nada soubessem...

4.12.09

Folha de S.Paulo escolhe o caminho da censura

Não é de causar admiração, afinal a história da ligação da Folha de S.Paulo com a ditadura militar é bem conhecida, devem estar com saudades!
Leiam a nota do blogueiro Antonio Arles:

CENSURADO

Antonio Arles

CENSURADO

Acabo de ser notificado extrajudicialmente por escritório de advocacia representando a Folha para que retirasse os selos da campanha #CancelandoFOLHA #CancelandoUOL, sob pena de processo por suposto uso indevido das marcas. Sendo assim, retirei imediatamente os referidos selos.

No momento não poderei desenvolver um post explicando melhor o caso, mas deixo aqui meu protesto por mais este ato de censura contra blogs.

Clique aqui para ler a nota no original.

Projeto Mais Massa em Coletivo Música Plural Brasileira

Este convite foi enviado pelo amigo e colega de labuta Rogério Duarte, você pode encontrá-lo virtualmente aqui e aqui.

27.11.09

José Serra está de férias?

Estou atolado em correções, notas, diários e planilhas.

Final de ano para professor é assim mesmo!

Mas, no intervalo entre uma correção e outra, estico os olhos pelo noticiário da Internet. Eis que encontro singela notícia no UOL:



Serra chega ao Ceará, "casa" do rival Ciro Gomes, para dar palestra e conceder entrevistas

Kamila Fernandes
Especial para o UOL Notícias - em Fortaleza


Nome mais cotado do PSDB para disputar a Presidência em 2010, o governador de São Paulo, José Serra, chega hoje no Ceará para eventos na capital e no interior. Serra estará na base política do rival Ciro Gomes (PSB) não para tratar de qualquer questão de interesse do Estado que governa, mas para uma palestra a empresários, entrevistas a emissoras de televisão e um encontro do tucanato local no sertão cearense.

Sorridente, alegre e faceiro como ele só.

Pergunto-lhes: está o governador do Estado de São Paulo em férias? Tratando de interesses do Estado que ele governa? Quem está pagando o breve passeio de pré-campanha?
Confira a íntegra da notícia clicando aqui.
Só pra saber...

22.11.09

SARESP: o ápice da incompetência

O SARESP foi um completo engodo. Fracasso sob qualquer prisma analisado. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, comandada pelo ex-ministro Paulo Renato de Souza, omite a palhaçada e para isso conta com a contribuição substancial da grande imprensa.
Não fosse o blog NaMaria News e a gente não saberia coisas como as que seguem abaixo:
A narrativa fecunda em incidentes do SARESP 2009, a barafunda abissal, por enquanto, pode assim ser resumida:
  • Nem todas as escolas/classes/turmas, como preferir, receberam as provas corretamente. Entenda-se: no caderno de provas de português deve constar apenas questões de português e não de geografia ou matemática, que seriam em outro dia, por exemplo. Então o Miguelito está lá respondendo sobre a metafísica de uma charge sobre cortadores de cana e quando vira a página encontra gráficos, números e equações sobre venda de banana a quilo. Miguelito pensa que pirou ou as regras mudaram repentinamente ou ainda, que transformou-se em vidente. Mas não: foi erro do grosso mesmo, daquele mutirão dos 350 (ou mais) levado às pressas para a gráfica tapa-buraco do SARESP, a IGB - Indústria Gráfica Brasileira (Barueri), com os ônibus da JWA Transportadora Turística, contratada sem licitação em caráter de urgência. Problemas desta natureza aconteceram aos montes, em graus vários e diversas localidades paulistas.

  • Nem todos os gabaritos das provas chegaram, quando chegaram não correspondiam com as provas. Quer dizer, a Secretaria da Educação e a FDE disseram ter criado 26 provas diferentes, com 24 questões cada, para evitar o ocorrido com o ENEM, há pouco mais de um mês. Vai daí que cada prova tem sua respectiva folha de respostas - as questões são as mesmas, o que muda é a ordem das perguntas. Se o Miguelito faz a prova modelo 24, deve ter em mãos o gabarito 24, onde assinalará as opções de respostas que julgar corretas. Acontece que Miguelito recebeu o gabarito da prova 13. Entretanto, no modelo 24 a resposta da questão 1 é C, e no modelo 13 é A. Elementar a confusão em cascata a partir disto, no momento da correção. Vale ressaltar que muitas unidades escolares receberam apenas os gabaritos, prova que é bom, necas; é a lei da compensação.

Quer ler o relato completa de tamanha incompetência? É só clicar aqui.

21.11.09

Sobre ciclos que se encerram e outros que se abrem

Todo ano, por esta época, dá uma tristeza danada!
Temos que abandonar um grupo de alunos que concluiu a 3ª série do Ensino Médio.
Convivemos com eles por três anos e observamos passo a passo seu crescimento intelectual, emocional e físico.
Claro que nem tudo foi maravilhoso, muitos atritos, muita discussão, afinal este é o papel do adulto e do professor: dizer não, corrigir e apontar alguns rumos.
Se não desprezamos a inteligência e a sensibilidade dos jovens eles nos compreenderão, uns mais cedo, outros mais tarde.
Para minha alegria alguns deles que agora terminam este ciclo mudam de lista. Retiro o nome deles da minha lista de “Alunos” do MSN e incluo na lista de “Amigos”.
Quando olhos para as redes de relacionamento das quais participo e encontro alunos que vi por volta de 1993/94, hoje homens e mulheres, profissionais respeitados na suas áreas de atuação, pais e mães, sinto um orgulho danado.
Talvez seja pretensão de minha parte, talvez eu me dê muita importância, assim como aos meus colegas de profissão, mas não tem como se sentir um pouco responsável pelas histórias desses jovens.
Assim como dói o coração lembrar aqueles que ficaram pelo caminho.
Às vezes bate um desânimo com a estrutura educacional e com os caminhos que a sociedade toma, mas isso logo passa, basta um trabalho bem feito, uma pergunta que muda o rumo da aula e a alegria no olhar e no sorriso desta moçada.
Fica aqui registrado meu imenso carinho pelos alunos das terceiras séries do Pueri Domus – Verbo Divino, do ano de 2009.

20.11.09

Sistema de cotas para negros divide opiniões no país

Israel alimenta o ódio dia após dia

Tenho certeza de que virão vários comentários, anônimos como sempre, ofendendo-me e também ao povo palestino. As acusações são muito variadas, vão de anti-semita a referências sobre minha querida mãe.

Mas não é possível calar-me sobre o crime mais recente do estado de Israel: a expansão dos assentamentos judaicos na parte oriental de Jerusalém. É um crime e uma provocação contra o já sofrido povo palestino. Mais adubo para o ódio reinante.

Vejam a matéria da BBCBrasil sobre o caso clicando aqui e aqui uma outra matéria, mostrando como os israelenses privam o povo palestino do acesso a água.

Deparo-me agora com uma notícia no mínimo estúpida: Israel quer que os palestinos destruam o estádio construído em Ramala, alegando que o estádio repousa um tantinho em terras israelenses! Soa como ofensa a inteligência mediana. Clique aqui e confira a notícia na íntegra.

Não é possível tamanha passividade da comunidade internacional diante dos crimes do estado israelense. Esperava um pouco mais do senhor Obama neste caso.

16.11.09

10.11.09

SARESP cancelado, mas e a competência do secretario Paulo Renato?

O SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), marcado para acontecer nos dias 10, 11 e 12 de novembro de 2009, foi cancelado de surpresa.
O SARESP é uma avaliação de múltipla escolha, aplicada pela Secretária da Educação do Estado de São Paulo para alunos da rede estadual de ensino que estão na 2ª, 4ª, 6ª e 8ª série do Ensino Fundamental, e 3º ano do Ensino Médio. Neste ano seria estendido também para a rede privada.
A empresa contratada pelo Governo do Estado de São Paulo para produzir a avaliação não deu conta do recado. A Secretaria de Educação soube disso semana passada, mas tentou maquiar sua incompetência: organizou uma força-tarefa de funcionários públicos para tentar dar conta do recado no final de semana.
O expediente não funcionou.
O interessante é que não faz muito tempo que a arrogância do secretario Paulo Renato transbordou pelas páginas dos jornais, rádios e TVs, dando lições ao ministro Fernando Haddad de como organizar o ENEM. Ele fez o diagnóstico dos erros cometidos pelo atual ministro e ainda deu “aula” de como deveria ser feito o ENEM.
Agora não consegue organizar o exame estadual!
Lembremos que quando do vazamento do ENEM o Ministério da Educação demorou algumas horas para agir, cancelando a prova. A mídia, no seu conjunto, fez um esforço enorme para jogar a responsabilidade no Ministro, com apoio de Paulo Renato e a trupe tucana.
E agora Paulo Renato?
No web site da Secretaria de Educação encontramos uma nota tímida, publicada no final da tarde de ontem. Clique aqui e leia a tal nota.
Cadê a mídia e sua sagrada missão de informar? E aquelas continhas marotas, para sabermos de quanto foi o prejuízo para os cofres públicos e quem vai arcar com eles?

6.11.09

Caetano é tão parecido com FHC

Caetano Veloso, aquele ex-compositor genial, e FHC, aquele ex-presidente que quebrou o Brasil três vezes ao longo de dois mandatos, resolveram tirar a semana para descer o sarrafo no Lula.
FHC delirou, como sempre e Caetano foi deselegante e grosseiro, defeitos que ele aponta nos outros, mas o macaco quando senta em cima do próprio rabo...
Rodrigo Vianna matou a pau o que acontece! Abaixo parte do texto:

"Toda essa gente se engana/ Ou então finge que não vê que eu nasci/ Pra ser o superbacana/
Eu nasci pra ser o superbacana/ Superbacana Superbacana / Superbacana Super-homem/ Superflit, Supervinc,Superist, Superbacana."

Toda vez que alguém me conta uma história, tenho mania de sair cantarolando. Algo se move em meu incosnciente, e traz à tona canções às vezes esquecidas há muitos anos.

Foi o que aconteceu, hoje, quando uma amiga me enviou o link, com a entrevista do Caetano Veloso ao "Estadão". A manchete na primeira página é: "Marina Silva não é analfabeta como Lula". Então, vocês imaginam o resto - http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091105/not_imp461314,0.php

O mais engraçado é a foto interna, na capa do "Caderno 2". Uma amiga matou na hora, sem saber nem do conteúdo da entrevista: "mas, gente, Caetano tá a cara do FHC".

Aqui o link para a matéria completa.

4.11.09

Justiça e ideologia

Alguns políticos fizeram e desfizeram do patrimônio público durante toda a vida.
Luiza Erundina não é pertence a essa laia. Honesta, com uma honradez surpreendente para a média da nossa vida política.
Pois ela foi condenada!
Vejam a nota abaixo:

C O N V I T E

Amigos e ex-membros do Governo Democrático e Popular de São Paulo

Convidam para jantar em solidariedade, a ex-Prefeita Luiza Erundina.

Dia: 09 de Novembro de 2009, às 20h

Local: Grand Hotel Ca’D’Ouro

Rua Augusta, 129 – Consolação

R$ 100,00 (Contribuição mínima sugerida)

(estacionamento e bebida alcoólica não estão incluídos)

A Comissão Organizadora

“A fidelidade a um compromisso político exige coragem e ousadia”

Luiza Erundina

Histórico

A companheira Luiza Erundina está sendo executada judicialmente pela única condenação que obteve durante toda a sua vida política. Trata-se de uma Ação Popular ajuizada pelo cidadão Ângelo Gamez Nunes (processo nº 053.89.707367-9 / Controle 159/89 – 1ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo) quando Luíza era Prefeita de São Paulo, e visava obter a reposição aos cofres públicos de dinheiro utilizado pela Prefeitura com publicações jornalísticas nas quais a então Prefeita manifestou apoio à greve geral de 1989. A sentença entendeu que a matéria publicada não atendia ao interesse público e condenou pessoalmente Luiza Erundina a pagar o elevado valor de R$ 350 MIL REAIS.

Trata-se de decisão definitiva em razão da qual já foram penhorados o apartamento onde mora (seu único imóvel), seu carro e ainda 10% da remuneração mensal como Deputada. Mesmo assim, seu patrimônio é inferior ao total da dívida.

Como a ex-Prefeita Luiza Erundina foi alvo de enorme injustiça, com decisões que tangenciam o preconceito social, ideológico e político, é hora de nos unirmos para demonstrar nossa solidariedade.

Sobre heróis

O Pedro Bial acha que heróis são aqueles seres patéticos que aceitam o jogo de cartas marcadas, de péssimo gosto, chamado BBB.
Eu penso que não. Eles são tolos, que querem 15 minutos de fama e alguma grana no banco.
Meus heróis são outros. E precisam ter o devido registro na nossa história.
Clique no cartaz abaixo e acesse a página especial da Agência Carta Maior sobre esse grande brasileiro: